domingo, junho 08, 2003

FIM-DE-CONVERSA: Foi um fim-de-semana aziago para a Coluna Infame e, para encerramento de conversa, para sairmos desta queda, tenho umas notas soltas que quero deixar aqui:

1. Sobre o João Pereira Coutinho. Perder o João é uma grande tristeza para a Coluna Infame. Vamos sentir muito a falta dele. O João é um amigo, um cronista de grande talento, com uma capacidade de escrita avassaladora, um magnífico estilista que muito admiro. Sem ele, a Coluna fica seguramente mais pobre. Podemos pensar que as coisas podiam ter sido de outra forma porque as coisas podem ser sempre de outra forma. Se o Daniel não tivesse feito aquela provocação barata, se o João não tivesse perdido a cabeça, se eu e o PM não tivéssemos reagido, precipitando a saída dele...Mas não adianta pensar nisso agora. Todos fizémos o que achámos que deveríamos fazer. Temos de seguir em frente. A hora é para continuar, não para remoer doentiamente em chão mais do que pisado. Vamos continuar. Mesmo que mais pequenos e mais solitários.

2. Sobre a amizade. Não discuto e, muito menos, desfaço amizades em meios públicos ou semi-públicos como este. Não é o meu estilo. Acredito que as coisas mais importantes das nossas vidas pedem vergonha, recato, timidez. Ontem, registámos com tristeza que a Coluna Infame teve mais de 800 visitas e quase 1200 page views. Quanto mais popular se torna a blogosfera, mais idiotas inúteis atrai. Sabendo que este blog estava em chamas, uma horda de pirómanos resolveu vir cá pela primeira vez para ver o fogo. Sobre a amizade que tenho com o JPC, não direi uma palavra neste blog. Já falámos, como duas pessoas no meio das quais se intrometeu um comboio em marcha. Quero apenas dizer que até uma coisa tão bela como a amizade nos obriga, por vezes, a posições desconfortáveis. Para citar uma coisa que o João escreveu recentemente: «amigos sinceros são inimigos sinceros». É essa sinceridade que faz da amizade uma experiência pura e virtuosa. Tudo o que eu penso sobre esta assunto está num livro do Andrew Sullivan «Love Undetectable» cuja leitura aproveito para recomendar.

3. Sobre o Daniel Oliveira. Conheço o Daniel há pouco tempo. Tivémos algumas conversas. O Daniel encontra-se numa área ideológica que não é a minha e exibe, com frequência, alguns dos piores tiques intelectuais dessa área. Mas há exemplares bem mais primários no grémio bloquista a que o Daniel pertence. Eu fui também visado no post do Daniel que provocou toda esta polémica. Disse o Daniel que eu «gosto de conviver». Digo-vos que esta piada sem jeito e sem sucesso me passou ao lado. Nem sei se era um insulto. Porque a verdade é um pouco essa: escrevo nos blogs, neste blog, para me divertir. Se o jornalismo já me parece uma corrida de 100 metros ao pé do fundismo exigente dos livros, que pessoalmente, mais aprecio, os blogs são apenas uma brincadeira. Não exageremos a sua importância. Não coçemos tanto a borbulha.

4. Sobre a extrema-direita. Na esquerda onde o Daniel passeia politicamente, é muito comum colocar um adversário na extrema-direita. Sim, as palavras têm peso, têm significado. Mas pergunto-me se há ali mesmo palavras? Quando bloquistas e comunistas usam a palavra 'fascismo', 'extrema-direita', não estão a usar palavras. Na boca de toda esta gente, como no poema de Sophia, estes vocábulos transformam-se em «cuspo». Vejam: tinha 15 anos quando alguém me disse que eu era de «extrema-direita». Lembro-me bem: o Baptista Bastos visitou o meu liceu e eu ataquei-o injustamente, infantilmente. Ganhei uma fama de «reaccionário», «de fascista», direitista extremo. Fui ver quem eram os autores da boataria. Percebi que eram carroçeiros e criaturas com mentalidade totalitária. Não liguei muito. Tem sido assim.

5. Sobre a Coluna Infame. Como já disse, a Coluna vai continuar. Sem o estilo inconfundível do João. Continuará comigo e com o Pedro Mexia. Continuará com quem quiser associar-se a este blog de ideias e polémica. João, um abraço. Aos nossos leitores, adiante. PL
NOTA PESSOAL: Não é segredo para ninguém que a Coluna está a atravessar uma crise, a primeira em nove meses de existência. Uma crise séria, que gerou imensas e divergentes reacções noutros blogs e em mails. Este é evidentemente um momento triste para nós. Mas a verdade é que cada um dos três participantes da Coluna escreveu o que achou por bem, assumindo as consequências dos respectivos posts, e não altera o que escreveu. Somos todos adultos, e os adultos responsabilizam-se pelos seus actos. A crispação na blogosfera (na qual eu não sou, como é óbvio, inocente) traz em si mesma a semente da sua destruição. Lamento sinceramente a saída do JPC deste blog, embora no post anterior o João tenha sugerido a criação do seu próprio blog, o que sempre é um consolo para os nossos leitores que muito justamente o apreciam. E sobre este caso, nada mais. Peço que entendam: não vamos responder a todos os mails e blogs que põem o caso em termos de psicodrama pessoal. A divergência foi editorial, e pela minha parte não passa disso. Outras questões são do plano estritamente pessoal. E as amizades não se discutem em público. A Coluna prossegue dentro de momentos. Obrigado. PM

sábado, junho 07, 2003

A COLUNA VERTEBRAL: Em virtude dos últimos acontecimentos na Coluna Infame, manda a dignidade que me despeça dos leitores com duas notas adicionais. Estas notas foram antecipadamente comunicadas a Pedro Mexia, como, aliás, acontece habitualmente entre pessoas civilizadas. Em primeiro lugar, agradeço a Pedro Lomba e a Pedro Mexia o generoso convite que me formularam para escrever neste espaço. Aceitei por um motivo simples: sempre olhei para Lomba e Mexia como dois amigos dignos e leais. Pela mesma razão, é a dignidade e a lealdade que me levam a deixar a Coluna Infame. Em segundo lugar, e em relação à polémica com o sr. Daniel Oliveira, convém notar, para que não reste qualquer dúvida, que não retiro uma única palavra ao meu post de ontem. Nem. Uma. Palavra. Para quem passa grande parte do tempo a estudar e a escrever sobre o fenómeno dos totalitarismos, o epíteto de «extrema-direita» ganha contornos particularmente ofensivos. As palavras são importantes. E quando perdemos o respeito pelas palavras, perdemos tudo. Só mais uma coisa: em breve, haverá novidades minhas neste mundo virtual. Grandes novidades. Espero que os restantes blogs, na altura devida, possam passar a palavra. Quanto ao resto, vemo-nos no Indy de sempre.

