domingo, maio 25, 2003

TERROR: Os atentados da Al Qaeda em Marrocos, na Chechénia, na Arábia Saudita são um sinal de que esta organização terrorista está viva e actuante. Mesmo sem se saber o paradeiro de Bin Laden. A escolha da Arábia Saudita e de Marrocos não se devem apenas ao reforço das medidas de segurança nos Estados Unidos. A seita poderia, sem grandes dificuldades, escolher como alvo um pequeno país europeu. Mas preferiu atacar dois países muçulmanos, o que mostra bem como o totalitarismo islâmico está fundamentalmente interessado em matar. Em matar nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia mas também bem perto de casa, no Médio Oriente. Nada disto me espanta. Um dos grandes livros que li este ano foi escrito por um intelectual de esquerda, Paul Berman. O livro chama-se "Terror and Liberalism" e, para além de estar fabulosamente bem escrito, é um retrato do niilismo totalitário de que se alimentam todas as organizações terroristas. Berman, que apoiou a guerra ao Iraque, defende que todo o liberal que se preze tem de combater decididamente o terror totalitário destes movimentos islâmicos. O terrorista típico é, por isso, o Homem Revoltado» de Camus, que, por descrer de tudo, não respeita nada. Saint Just, Stirner, Nietzche, são pensadores ocidentais. E Berman dedica dezenas de páginas a tentar demonstrar o que o carácter totalitário do fundamentalismo islâmico é produto de um certa contaminação ocidental sofrida pelo Islão. Não acompanho todos os argumentos de Berman, na essência argumentos puramente liberais. Mas desde o clássico de Laqueur que não lia um livro tão apaixonante e tão rico sobre a dimensão intelectual e ideológica do terrorismo. Não percam. PL
MINISTRA? Compreendemos o silêncio do Governo mas não o da Ministra da Justiça. As violações do segredo de justiça andam num alegre carrossel e não se ouve um comentário ou uma acção da responsável máxima pela justiça portuguesa. É em momentos de crise que um político tem que demonstrar se conta. PL
JUÍZES: Somos defensores da independência do poder judicial. É uma chatice, bem sei, mas, como respeitamos muito o princípio da separação de poderes, não temos outra escolha. Não achamos que os juízes não devam ser escrutinados mas que há formas mais convenientes para o fazer do que lançá-los para a fogueira da praça pública. Não me repugna a ideia de as magistraturas assumirem, neste processo da Casa Pia, uma «função pedagógica» como recomendava ontem Pedro Magalhães e recomenda hoje António Barreto. É verdade que se criaram já dúvidas sobre a credibilidade da investigação e sobre a legitimidade das decisões tomadas pelo juíz de instrução (por exemplo, o artigo de Daniel Deusdado), o que torna inevitável alguma exposição pública do poder judicial. Mas é preciso ter cautela com esta exposição. Não se pode pretender rotinas de conferências de imprensa, diários do dia na Gomes Freire ou juízes transformados em estrelas televisivas depois da telenovela das nove. Os juízes existem para fazer justiça e ponto final. A justiça não deve ser uma coisa impenetrável e invisível mas não poderá também acabar numa conversa de café entre a dona Fátima e o sr. Alfredo. Caberá ao Procurador-Geral da República assegurar que os esclarecimentos e informações que há a prestar se façam dentro dos limites de um Estado de Direito. Portugal ainda não é a Itália, amigos. Não receitem vacinas se tudo se pode ainda curar com um simples comprimido. PL
POVÃO: Segundo o DN, 61 % dos felgueirenses, voltariam a votar em Fátima Felgueiras. Apesar de a senhora ter fugido para o Brasil, confirmando assim as suas malfeitorias de corrupção. Por isso é que eu costumo dizer que defendo a democracia, mas não me considero exactamente um «democrata». A democracia é indiscutivelmente melhor que os outros regimes, mas a democracia tem momentos como este, em que a vontade da maioria é bruta, besta, boçal. Claro que podemos dizer, como eu digo, que o povo não tem razão. Mas isso não é... democrático. O mundo é complexo. PM
ESCUTAS: Evito trazer discussões jurídicas para esta página. Essas discussões têm mais sentido noutros sítios. E, com franqueza, sempre preferi os «Irmãos Karamazov» ao Código Penal. A vida, é certo, levou-me para uma Faculdade de Direito mas sou o primeiro a pôr de lado o típico e falaz imperialismo das disciplinas jurídicas. Não sou penalista mas, de qualquer forma, deixo um conselho a quem anda por aí a dar opiniões sobre as escutas telefónicas. Leiam o Código de Processo Penal. Leiam todo o capítulo sobre os meios de prova. Não se fiquem só pelos artigos transcritos nos jornais do dia. Leiam que não são só os arguidos que podem ser sujeitos a escutas telefónicas (desde logo, também os defensores). Leiam que as escutas telefónicas podem ser utilizadas para certo tipo de crimes, desde que sejam úteis para a descoberta da verdade material. Leiam que qualquer meio de prova usado contra a privacidade nas telecomunicações fora dos casos previstos na lei, constitui um crime. Leiam que o material recolhido através das escutas é imediatamente destruído se não tiver utilidade para a investigação. É preciso então todo este charivari político? Se o PS tem conhecimento (e, já agora, seria bom que nos esclarecesse sobre as suas fontes) que as escutas ultrapassaram os limites da lei e foram indevidamente empreendidas, então não há outra coisa a fazer que não seja pugnar pela punição disciplinar e criminal dos infractores. E, quanto a Paulo Pedroso, se estão tão certos que as escutas foram ilegais, também saberão que são nulas. Visto assim, tudo parece fácil. Mas o PS preferiu a histeria. PL
SÓ: Fui ontem ao cinema ao Corte Ingles. Uma multidão. E, como sempre, grupos (grandes e pequenos) famílias, amigos, casais de esposos ou namoradas. Na bilheteira longa, no átrio a aborrotar, nas salas movimentadas, era a única pessoa que estava sozinha. Ninguém vai ao cinema sozinho, conheço até quem ache horrível a mera ideia. O medo da solidão é um dos nossos maiores medos. PM
THERE'S NO TURNING BACK: Ferro Rodrigues discursou à nação com outro espírito e outra postura. Agora é que os socialistas vão ser «serenos», «racionais». O que lá vai, lá vai. A indignação, a perplexidade, a suspeita: tudo isto permanece mas Ferro mostrou vontade de seguir em frente e continuar a fazer política como tem feito até aqui. Não contem com ele para «alterações legislativas» cirúrgicas e rápidas. Amanhã, até participará numa discussão sobre a economia nacional. Não sei se conhecem a peça «Os Últimos dias da Humanidade» de Karl Kraus. Na peça, depois do desastre se ter consumado, Kraus põe na boca do imperador estas notáveis palavras: «Nunca quis isto». O ar apaziguador de Ferro Rodrigues lembra-nos o imperador de Karl Kraus. O desastre está aí, pelas mãos sábias das gentes do PS: está lançada a dúvida sobre a legalidade da investigação em curso, sobre as motivações das detenções ordenadas, sobre o substrato material das decisões judiciais neste processo. Um ex-Ministro da Justiça serviu-se de informações recolhidas em violação do segredo de justiça. Um conhecido versejador jurou defender a democracia de um perigo imundo chamado Tribunal de Instrução Criminal. Os socialistas desprezaram a habitual sensatez de Souto de Moura e desconhecem, pelos vistos, a existência do Conselho Superior de Magistratura. Fizeram a sua escolha. Uma escolha grave e irresponsável: acossados, decidiram que a sorte do partido está à frente da justiça do país. Não nos podemos esquecer disto. Ninguém se pode esquecer disto. Estes senhores habitam um mundo que não existe: um mundo de falsos fantasmas, de putativas perseguições políticas conduzidas por magistraturas, de irresponsabilidade na ponderação das instituições. Não lhes ocorreu que a criminalidade que aqui está em causa não é uma criminalidade de poder, como é, diga-se, a corrupção ao nível do Estado; é uma criminalidade de perversão organizada em que todos podem estar envolvidos: políticos, embaixadores, apresentadores de televisão, médicos e outras profissões. Uma criminalidade que a opinião pública não vê como «política», mesmo que possa envolver figuras políticas. Os políticos do PS não souberam fazer essa destrinça e acharam-se, como ainda se acham, vítimas de uma pedregosa manigância política. Contribuíram assim para uma guerra que não existia. Hoje, toda a gente é suspeita: políticos e magistrados, procuradores e juízes, todos são suspeitos de qualquer coisa, sem que se saiba bem o quê. Suspeitos de tudo menos de cumprir escrupulosamente as suas funções. O PS foi o principal obreiro desta suspeição generalizada. Os socialistas abriram sózinhos a caixa de Pandora. Se a quiserem agora fechar, vão ter que pedir ajuda. PL
ATÉ PORQUE: Sendo a pedofilia uma tara e um crime (e provavelmente uma doença), não tem nada a ver com «a esquerda» ou «a direita». Em matérias de carácter, de perversões, de actos moral ou legalmente condenáveis, não reconhecemos essa distinção ideológica. Quem achava que os Ballets Rose eram taradice de «fascistas» bem se lixou. Não caíremos no mesmo erro. A ideologia é simples. A mente humana é complexa. Feliz e infelizmente. PM
JÁ AGORA: A Coluna Infame é um blog conservador, «de direita» se quiserem. Por isso, naturalmente estamos ideologicamente mais próximos dos partidos actualmente no governo do que dos partidos actualmente na oposição. Mas não somos um blog partidário, nem queremos fazer luta partidária com este blog. Isto vale como regra geral, mas vale em particular para o actual momento político. Não esperem por isso que, como alguns leitores querem, façamos deste caso uma luta partidária. Não estamos interessados. PM
ATÉ O FERRO SABE: As palavras de Ferro Rodrigues explicam bem a nossa filosofia neste caso pedofilia. Não sabems que é culpado ou inocente, mas não entramos, como diz Ferro, pela «calúnia infame». Nem de políticos, nem de juízes. Nós não somos a Calúnia Infame, somos a Coluna Infame. PM
AINDA NELSON RODRIGUES: Se eu disser que vou escrever um post sobre Nelson Rodrigues em resposta ao Ricardo, terei certamente dois tipos de respostas negativas; dirão uns, enfadados, que não vale a pena insistir em posts «sobre Nelson Rodrigues», dado o reduzido interesse que o assunto lhes merece; dirão outros, espantados, que é preciso ter lata para escrever um post «em resposta ao Ricardo» depois de o dito Ricardo, no seu post, me ter cilindrado, humilhado, desmentido, sovado, atropelado, estilhaçado, arrasado. Respondo aos primeiros que Nelson Rodrigues é um dos patronos dos Infames, e por isso merece-nos os posts que forem precisos. Respondo aos segundos que o talento retórico nunca resolveu substancialmente as questões; vejam bem como o Ricardo, no seu final salivante de vitória inequívoca me compara ao Ministro da Informação Iraquiano, o que é tão mais engraçado quanto o dito Ministro até disse coisas – sobre a justeza da guerra e sobre a política externa americana – que o Ricardo subscreve, e eu de modo algum. Mas vamos ao sumo da questão.

