domingo, maio 18, 2003

PELUCHES: Tenho uma atracção verdadeiramente entomológica por «comunistas renovadores». São tão engraçados. São tão poucos. São tão patetas. Se tivesse filhos, comprava-lhes uma dúzia de renovadores pelo Natal. Os peluches estão fora de moda. PM
FACHO FAVOR: Soube que há algures um fórum de discussão que me chama repetidamente «fascista». Alguém me explica como se chega ao dito fórum? Estava a ver que Maio chegava ao fim sem me chamarem isso. Tenho uma reputação a manter, amiguinhos. Deus vos pague. PM
CARAS NOTÍCIAS: Temos que confessar que a nossa primeira musa, Miss JAD, é melhor na tv. Ontem, para fazer juz às críticas, os «amigalhaços» dos blogs foram mesmo todos «para o Lux». Lá estava a nossa Joana, gira q.b. mas pouco notória naquela moldura humana de libidinosas miúdas dançantes. Devo dizer que ver uma deputada a abanar o tronco ao som de uma coisa qualquer electrónica nos faz perder um bocado o respeito pelos órgãos de soberania. Mas adiante. Como outros blogs já revelaram, o consorte não estava; ao que apuramos, MP está agora romanticamente envolvido com Meg Ryan. Mas Salma Hayek já anunciou que vai lutar pelo seu homem. PM
CADA CENTÍMETRO: Aproveito para discordar publicamente do PL sobre a questão dos umbigos e sobre os outros items referidos na carta que enviou à Charlotte. Não há absolutamente nenhum centímetro do corpo feminino que não mereça uma ode triunfal. Em momentos propícios, até de cotovelos gosto. Acontece que fazer do corpo uma montra exige uma série de trabalhos estéticos e ginasticados que não se compadecem com leituras demoradas de O Mundo como Vontade e Representação, do Schopi. O que nos leva de volta à discussão que nos tem entretido, e que ainda agita a nossa caixa de correio. Amanhã postaremos aqui mais considerações sobre o tema Cheirosas & Letradas. Entretanto, leiam no Complot algumas reflexões sobre o assunto que temos raiva de não ter escrito. PM
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MUSICAL): Avisamos a população que amanhã à noite, no Paradise Garage, em Lisboa, os Go-Betweens mostram aos interessados (portadores de bilhete válido) como se faz uma canção pop perfeita. A primeira parte não será feita pela Shakira. PM
O TOLERANTE ISLÃO: Penso que todos terão lido a carta do director da revista islâmica Al Furqán ao PÚBLICO, dizendo que a nigeriana Amina Lawal, condenada à lapidação por adultério, sofreu uma condenação injusta porque não havia as quatro testemunhas exigidas. Se um responsável de uma igreja cristã dissesse uma coisa inifinitamente menos grave (sobre qualquer questão sexual, p. ex.) caía o Carmo e a Trindade. Mas o Islão é uma religião tolerante. Pois. PM
RENOVADORES: Estou para aqui a rasurar umas coisas e Ilda Figueiredo está na televisão a opinar sobre o mundo. Será que o PCP não percebe que cada frase de Ilda Figueiredo, são dois renovadores? PL
PÁTRIA : A pergunta é comum mas sacral: o povo português é de esquerda ou de direita? Salazar reinou por décadas. Houve a República da carbonária e da formiga branca. Existiu Abril, com a sua loucura impossível. O dr. Cavaco, com a sua aspereza educadora. Estamos à esquerda ou à direita? Respondo: nem à esquerda nem à direita. Os portugueses são um povo de sentimentais, de coléricos, de arrependidos. Somos gemedores profissionais. Queremos um "Portugal em boas mãos", desde que essas "mãos" sejam as "mãos dos outros". Se já experimentámos todos os regimes, é porque não somos um regime. E andamos por aí no meio da ruas a gemer tristeza, a gemer a nossa fatalidade. Já viram com certeza fotografias de portugueses de gerações antigas, na monarquia, na 1ª República: portugueses mirrados, esmaecidos, às vezes numa alegria falsa e vazia. Essas fotografias são o mais duro retrato da maldição que nos persegue. PL
AS FITAS: Uma família portuguesa reúne-se para festejar o desfecho universitário da menina. A menina é finalmente psicóloga, socióloga, licenciada em germânicas ou em direito. Olho para ela. Está vestida de preto e baba um orgulho lânguido, um orgulho choroso por tias, primas, avós, pelo borbulhento irmão que vê nela um exemplo canónico. Sigo a cena com ternura. Desvio-me prudentemente da baba. E lembro-me, amigos, lembro-me dos meus últimos momentos num certo dia de Maio naquela alameda universitária. Todo eu tremia de descrença diante daquela falsa canonização. A alameda cheia e eu quieto, numa solidão sentenciosa. Fugi a sete pés das fitas porque, verdade seja dita, quis evitar os elogios. Fugi das típicas viagens ao México porque a mera ideia de encarar dois terços dos meus comparsas de fato-de-banho, me causava horrores e transpiração fria. Nada tenho contra as comemorações universitárias. Um país civilizado é dado à memória, à celebração, ao reconhecimento. Mas os festins universitários são frívolos, insignificantes e dispensáveis. Uma simples passagem que não deixa marcas. PL
Publicou o Expresso, no encarte Única de 17 de Maio (não vale a pena fazer link, que é a pagar), mais um artigo apressado e ignorante sobre a blogosfera portuguesa, que entre outras imprecisões e trapalhadas, termina dizendo: O que nenhum «blogueiro» escreveu foi que a escrita, as ideias e a cultura de José Pacheco Pereira vêm reforçar qualitativamente uma «blogosfera» de expressão portuguesa onde a imensa maioria do que se publica não ultrapassa a fasquia da inutilidade. Mentira: o Abrupto, de José Pacheco Pereira, foi amplamente saudado pelos outros blogs.