João Pereira Coutinho

sexta-feira, junho 06, 2003

OK, CD: Dia 9 há um acontecimento importante. Importantíssimo. Não, não é o Paulinho a depôr em Monsanto. É o novo disco dos Radiohead. Nome do álbum? Informações adicionais? Não perceberam o que eu disse: é o novo álbum dos Radiohead. Não é preciso saber mais nada. Fim-de-semana, passa depressa. PM
CONGRATULATIONS, ANDY: O editor-em-chefe do New York Times, Howell Raines, demitiu-se. É uma excelente notícia, depois de uma série de trapalhadas, reportagens falsas, favorecimentos raciais e campanhas pessoais. Mesmo com Raines, o NYT conseguiu-se manter-se como o melhor jornal do mundo - e é de borla on-line, ó senhores do Expresso - e sem Raines será, esperamos, melhor ainda. Esquerdista (eles dizem «liberal») como sempre, mas um pouco menos faccioso e autoritário internamente. Parabéns ao nosso mestre Andrew Sullivan, que desde o seu despedimento por razões políticas tinha feito de Raines a sua bête noire. O caso pode ser seguido, com links, no magnífico blog de Mr. S. PM
PEQUENA MUDANÇA: Freitas do Amaral vai ser condecorado no 10 de Junho. Primeiro ainda se pensou na Ordem da Liberdade,que premiaria o conhecido passado antifascista do Professor; mas acabaram por decidir pendurar-lhe em vez disso a Ordem de Santiago da Espada. O que acho mal: como defensor do pacifismo, o Prof. do Amaral preferia com certeza receber a Ordem de Santiago Sem Espada. Façam lá o jeito. PM
LUCKY BASTARD: Costumo dizer que não odeio ninguém. Mas é mentira. Uma mentira vil. Eu odeio Ethan Hawke. E porque odeio eu o menino dos Poetas Mortos? Porque: é um actor de cinema célebre, é um romancista bem-sucedido, é bem parecido, é casado com a Uma Thurman e tem filhos dela. Alguém que atropele esse gajo. PM
A CESARE O QUE É DE CESARE: Até eu tenho momentos nos quais acredito no ser humano, ou nalguns seres humanos. Vejam isto: o PL escreveu um post curto sobre Pavese (que é também um dos meus santos de altar e velinha) e tivemos de imediato dois mails sobre o assunto, de duas leitoras de Pavese. Foi bonito. (Ok, agora vou regressar ao pessimismo do costume. A começar......agora). PM
OS ÉTICOS: Estive esta tarde na Feira do Livro. Logo à chegada, num dos primeiros pavilhões, dou de caras com dois Jornalistas Éticos. O que são, perguntam os leitores, Jornalistas Éticos? Ora bem: são aqueles que consideram que existem determinadas ideias políticas («éticas») inerentes à profissão, sem as quais nenhum jornalista o é verdadeiramente. Lembram-me sempre, estes Jornalistas Éticos, os soldados no PREC a jurar bandeira e a jurar também a defesa do socialismo, como se a segunda não fosse uma absoluta excrescência face aos deveres em causa. Também para estes soldados da desfortuna, saudosistas do PREC e de outras glórias, ser jornalista é ser de esquerda, e quem não é de esquerda é um ogre indigno do ofício. Os artigos e outras obras dos Jornalistas Éticos fornecem abudantes exemplos dessa conduta. Ora a Ética pressupõe, julgo eu, uma conduta decente com os outros seres humanos. E não é que eu presencio esta cena edificante: um dos Jornalistas Éticos queria um livro de Proust (o que acho óptimo embora mal-empregado); a menina do pavilhão não sabia se o tinha, ou onde o tinha. Provavelmente, não percebe muito daquilo, o que é o pão-nosso nessas circunstâncias. Mas eis que o Jornalista Ético desata aos berros com a rapariga, numa falta de chá imensa, levando toda a gente próxima a observar o sujeirto de alto a baixo. Ao lado, o Jornalista Ético # 2 aprovava os decibéis. O Jornalista Ético #1 desata então a gritar à menina que ela não sabe é quem é Proust, e não quer dizer. Horrorizada com tal acusação, que se encontra entre a pedofilia e o uso de armas químicas, a moça fica corada, indignada, tenta responder ao Ético que a esmaga com a sua presumível ignorância do senhor Marcel. Enojado, não vi a cena até ao fim, e subi Parque acima, na canícula. Estes tipos são muito Éticos, mas em abstracções de manifesto, não no modo concreto como tratam com as pessoas reais. São jornalistas, mas têm modos de carroceiros. Carreceiros que lêem Proust, bem entendido. PM
A PROPÓSITO DE POLÉMICAS: Já correm textos inspirados e desinspirados sobre o relato que a Papoila fez sobre o «É a Cultura, Estúpido» de quarta feira. O post em causa não é uma maravilha de humor nem de prosa portuguesa, mas não justifica a crispação nem as promessas mútuas de chapadas que por aí correm. A bloguista resolveu fazer uma descrição da sessão focando as características físicas dos participantes, que a moça acha deploráveis, com excepção do Ricardo (eu bem te disse que casaste cedo demais, Ricky). Há alguns comentários realmente desagradáveis, mas cada um tem o seu estilo. Eu nem sou muito mal tratado: a Papolia descreve-me como «gordinho» e «anafado» (uma evidência empírica) e associa-me ao universo do Ásterix e a orgias (duas associações de ideias bem simpáticas). Anunciamos assim que em Setembro, no regresso do É a Cultura, o tema será bem mais sério: O Estatuto do Narrador Heterodiegético no Romance Finlandês Contemporâneo. Os actuais convidados vão fora, assim como o JMT, o ZMS, o NCS e eu. Tentaremos manter a Anabela. O Ricardo está garantido. E os comentadores residentes serão Isabel Figueira, Paulo Pires, Pedro Lima e Inês Castel-Branco. O bilhete será, obviamente, pago. Obrigado. PM
Preferíamos, como compreenderão, não ter que escrever este post, mas ele torna-se por várias razões inevitável.

Os blogs são um fenómeno fascinante, com inúmeros pontos de interesse, e com grandes virtualidades. Trazem também consigo, como tudo, alguns perigos. Um dos maiores perigos é a imediata concretização em texto de uma ideia, de uma frase, de uma emoção. Isso é em si mesmo gerador de perplexidades e disparates, mas ainda se agrava quando se trata de responder a polémicas, quase em tempo real, quase como se tratasse de uma discussão de viva voz. É normal que os bloguistas mais opinativos e turbulentos, como é manifestamente o nosso caso, escrevam por vezes textos ou frases de que se arrependeram posteriormente, mas como se sabe a etiqueta própria dos blogs é contrária (e com razão) ao apagar de posts. Assim como todos nós, particularmente em discussões, temos frases infelizes, o mesmo se passa aqui.

Os três responsáveis por esta Coluna têm as mesmas ideias políticas, mas nem sempre estão de acordo em tudo. Somos três pessoas, aliás de personalidades bem diferentes, e alguns são os pontos de divergência entre nós. Mas a regra tem sido a de sermos solidários mesmo com os posts com os quais não concordamos (e houve uns tantos). Mas desta vez a decência exige que nos distanciemos do post que o João Pereira Coutinho aqui escreveu hoje sobre o Daniel Oliveira.

Somos amigos do João, mas também conhecemos e estimamos o Daniel, e consideramos que a «provocação» do Daniel a que o João respondeu era isso mesmo, uma provocação, igual às várias que todos os dias lemos noutros blogs. Aliás, raro é o dia em que não nos chamam fascistas, em posts, comentários ou mails. Sabendo que isso para grande parte da esquerda inclui toda a direita, não ligamos muito, ou raramente. E o post do Daniel no Blog de Esquerda era até algo inócuo nessa matéria, sendo por isso desproporcional a resposta do João. Um blog de polémicas, como este em parte é, convida ao sangue-frio, à capacidade de encaixe, à ironia e à auto-ironia. Quebrámos duas ou três vezes essa regra, e em todos os casos a nossa violência verbal não foi causada pela discussão de ideias mas por comportamentos das pessoas visadas, fora dos blogs. O nosso registo mais comum, como sabe quem nos tem visitado desde Outubro de 2002, é a ironia e o humor, sem põr de lado a vivacidade argumentativa.

O ideal seria apagar o posts do João, mas isso, como dissemos, não se deve fazer, quer porque vários pessoas já o leram quer porque é desonestidade intelectual. Tentámos falar com o João, e ainda não conseguimos. Mas queremos, desde já, lamentar o sucedido, e pedir ao Daniel Oliveira desculpa pela nossa parte. O facto de termos laços mais fortes de amizade com o João do que com o Daniel (que conhecemos há menos tempo e de quem discordamos em quase tudo), não impede o nosso entendimento de que o post do Daniel não tinha mal nenhum e o post do João cometeu excessos de linguagem e outros.

Pela nossa parte, continuaremos a polemizar ideias e concepções do mundo, mas não entraremos na perigosa espiral de agressão e linguagem que nós próprios já experimentámos.