1) Em vários anos de crítica literária, costumo frequentemente apanhar com a acusação de que «não percebi» um determinado livro (quando não gosto de um livro do qual o acusador gostou); mas até agora nunca ninguém tinha sugerido que eu criticava e referia livros que nem sequer tinha lido, como o Ricardo faz em relação a O Anjo Pornográfico de Ruy Castro. Fica sempre bem dizer que o adversário numa polémica não leu um texto que citou; infelizmente, é um truque, esse sim, digno do Min. da Informação, porque eu conheço bem o livro de Ruy Castro, como adiante direi. O que é curioso é que o Ricardo diz que foi agora ler a biografia escrita por Castro (sempre se ganhou alguma coisa com a polémica); no entanto, o Ricardo tinha declarado antes que não se podia confiar nas informações dessa biografia porque se tratava de uma «hagiografia». Isto é: o Ricardo não tinha lido o livro, mas achava que era uma «hagiografia», apenas porque eu o referia como um bom livro. Mas depois foi ler o volume – que está longe de ser uma hagiografia – e achou que havia nele matéria que lhe interessava. Subitamente, a biografia de R.C. deixou de ser um folheto sem préstimo e passou a ser, como eu antes reclamava, a fonte mais segura sobre a biografia de Nelson Rodrigues.

2) Vamos então ao livro. Cita o Ricardo: A voz de Nelson na campanha da anistia era duplamente incômoda para os militares. Era a voz de um pai com acesso a todo o tipo de mídia – e a de um escritor que nunca escondera seu apoio ao regime.(in Ruy Castro, O Anjo Pornográfico. A vida de Nelson Rodrigues, Companhia das Letras, pág. 408). E pronto. Ou melhor: ponto. Ponto final. Mexia KO. Assunto arrumado. Ponto? Com certeza. Mas ponto parágrafo? Não. Porque, a seguir a esse pontinho, que o Ricardo acha que é a fronteira da verdade, vem o seguinte período: Apoio que, na verdade, sofrera um profundo abalo desde abril de 1972, quando se convencera da existência das torturas. O simples reconhecimento por Nelson Rodrigues de que o regime havia torturado denunciava o excremento que se tentara varrer para debaixo da bandeira,

3) Aqui entram as minhas referências à família política do Ricardo. Golpe baixo? De todo. Ser comunista, e do PCP, é perfeitamente legítimo, não tenho nada contra. Mas o comunismo, e o PCP, têm uma história. Quantos foram os comunistas que aderiram ao estalinismo, até se aperceberem dos seus crimes, e se separaram dele?. Quantos foram os intelectuais que abandonaram os respectivos PC’s depois da Hungria e da Checoslováquia? Até Milan Kundera foi comunista. Mas será que alguém se refere a Kundera como «um tipo que foi comunista»? Claro que não, porque o que é relevante é que se tenha apercebido da natureza do regime e da ideologia, e dela se tenha separado. O mesmo se passa, aliás, do outro lado do barricada. O sr. Schindler era simpatizante nazi. O cônsul Aristides Sousa Mendes era um alto funcionário do «fascismo». Mas é assim que os recordamos? Não, pelo contrário: lembramo-nos deles porque salvaram pessoas. Que foi exactamente o que Nelson fez, começando pelo seu filho, mas continuando noutros opositores, como um diplomata (op. cit., pág. 396), uma artista (pág. 408), uma jornalista (pág. 409), entre outros. «Apoiante da ditadura» escamoteia completamente esta realidade, e daí o meu protesto.

4) Nelson era um anticomunista empedernido, como os Infames são, mas, ao contrário dos Infames, achou que o que se chamava, não sem alguma razão, o «perigo comunista» devia ser contrariado por regimes autoritários. Amigo de militares, sobretudo de Médici, Nelson viu no regime militar um perigo menor do que o comunismo. Mas isso mudou significativamente quando, como se disse, soube da tortura e de outros desmandos. De resto, como opinou o esquerdista Otto Lara Resende, é mais provável que «os militares tivessem aderido ao Nelson» (op. cit, pág. 374), visto que o seu prestígio intelectual lhes dava jeito, porque a intelectualidade lhes era naturalmente hostil.

5) Nelson não foi um adversário da ditadura militar; podemos dizer mesmo que foi seu cúmplice. Mas na sua personalidade e nas suas ideias nada o aproximava da ditadura, a não ser o anticomunismo. Seria Nelson defensor da censura? Como, se a sua obra sempre teve problemas com a censura, com a imprensa, com os moralistas? Seria Nelson promotor de uma moralidade repressiva, como o regime? Pouco provável, sendo o seu teatro um palco de obsessões e taras sexuais, que fizeram com que Marcello Caetano lhe chamasse «o imoralão». Será que Toda Nudez Será Castigada é uma peça representativa da mentalidade totalitária e repressiva? Bem pelo contrário. Leiam, por exemplo, esta entrevista (dica do Rui F. Santos).

6) Nelson era uma figura paradoxal, longe de ser um santo, longe de não cometer erros, políticos e outros. Mas era um estilista admirável, um homem frontal e corajoso, um homem de carácter. Por isso o admiramos e citamos.

7) Em todo o caso, tenho de dar razão ao Ricardo numa coisa. É inaceitável defender regimes ditatoriais, nem que seja pela cumplicidade ou pelo silêncio. Ora tendo o partido em que o RAP milita defendido o bloco soviético, e ainda hoje tendo palavras doces para ditaduras como Cuba e a Coreia, não posso evitar este apelo à coerência por parte do meu interlecutor: ó Ricardo, entrega o cartão. PM
MACHADO: Camilo e Eça foram dois génios mas seria erro capital esquecermos Machado de Assis, venerado no Brasil e incompreensivelmente desconhecido entre nós. Bem sei que temos um grande machadiano - Abel Barros Baptista - mas os livros de Machado de Assis não têm a justa atenção do público português letrado. Releio agora «Memorial de Aires», em nova edição da Cotovia. Sei que o gosto pela literatura se adquire um pouco por acaso. Sei que o ensino é useiro em matar leitores à nascença, que os currículos escolares de português são uma vergonha sobre a qual é inútil falar. «Memorial de Aires» pode até nem ser o melhor de Machado de Assis (a doutrina divide-se com frequência a este respeito). Mas é um grande livro da nossa língua e tão bem escrito, tão enxuto, tão constante que, amigos, não há como ele na nossa literatura. É o romance brasileiro sem a tapioca literária e o jargão fazendeiro de escritores posteriores, a começar por Jorge Amado. Uma obra indispensável. PL
ZONA ERÓGENA: Algumas leitoras menos iradas sugerem que eu não me preocupe, porque o cérebro é «a zona mais erógena». Ora bem: é verdade que esse órgão em particular nunca me deixou mal (ou que não posso dizer de outros), mas é apenas um cérebro normalíssimo, que não merece de todo um mausoléu leninista para a posteridade. O cérebro pode ser, com certeza, erógeno, como a cereja no bolo, mas é preciso haver bolo. Uma pessoa inteligente pode ser sexy, mas convém que tenha uma mínima base mais material. Pergunto às leitoras que sugerem que o cérebro é o que mais importa: as meninas iriam para a cama com o Stephen Hawking? Bem me parecia. PM
A VIDA SEXUAL DE PEDRO M: Vou falar-vos de um rapaz. Chamemos-lhe Pedro M. A vida sexual de Pedro M é tema de conferências anuais, teses de mestrado e doutoramento e mesmo de alguns sites. Para conhecer este fenómeno estranho, nada melhor do que conversar com as ex-namoradas de Pedro M: estas pessoas, pelo menos as que dormiram com Pedro M, sofrem de stress pós-traumático, doença amplamente estudada em veteranos do Vietname. Diga-se de passagem que dormir com Pedro M é, por si só, uma parafilia, aliás listada pela OMS; não será tão grave como ter sexo com um guaxinim, mas é mais preocupante que manter relações íntimas com uma picadora Moulinex. Pedro M tem uma incapacidade sexual bizarra: em vez de erecções, tem versos de Holderlin, evita o cunnilingus para dissertar sobre Pavese, e no momento do acto relembra, comovido, passos da vida de Kierkegaard. As moças não esquecem o momento, e acordam, anos depois, alagadas e suor e em terror. É uma história bizarra e assustadora, mas não queria deixar de a partilhar com as nossas leitoras que pensam que Pedro M pretende fazer uma OPV de si mesmo. No way. Nem a DECO deixava. PM
OPV: Acoplado ao tema Musas, vieram uma série de outras reclamações, estas dirigidas a mim pessoalmente. Muitas delas referiam o tema Cheirosa & Letradas, no qual não vou por agora insistir. Mas outras sugeriam que eu tinha muito azar com as mulheres que conhecia, o que é verdade, e que estava a usar a Coluna para o engate, o que é mentira. Vejam bem: nós queremos apenas o melhor para as nossas leitoras; acham mesmo que impingiríamos damaged goods às nobres moçoilas que seguem avidamente a nossa página? Jamais me passaria pela cabeça lançar uma OPV de mim próprio via net, e sobretudo através da magna Coluna. Pensam algumas leitoras que eu uso o velho método da lamúria, brilhantemente analisado por Eric Rohmer no seu Conto de Verão: queixar-me da falta de sucesso com as mulheres como método para ter sucesso com as mulheres. Seria bem visto, mas não se passa nada disso, minhas amigas. Não desejo aqui o Mexia a nenhuma das queridas leitoras da Coluna. Uma leitora da Coluna gosta dos seus orgasmos em múltiplos de três, aprecia uma sessão de sexo oral do tamanho de um discurso médio de Fidel, e tem um fraquinho por moços com um six-pack e outras durezas. Ora eu não tenho física, técnica nem tusa para sequer cumprir os serviços mínimos. Conversem comigo sobre romances russos, façam-me festinhas no cabelo, mandem-me mails com animações, queixem-se dos vossos namorados, e pouco mais. Sexo, para mim, é uma coisa que se faz na Internet. Estejam descansadas, leitoras: estão a salvo. PM
MUSAS: Temos recebido alguns mails e telefonemas, piadas, posts noutros blogs e comentários sobre um tema obsessivo: as Musas. Como grande parte dessas queixas e ditoches comete erros grosseiros, passo a explicar:

a) uma Musa - uma Musa da Coluna Infame - é isso mesmo, uma fonte longínqua de inspiração para todos nós e os nossos leitores, e de modo algum alguém a quem seja solicitado o comércio carnal com um dos Infames

b) a Musa deve ser, preferencialmente, uma figura pública, para que os nosso leitores a conheçam

c) a Musa deve ser maior de idade (hello PJ), inteligente, culta e lindíssima

d) a Musa não nos deve ligar nenhuma (vem nos livros)

e) a Musa não tem de ser de direita (as duas anteriores não eram)

f) a Musa não se candidata, nós é que a escolhemos, depois de ponderada deliberação

Esperando ter esclarecido o assunto, continuamos à espera de sugestões. PM

sábado, maio 24, 2003

MEU AMIGO SOCIALISTA, É MESMO VOCÊ: Gosto de proteger os meus santos e, portanto, segui com atenção o que o Ricardo foi escrevendo sobre Nelson Rodrigues. Comecei descansado. O RAP começou por admitir a excelência da prosa de Nelson Rodrigues, apesar de a achar demasiado ruidosa e contagiante. Depois, e embora não pratique, o RAP não deixou de considerar «encantador» o reaccionarismo do escritor brasileiro. Digo-vos que não esperaria outra coisa do RAP; mas eis que chegamos às acções políticas, às posições públicas de Nelson Rodrigues e o Ricardo, um aparente moderado, um profissional da ironia, desata uma busca obsessiva por tudo quanto pudesse provar a colaboração de Nelson Rodrigues com a ditadura militar brasileira. Numa súbita, feral transfiguração, o Ricardo ganhou seriedade ideológica e vasculhou muito até encontrar entrevistas a Nelson Rodrigues filho (o rebento esquerdista do dramaturgo), opiniões de académicos e excertos da biografia de Nelson Rodrigues, escrita por Ruy Castro. Resultado: Nelson Rodrigues não foi um democrata e colaborou miseravelmente com os militares brasileiros no poder. Não pretendo contrariar o RAP porque também li a biografia de Ruy Castro e sei da proximidade pessoal - mais pessoal do que política - de Nelson Rodrigues a alguns daqueles militares, principalmente Médici e Figueiredo. Só não percebo até onde o RAP quis chegar com tão persistente investigação. Quis mostrar que Nelson Rodrigues é menos credível por ter ido à bola com ditadores? Quis mostrar que Nelson contemporizava com uma ditadura, ao mesmo tempo que denunciava nas suas crónicas a colossal estupidez totalitária do eixo soviético? Quis arrasar pela base a nossa proclamada devoção ao escritor brasileiro? Confesso-vos que não percebi. Para mim, Nelson Rodrigues é uma referência literária e intelectual porque escreve como eu gostava de escrever e foi de uma implacável solidão num país intelectualmente dominado por vulgatas de baixo coturno. Se Nelson Rodrigues foi ou não amigo de ditadores fardados, é coisa que pouca me interessa. Sei - e isto também está no Ruy Castro - que Nelson Rodrigues era vigorosamente contrário a qualquer forma de desumanização política. Abominava a antipessoa. Abominava a tortura. Abominava o totalitarismo intelectual dos bem-pensantes. Não tinha partido. Não era o exemplo do intelectual arregimentado. E, muito justamente, os que falavam de Liberdade e Justiça mas, ao mesmo tempo, faziam loas à União Soviética, mereciam-lhe um categórico desprezo. Gosto tanto de Nelson Rodrigues que, quando choco com este começo: «Ah, sou um homem susceptível de violentas nostalgias», sei que estou a ler Nelson Rodrigues. Sei que é Nelson Rodrigues quando leio: «Qualquer devoção é linda. Não importa que o santo não a mereça. E mesmo que seja um santo falso». Sei que se no meio de uma crónica, encontrar: «Eis o que eu queria dizer», não tenho dúvidas que o autor é Nelson Rodrigues. Como dramaturgo, Nelson Rodrigues é de um amoralismo inteiramente contraditório com o cronista. As suas personagens ardem na demencial psicologia do seu criador. Os enredos são pecaminosos; os desfechos imprevisíveis; as torturas passionais. É um pungente e um colérico. Tem a crueza dos grandes conhecedores da fraqueza humana. «A Menina sem Estrela», o seu livro de memórias, é um dos grandes livros da literatura portuguesa do século vinte. Está aí o retrato de um homem que viveu de «paroxismo em paroxismo». Se concordássemos com tudo o que Nelson Rodrigues escreveu, seríamos os primeiros a entrar nas Carmelitas. Mas não: Nelson Rodrigues é intensamente moderno porque foi intensamente contraditório, provocador e incoerente. Precisamente: essa incoerência é má para cartilhas e cartilheiros. Mas que tem rasgos, clarões de humanismo, disso não tenham dúvidas. PL


UMA CERTEZA PELO MENOS: Sei que todos nos sentimos chocados com as inesperadas suspeitas de pedofilia que atingiram sumidades da praça. Permitam-me, amigos, uma curta declaração: existe uma pessoa que está, garanto-vos, absolutamente inocente deste crime e não conhece nenhum dos arguidos já constituídos no processo. Essa pessoa sou eu. PL
LOUCOS? Vejo o Expresso da meia-noite na SIC Notícias, um programa habitualmente vivo que me dispensa de comprar o Expresso todos os sábados. Vejo o intelectual Luís Delgado repetir, numa vozearia imensa: "os juízes estão loucos, os juízes estão loucos". O rapaz Descartes não tinha razão: o bom-senso não é a coisa mais bem distribuída do mundo. PL
E UM É PARA MIM: Numa das bancas onde compro os jornais existe, ao que parece, uma competição furiosa pelos dois únicos números da Vanity Fair que a chafarica mensalmente encomenda. Ainda há esperança para o género humano. PM
SOCIALISMO CIENTÍFICO: No que à investigação e hermenêutica diz respeito, o Ricardo aprendeu obviamente umas coisas na Soeiro Pereira Gomes. A bioigrafia de Ruy Castro, a única biografia exaustiva que se publicou sobre Nelson Rodrigues, não vale, porque, mostrando Castro simpatia por Rodrigues, trata-se de uma vil «hagiografia». Mas eis que RAP tem outra fonte, mais credível, e desta vez indesmentível: o filho de Nelson, um esquerdista radical. Ruy Castro limitou-se, durante anos, a ler tudo de e sobre Nelson, a pesquisar arquivos, a entrevistar gente, e assim por diante. Mas a sua opinião não presta. Nelsinho, ao invés, não faz nada disto, mas tem uma qualidade que Castro não possui: é um esquerdista radical. Por isso, fora Castro e vamos todos acreditar no Nelsinho. Deve ser isto o socialismo científico.

Mas a propósito, recebemos esta bela carta de uma leitora brasileira:

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nelson Rodrigues não era assim nem assado. Por vezes animal mesmo, outras animal torturado ou então homem de inúmeros amores e outras tantas dores que ele mesmo procurava, fomentava, alimentava. Auto-destrutivo por excelência na criação como na vida, Nelson Rodrigues não era a preto e branco mas se alguma coisa se lhe colou, com certeza, foi a incompreensão entre pares, entre quase todos tirando seus amigos genuínos. Escrevia maravilhosamente e sua obra, notável, não foi aceite na época porque simplesmente não tinha época. Nelson assim o quis e como sofreu com essa intransigência sua e dos outros! É por isso que acho curiosa a polémica porque me parece que, tanto um como outro blog cortam Nelson aos pedaços como, de resto, sempre fizeram com ele em vida e, pelos vistos, na morte. Incondicional admiradora da obra de Nelson Rodrigues (veja só como o poder encantatório dele com as mulheres tem lastro e deixa esse rasto! considero o vosso interesse pelo meu patrício uma prova do génio desse homem meio animal meio qualquer coisa que mexe por dentro que ainda hoje dá cartas e que merece ser visto por inteiro. Sem mito. Puro e duro ‘anjo pornográfico’. Será que não dá? Pode bem ser que nunca dê. (Teresa Santo)