Infelizmente, é na imprensa escrita portuguesa que a imensa maioria do que é publicado não ultrapassa a fasquia do inútil, como bem prova o Expresso. Este não é, aliás, o primeiro texto ignorante que a nossa imprensa tradicional publica sobre esta matéria. Ora, uma das nossas práticas é ler atentamente os artigos da imprensa escrita, e sempre que possível fornecer o respectivo link. O cuidado inverso não se verifica. Já sabíamos que grande parte dos jornalistas não lêem jornais; sabemos agora que também não lêem blogs, mesmo quando a eles se referem. É verdade que em todos os países onde o fenómeno dos blogs surgiu é frequente a imprensa tradicional desvalorizar este novo meio, pondo em causa a sua qualidade e credibilidade. Mas ao menos essa imprensa conhece o fenómeno que critica. O mesmo não podemos dizer sobre os nossos jornalistas.

Percam algum tempo a visitar os melhores blogs portugueses, sobretudo os políticos, p. ex. através deste directório. E digam-nos em que jornais se encontra mais quantidade de informação, pluralismo ideológico e, sobretudo, qualidade de escrita.

Leiam e aprendam.

A Coluna Infame
Blog de Esquerda
Blogue dos Marretas
O Intermitente
O País Relativo
Picuinhices

sábado, maio 17, 2003

FELGUEIRAS: Felgueiras não me espanta. Marco de Canavezes não me espanta. Nada me espanta. Sou um céptico até aos ossos, até ao umbigo. O Nelson Rodrigues explicou isto muito bem há alguns anos. Eu cito-o. Com a vossa licença:

«Falei da ascensão do idiota. No passado, eram os "melhores" que faziam os usos, os costumes, os valores, as ideias, os sentimentos etc. etc. Perguntará alguém - "E que fazia o idiota?". Resposta: - fazia filhos (...) E, de repente, tudo mudou. Após milénios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os "melhores" se juntavam em pequenas minorias acuadas, batidas, apavoradas. O imbecial, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é prémio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina. No presente mundo, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou heróis precisa imitar o idiota. O próprio líder deixou de ser uma selecção. Hoje, os cretinos preferem a liderança de outro cretino.» Ponto final. PL
CATECISMOS: Vejo The Magdalene Sisters, Urso de Ouro em Berlim. Comestível. Altamente comestível. Sobretudo do ponto de vista político. O filme de Peter Mullan é o retrato de uma sociedade política onde as instituições religiosas extravasam os seus óbvios limites. Um convite para o abuso, para a hipocrisia e para a destruição da personalidade. Acho que uma sociedade aberta, plural e livre deve permitir que os seus membros se dediquem às práticas religiosas que entenderem. Desde que essas práticas não ponham em risco os valores essenciais em que assenta uma comunidade civilizada. Mas, pessoalmente, sempre olhei com desconfiança para religiões organizadas. O problema é essencialmente filosófico. Como é possível enfrentar um mundo necessariamente plural com um catecismo necessariamente unitário? Sabemos hoje que uma vida feliz não passa necessariamente por uma relação privilegiada com a divindade. E sabemos que não existe um caminho, um só caminho que nos conduza directamente para a realização pessoal, íntima, privada. Se o Estado tem alguma função, é permitir que os seres humanos procurem, por sua conta e risco, vidas satisfatórias e felizes, impedindo que um só conceito de vida feliz se imponha sobre os restantes. E esse caminho passa, ou não passa, por uma religião organizada. Deus é outra história. Um assunto demasiado sério para ser tratado por mãos mediadoras e humanas. A minha relação com Deus é um assunto entre mim e Ele. JPC
SAME OLD SHIT (2): Confesso que me divirto com a história das presidenciais. As eleições serão em 2006? Não parece. A três anos de distância, Belém transformou-se num belíssimo concurso de misses, com as respectivas damas a serem avaliadas no estrado da opinião. Cavaco está calado. Soares está cansado. Guterres está queimado. E o nosso Jorge? Precisamente. Esquecido e ignorado. Isto espanta? Não espanta. Num país normal, com um Presidente da República activo e vigoroso, a conversa das presidenciais nunca seria uma espécie de funeral antecipado, com o corpo ainda quente e os herdeiros do cadáver a repartir os farrapos, as jóias e as pratas. Mas Portugal não é um país normal e o dr. Sampaio nunca foi um Presidente activo e vigoroso. Pelo contrário: ao longo de dois consulados, Sampaio notabilizou-se por um particular talento para o nada. Não falo dos discursos, docemente habitados pela frouxidão e pelo vácuo. Falo das propostas poéticas de Sampaio, das exigências retóricas de Sampaio e da sua capacidade para reduzir o cargo a uma notável insignificância que não aquece nem arrefece, não move nem comove. Não admira que o espectáculo em cena seja o melhor atestado desta menoridade. Como não admira que ninguém sublinhe a natureza um pouco lúgubre da coisa e as implicações políticas dela. Não é apenas o nível da discussão que está a transformar a presidência da República num lugar senatorial e politicamente irrelevante - uma reforma dourada para premiar algumas individualidades pelos altíssimos serviços à Nação prestados. É, sobretudo, o fracasso geracional que emerge desta salada. A discussão presidencial demonstra apenas o profundo falhanço da nova geração política, incapaz de sair da sombra para ganhar uma voz distinta, independente e clara. Como acontece em qualquer democracia civilizada. Restam estes restos. Olhem para eles. São os mesmos rostos. Os mesmos nomes. As mesmas vaidades. Feudais e terratenentes, incorrigíveis nas mentalidades. Cinzentos, envelhecidos e cansados, eles tutelam o país desde sempre e querem prolongar a tutela para sempre. Um belo espectáculo. JPC
ACTO FALHADO: Contam-me história peculiar. Um rapaz conhecido resolveu mudar de sexo. Começou os tratamentos. Levou o caso à tesoura. É hoje uma mulher frondosa. Mas a família nunca mais lhe perdoou. Não pela mudança de sexo. Mas porque ele, ou ela, é hoje lésbica. JPC
PEDRAS: É feio agredir Assis. Mas quem nunca sonhou, que atire a primeira pedra. JPC
INGRATIDÃO: Corre por aí uma polémica intensa sobre o vídeo de Fernanda Serrano. Segundo parece, a Internet resolveu promover uma belíssima sequência onde Fernanda, a musa, aparecia em intensas propinquidades com cavalheiro da praxe. Puro engano. A actriz não era Fernanda e Fernanda resolveu aparecer em pranto, denunciado a natureza mendaz da manipulação. Aliás, não foi apenas Fernanda a denunciar a natureza abusiva destas coisas. As televisões, sempre atentas ao choro das fêmeas, resolveram citar casos graves de algumas, digamos, «montagens» - situações em que imagens de figuras públicas eram manipuladas em corpos lascivos. Que podemos nós dizer sobre a pilhéria? Apenas duas coisas. Em primeiro lugar, um mundo globalizado tenderá a acentuar estes fenómenos, que nenhum tribunal pode suprimir ou punir, sob pena de se liquidar a liberdade radical em que assenta a Internet. Podem fechar uma página, duas, três - mas dez ou vinte acabarão por multiplicar-se. E nada nos garante que, de um dia para o outro, a coisa não fique apenas pelas «montagens». Com a multiplicação do acesso à Internet, acusações graves, infâmias, insultos e puras calúnias serão o futuro deste mundo. Mas existe outra coisa igualmente perturbante: é que, no vídeo da Fernanda, ou até nas inocentes colagens de Mestre Vilhena, as figuras públicas não são apenas manipuladas. Elas são, cautela, visivelmente melhoradas. Imperdoável seria colocar Fernanda Serrano no corpo da Madeleine Albright. Mas não é isso que acontece. Na esmagadora maioria dos casos, as figuras públicas saem manifestamente a ganhar. O Pedro Lomba que se entretenha com os aspectos legais da coisa. Eu só acho que o abuso é uma coisa feita. Mas a ingratidão, uma coisa ainda pior. JPC
REPRESENTATIVOS: Voltam a chamar-nos a atenção sobre um post de um blog que não conhecíamos e que nos menciona: é O Modus Vivendi:

Vamos ter um novo partido à direita da direita. O dr. Monteiro, a bem da Nação e com o devido respeito, resolveu brindar-nos, concidadãos algo esquecidos do seu martírio digno de um pequeníssimo mas sofrido César ("Também tu, Paulo?!.."), voltou do Hades para acolher todos os que se sintam envolvidos por este projecto "alternativo". Se calhar será bom, pelo menos para demonstrar a quem só costuma olhar para o "vazio" da esquerda que também podem existir excelentes e completas vacuidades à direita (se bem me lembro...). Sim, porque a direita não é a sua elite - e quem ler a coluna infame pode criar ilusões a tal respeito: atenção, eles não são uma amostra representativa!

Obrigado por fazer essa distinção. Em todo o caso, mesmo assim vale a pena uma precisão: nós seremos, como diz, uma elite, e somos, com certeza, de direita, mas daí não se segue que sejamos a elite da direita; não temos qualquer ambição política, muito menos a de vanguarda intelectual. A Coluna nasceu, entre outras coisas, para mostrar que a direita não é só composta de taxistas, banqueiros, reformados, saudosistas e grunhos diversos. Aliás, não é a Coluna apenas que demonstra isso: visitem os blogs da União dos Blogues Livres e encontrarão, na quase totalidade, blogs de direita e elitistas em termos de informação, cultura, e uso do português. Nesse sentido, a blogosfera tem provado um ponto essencial sobre a direita portuguesa: a de que ainda há esperança. Mas esperança individual, e só política no sentido lato. Gostávamos com certeza de fundar uma revista, mas esteja descansado que não mais do que isso. Até porque para nós a política é a mais importante das coisas menores mas é, sempre, menor face ao que realmente nos importa. PM
MATRIX, UM MARCO: Não tinha vista Matrix no cinema. Agora, a propósito da estreia da segunda e terceira partes da trilogia a RTP passou o filme. Tenho que admitir que é de facto uma obra notável. Um videogame? Com certeza, mas um videogame que muda as formas de fazer (e ver) cinema. Matrix até conjuga elementos bastante tradicionais de FC: homem vs. máquina, o futuro distópico, um mundo exclusivamente tecnológico, a noção do humano. Claro que não é Blade Runner, mas consegue sair-se bem deste caldo temático. Mas o melhor está para além disso: a noção de realidade virtual, não apenas como previsão futurista, mas como cenário actual. E isto em duas dimensões: por um lado, a verdade é que a realidade virtual já existe, que a nossa vida já é tecnológica, e assim por diante. Mas importa sobretudo realçar o modo como Matrix instala definitivamente o cinema (ou certo cinema) na realidade virtual cinematog´rafica. Não se trata da cansativa jeremíada contra os «efeitos especiais» (o cinema é um efeito especial), mas em mostrar como, a partir deste estádio tecnológico, o que se chamava live action é apenas parte do filme, que é infinitamente retrabalhado e completamentado digitalmente. Nisso, Matrix não é um filme singular, mas acaba por marcar a sua singularidade ao conceber toda a realidade fílmica - e, por extensão, humana - como uma continuidade de cenários, isto é, de construções, projecções, fantasias. Com Matrix, a realidade é já um conceito que pertence à arqueologia da espécie, e o o artifício instaurou-se como regra total. É verdade que o filme não tira grande consequência filosófica disso, e ainda menos metafísica, mas essa sofisticação só estragaria o conjunto. Sendo essencialmente um filme de acção cool, na linha dos Terminator, mas com um luxo tecnológico novo, Matrix é também um filme e partir do qual se pode (se deve) pensar a nossa cultura. Nesse sentido, tem a importância de um Minority Report (e muito mais importância que o lamentável A.I.). Fico agora curioso por ver as outras duas partes, sendo que não são sequelas, o que sempre é tranquilizador. Esqueçam O Senhor dos Anéis. Como se diz em inglês, para o meu dinheiro a trilogia a seguir com atenção é mesmo Matrix. PM
TAXI DRIVER: Sobre a questão dos taxistas, um só pedido: dêem-lhes a formação que quiserem, mas não os estraguem com patacoada ideológica, sim? É que os taxistas de Lisboa são os únicos reaças que restam (para além de doze dos meus tios). Há que proteger a espécie. PM
ELIXIR MARRETA: Conheci ontem à tarde o Statler, em pleno coração de Lisboa, ainda mal refeito de uma viagem à Chomskylândia, vulgo FNAC / Chiado. Devo dizer que está muito bem conservado: deve andar pelos setenta e muitos ou oitenta e poucos e eu não lhe dava mais que 35. PM