Para citar uma frase que está muito em voga, apelamos à serenidade de todos, mesmo dos nossos amigos mais próximos.

Pedro Lomba

Pedro Mexia
MAIS FÓRUM: Entretanto, mais nomes para o Fórum Real Português:

- o colunista do Diabo João Coito (que estará sozinho para falar sobre as disfunções sexuais dos retornados do Ultramar);

- o PSD/Madeira;

- A associação dos proprietários de Lisboa (ah, os nossos haveres);

- Os amigos de Olivença (for sure);

- os Bigodes de Viseu, uma meritória associação que defende uma tradição tão esquecida e vilipendiada como o bigode.

E as sugestões continuam. Não esqueçam que este mundo é possível. Deus é grande. PL



FEIRA: Se passarem pela feira do livro hoje ou este fim-de-semana, comprem estes dois livrinhos de contos (são tão baratos que é uma vergonha não o fazerem): "Primeiro Amor e outras mágoas" de Harold Brodkey e "Noites de Festa" de Cesare Pavese. No máximo, gastam 5 euros e têm leitura para a semana toda. Lindos livros. Garantido. PL
UM ESCLARECIMENTO AO SR. DANIEL OLIVEIRA: O sr. Daniel Oliveira, que eu tenho o desprazer de conhecer, resolveu publicar um post no Blog de Esquerda onde me enfia caridosamente na extrema-direita. Não vou, obviamente, comentar o facto: o sr. Daniel Oliveira é radicalmente analfabeto e julga que todos aqueles que não partilham o seu mau-carácter estão necessariamente à direita dele e do atoleiro ideológico onde ele vive e sobrevive. Um atoleiro que, convém esclarecer, o sr. Daniel não gosta de alardear em público - e recordo, a própósito deste facto, a forma trémula como a criatura, na primeira sessão do afamado «É a Cultura, Estúpido!», me implorou para não fazer qualquer referência à sua embaraçosa militância no Bloco de Esquerda, esse belo grupelho cuja constituição heterogénea o Daniel manifestamente despreza. Respeitei o pedido porque acreditei que lidava com um cavalheiro leal. Puro engano. O cavalheiro não é leal e a sua manifesta personalidade de verme impede qualquer discurso civilizado. A partir de hoje, as minhas conversas com o sr. Daniel Oliveira terminaram. E agradeço que a organização do «É a Cultura, Estúpido!» tenha a caridade de enxotar a criatura da minha presença. Caso contrário, boa noite e até à próxima. JPC
FACTOS E DATAS: (Caros amigos: o post seguinte é de certo modo interno, e por isso não interessará à esmagadora maioria dos leitores, mas como eu fui publicamente acusado de mentir, aqui ficam as provas que mostram precisamente o contrário).

No dia 28 de Maio enviámos um mail aos membros da UBL exprimindo a nossa opinião segundo a qual um blog novo, do qual nos tinham falado, não devia entrar na dita UBL, como certos confrades sugeriram. Uma hipotética entrada desse blog era por nós veementemente contestada, por considerarmos que o blog representava uma direita na qual não apenas não nos revíamos mas que francamente repudíavamos. Esse blog era o Pela Santa Liberdade, do Prof. José Adelino Maltez, ao qual não nos referimos nunca antes dessa data. No dia seguinte, 29 de Maio, qual não é o nosso espanto quando lemos este post no dito blog:

Nunca gostei muito de pidismo pretensamente antipidesco nem de insinuações inquisitoriais de “jet set”, feitas de fascismo pretensamente antifascista. Por isso, sempre detestei certa direita sem ideias, que, por seguir a cartilha do marialva, continua a ser a mais estúpida do mundo. Coitados, dos que apenas sabem fazer ataques pessoais, trocando o nome das fichas da “formiga branca”, da PIDE e do COPCON! Até julgam que têm direito de insultar os pobres paizinhos dos pretensos plebeus “feios, porcos e sujos” que, segundo eles, apenas têm a obrigação de bater palmas aos filhos da gente fina que, de vez em quando, vão às feiras visitar o povo, com a mesma chapeleta com que fazem caça nas coutadas dos primos da linha de Cascais.

E num post que se lhe seguia:

Compreendo a fúria deste neopidismo, bem ultraconservador no seu infra-estrutural inquisitorialismo. Muitos sentem-se agora coactos pelos incêndios que geraram, procurando assumir-se como aqueles bombeiros pirómanos da anedota real.

Não havendo qualquer referência nos blogs que justificasse estes posts, e correspondendo eles a uma resposta bastante clara ao conteúdo do nosso mail, reagimos violentamente a estes posts na madrugada do dia 30 de Maio. E reagimos assim porque os posts se referiam a um facto - a nossa oposição à entrada do Pela Santa Liberdade na UBL - que não tínhamos feito público, e que constava apenas do referido mail, que não foi nem tinha que ser enviado ao Pela Santa Liberdade.

Como se vê, os posts de dia 29 de Maio do Prof. Adelino Maltez não respondiam a nenhuma referência pública que lhe tivesse sido feita (não havia nenhuma), mas apenas ao mail, que lhe não era dirigido, e do qual deve ter tido de algum modo conhecimento. Por isso escrevi que a nossa reacção se deveu a essa indignidade. O Prof. Maltez diz que eu menti; mas como se comprova pelas datas, quem mente é o Prof. Maltez, e com todos os dentes. Tínhamos referido jocosa e criticamente a Nova Democracia, mas nunca em público havíamos falado no Prof. Maltez e no seu blog. Quando, na madrugada de 29 para 30 de Maio, descobrimos os posts citados, verificámos que o Prof. Maltez se referia em público - enviesadamente, como é seu hábito - a frases escritas em correspondência privada dirigida terceiros. Não podíamos por isso deixar passar em claro essa manifestação de falta de verticalidade.

O Prof. Maltez, aliás, tem dedicado quase todos os posts desde essa data à Coluna, visto que nós somos realmente o grande perigo para a direita, e não a esquerda cada vez mais refém de um radicalismo bloquista. Por isso, e para que fique claro, aqui reiteramos:

- não apenas discordamos, mas detestamos a direita a que o Prof. Maltez pertence
- não tínhamos nada de pessoal contra o Prof. Maltez, mesmo discordando das suas ideias, até ele se referir em público a uma carta privada, não nos nomeando (como é seu timbre) mas atacando ideias que não tínhamos exposto em público, e não deixando dúvidas que era a nós que se dirigia (como perceberam vários amigos que perguntaram porque polemizava o Prof. Maltez connosco).

A partir daí juntamos ao nosso desprezo pela Moca de Fafe e pela Nova Democracia o nosso repúdio pelo comportamento do Prof. Maltez.

E são estes senhores que querem moralizar a política portuguesa. Tenham vergonha. PM
MAIS SUGESTÕES: Jamais a Associção Portuguesa dos Amigos da Sesta poderá ficar fora do Fórum Real Português, como símbolo que é dessa nobre e tão conservadora virtude, a Preguiça. E ainda por cima estes dorminhocos foram alvo de boicote pela ala BE do Fórum Social Português, que neles vê a vil globalização que nos invade e oprime, desde logo a a partir de Espanha. Para eles, a sesta é como a Zara. Devemos é ser rápidos no convite, porque também já me chegou aos ouvidos que o Carvalho da Silva anda em pulgas para os arregimentar e fazer da sesta mais um direito inalienável dos trabalhadores. (Francisco Mendes da Silva)
ESTE MUNDO É POSSÍVEL: O Miguel Noronha manda mais alguns contributos para o Fórum Real Português:

Milicias Populares de Francelos (lembram-se? o Monteiro até fez uma almoçarada com eles quando ainda era do PP)

Clube de Amigos do jornal "O Dia"

Corpo Docente do ISCSP

Professor Soares Martinez (este é só por si uma instituição)

Movimento 10 de Junho

No Name Boys (associação ordeira de adeptos de futebol).