Cara Teresa: tem razão. Nelson era um homem contraditório, e nós aqui na Coluna já exprimimos várias vezes o nosso apreço pelas personalidades contraditórias, isto é, humanas. E também escrevemos escritor «de direita» assim entre aspas, porque nenhum escritor, se o é, se limita a ser «de direita» ou «de esquerda». Concordamos em geral com as ideias de Nelson, mas concordamos sobretudo com a sua frontalidade, o seu individualismo e o seu estilo. Obrigado pela sua carta. PM
AVISO: O artigo sobre blogs no PÚBLICO foi adiado, por causa do caso da pedofilia. Os meus dois textos do Indy, sobre os quais tinha falado a alguns amigos e leitores, também ainda não foram publicados, um por atraso meu e outro por motivos que me são alheios. Todos estes textos aparecerão em breve. PM
RASPADINHA: O Prof. Marcelo já tinha ameaçado, assustadoramente, que ia «mostrar o pirilampo» na TVI. Não se incomode, Professor. Agora, leio que o Prof. deu um parecer segundo o qual a raspadinha pode ser inconstitucional. Inconstitucional?? Pode ser pouco estético, pouco higiénico, ou o que se quiser, mas inconstitucional parece-me demais. O que cada um(a) faz com a sua genitália é da esfera privada, Prof. Marcelo. PM
HOT HOT HOT: Este época é-me imensamente penosa. Sanguineamente meio escandinavo, epidermicamente branquérrimo, adiposamente vasto, o calor é uma provação. Uma das Pragas do Egipto, diria. Para além dos vários inconvenientes corporais, que me dispenso de elencar, o calor impede um funcionamente intelectual acima dos serviços mínimos. Só a partir do fim da tarde é que consigo alinhavar meia-dúzia de linhas, ler alguma coisa relevante, organizar as ideias. Quando se quiserem ver livros do Mexia, dos seus versinhos e das suas prosas reaccionárias, já sabem: Trópicos com o gajo. É a morte do artista. PM
O COSTUME: Apesar da gravidade explicada no post anterior, a Coluna continuará a manter um elemento que os seus leitores procuram e apreciam: o humor, a ironia, a chalaça. Por isso, nos próximos dias, acompanharemos o caso Casa Pia mas continuaremos a ter textos sobre cinema, livros, sexo, e saneamento urbano. PM
1. Temos recebido, por vários meios, manifestações de desagrado face à nossa posição na questão do caso Pedofilia. Sem repetir os argumentos expostos anteriormente, queremos reforçar a ideia de que não comentamos casos judiciais, a culpabilidade ou a inocência de quem quer que seja. Também não brincamos com assuntos graves como este, nem aproveitamos para chicana política ou demagogia populista.

2. Ao contrário do que certas pessoas nos disseram, não tratámos a indiciação de Paulo Pedroso de modo diferente da indiciação de Carlos Cruz ou Jorge Ritto. Sabemos o mesmo sobre Pedroso do que sabemos sobre Cruz e Ritto: nada. A menção a ser «amigo de amigos» (de PL e PM) não foi feita para justificar um silêncio, porque esse silêncio foi igual nos outros casos referidos; apenas serviu para relatar que lidámos com este caso com maior proximidade, e vimos pessoas que estimamos destroçadas com a acusação. Foi uma referência de empatia, sem qualquer outra função substancial.

3. Objectivamente, é mais grave - e por isso mais triste, como escrevemos - ver um deputado envolvido num caso destes, do que um apresentador de televisão ou mesmo um embaixador. Não pretendemos que os «poderosos» estejam imunes à Justiça; mas não nos congratulamos pela suspeição recair sobre um poderoso ou um anónimo, queremos apenas que os culpados sejam punidos, independentemente da sua posição na sociedade. Justiça cega, não justiça persecutória.

4. Não comentarmos o caso judicial não equivale a nada dizermos sobre a vertente política do caso, como se verá nos posts seguintes. Uma coisa é não fazer aproveitamentos políticos, outra é ignorar o modo desastrado como o caso tem sido gerido do ponto de vista político.

5. Na verdade, o Partido Socialista perdeu a cabeça, e alguns dos seus dirigentes têm-se desmultiplicado em frases e atitudes insensatas ou irresponsáveis. Quando António Costa, ex-ministro da Justiça, revela dados do processo, estamos perante a falta de norte. Quando Manuel Alegre, depois de aconselhar «serenidade» diz que há um golpe de extrema-direita e que o «povo socialista» deve estar preparado «para todas as eventualidades», estamos numa galopante demência. Quando Ferro Rodrigues agita o fantasma de uma cabala, sem explicar detalhadamente, a quem de direito, as provas que disso tem, estamos condenados à infantilidade deplorável. Quando o PS, que sempre falou em respeitar a marcha da Justiça, sugere gestão grosseira do processo e das provas e alude a uma tentativa deliberada de destruir o partido, o populismo anda à solta na boca de quem tanto o critica.

6. A Coluna Infame continuará a comentar os eventos (alguns dos quais nos jornais desta manhã), mas apenas na sua dimensão política, na relação entre poderes e entre órgãos de soberania, na cobertura mediática e em outras vertentes em que nos é lícito opinar. Não diremos nada, voltamos a frisar, sobre a inocência ou culpabilidade de qualquer dos arguidos constituídos ou a constituir.

7. Como já se escreveu, deste caso sairá terrivelmente manchado o poder político ou a Justiça. Qualquer das hipóteses é terrível, e configura uma crise que pode ser a mais grave da III República.

8. Num momento como este, os blogs devem mostrar a sua utilidade como fóruns de discussão, mas não como formas cibernéticas de linchamento ou de boataria. Com a ajuda dos nossos leitores, tentaremos estar à altura da situação.

A Coluna Infame
O INDEPENDENTE, 15 ANOS: A primeira coisa que exijo de um jornal - qualquer jornal - é clareza. Por outras palavras: compro o bicho e quero saber como ele morde. Não me interessa a linha ideológica. Interessa-me é saber que ele tem uma linha ideológica - uma linha ideológica claramente assumida e defendida. Por isso compro o Telegraph e o Guardian. O Le Monde e o Le Figaro. O El Pais e o ABC. Todos eles excelentes. Todos eles devidamente identificados e identificáveis. E em Portugal? Em Portugal, é a escuridão total. Em nome de uma falaciosa noção de «independência e «rigor», compro o Público e, com a excepção de Pacheco e Fernandes, levo para casa o órgão oficial do Bloco de Esquerda. O jornalismo português é avesso à transparência: o meio é pequeno e a pequenez do meio não aconselha temeridades. Por isso aplaudo os 15 anos do Indy. Ser colunista da casa é lateral - mas já lá vamos. Aquilo que admiro no Independente é a manifesta coragem para assumir uma tendência. Sem sombras ou tapumes. Quem lê o Indy, sabe o que lê - e não apanha com uma sopa manhosa onde o xarope do conservadorismo é metido clandestinamente e a medo. Mas há também um pormenor pessoal que interessa sublinhar. Escrevo opinião há nove anos. No Indy, há 5. E, ao contrário do que sucede na maioria da imprensa, nunca encontrei naquela temível casa uma «pressão» editorial, um «aconselhamento» da direcção ou uma «sugestão» particular. Para não falar de actos explícitos de censura - que abundam por outras paragens. Sempre escrevi com uma liberdade total. O que inevitavelmente implicou - quantas vezes... - mexer com amigos da direcção e nomes sagrados. O Indy pode ter as suas falhas. Mas uma falha do Independente tem mais liberdade do que as virtudes todas juntas do Expresso. JPC