Aceitamos mais contributos. A Maioria Silenciosa não pode deixar o FSP à solta. Mandem mais colectividades, vá. Não se privem. PM

VUVU FOI-SE EMBORA: Vai e Vem, de João César Monteiro, é um filme póstumo, marcado inevitavelmente pela morte do seu autor, não apenas como facto superveniente mas sobretudo como realidade já inscrita no filme. É uma obra terminal, narrativamente menos elaborada, e no fundo uma variação derradeira sobre uma personagem perigosamente biográfica e exposta. O esquema é conhecido: JCM vampiriza jovenzinhas trigueiras e apeticíveis, sempre entre o lirismo intensamente sexual e o sexo quase liricamente casto. Deste vez chama-se João Vuvu, é «primo» de João de Deus, e um viúvo relativamente alegre, embora com fumos de rotina e melancolia. Tal como JD, diz tudo de forma pausada e bem pronunciada, anda de uma forma desengonçada e aos saltinhos, tem gestos largos para palavras vagas. É um passivo que não é agressivo, apenas um espectador final do mundo. Vuvu procura uma «mulher-a-dias», mas na verdade procura sobretudo uma Galateia. Sai-lhe uma vermelhusca à moda antiga. Vuvu anuncia-lhe logo: «pago mal para despertar a consciência revolucionária». E cita-lhe poemas. Pergunta a moça: «são do camarada Saramago?». E Vuvu: «não, são do cavalheiro Camões». Está estabelecido o tom. Depois, vêm os rituais conhecidos, e aí coser uma meia pode redundar numa perturbadora cena digna de Bataille, e uma donzela pictoricamente reclinada pode fazer pedidos escatológicos. Por momentos dá-se a inversão social, passando Vuvu a criado e a rapariga a mestre. Grande part do filme encena Vuvu no seu vai e vem, percorrendo Lisboa de autocarro. São passeios instrutivos, como aquele que passa por um café, onde em contraluz Vuvu disserta sobre a mentira cristã, e que termina nas escadas do Parlamento, onde Vuvu ensina a uma puta velha a arte de bem chupar um deputado. O sentimento anti-política de JCM vem uma vez mais ao de cima, mas é particularmente impressionante a presciência das suas diatribes contra o funcionamento da justiça, bem como um genial romance anti-Balsemão acompanhado a realejo e executado perante uma jovem mulher-polícia (juro). JCM é um mestre do erotismo, um Jarman hetero e menos kitsch em minuciosas composições, em rigorosos planos e gestos. Uma cena, no Príncipe Real (o locus amaenus deste filme), apresenta Vuvu obcecado com uma ninfeta, cena fabulosa e corajosa que o levaria de imediato ao DIAP, estivesse JCM ainda sob a alçada desta precária justiça. É pena que a segunda parte do filme tenha uma evidente quebra de ritmo. Há pistas que o filme não explora adequadamente: por exemplo, a relação de Vuvu com o filho (Miguel Borges), que acusa o pai de ser no fundo um reaccionário, apostado em fazer de tudo arte (um momento auto-reflexivo determinante). Há também as habituais bizarrias, neste caso assumindo a forma de uma divertida zarzuela com todos os matadouros, de uma sodomização com um pénis tribal (trust me), de uns sonhos mal gizados, e de uma cena de velório totalmente irrelevante. E há umas paranóias políticas, que ligam, bizarramente, piadas anti-semitas e um facho urbano iracundo. Politicamente, JCM sempre foi um anarquista, isto é, um inconsequente. Mas isso são detalhes. Como sempre, o filme é uma festa da linguagem, com frases longas e elaboradas, mas também expressões populares portuguesas de boa-cepa, ditados, asneirada, e achados como este (dito a uma Miss Piscina que tentou a sua sorte em Paris): «o que é bom na Freguesia das Mercês é bom nos Champs-Elisées». As piscadelas cinéfilas são evidentes: Pickpocket de Bresson ou Minelli de Some Came Running (obras-primas absolutas, portanto). Ou ainda, perante a incompreensão de uma moça (a magnífica Rita Durão) à referência cinéfila «Rosebud», a tradução, prosaica e brejeira: «botão de rosa». César Monteiro faz da colagem de citações um poema contínuo, mas é também um poema uma lista de compras numa farmácia, aí já a bordejar o absurdo, mas em todo o caso sublinhando a coexistência no autor de um cinema de imagens com um cinema de palavras. E é com uma imagem que terminamos: um longo plano fixo do olho azul de JCM, como se todo o trabalho voyeurista sobre o seu corpo, ao longo de vinte anos, se concluísse sobre uma essência cristalina, um espelho enganador, âmago do âmago, alma se quiserem, ou apenas um cosmos parado, como a galáxia de A Comédia de Deus. É assim, em sábia e sabida despedida, que JCM se revela num imenso pudor que sempre foi, aliás, gémeo do seu exibicionismo infrequentável e cabotino. Desde o primeiro plano, Vai e Vem é um filme que se demora na contemplação dos seus objectos, na duração, na não-acção, na fisicalidade de um mundo que parece sempre insatisfatória, quase desolada, reduzida a pequenos prazeres. Por isso não é de estranhar que a última obra de César Monteiro acabe num still frame que é ao mesmo tempo o máximo da materialidade e o máximo da metafísica, metáfora de todo um cinema que não me parece arriscado classificar como uns dos raríssimos lampejos de génio do cinema português. PM
SERVE THE SERVANTS: Anteontem, no DIAP, depois de quatro horas de interrogatório, Ferro Rodrigues não conseguiu que João Guerra lhe respondesse satisfatoriamente. Guerra será em breve convocado por Ferro para uma nova sessão. PM

quinta-feira, junho 05, 2003

E JÁ AGORA: Leio um blogger que não é monteirista mas está com o monteirismo, que não polemiza connosco mas passa a vida a mandar-nos indirectas, que não é da "direita que está" mas da direita que-foi, que deve ser, que nunca-será, que nos etiqueta de «direitíssima instalada», «epifenómenos», «bem-pensantes», «politicamente correctos», «burgueses», «situacionistas». Não sei como responder a tanta salganhada. Será Santa Liberdade ou santa ignorância? PL
A GENEROSIDADE: Sobre a generosidade como propriedade da esquerda, o PM já disse tudo o que há a dizer. Eu só queria acrescentar isto. Acreditem nas utopias, nas abstracções, nas ideias que quiserem. Sejam cândidos, sonhadores, irrealistas, absurdos. Pensem no outro mundo, se este não vos contenta. Acreditem na Humanidade (com H grande) e não no vosso quarteirão. Mas, por amor de Deus, não digam que a esquerda é a ideologia das boas pessoas. Desculpem-me mas isso é uma clamorosa idiotice. PL
FORUM REAL PORTUGUÊS: Atenção: a Coluna Infame quer criar o Forum Real Português para combater a hegemonia e o dinamismo revelados pelo Forum que federa as esquerdas. Temos já as Mães de Bragança e os taxistas de Lisboa com direito de inerência no nosso Forum direitista. Pedem-se mais sugestões e propostas de candidatos para colunainfame@hotmail.com. Gratzié. PL
DIREITOS (2): Ontem ou não sei quando, escrevi aqui uma coisa sobre os direitos processuais que a esquerda anda agora a descobrir. E disse que esses direitos eram mais importantes do que os direitos dos animais, das plantas e das mulheres. Houve protestos, pele de galinha, enjoos mas ninguém fez uma contestação de fundo ao que escrevi. E porquê, meus amigos? Porque o que escrevi é absolutamente verdade. O discurso esquerdista da moda tem inflacionado os direitos fundamentais, descobrindo verdadeiras inutilidades constitucionais e jurídicas. Os direitos dos animais e das plantas são uma bagatela cultural ao pé do direito à liberdade. Sim, os direitos das mulheres são compreensíveis e justos mas a ideia de um discurso feminista de direitos inteiramente separado da pessoa humana, é um absurdo teórico. E há muitos outros exemplos. Olhem para as organizações que povoam o Forum Social português e vejam quem é que perdeu a noção do essencial. PL