sexta-feira, maio 23, 2003

PARA QUE CONSTE: Desconfiamos de pessoas apolíticas. Desconfiamos de quem tem repugnância pela política. Desconfiamos de quem põe a política à frente de tudo. Desconfiamos de centristas, renovadores, falsos democratas. Desconfiamos de optimistas por tendência ou humanismo. Desconfiamos de quem se leva a sério, de quem não duvida. Desconfiamos de esquerdistas sem amigos de direita e de direitistas sem amigos de esquerda. Desconfiamos de profissionais da política. Desconfiamos de direitistas por conveniência e de esquerdistas por despeito. Desconfiamos de direitistas sem sentido de humor e de esquerdistas sem sentido do ridículo. Desconfiamos de direitistas da moralidade e de esquerdistas da virtude. Desconfiamos de direitistas por tradicionalismo e de esquerdistas enamorados pela razão. Desconfiamos de direitistas em questões acessórias e de esquerdistas em questões essenciais. Desconfiamos de argumentos de autoridade vindos de qualquer parte. Desconfiamos de quem usa e abusa da palavra 'natureza'. Desconfiamos de quem associa a esquerda às boas pessoas. Desconfiamos de direitistas que não gostam de literatura. A lista podia continuar. PL
OS 50 METROS DA VIDA DE FRANCISCO ASSIS: Francisco Assis andou 50 metros debaixo de insultos e sapatadas. Manteve a serenidade. Mostrou coragem física. Não respondeu. Não receou a mutidão ululante (o Ricardo que me desculpe). Moral da História: Assis é agora publicamente incensado pelas sumidades do costume. A política é mesmo uma questão de minutos. PL
QUEM AFINAL? Espíritos amigos mas doentios colocam-nos uma dúvida pertinente: quem dirige a investigação da Casa Pia? O Procurador-Geral da República ou a Felícia Geral da República? Eu só sei que nada sei. PL
COMENTÁRIOS: Quem nos critica por não comentarmos a detenção de Paulo Pedroso, deve fazer os comentários que nós não fizémos, em vez de aderir à mesma onda histérica e precipitada que tem circulado pela praça. Pedroso é um político acusado? Claro: facto gravíssimo, por se tratar do crime que é, mas não nos esqueçamos que as democracias europeias estão cheias de casos de políticos envolvidos em escândalos sexuais. A justiça está a ser severa com os poderosos? Com certeza e isso mostra que o poder judicial é independente do poder político e que algo mudou no Ministério Público. Agora, há muito pouca coisa a dizer sobre o caso particular de Paulo Pedroso. Não conheço a prova testemunhal e documental que fundamentou a prisão preventiva. E nunca me ouvirão a mim ou alguém desta Coluna argumentar com cabalas miríficas, boatos ou pretensas listas de nomes. Mais: não contem comigo para analisar factos conhecidos em violação do segredo de justiça. A justiça é a justiça. A detenção de Paulo Pedroso foi decidida por um juíz, não foi capa do 24 Horas. Se perdemos esta clarividência, arriscamo-nos a semear um conflito que não vai acabar cedo. PL
DESTAQUE: Atenção ao PÚBLICO de amanhã.
OUR MAN VINCENT: Vincent Gallo apresentou em Cannes Brown Bunny. Um road movie narcisista e radical, que encerra com um b.j. realista da Chloe Sevigny (aliás a actriz mais corajosa da família indie). Gallo, o Infame, e Sevigny, a olheirenta sedutora? São três bilhetes, s.f.f PM
GET A LIFE: O PL antecipou-se, mas eu reforço a ideia. O único comentário substancial que me apetece por agora fazer sobre o caso da pedofilia é: estamos fartinhos até aos cabelos do Namora. Este Pedro até me faz ter saudades do Fernando. PM
NÃO CUSTA NADA: O nosso «manifesto» não serviu para nada? Serviu, serviu. É que agora os jornalistas, antes de escreverem sobre blogs, ligam para quem os escreve e fazem perguntas. É um métdo bastante simples. Chama-se «jornalismo». PM
E FORAM VISTOS NA «BRASILEIRA»: Ao que parece, os macacos são ainda mais da nossa família do que já sabíamos. Semelhanças de sociabilidade, sexualidade, transmissão de conhecimento e genes. Alguns cientistas já propõe, por exemplo, actualizar as designações. Assim, segundo os jornais, uma das espécies de chimpanzés deixará provavelmente de se chamar «Pan Paniscus» para se começar a chamar «Homo Paniscus». Parece que se descobriu que essa espécie em particular se dedica ao teatro, à diplomacia, à poesia e à moda. PM
MITOLOGIA: Em entrevista à 365, esse ícone que dá pelo nome de Vasco Lourinho confessa que tinha muitos anticorpos, sobretudo na televisão, sendo, como era e é «feio, gordo, careca e de direita». Como eu compreendo o nosso homem em Madrid. A minha calvície está a dar os primeiros passos, mas já possuo fartamente os outros atributos de Lourinho. Se não vingar como poeta, quero ficar conhecido como «o Vasco Lourinho da sua geração». PM
COMENTAR O QUÊ? Fui surpreendido pela detenção de Paulo Pedroso e mal soube da notícia corri à coluna para ler comentários sobre este caso. Fiquei ainda mais surpreso quando li o post de Pedro Lomba: "Não fazemos comentários..." "O tempo não é para boatos". Como "boatos"? Não se trata de boatos. Não se trata de uma notícia lançada por uma qualquer publicação sensasionalista da imprensa portuguesa, trata-se de uma investigação feita pela Polícia Judíciária. Claro que não podemos apontar Paulo Pedroso como culpado; ele ainda ainda não foi julgado, mas também não podemos menosprezar os fortes indícios recolhidos do decurso do trabalho da PJ, suficientemente fortes para, pelo menos, um magistrado lhe aplicar uma medida de coacção máxima. Mas isso até nem é o facto relevante, que me levou a escrever-lhes. O caso é outro. É caso é que este é, como diz Pedro Lomba, o maior desafio da justiça portuguesa. Por uma vez ela, aos olhos de todos, parece cega; não distinguindo ninguém, e parece implacável também. O que é excitante e reconfortante. O caso é que, há o risco de muita gente alinhar, tal como Pedro Mexia o identifica no post seguinte, "em tiradas demagógicas e diatribes contra a classe política". O caso é que, tal como o director do Público o assinala, a confiança na justiça e na classe política portuguesas, bem como a auto-estima nacional, estão a passar um momento grave. Quando tudo isto acontece, a melhor forma de lidar com todas estas ameaças e todos estes medos, a melhor forma de evitar a radicalização e a demagogia, é a discussão clara e inteligente, sem preconceitos entre gente de bem. Justamente o tipo de discussão que a Coluna tem oferecido a todos; bem, pelo menos até hoje. Este será também um momento importante para a Coluna. Ou se atrevem a comentar assuntos decisivos e habituam o público a procurar-vos sempre que precisar de uma visão mais abrangente, no que diz respeito a temas essenciais; ou se limitam de vez, a comentar os videos pornográficos que vão aparecendo na internet e se as mulheres cultas cheiram mal (com o meu devido respeito por tais temas que também são importantes). O vosso silêncio é imcompreensível. Se não pensem: o número dois do principal partido da oposição foi detido. Não vão comentar isto? Então
vão comentar o quê? E para quê, se fogem às questões realmente importantes?
(Nuno Carneiro)

Caro Nuno: nós não fugimos às questões importantes. É evidente que este assunto é gravíssimo, e mais grave ainda agora que atingiu um representante da Nação. Mas por enquanto não podemos e não sabemos dizer mais do que isto. Desconhecemos a culpa ou a inocência de qualquer um dos arguidos, não alimentamos especulações sobre as «listas» (que conhecemos), não gritamos «cabala» nem exclamamos «acabem com eles todos». Esperamos para ver. Confiamos na Justiça portuguesa, e não julgamos que se prendam pessoas num caso desta gravidade sem indícios muito fortes. Mas indícios não são provas. Os arguidos até agora constituídos são cidadãos sob investigação. Os nossos comentários virão quando houver julgamentos e condenações ou absolvições. E aí das duas uma: ou perde credebilidade a Justiça ou o poder político. Seja como for, será uma catástrofe. Esse é, por agora, o único comentário. PM
QUE BESTA ESSE NELSON: O Ricardo reproduz uma carta aberta do Nelson Rodrigues, na qual este ensaia uns toscos piropos aos militares para conseguir a libertação do seu filho, um esquerdista assumido. Realmente, Ricardo, este Nelson era um animal. PM

quinta-feira, maio 22, 2003

FAMA: Serei eu o único achar que o sr. Pedro Namora já teve bem mais do que os 15 minutos de fama que merece? PL
MAUVAIS SANG: Respondo a tudo o que quiserem, a tudo o que sobre mim escreverem em mails ou nos blogs, mas não vou responder a quem diz que não gosta dos meus livros. Não porque fique aborrecido com esse comentário, mas simplesmente porque não tenho nada a objectar. Eu, se fosse fazer a crítica dos meus livros, provavelmente também não gostava. You know me. PM
POIS POIS: Caro Ricardo, não estamos, parece-me, a falar do mesmo assunto. Não me referi aos opositores brasileiros, comunistas ou não, que evidentemente se arriscaram e mostraram coragem. Escrevi uma coisa muito mais comezinha: a coragem intelectual. Nos anos 60, Nelson Rodrigues era um dos raríssimos intelectuais de direita no Brasil, atacado e vilipendiado por todos os lados por isso mesmo. E isso nós admiramos. Quanto a uma suposta proximidade do Nelson à ditadura militar, lamento dizer que estás mal informado. Lê a biografia do Ruy Castro, O Anjo Pornográfico. Nem toda a gente de direita defende as ditaduras militares, Ricardo. E não, não vou meter-me com a tua bela ideologia vermelhusca, que trouxe ao mundo, como se sabe, esplendores de liberdade e prosperidade um pouco por toda a parte. PM
I'M A LOSER BABY: Toda a gente viu o vídeo do Taveira, menos eu. Toda a gente já viu o filme da Fernanda Serrano, menos eu. E ainda há quem diga que eu sou um homem culto. PM
LINDA LINDA ESTA BALADA QUE TE DOU: Tenho andado numa fase revivalista a ouvir o primeiro pop-rock português dos anos 80. Ouvir aquelas músicas fez-me fazer um paralelismo entre aquelas bandas e os blogs. Associo a Coluna Infame aos Heróis do Mar, dada a postura contra-corrente e direitista face à inteligentzia do jornalismo & cª nacionais. Assim, o JPC é o Pedro Ayres com a sua postura mais reservada e de ideólogo, o PM é o Pragal da Cunha pois dá mais a cara e é mais descarado. O Abrupto do JPP é tipo Rui Veloso institucional e a armar ao jovem. O Blog-de-esquerda, está para entre os UHF e o Grupo de Baile (os do patchouli), ou seja entre o suburbano e o os que pensam que por dizer umas coisas chocantes faz deles uns tipos modernos. Os Marretas estão para os Xutos (só por uma questão de semântica). Os primeiros tempos de GNR estão para os Espigas (ligeirinho mas inofensivo). António variações = Planeta Classe M (por motivos óbvios) Manuela Moura Guedes (foram cardos foram prosas) = Charlotte. Adelaide ferreira / Taxi/ Jafumega/ Trabalhadores do comércio....tudo coisas que não são do vosso tempo... (José Duque)

Caro José: não são do nosso tempo?? O perfume patchouli?? Ó, calunia. Lembro-me bem dessa maralha toda, e confesso que preferia ser os Táxi. Nunca ninguém tinha chamado «reservado» ao JCP. Também nunca ninguém me tinha chamado «descarado». Não sei se ficamos contentes. Os outros blogs dirão de si. Ah, e quem será a dupla Armando Gama & Valentina Torres? PM
TELEGRAMA: PARABENS FCP PARABENS JPC STOP
UM MOMENTO GRAVE: Reforço o que o Pedro aqui escreveu: temos sido parcos em comentários sobre o caso da pedofilia, porque não há nada a comentar, apenas aguardar que as investigações prossigam e que a justiça funcione. É preciso acabar com a impunidade. Não nos pronunciamos sobre os suspeitos em concreto, porque nada sabemos sobre as razões que levaram à sua detenção. Mas é evidente que o caso ter atingido agora um político é de uma extrema gravidade. É triste para o país. É triste para nós, porque se trata de um amigo de amigos. Não alinharemos em tiradas demoagógicas, em diatribes contra a classe política. Presunção de inocência é presunção de inocência. Esperamos para ver. Só isso. PM

quarta-feira, maio 21, 2003

PP: Não fazemos comentários sobre Paulo Pedroso. O tempo não é para boatos, graçolas ou para a morbidez em que este país se está a tornar especialista. Os processos da Casa Pia são o maior desafio à justiça portuguesa de que temos memória. É bom que as instituições funcionem ou vem aí o dilúvio. PL
SEVILHANOS: Não é só Sua Excelência o dr. Sampaio que vai estar em Sevilha logo à noite. O Fêcêpê desdobrou-se em convites a parlamentares do burgo para assistirem à grande final. E os nossos amoráveis parlamentares, em vez de parlamentarem num dia quente, num dia propício aos umbigos, lá foram cantando e rindo para o sol andaluz. Deixo esta perguntinha inocente e invejosa: esta gente não percebe que foi eleita para trabalhar? PL
JORNALISMO? O jornalismo televisivo é muitas vezes um manancial de informações irrelevantes. Vejam: o senhor Jorge Ritto é ontem detido. A SIC desloca-se à casa do diplomata, em Cascais. A partir de um recibo esquecido no carro, informa-nos que o sr. Ritto passeou pela marina há dois dias; depois, que Ritto lê o Expresso semanalmente; e, por fim, para conhecimento de todos, que o diplomata Ritto adora papaia, um facto longa e tristemente ignorado. É por causa destas coisas que mais vale ler blogs. PL
PR VAI À BOLA: Aqui a malta nem embirra muito com o Presidente Sampaio, sobretudo desde que ele desiludiu a esquerdalhada na questão da guerra. Mas, francamente, o PR ir ver a final da Taça UEFA não é um bocado parolo? Como dizem as minhas tias: «Vejam lá se os presidentes estrangeiros fazem essas figuras». PM
FNAC E MESTRES: O Pedro Mexia é engraçado: era capaz de apostar que todas as semanas vai à FNAC/Chiado (sorte a dele, que gosta de ler e vive em Lisboa). Mas depois fica com sentimentos de culpa, sente que traiu a sua pátria ideológica, vai lavar a alma em qualquer lugar com nome de marca de chá inglês, e vem para o blog chamar à FNAC chomskylândia e amaldiçoar o dia em que lá entrou. Olhe, faça como os americanos. Eles não resistem a comer french fries, certo? Mas para disfarçar agora chamam-lhes “liberty fries”. Certo? Portanto, chame à FNAC qualquer outra coisa que não FNAC, Shakespeare and sons, por exemplo, e passe cuidadosamente ao largo dos livros do chomsky, que desde a última vez que lá entrei já devem ocupar trinta estantes, pelos vistos. E sabe uma coisa? O Nelson Rodrigues se ainda fosse vivo, incluiria a blogosfera no tal rol dos idiotas. Não se zangue comigo, Pedro, é só uma blague, ups, just a joke. E já agora, não haverá no vosso livro de citações textos do Nelson Rodrigues menos idiotas do que esse? Irrita-me particularmente gente que chama idiota a toda a gente. Já me irritava o Paulo Francis, um dos vossos heróis, que eu lia quando ele ainda era vivo e se vendia cá o Estado de São Paulo e o Globo. O homem tinha talento e uma especial vocação para estar sempre contra a corrente, mas aquele género de príncipe da renascença trauliteiro, que tudo sabe e que tudo critica, de que vocês tanto parecem gostar, é particularmente irritante. (António Ramos)

Caro António: vou realmente todas as semans à FNAC abastecer-me das novidades (DNa oblige) e comprar alguma livralhada estrangeira. Acho que a loja do Chiado é boa. Mas a secção da política não apresenta o menor pluralismo, e essa escolhe facciosa aborrece-me. Só isso. Quanto aos nossos dois mestres brasileiros, anotamos as reclamações. Mas olhe que nunca é demais chamar «idiotas» a torto e a direito, que por muito que se use o epíteto fica sempre alguém de fora que merecia a etiqueta. O mundo não é, felizmente, perfeito. PM
OLHA QUE DOIS: Um novo blog, com um nome bem original: Thomaz Cunhal. Duas referências de todos os humoristas. Bem-vindo. PM
E AINDA MAIS UMA: Sobre esta matéria a Charlotte fornece-nos a pista que faltava. Mulheres letradas e belas? Há, com certeza que há. Mas são... casadas. Damn. PM
E MAIS UMA: A minha amiga Clara Cabral, que já há tempos me tinha incentivado para vos escrever a propósito da guerra, sob a provocação de saber como é que “reaccionários” (o termo é dela) poderiam polemizar sobre ela, está indignadíssima com as observações do Pedro e dos restantes acerca das relações entre inteligência e higiene feminina. Perguntou-me se todos os “conservadores” (mais uma vez, o termo é dela) partilham, mesmo que sem pretensões a elaborar teorias, a representação vaga de que essa relação seja quase sempre a de uma proporcionalidade inversa. Lá lhe tentei explicar que não, que isso era uma observação datada, que devia ter exagerado ou compreendido mal o que queriam dizer. Mas, depois de ler os “feios, porcos e letrados”, veio-me uma impressão estranha. A FNAC em que o Pedro diz que entra, e onde tem os seus encontros imediatos com o insólito, deve ser uma espécie de máquina do tempo, parecida com os congressos do Bloco de Esquerda na Voz do Operário, que o transporta directamente para os anos 60 e os tempos do flower power. Olhem à volta. Não me parece que se possa hoje encontrar com facilidade na FNAC sobreviventes daquela espécie felizmente quase extinta, em que algo situado entre o animal e o humano, de cabelos desgrenhados e cheiro a suor, se arrasta pelos prados a gritar: make love, not war. E, apesar dos revivalismos, também me parece difícil acreditar
que as mulheres que vocês conhecem no meio literário ou intelectual correspondam ao estilo da menina míope, de nariz adunco, franzina e com voz irritante, de sovaco peludo e de unhas descuidadas, com um desinteresse pelo aspecto que reflecte uma desistência da vida. É claro que ainda há, sobretudo nas universidades portuguesas, alguns exemplares clássicos desse tipo, os quais, apesar de particularmente irritantes pela necessidade incontida de partilhar com os outros as frustrações próprias, não deverão deixar de ser conservados como curiosidades zoológicas e arqueológicas. Mas a prova de que vocês também conhecem outros tipos (que felizmente não são raros) é a pergunta do JPC: «É possível encontrar uma mulher simultaneamente bela e culta? Uma mulher com a beleza da Michelle Pfeiffer e os miolos da Martha Nussbaum» (SIC!). Um colega meu, que a conhece, definia-a como a very physical woman. Não lhe perguntei a razão do adjectivo. Mas, caro JPC, já olhou bem para a Nussbaum? Acha que ela pertence ao tipo das que não se depilam? É não querer ver a realidade, é não andar à procura dela. Depois não se queixem: como diz o provérbio oriental, quem não sabe o que procura, ignora o que encontra.
(Alexandre Franco de Sá)

Caro Alexandre: tu és, evidentemente, um dos bafejados pela sorte do convívio com mulheres belas e cultas. Nunca esperei outra coisa de ti. As «curiosidades» a que me refiro não se encontram particularmente na FNAC (bem pelo contrário), mas em tudo o que seja teatro independente, lançamento de livros de poesia e coisas assim mais masoquistas. Aí, caro Alex, é a lojinha dos horrores, garanto-te eu. Tu falarás, provavelmente, de meninas bem-nascidas e perfumadas, quem sabe se com andanças académicas, que cultivam a cultura como mais uma forma de bom-gosto, mas a verdade é que as deves conhecer todas, porque aqui os Infames é uma desgraça. Mulheres bonitas e interessantes? Imensas. Mas a gente fala-lhes de Naipaul e elas exclamam «não percebo nada de futebol». Será que uma nuvem azarenta se concentrou sobre as cabeças Infames? É possível. Daí que os Infames comprometidos, mal encontraram uma dessas raridades belas e letradas, lhe ferraram o dente e não largam. Eu sou manifestamente mais azarado: a última rapariga por quem me interessei dava erros de português. E, sim, era lindíssima. E não, não me atrai particularmente que uma rapariga, por mais bonita que seja, dê erros de português. Em resumo, Alexandre: como em tudo na vida, isto não é uma questão de opinião, é uma questão de sorte. PM
AS MULHERES E A CULTURA: As mulheres não são homens de acção. São pragmáticas, é certo, à sua maneira, mas a sua acção não pode ser medida por referência a um modelo masculino. Justifica-se para resolver problemas concretos, necessidades de sobrevivência e não é accionada, como nos homens, pelo espírito de domínio, diversão ou competição. Por isso as mulheres se desinteressam de áreas que não tenham directa repercussão na sua esfera de felicidade pessoal ou alheia. Falo da política porque não estou a ver que a vossa referência ao nosso pouco entusiasmo intelectual tenha outro âmbito. Nós amamos a literatura, a música, a pintura. Desprezamos esmagadoramente a política, sim- esse território que se tornou área de domínio, diversão fastidiosa e competição, granjeamento de honrarias e bens sem muito esforço. E note-se de parca- para não dizer nula- utilidade pública. E em época de crise ainda é mais acentuada o arredamente político da mulher porque está mais vulnerável a felicidade da sua família. George Steiner numa entrevista que deu de passagem por Lisboa disse acreditar que se os homens cedessem o poder, qualquer que ele seja, político ou académico às mulheres, em vez de ainda o preservarem ciosamente nas suas mãos, estas o exerceriam de modo totalmente diferente. Talvez, de início, as mulheres imitassem esses homens de acção, como a vítima imita o carrasco, mas o tempo revelaria as diferenças. E em que é que os infames se baseiam para afirmar que uma mulher não morre de amores por uma vida intelectual activa? Estatísticas da iletracia do povo português não diferenciam o sexo. Nas universidade andam mais mulheres do que homens... nos meios académicos, por este andar, chegaremos à maioria. Serem prioritariamente homens os intelectuais da nossa praca, colunistas e fazedores de opinião? Dêem-nos tempo, mais uma ou duas gerações. Dêem-nos tempo e não temam.Para bem de todos chegaremos a essa vida intelectual activa como uma lufada de ar fresco. Não será muito mais estimulante para todos quando assim for? Como Maria Lamas disse: "enquanto as mulheres forem escravas, os homens não serão livres" ou, como disse Natália Correia, a sociedade só se poderá regenerar quando as mulheres ganharem consciência. Durante séculos, é certo, não deixámos vestígio visível da nossa passagem. Estivemos em casa, como Virginia Woolf assinalou em "A room of one's own'", presas de uma dúzia de filhos, sem um minuto nosso nem uma sala onde nos pudessemos isolar a escrever, vivemos nessa sala de visitas, desmultiplicadas em tarefas, exercitando a perspicácia social e relacional, a reflectir como espelhos a imagem do homem no dobro do seu tamanho, estivémos no quarto das crianças a proporcionar que, num simples golpe de vista, o homem regressado a casa retemperasse as forças físicas e intelectuais e, sobretudo, naquele seu oposto encontrasse a sua capacidade criativa . Sem nós, mães, musas, não só o homem não teria saído da selva e rasgado estradas como não teria criado obras de arte. Agora só queremos estar entre a sala de brinquedos, o parlamento, a rua. Será que vamos conseguir estar em todo o lado? (Clara Macedo Cabral)