A CONVENÇÃO: Atenção, eu não aprovarei nenhuma Constituição Europeia que não tenha no preâmbulo o nome de Novalis e do seu ensaio sobre Europa e a cristandade. Temos que honrar as nossas raízes. PL
ORA, ORA: Abro o meu mail pessoal e verifico que tenho uma mensagem de uma desconhecida chamada Ana Kuzmanovic. Não sei quem é esta petiza e, a bem dizer, a mensagem nem é para mim mas para uma tal Sara, criatura que igualmente desconheço. A Ana dirige-se à Sara, lembra-lhe os tempos que passaram juntos, agradece-lhe a linda carta que a Sara lhe mandou e combina por fim, um encontro em Lisboa. Ora, eu não sou parvo e o teor da mensagem, o assunto, sobretudo um ficheiro suspeito anexado ao mail, põem-me imediatamente de sobreaviso. Mensagens de duas lésbicas ainda tolero; agora vírus informáticos, não estou para isso. PL
INSULTOS: Vejo que me excedi um pouco na linguagem e fiz mal. Insultar um larápio que nos rouba as posses é um pleonasmo absurdo. É óbvio que um larápio é um larápio e muitos outros nomes que nem interessa agora desenvolver. Reparem: o insulto mais bem elaborado, mais bem feito só pode ser o insulto mentiroso. Quando chamamos «corno» a um homem prodigiosamente fiel, estamos a honrar a língua, a honrar a humanidade. Quando chamamos «filho de um real cabrão» (atenção: nunca usem isto sem me consultar) a um pai de família, a um ser de rara e embaraçosa integridade, estamos a acrescentar alguma coisa mundo. Estes são os únicos insultos toleráveis e úteis. PL
LÁ ESTÁ, UMA HISTÓRIA PESSOAL: Estamos em época de violações (não apenas à Constituição) e, pela quarta vez num espaço de um ano, o meu modestíssimo VW polo foi violado por um grupo de vândalos. Bem, a culpa é minha. Habituei os larápios a distracções históricas, como deixar as chaves na ignição durante a noite ou esquecer-me da mala de trabalho no banco de trás. Tenho o que mereço. Eles sabem-na toda (linda expressão). Mas gostava agora, 400 contos depois, de deixar um aviso a esta malta que se diverte em entrar no meu boguinhas. Até lhes dou uns nomes fictícios como Franquelim, Carlos Jorge e Mané, três nomes que eu adoptaria imediatamente se por acaso tivesse abraçado a carreira de vadio. O que quero dizer é isto: a partir de hoje, rapazes, a brincadeira acabou. Tenho a viatura altamente aparelhada e armadilhada. Não pensem que me vou esquecer de mais alguma coisa valiosa lá dentro. A não ser queiram muito o livro «Economia Mundial» do Mário Murteira porque, sim, tenho isto no carro e ainda não sei o que fazer a ele. Mas, amigos, para além disso, não haverá mais nada. Fixem o conselho: há pra’ aí direitistas mais instalados do que eu que poderão roubar com mais proveito. Passem bem, meus sacanas. PL

BLOGS: Sim, acho que correu bem o «É a Cultura, estúpido» de ontem. Os residentes estiveram em grande estilo e a conversa sobre os blogs foi melhorando. Vê-se que os blogs são um tema que interessa a muita gente, que esta rapaziada discreta, quietinha na assistência, adora coçar a borbulha e falar disto com esgazeada adoração. Esta ideia de coçar a borbulha com a conversa sobre blogs causa-me algumas tremuras. Digo-vos que no dia em houver casamentos inter-bloguistas, deixo definitivamente de escrever aqui. Isto não é escutismo, meus amigos. Se querem conhecer raparigas, comecem a ir à Igreja todos os domingos. Mas eu percebo e partilho a histeria sobre os blogs. Quando estou em certos sítios e com certas companhias, os blogs são mesmo o único tema de conversa, para irritação e tédio de quem está de fora (o poema do Nuno Costa Santos apanhava isso muito bem). Há um certo lado narcisista nos blogs que é um pouco fruto dos tempos. E não falo do descaramento ou da falta de vergonha em expormos a nossa vida pessoal porque tudo deve ser permitido, desde que tenhamos algum sentido do ridículo. Mas é, sobretudo, a enorme, invencível necessidade de afirmarmos o nosso eu, de não escondermos nada da nossa vida, de escancararmos todos os nossos armários para deleite do vizinho e de sermos até um bocadinho fiteiros com o que nos vai acontecendo todos os dias. Os blogs têm esse lado eminentemente artificial que nos faz falar das cuecas que deixamos no bidé com se isso se tratasse de um acontecimento público. Vamos lá ver: as cuecas borradas que deixamos ao pé da sanita não são um acontecimento público. Mas nós gostamos do assunto e queremos a todo o custo torná-lo público. E o que é espantoso, no fim de contas, é que há quem esteja interessada em ouvir-nos falar disso. Sejamos claros: nisto e em muitas outras coisas, os blogs são apenas uma parte do voyeurismo universal que por aí pulula. PL

DE CERTEZINHA: Dão-se alvíssaras a quem descobrir o blog de José Magalhães. Não é possível que ele não tenha um. PM
PRIDE: Se querem uma daquelas frases rotundas sobre «a diferença entre a esquerda e a direita», direi que conheço imensa gente que tem «orgulho em ser de esquerda», e nunca ouvi ninguém a dizer que tem «orgulho em ser de direita». O que significa que, em termos ideológicos, a direita tem mais vergonha na cara. PM
PERGUNTA ERRADA: Perguntam-me regularmente: «mas não abdicaste da tua vida para manter o blog?». Mas quem é que vos disse que eu tenho uma vida? PM
CAROS ALUNOS DO PROF. PEDRO LOMBA: Sim, este post é para vosselências. Párem de azucrinar o pobre moço com mails anónimos e crípticos. Sim, o vosso Profe é um Infame. Sim, ele é irónico ou zangado, vai ao futebol e a concertos dos Radiohead, lê Norman Mailer, tem pensamentos impuros sobre anatomia e bebe Cubas Livres. Lá por ser docente, recatado e conservador, o Pedro é uma pessoa comásoutras, vê tv por desfastio e diz «foda-se» quando o pisam no metro. E querem saber uma novidade? Os outros professores também. Do outro lado da sala, em cima do estrado, estão tipos iguazinhos a vocês, e vocês têm muita sorte em ter um mestre aplicado e acessível como o Pedro, que não só é perfeitamente civilizado e competente como não vos tenta levar para a cama, ó meninas gostosas, como fazem tantos profs. Por isso, estejam lá quietos com os mailzinhos adolescentes e decorem mas é o funcionamento do TC e rebolem os corpos discentes uns nos outros, que o nosso Pedro tem que dar o nó e escrever uns belos ensaios de que a malta conservadora urgentemente precisa. Ficamos assim? PM
AINDA O MEU CENTERFOLD: Caro Pedro Mexia, é a gratidão que me move neste email. Finalmente pude comprar a revista Maxmen sem a reprovação da minha namorada. Escusei ouvir os típicos “O quê, eu não te chego” justificados apenas pela capa da referida publicação. Tudo isto lhe devo, amigo PM. Basta abrir a página 56 e explicar que era aquilo que eu procurava ao adquirir a revista, a entrevista ao aclamado Pedro Mexia que leio com absoluta regularidade na Coluna Infame. A foto evidencia que não se trata minimamente de uma “Pin-up” (sem desfavor), o assunto Maxmen fica encerrado e a insinuante Mónica Bellucci da capa acaba por se perder na memória (da minha namorada). Ao fim ao cabo nem estava a mentir, tinha mesmo todo o interesse em ler a dita entrevista ao guru de todos os jovens bloguistas conservadores portugueses. Confesso é que houve páginas onde a minha visão inspeccionou com mais lascív...pormenor. Contudo, observo as paredes do meu quarto e vejo-as tão vazias que fico com dúvidas quanto à ideia do amigo Pedro não poder ser nenhuma pin-up.(Samuel Úria)