Cara Clara: estamos de acordo com 3/4 do seu mail, e até nos comovemos com esse uso do plural. Mas nós não dissemos em lado nenuhm que há uma incompatibilidade entre as mulheres e uma «vida intelectual activa», apenas referimos que, por qualquer razão, muitas das que têm «vida intelectual activa» não primam por outros atributos da feminilidade. Como já disse e repeti, não é uma regra, nem uma estatística, nem uma tese: é uma experiência empírica. Quanto à frase de Steiner, nem o facto de ser um dos meus autores de cabeceira mas faz hesitar perante uma das maiores baboseiras do discurso feminista: a de que o poder exercido pelas mulheres é mais (acrescentar adjectivo s.f.f.) que o poder exercido pelos homens. Historicamente, isso não é verdade, e não há um único exemplo que comprove essa tese patusca. As feministas até chamavam à sra. Thatcher um «homem». As mulheres têm os mesmos defeitos dos homens, e de resto os defeitos do poder são, precisamente, do poder, e não necessariamente de quem o exerce. Será que as mulheres não podem ser tão cabras como os homens são estupores? Ó Clara, isso é pão-nosso de cada dia nos escritórios e nas empresas. A dignidade da mulher não ganha nada com essas mistificações grotescas. Leia mais Virgina Woolf e menos Maria Lamas. PM

terça-feira, maio 20, 2003

FILME DO ANO COLUNA INFAME: Ainda é Maio, mas o filme do ano está encontrado: 25th Hour (A Última Hora), de Spike Lee. Como já foi dito, este é o filme que Scorsese não soube fazer, metido na trapalhada de Gangs, e a deixar escapar a cidade de que é o melhor cronista. Porque 25 th Hour é, antes de mais, a melhor elegia nova-iorquiana produzida nas últimas duas décadas, desde Taxi Driver possivelmente. Elegia acentuada pelo cenário pós-11 de Setembro, que o filme é também pioneiro a captar. Relato do último dia em liberdade de um traficante, 25 th Hour enquadra o drama individual no esquema mais vasto da cidade, e em especial no sentimento traumático do atentado às Twin Towers. Depois de um prólogo metafórico, o genérico do filme é um assombro estético e emotivo, com a banda-sonora de Terence Blanchard, lamentosamente lânguida, a sublinhar dois enormes focos de luz, que marcam o lugar das Torres desaparecidas, e projectam a luz para o infinito. O filme constrói-se em engenhosos mas discretos flashbacks, que complementam narrativa duas ou três sequências longas a magistrais, em particular o painel central, na discoteca. Monty (Edward Norton) carrega a tristeza do mundo, que é também a tristeza de uma cidade e a memória cinéfila de beautiful losers como Paul Newman e Montgomery Clift. Há também a vistosa namorada porto-riquenha (Rosario Dawson), o pai ex-alcoólico (o sempre pungente Brian Cox), o tipo solitário e frustrado (o meu sósia, Philip Seymour Hoffman) e um yuppie angustiado (magnífico Barry Pepper). Ao ambiente de despedida, balanço, teste de fidelidades, junta-se uma série de sub-plots magistrais (a aluna sedutora) que mais realçam o carácter derrotista, amargurado, sombrio do filme. E há também raiva, na litania insultuosa que Monty dirige à sua cidade e em especial ao melting pot; diria que se Spike Lee não tivesse um irrepreensível currículo esquerdista, esta cena seria apodada de «fascista» e mimos costumeuros. E, no entanto, exprime apenas as frustrações e as cóleras individuais que, num certo contexto, acabam por ser tornar extensíveis ao mundo, e nessa medida políticas, com todo o caudal de preconceitos e embirrações. Só Scorsese (num dia bom) seria capaz de filmar esta cena, mas Scorsese tem andado desorientado. E assim Lee, que tem alguns filmes admiráveis no meio de lixo propagandístico, consegue um retrato de uma personalidade, de um situação, de uma cultura e de um momento histórico, tudo numa cena breve e simples. Já em Summer of Sam Lee tinha provado possuir a arte de um detector de terramotos, combinada com a de um metrónomo e de um miniaturista. Agora, vai mais longe, acentuado em poesia o que esse filme tinha sobretudo em desgosto e violência. Ed Norton já é, penso que ninguém duvida, o actor da sua geração, e com filmes assim terá uma carreira intocável. Confesso que não gosto muito do what if da cena final, embora um segundo visionamento tenha atenuado um pouco essa impressão. Mas um filme que nos transmite assim o coração de uma cidade, numa determinada época, e de vários modos agrega sentimentos difusos e dispersos, merece toda a nossa admiração. Tanto mais que Lee se tornou um mestre de set pieces e de takes longos e de movimentos fluidos de câmara, e que usa a montagem com uma habilidade que não é mero maneirismo. 25 th Hour é um filme duro e comovente, que põe a obra de Spike Lee num primeiríssimo plano que nem sempre tem merecido. É o Filme do Ano da Coluna Infame. Se virem algum melhor, avisem. PM
NEOS? Os neomarxistas, neocomunistas, neoliberais, neosocialistas, neoecologistas, neofascistas - toda esta gente séria insiste em chamar-nos neoconservadores. Querem saber por que não razão? Leiam uma sequência de artigos de Jonah Goldberg sobre o tema e depois a gente fala. Desculpem: depois a gente falamos. PL
ATRASOS DO IMPÉRIO: Entretanto, uma remessa de livros da Amazon está a demorar mais tempo do que o previsto. O que se passa com o Império? Sou eu, ó ianques, uma criatura modesta mas que vos defendeu na Mesopotâmia com unhas e dentes. Querem mandar-me o Fareed Zakaria depois de democratizarem o Iraque? Vejam lá isso, sim? PL
LER: Uma editora de gente amiga publicou «Nós, os vencidos do catolicismo» - um conjunto de textos de João Bénard da Costa sobre os movimentos católicos progressistas aparecidos em meados da centúria passada. Prometemos comentário ao livro para breve. Comprem-no que vale a pena. PL
THANKS: O nosso contador de visitas registou ultimamente um ligeiro aumento do número de leitores desta página. É aspecto que nos honra, embora estejamos ainda bem longe dos 250 mil do nosso mestre. Obrigado a todos. PL
UM SENTIMENTAL RETRATO DO FORUM SOCIAL PORTUGUÊS: A nossa esquerda é um aglomerado de causas, de protestos, de fobias. E direi mais: direi que é também um aglomerado de siglas, de nomes, de definições. Vejam a diversidade, a imaginação onomástica das associações e dos movimentos inscritos no Fórum Social português. Temos, para começar, o varonil Instituto Marquês de Valle Flor. Gosto do instituto, gosto do Marquês mas, digo-vos, macacos me mordam se a coisa não é um grupúsculo reaccionário criado pelo Marquês Valle para enganar o povo com falso amiguismo. Hei-de investigar. O GOG (Grupo Oeste Gay) é intrigante mas não consegui apurar se será um sucessor da matilha dos portageiros do oeste, aquela que há uns anos transformou a A8 numa sequela do Mad Max. E que tal o Núcleo de Cicloturismo de Sesimbra? Eu pensava que os ciclistas (mesmo os turísticos) eram todos reaccionários, como o Vítor Gamito, que leu Burke ainda nós não tínhamos nascido; ms parece que me enganei e ficam já avisados que o Núcleo promete levar de bicicleta às nossas estalagens a social-democracia de Bernstein. Agora, não há cá enganos sobre a Plataforma Transgénicos Fora do Prato. Sei bem que os pratos de Portugal precisam desta plataforma e, por isso, não há discussões sobre este assunto ou os pratos voam. Já o PT é um grémio enigmático. Quem diria que, por trás desta sigla enganadora e naturalmente fascista, se esconde o importante movimento Pró-Organização Água Pública? Ninguém, por certo. Falemos então do Não te Prives, também chamado Grupo de defesa dos Direitos Sexuais. Confesso-vos a minha radical surpresa e estupefacção. Haverá alguém, neste mundo e no outro, que se queira privar desses direitos? O Não te Prives destinar-se-á porventura à terceira idade? Eis algumas dúvidas a esclarecer. E chegamos então ao Sobreiro 19, uma organização muito revolucionária, formada pela vanguarda dos sobreiros (embora liderada por um carvalho), que para estar presente no Fórum Social Português, decidiu adoptar o segundo nome de Associação Solidariedade com as vítimas das falências. A todos, o nosso bem-haja. Cá estaremos para discutir convosco. PL
LÍRICOS: Acordo e a primeira coisa que ouço, trémulo e cambaleante, é a voz elegíaca de Xanana Gusmão a fazer o retrato de Timor um ano após a independência. Ao fim de dez segundos, a voz de Xanana entaramela-se de emoção. Por pouco, não desato a chorar. Não sei o que se passa em Timor e por isso não opino. Mas sei que Xanana é um lírico e, em política, o lirismo costuma dar desastre. PL
ENERGÚMENOS: Durão Barroso chamou «energúmenos» aos agressores de Francisco Assis. Marcelo Rebelo de Sousa usou a palavra «energúmenos». Alguns deputados pátrios insurgiram-se também contra os «energúmenos». Não sabemos se Jorge Sampaio usou o mesmo mimo; mas, se não usou, andou certamente lá perto. Eu também acho que as agressões a Assis são coisas de «energúmenos». Mas, atenção, muitos dos «energúmenos» levam os filhos à escola e têm os impostos em dia. O meu semelhante pode ser um «energúmeno» e eu até gosto de o tratar com essa candura. Mas é preciso ter cautela com o idioma quando governamos ou representamos o povo. A não ser que apreciemos perversamente os votos desse povo de «energúmenos». Nesse caso, não está mais aqui quem falou. PL
CISÃO: Ainda a propósito dos umbigos, parece que temos cisão aqui na Coluna. Para contrariar a minha hostilidade a esse (mau) pedaço carnal, o PM (ver abaixo) jurou fidelidade a todo e qualquer centímetro do corpo feminino. Perdoo ao Pedro a discordância mas só porque ele ainda não viu o buço da padeira da minha rua. De qualquer forma, reparem como o nosso desentendimento foi provocado por um agradável comentário da Charlotte ao meu manifesto anti-umbilical. Pois é, amigos: as mulheres têm sempre o condão de nos desunir. PL
BOFETADAS: A febre de Felgueiras ameaça alastrar-se à classe dirigente. Chegam-nos notícias, não confirmadas, de que Narciso Miranda esbofeteou a secretária. Durante anos, as secretárias preencheram o imaginário de todos os carenciados sexuais. A mão leve de Narciso acabou com a fantasia. É pena. PL
MEC: Um muito obrigado e uma calorosa saudação ao one and only MEC, que se refere simpaticamente à Coluna. Miguel, por alguma razão há finalmente entre nós (nos blogs, ao menos) uma direita culta, civilizada, liberal e irónica. E todos nós sabemos a quem se deve essa viragem. PM
TOO FAR AWAY: Continuamos a receber diariamente mails com propostas sexuais. Infelizmente, vêm todos de Itália. PM
A COLUNA NÃO É DEMOCRÁTICA? Publicámos, integralmente e sem comentários, a resposta de Paulo Querido ao nosso manifesto, coisa que nem os jornais «de referência» fazem. Poupem-nos, por favor, lições sobre democracia. PM
POIS, POIS: O Ricardo censura-nos por incensarmos Nelson Rodrigues. Mas, Ricardo, convirás que a prosa é magnífica, e que ser reaccionário no Brail (nos anos 60) exigia uns muito grandes. E nós gostamos de boa prosa e de coragem. Tiques de escrita? Quem não os tem? Quanto ao que dizes serem os raros autores «de direita» que sabem escrever, podemos começar a fazer listas, se te apetecer. Verás que a «direita» não fica, de todo, a perder. E que a maioria dos escritores «de direita» até estão à direita da Coluna. Cuidado com os clichés intelectuais da canhota, Ricardo, olha que não resistem a um escrutínio atento. PM
ARTIGO 12: Chegou-me aos ouvidos que dirigentes da Nova Democracia leram o nosso post sobre o famoso artigo 12, que era uma pura invenção, o que na altura me pareceu claro, mas que pelos vistos foi levado a sério por muitos. Curiosamente, os Novos Democratas acharam graça, porque entenderam a coisa como uma piada a terceiros. Um pouco mais de epistemologia, rapazes. PM
BESTIAL: Por falar em mulheres, tivemos uma sugestão de Musa: Fernando Serrano. Mas vamos lá ver: nós somos liberais em termos de costumes, mas repudiamos totalmente sexo com animais. Por isso a Serrano está out. Compreendido? PM
CHEIROSAS E LETRADAS (CONT.): Uma amiga telefona. «Pedro, achas que eu sou normal, gira ou muito gira?». Oh não, teve uma discussão com o namorado. «E achas que eu sou inteligente?». Crise de auto-estima, as mulheres são assim. «E achas que eu cheiro mal?». Ah, já percebi onde queres chegar. Respondi-lhe que não declarei que as mulheres que lêem cheiram mal. Disse que, na minha experiência, as mulheres intelectuais deixam muito a desejar na higiene e na aparência. Temos imensos mails a contestar, mas, meus amigos, a minha experiência é esta, e não fiz nenhuma lei. Bem podem dizer: «Olha o Pedro Mexia a falar de estética», mas a verdade é que a mim não me faz diferença que os homens «intelectuais» (em que por caridade me incluem) sejam horrorosos, como certas pessoas (mas não cheiro mal, estejam descansados). A estética masculina tem para mim um interesse bastante limitado, e certamente não me motiva posts. Mas as mulheres interessam-me, e essa animosidade das leitoras de Derrida com o sabão preocupa-me, o que se há-de fazer? Mas, repito, ó leitoras giras e asseadas que lêem livros: eu não nego que sejam giras, asseadas e letradas (olhem a nossa Charlotte), mas vosselências são a excepção que confirma a regra, e não creio, aliás, que sejam intelectuais (Deus vos livre). Espumem à vontade, ó leitoras, com o que a gente escreve, mas leiam o que a gente escreve, pode ser? PM
APRENDAM: The Go-Betweens em Lisboa. Não me lembro, assim de repente, de nenhuma contribuição da Austrália para o mundo da cultura tão relevante como os rapazes de Brisbane, a não ser o fabuloso Clive James. O concerto do Paradise Garage mostrou que têm ainda que ser os velhinhos a mostrar como se faz. Grant McLennan está mais velho, careca, e canta de uma forma doce s sonhadora. Robert Foster está muito mais velho, de cabelo despenteado, uma camisa tropical por baixo do fato, uma pose bizarramente erecta (salvo seja), e aquele ar estremunhado de quem acabou de acordar ou não está completamente sóbrio, e cultiva uma ironia mais distanciada que joga maravilhosamente com o estilo naif do parceiro. As canções, bom as canções são um néctar envelhecido na perfeição, de feitura clássica, sem mariquices modernaças, entre o singalong e a rockalhada, com as guitarras mais elegantes do pedaço. Canções sobre revistas de surf e a Princesa Carolina, mas também sobre as eternas relationships desencontradas, e mesmo temas mais desesperados como de «Was There Anything I Could Do», 16 Lovers Lane (1988). Robert Foster animou-se, para o fim (quatro encores, senhores!), dançando, estiloso, uma espécie de hula hoop sem hula hoop, fazendo de Bryan Ferry em despedida de solteiro, sempre entre o festivo e o calculista. Não estava muita gente, mas quem estava sabe que os anos 80 vão ser difíceis de superar, no que à pop diz respeito. Haverá bandas em actividade tão boas como os Go-Betweens, mas nenhuma melhor. Os Limp Bizkit que me perdoem. PM
CONEXÃO: Alexandra Solnado foi à televisão há dias para convencer os fiéis a procurarem uma «conexão directa com o céu, sem intermediários». Nunca pensámos muito sobre esta questão dos «intermediários» mas as convicções de Alexandra Solnado merecem-nos todo o respeito. Além disso, «conexão directa com o céu, sem intermediários» é a definição mais bonita de masturbação que eu conheço. PL