Caro Samuel: Deus lhe pague. No próximo mês sou entrevistado pela revista Nude Asian Teens. Vá explicando à sua namorada. PM
JAMES, APETECE-ME ALGO: Ainda o James: Um aparte. Eu concordo com o Gato Fedorento e uma pessoa com a tua graça seinfeldiana só pode ser de esquerda. Trust your feelings Luke, come back from the dark side. (James Kirkby)

Caro James: a graça é de esquerda? Só para me ficar pelos blogs, há bloguistas divertidíssimos de direita e de esquerda e nem de direita nem de esquerda, e há trombudos também de todos os quadrantes. A «graça» não nos vem das ideias, mas da personalidade. E faço uma precisão: eu tenho sentido de humor, não tenho assim muita graça. E mais isto: já me viste, sabes bem que eu não sou o Seinfeld; sou definitivamente o George. PM
PP: Como é que depois de teres escrito o post CRP és capaz de criticar o Carvalho da Silva? O anúncio da coligação PSD/PP assustou-me quase tanto como a coligação Áustriaca. Basta ouvires os discursos do PP do TC e o que eles escrevem para tirar todas as dúvidas em relação à ideologia que defendem. Todos os meios de acção, todas as promessas eleitorais, todos os discursos apontam para o mesmo sentido. Só não vê quem não quer. (James Kirkby)

A família Kirkby é uma simpatia (não ironizo). São uns bifes impecáveis, com bons modos e gravata a condizer, mas dá-lhes para a esquerdalhada. Ninguém é perfeito. Quanto ao PP, não creio francamente que sejam de extrema-direita, como disse o Carvalho da Silva. Repara que eu conheço bastante bem a extrema-direita, e poucas pessoas dessa área são do PP (os que eram desfiliaram-se recentemente). Acredita que há mais gente extremista no PSD do que no PP, até pelo perfil salazarista do Cavaco e por causa de o PSD ser um partido de poder, ao contrário do PP, que só o é de vez em quando. Há no PP uns tantos tipos da direita desbocada, como Rosado Fernandes, e existem vários cinzentões e gente irrelevante, mas só raramente detecto afirmações destas. O PP não tem nada a ver com o partido do senhor Haider, sejamos sérios, que é um partido filo-nazi. O PP é composto por conservadores, um ou outro democrata-cristão e um ou outro liberal. Residualmente existe gente mais extremada, mas confesso que as pessoas que até hoje ouvi dizerem coisas como «pretos para África» ou «morte aos maricas» são todas da área do PSD e da ND, e um ou outro nem votam. O populismo, um dos problemas sérios do PP, não é necessariamente de extrema-direita, cada partido tem o seu populismo, para o seu eleitorado. É sobretudo uma forma pouco exigente de fazer política, e lamento sempre que isso acontece, e escreverei todos os posts que sejam necessários a denunciar essa tendência. Agora o que existe é uma tendência da esquerda para considerar «extremistas» certos assuntos, como os da imigração ou da segurança; quem os traga á baila é sempre um perigoso fascistóide. E isso não aceito. A imigração e a segurança (por exemplo) são temas determinantes, e é preciso que sejam discutidos e resolvidos precisamente para evitar tentações extremistas. Não se pode é criar temas tabu. Não há temas extremistas, apenas respostas extremistas. E não tenho visto muitas respostas extremistas da parte do PP, mas sobretudo tiros no pé e navegação à vista. A criação de um partido à direita do PP pode aliás contribuir para evitar qualquer radicalismo do partido, que talvez caminhe, aliás, para uma fusão com o PSD, formando uma tendência claramente à direita num partido com pendor centrista. Os partidos do centro direita e da direita são para nós instrumentos para defender as ideias nas quais convictamente acreditamos. Mas não temos espírito de seita, e daí não contes com os Infames para fazer política partidária. PM
INGRATOS: Marisa Cruz declarou que se tornou conhecida por causa do seu corpo. O que é, conhvenhamos, injusto. Quem, senão Marisa Cruz, divulgou entre nós a Escola de Frankfurt, quem traduziu Robert Calasso senão Marisa Cruz, quem mais do que Marisa Cruz teorizou sobre o hipertexto e a identidade performativa, quem a não ser Marisa Cruz notou a incompatibilidade entre o pessimismo radical e o budismo em Schoppenhauer? Este país é muito ingrato, Marisa. PM
GENEALOGIA DA MORAL: O ZMS, encantado com gentilezas ao domicílio e outras razões que a razão conhece, teve um lapso que eu não esperava: desatou a teorizar sobre a diferença entre esquerda e direita em termos pessoais: de generosidade, solidariedade, simpatia, decência. Não creio que o ZM acredite realmente nesta versão recauchutada da «superioridade moral» (até porque, segundo o Manel, os marxistas não reconhecem a existência da moral). A direita e a esquerda são ideologias, ou conjuntos de ideologias, que valem como ideias, e como ideias apenas se podem analisar. Não há qualquer ligação entre as ideias que a pessoa tem e as suas virtudes, qualidades, a sua personalidade, as suas taras ou simpatias. Se aceitarmos, for argument's sake, que ser de esquerda é o positivo, temos ainda assim que há gente de esquerda que bate na mulher, inferniza os colegas de emprego, dá traques no metro e balda-se aos impostos, e que portanto não representa, na sua vida, um papel positivo, ou sequer decente. Idem aspas para a direita. Nunca fiz diferença pessoal entre pessoas de esquerda e de direita, e quanto mais pessoas conheço mais verifico que a qualidade humana não se divide de todo desse modo. As pessoas são isso mesmo, pessoas, complexas e contraditórias, e irredutíveis às suas convicções políticas. O ZM tem assim razão em dizer que a direita tem uma visão negativa da natureza humana, mas razão nenhuma em supôr que todas as pessoas de direita «desprezam» (cito) seja quem for. Nem que sejam maus amigos, maus vizinhos, maus colegas, o que quiserem. A direita acredita nas pessoas, mas uma a uma, e não nas massas nem em abstracções colectivas. Temos amigos, mas não somos amigos da Humanidade. That's all. PM
CARTÃO VERMELHO: O agora retirado Paulinho Santos é um incompreendido, um injustiçado. Nunca ninguém percebeu que ele foi pioneiro na aplicação das técnicas de protesto anti-globalização nos relvados de futebol. Ainda havemos de ler exegeses do prof. Porventura e «fundos» do prof. Rosas Vermelhas sobre a contribuição vanguardista de Paulinho Santos para a prática da sarrafada contestatária no contexto do futebol multinacional, capitalista e massificante. Paulinho, um mundo novo é possível também à canelada!

Eurico de Barros
REGRESSAMOS EM SETEMBRO: Correu muito bem, if I may say so myself, a última sessão pré-estival do «É a Cultura». Conheci o Diogo Belford Henriques, o Nuno Mota Pinto e os convidados Marta Almeida e Tiago Cavaco, para além da Margarida («Vírgula»), que entrou por inerência para o meu inner circle. Como o tema abordado foi o dos blogs, fica aqui um pedido: juntem os vossos posts passados e futuros sobre blogs e a blogosfera e mandem-nos, por mail, para colunainfame@hotmail.com, para os juntarmos num novo blog, só dedicado a contributos sobre este novo fenómeno. PM

quarta-feira, junho 04, 2003

FICÇÕES: No último domingo, enquanto garatujava um textículo para uma publicação da terra, fiquei a ver na televisão as celebrações portuenses da vitória no campeonato. Os portuenses são uma gente de princípios e estavam aos magotes na avenida dos Aliados a gritar "Filhos da puta SLB", "Rui Rio corno do caralho", "Pinto da Costa é o nosso presidente" e outros mimos. Como era domingo e o Porto estava em triunfo, um grupo de comerciantes aproveitou a festividade para estender a mercadoria na estrada a ver se ganhava algum. Mas a jogada não lhes saiu bem porque a polícia municipal passou pelo quarteirão e as multas começaram a pingar. O mais extraordinário foi a cobertura jornalística. Na SIC Notícias, um repórter afirmou, com toda a certeza deste mundo, que a polícia andava «em perseguição aos comerciantes»; uma coisa incompreensível já que, embora muitos sejam ilegais, costumam ir para a rua fazer negócio sempre que o Porto ganha no futebol. Tudo isto é educativo. Por vezes uma pessoa até pensa que vive num país ficcional e inventado. PL
ONDE ESTÃO? Há vários dias que não vejo nenhum naco do real, nenhum acontecimento burlesco, nenhuma boa portuguesada, nenhuma pérola do mundo dos fenómenos. Está bem que não costumo andar de táxi nem ouço regularmente o Forum TSF. Mesmo assim, não percebo esta diminuição de percentagens. Ou sou eu que ando distraído ou o mundo está a ficar decente e arrumado. PL
HUMOUR: 13 dias depois, o Ricardo dignou-se a responder ao meu post sobre a relação entre o humor e a política. E que diz o Ricardo? Diz que o esquerdismo não o atrapalha nada e que não há coisa mais engraçada do que ser comunista em 2003. É assim: em 2003, na sua pele de comunista, o Ricardo ri-se consigo mesmo. E nós, não-comunistas, rimo-nos dele. Destinos de humorista. PL
AH, E JÁ AGORA: Sendo o evento dedicado em parte aos blogs, pedimos aos bloggers presentes que não se acanhem e se dêem a conhecer. Antes, durante e depois da sessão. Nós não mordemos. PM
É A CULTURA #3: É hoje às 18.30, no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, a terceira sessão de «É a Cultura Estúpido», esse evento completamente à borla para todos (incluindo para nós, grumpf). Desta vez será um pouco diferente, com apenas dois temas: livros de Verão (sugestões de ZMS, Nuno Costa Santos, João Miguel Tavares e minhas) e... blogs (presenças confirmadas: Mariana Vieira da Silva do País Relativo, Marta Almeida do Janela Indiscreta, Tiago Cavaco do Voz do Deserto e Nuno Miguel Guedes do Tradução Simultânea). Modera, como sempre, Anabela Mota Ribeira, e fecharemos com o stand-up de Ricardo de Araújo Pereira. Esperam-se piadas sobre Nelson de Matos. PM
NBP: Janto numa das chafaricas do costume. A certa altura, a minha capacidade de discutir as vantagens de Abu Mazen sobre Arafat obnubila-se, e fico grudado à mesa do lado, ocupada por um moço e por uma moça. A moça não é realmente bonita, mas é um case-study de sedução em tudo o que diz e no modo como o diz, como se mexe, até como come. No dia seguinte descubro, por acaso, que é uma actriz conhecida da televisão (quase não vejo tv). O que me leva a perguntar: como isto da crítica literária não rende, será que a NBP não me quer contratar como olheiro? Limitava-me a ir a sítios selectos, ficar de olho e fazer um relatório. Ou seja, mantinha os meus hábitos quotidianos e ainda era pago por isso. Olha que bela ideia. PM
E QUEM NÃO SALTA É DE EXTREMA-DIREITA: Carvalho da Silva diz que a «extrema-direita social e política» está no poder. Isto é, a bem dizer, uma não-notícia, porque para os camaradas do sr. Silva «direita» e «extrema-direita» são sempre sinónimos. Mas fico sempre a pensar o que aconteceria se a extrema-direita chegasse ao poder. Talvez o sr. Silva inventasse uma nova designação. Daquela cabeça espera-se tudo. PM
NEM AS VARINAS O SALVARAM: Depois da distrital, o inenarrável Narciso Miranda perdeu a concelhia do Porto do PS. Uma boa notícia, mesmo se estamos longe de termos uma asmática admiração por Nuno Cardoso. Em todo o caso, parabéns a Francisco Assis e a Mark Kirkby. PM
CRP: Pires de Lima, do PP, a propósito da questão da (in)constitucionalidade do Pacote Laboral, disse que o país não pode ficar «refém» da Constituição. É uma infelicidade verbal tremenda. A CRP já não é a Constituição marxista de 76, foi profundamente alterada, mesmo se nem sempre da melhor maneira, e se ainda tem pontos discutíveis então que se discuta a sua alteração, mas nada justifica frases assim. As leis podem estar mal feitas, mas até serem mudadas os cidadãos não estão reféns, estão obrigados. Às vezes o PP tem estes deslizes de discurso que dão razão a certas críticas da esquerda. É pena. PM
TRÊS COISAS QUE NÃO CONSIGO EVITAR:

1. Sujar a toalha nos restaurantes chineses.
2. Interromper a leitura do Jornal de Letras mal lhe pego.
3. Ver a SIC-Notícias e distrair-me das notícias.

PM
VOZES: Bem sei que a pedofilia não é apenas nem principalmente uma questão política, mas podemos dizer que é política em sentido lato. O que é curioso é o modo como ouvimos as pessoas discutir este assunto em cafés em restaurantes: em vez de, como é próprio em discussões políticas, elevarem a voz, baixam a voz até ao murmúrio. PM
CORREIO: O Correio dos Leitores é uma rubrica essencial na Coluna. Por isso aqui deixamos alguns tópicos a propósito:

1. Temos recebido mails sobre a pedofilia e o Iraque. Sobre o primeiro tema, não temos dito muito, por razões que explicámos, mas em breve dedicaremos várias reflexões aos acontecimentos. Sobre o Iraque, fizemos apenas uma moratória, visto que discutimos o assunto diariamente durante semanas e semanas. Mas temos anotado as questões relevantes e responderemos a elas em breve.

2. Queremos agradecer os mails e telefonemas de apoio depois da nossa polémica com a Moca de Fafe. Alguns bloggers e alguns amigos disseram-nos, e bem, que não devemos perder a compostura só porque os cafagestes de direita entraram na blogosfera, e que mais vale o humor habitual na Coluna e um desprezo olímpico. Assim será, daqui para a frente. Mas depois de acusações veladas e de posts públicos a discutir mails privados, não podíamos manter a calma. Com tal bando não chegam modos brandos.

3. Quero pessoalmente agradecer às senhoras e meninas que me agraciaram com mails com festinhas cibernéticas, e também o facto de terem percebido que posts mais confessionais e/ou melancólicos não são técnicas de engates. Há netdates que resultam (cof cof) mas eu não sou utente. Mails simpáticos, esses são sempre bem-vindos.

4. Eu leio todos os mails, publico e respondo a alguns; o PL lê todos os mails e publica e responde de vez em quando; o JPC lê de vez em quando e não responde. Assim, a vossa correspondência deve ter em atenção esta distribuição de tarefas.

5. Pedimos que assinem os mails. Mails com pseudónimos abstrusos não serão publicados.

6. Este é um blog de política mas também de muitos outros assuntos; não se acanhem. Só não discutimos as teses do João Magueijo, porque não fazemos ideia, mas de resto estejam à vontade.

7. Não é segredo que somos de área política do actual Governo, mas não temos com os respectivos partidos qualquer compromisso; por isso, não enviem críticas aos partidos dirigidas a nós. Não temos sequer o mail dos ministros para fazer o reenvio.