segunda-feira, maio 19, 2003

A RESPONSABILIDADE DE PORTAS: Provem-me que o dr. Portas mentiu em tribunal e eu retirarei tudo o que tenho escrito nesta página em sua defesa. Mas, notem bem, para isso precisam de apresentar uma acusação. O que tenho procurado dizer é que o caso de Portas está para além da mera responsabilidade política e da mera responsabilidade criminal. É um caso em que ou as duas responsabilidades coexistem ou então nada feito. Portas só pode assumir a responsabilidade política se for acusado; e só pode ser acusado se se demonstrar que cometeu um acto intolerável e criminoso para quem ocupa um cargo ministerial: a mentira em tribunal. Não são a regra mas há casos assim. PL
UM CANALHA: Então eu visito um familiar hospitalizado. Na sala de espera, avisto um exemplar do Público em cima da mesa, órfão de dono, solitário. Faço o que qualquer ser humano faria. Ponho a mão. De súbito, um ancião furibundo, de uma notável parecença com Kaulza de Arriaga, aproxima-se de mim e afasta-me a mão. Desfaço-me em desculpas. Ele, o ancião, dispara: «Não desculpo. Era mais do que evidente que este jornal pertencia a alguém». Eu calo-me. Estava visto. Era um canalha. PL
UM EX-COVARDE: Sou, como Nelson Rodrigues (desculpem lá abusar das citações do homem), um «ex-covarde». E se há coisa que nos distingue, a nós ex-covardes, é a facilidade com que reconhecemos os canalhas. Reconhecemo-los a léguas, na torpe aparência do seu mérito. É claro que não estamos sozinhos: os próprios canalhas desconfiam, pressentem, sabem que são canalhas; e sabem que nós, na nossa ex-covardia, os reconhecemos. De maneira que o mundo tem esta admirável certeza: os canalhas sabem-se canalhas e sabem que nós, ex-covardes, também os sabemos canalhas. Gosto disso. PL
DIREITO DE RESPOSTA: Do jornalista do EXPRESSO, Paulo Querido:

Aqui estou a dar o peito às balas - e a provar que afinal há (mais) jornalistas que lêem blogs. no meu caso, que não é único, há muito tempo. mais tempo, muito mais, do que de vida têm os quatro blogs subscritores somados.

Prova o "post" que os autores (dizem-me que um deles até é jornalista) nem sequer lêem jornais - ou no mínimo não lêem o Expresso, que já citou em diversas ocasiões blogs COMO FONTES IDÓNEAS de informação. E citou segundo as melhores regras: dando o link para o blog (ou "post") original.

Sobre a "fasquia da inutilidade" não me darei à incansável trabalheira de afixar: é inútil.

Um abraço

Paulo Querido