8. Tenho recebido mails na minha morada pessoal; enviem antes para o mail da Coluna: colunainfame@hotmail.com

Deus vos pague. PM

terça-feira, junho 03, 2003

DIREITOS: A Esquerda anda a estrebuchar sobre as agressões aos direitos dos arguidos no processo penal. Perceberam finalmente que há direitos mais importantes e mais sérios do que os direitos dos animais, das plantas e das mulheres. PL
O PAULINHO DAS BOLAS: Um dos grandes momentos deste fim-de-semana foi a despedida de Paulinho Santos do futebol profissional. É pena. Agora, quem lhe quiser bater, só fora dos estádios. PL
AS ARMAS: O Manel chega de França, põe as malas no chão, visita a Feira do Livro à procura de um tratado de Marcuse e começa depois a arengar sobre as armas de destruição maciça. Pois é: ainda não se descobriu nada mas atenção Manel, se os americanos ainda podem descobrir alguma coisa, os vossos extraordinários presságios bloquistas não se concretizaram: os Estados Unidos estão a fazer um trabalho limpinho no Iraque e ainda não falsificaram nenhuma arma de destruição maciça para justificar a intervenção. O que é estranho é não ouvir ao Manel uma palavra sobre a brutalidade do regime de Saddam. Essa sim está a ser descoberta e com uma dimensão de terror absolutamente inimaginável antes da guerra. Não digo que a descoberta de armas químicas, biológicas e nucleares seja uma questão irrelevante. Não é; mas eu sempre defendi que a razão da intervenção no Iraque esteve mais naquilo que o regime de Saddam poderia fazer se continuasse intacto do que no combate a estas armas de destruição. Mesmo não tendo um especial arsenal de armas proibidas, o regime de Saddam poderia facilmente obtê-las e utilizá-las, sem grandes dificuldades e iludindo a comunidade internacional. Numa palavra, poderia fazer no futuro o que andou a fazer vastamente no passado. Foi isso que fez desta guerra uma guerra preventiva e dizermos que a ausência de armas de destruição maciça torna a guerra ilegítima, é não compreendermos o significado de uma guerra destas. PL



GUARDA-ROUPA: A propósito do famoso artigo de José Manuel Fernandes sobre a indumentária do juiz Rui Teixeira, tenho que dar o meu próprio exemplo. Diz-se que o juiz representa um órgão de soberania, e que por isso tem de vestir formal e condignamente, visto que t-shirts e jeans são incompativéis com a dignidade da função. Mas reparem: eu sou um notório defensor das classes possidentes e exploradoras, um lacaio da alta burguesia, um prócere do grande capital, um indefectível até da aristocracia monarquizante, e no entanto sou um farrapo de aspecto, barba por fazer, pêra insubmissa, cabelo ao vento, levi's, fralda de fora, camisolas com desenhecos. Será que isso me desqualifica como porta-voz dos poderosos e abonados? Não me desgracem. PM
SLBCP: Fico espantado pelo modo como as pessoas detestam o Benfica. Não os portistas, que esses é normal, mas em particular os sportinguistas, como a Mariana e outros. Pois aqui fica a confissão, que provavelmente soará a heresia: eu sou benfiquista mas simpatizo com o Sporting; mais: eu até devia ser do Sporting, um clube muito mais distinto e elitista, menos garrafão de tinto e música pimba que o SLB, mas, por qualquer razão, dei em encarnado. Além disso, que diabo, o Sporting é um clube da minha cidade, e eu prefiro sempre a vitória de um clube lisboeta do que de um clube de Santo Tirso ou seja lá o que for. Não peço, ó sportinguistas iracundos, que me acompanhem, mas ao menos admitam-me como espécie protegida de relevante interesse ecológico. PM
NOT ME: Sempre que alguém me aborda e me pergunta «você é que é o Pedro Mexia?», eu, talvez por causa daquele «é que é», quero sempre responder como Drummond: «não sou não, desculpe, mas passam a vida a confundir-me com ele». PM
MUITO CÁ DE CASA: Lloyd Cole fez ontem um showcase na FNAC, para apresetar o seu novo disco, Music in a Foreign Language, que é lançado na próxima semana. Lloyd é uma visita muito cá de casa: poucos artistas terão vindo tantas vezes tocar entre nós (julgo que esta foi a sexta vez que assisti a um concerto do escocês). O rapaz está espantosamente bem conservado: mais magro, sem barriga, cabelo curtinho com uma boa madeixa grisalha. Veste-se, ainda de preto, e tem, terá sempre, aquela boca rasgada, quase de escárnio, e aquele ar um pouco antipático, ele que é o mais simpático e educado dos artistas pop. Discreto e afável, mas pouco falador, Lloyd apresenta os temas do novo álbum, incluindo o tema epónimo, super-pop e fresco, um mais dilacerado «My Other Life» e pelo menos um outro tema notável que não sei como se chama, para além do nosso já conhecido «Fool for Love». Depois, uma pitada de clássicos, como «Mainstream» (uma versão mais lenta e mais suave, como quase todas) ou «Rattlesnakes», passando por «No Blue Skies», da sua fase «nova-iorquina» e agressiva. Também uma «cover» dos Velvet, «Pale Blue Eyes», porque temos que respeitar os mestres, e os olhos azuis do próprio Lloyd tremiam de vivacidade e satisfação, visível a cada aplauso. Mas porque o sr. Cole não recebe lições de songwriting de ninguém, tivemos «Like Lovers Do», o ponto de rebuçado entre lirismo e cinismo, e (a pedido de um espectador) «Butterfly», o momento mais emocionante deste fim de tarde, todo ele violência sexual em understatement lírico. E depois, calmamente, simpaticamente, o sr. Cole agradeceu, com uma ligeira vénia, fez aquele sorriso de satisfação contida e, com a sua impecável sobriedade e bom-gosto deixou-nos com a sensação do dia ganho. PM

segunda-feira, junho 02, 2003

PUTA DE VIDA: Um fulano é fotógrafo da Maxmen, vive a tirar o boneco dos mulherões da moda, da tv e da cassete pirata, chega à reunião e vê o trabalho a ser distribuído assim: «tu, X, vais fotografar a Isabel Figueira em roupa interior; tu, Y, vais fotografar a Carla Salgueiro de bikini; tu, Z, vais fotografar a Alexandra Lencastre dentro dos lençóis; e tu, W, vais fotografar o Pedro Mexia». Puta de vida. PM
UM MEXIA, DOIS MEXIAS, TRÊS MEXIAS: A esta hora já se terá espalhado entre alguns leitores a horripilante novidade: PM na Maxmen deste mês (misericordiosamente vestido, descansem). Mas quero esclarecer que aquilo que aparece na página ímpar não sou apenas eu: como se vê pelo espaço que ocupa o corpanzil, aquilo sou eu e mais dois primos direitos que estavam de visita. PM
DIÁLOGO:
- És heterossexual?
- Sou, mas não praticante.
PM
COMPENSAÇÕES CAPITALISTAS: O fim-de-semana foi pior do que ver a tv shop em noite de insónia, mas ao menos o hotel era muito bom. PM
PALAVRAS: Uma das palavras que eu não gosto nada é «comissário»; tem um aspecto terrível de RDA, mesmo que seja apenas uma exposição de fauvistas na Culturgest; mas também tremo perante a designação «praesidium», e basta isso para desconfiar seriamente da Convenção do sr. Giscard. PM
PODIAM TER PERGUNTADO: Os adeptos da «alterglobalização» dizem que «um outro mundo é possível». Claro que é: basta ser bom para as pessoas, não roubar velhinhas, estimar o cágado, não encornar o primo, visitar os doentinhos e comungar pela Páscoa da Ressureição. É a melhor maneira de tornar possível um outro mundo. E isso eu sei desde os cinco anos. Podiam ter perguntado. PM
BEST WISHES: De regresso, leio mais posts curtíssimos no BdE, e verifico que ser de esquerda é basicamente como estar apaixonado: lirismo, optimismo, voluntarismo, a certeza de que, contra todas as dificuldades, tudo vai acabar bem. Desejo que, neste caso, seja mesmo verdade, porque em política bem sabemos que não é assim. PM
AI QUE MEDO: Tardou mas chegou: um blogger despenteado mental ameaça-nos veladamente com o recurso à acção directa, vulgo pancadaria grossa. Eles são muito intelectuais, muito catedráticos, mas anseiam sempre é por dar uso à matraca. E como nós nos chamamos Pedros, apanharemos só por causa desse nome infame. Mas coragem, daquelas bandas, é como crucifixo ao pescoço de um ateu: mero enfeite sem uso. Por isso, podem encontrar-nos nos sítios habituais, e sem escolta policial. PL / PM