sexta-feira, maio 16, 2003

COM EXCEPÇÃO DE TODOS OS OUTROS: Acabo de ver na tv as imagens de Felgueiras. Francisco Assis, com uma calma e um estoicismo assinaláveis, a ser perseguido, expulso, injuriado e agredido pela canalha. Temos uma democracia? Com certeza. Mas Portugal continua a ser, basicamente, um quintal de grunhos, e em nenhum sítio isso se vê como nas autarquias. Os ululantes felgueirenses são o esplendor do nosso poder local. Podiam ser de qualquer partido, há-os para todos os gostos. Massa ignara, que vive perfeitamente com caciques corruptos e autoritários. Jardim, Felgueiras, Avelino. Eleitos democraticamente? Sem dúvida. Amados pelo povo? Fora de questão. Mas aberrações políticas, pura e simplesmente. Ninguém disse que a democracia é perfeita. PM
BELEZA E CULTURA: Calma, rapazes, eu digo-vos que a beleza culta existe. O mundo não é a Faculdade de Letras de Lisboa. O congresso da mulher feia – a festa do Avante - é uma vez por ano. Só uma vez por ano. Mulheres bonitas e cultas são um acaso feliz, uma esperança para o pouco de optimismo da nossa religiosidade. Não desesperem. Não se precipitem. Insistir na incompatibilidade congénita, na incompatibilidade estatística entre a mulher bela e culta, é errar o alvo. O problema é outro: não é a mulher bela que rejeita a cultura, não é a cultura que abdica do lavatório. O problema é outro. Espanta-me que não tenham visto. A mulher, toda a mulher, bela, feia, mediana, celestial, é, como dizia Pavese, um «homem de acção». E o problema é que o «homem de acção», simplesmente, não morre de amores por uma vida intelectual activa. Pavese teve uma paixão funérea e disse que as mulheres são «homens de acção». É certo: Pavese estava preso a uma necessidade maior. Queria analisar a natureza da americana Constance Dowling por quem se apaixonou tragicamente. O diário de Pavese está cheio dessa necessidade obsessiva, não sem um ressentimento difícil e embaraçoso. Mas o que importa é essa ideia realista das mulheres: as mulheres como criaturas menos falíveis, menos patéticas, menos lunáticas que os homens, as mulheres dotadas de um pragmatismo inabalável e de uma rara lucidez. Para as mulheres, não existem abstracções. Por exemplo, não existe o Homem mas homens concretos e mulheres concretas. Existe o pai, o irmão ou, desculpem o termo, o companheiro; nunca o membro insípido e distante de um género humano. Depois, reparem que as mulheres, que nunca fizeram muitas revoluções, nunca fizeram, sobretudo, revoluções inúteis. O sufragismo foi uma revolução útil. As feministas mais radicais sabem que não estão a contemplar a mefítica exploração masculina para ocupar o tempo. Querem uma nova revolução para ganhar alguma coisa. Quando os soldados portugueses partiram para a Flandres na primeira guerra mundial, as mulheres portuguesas organizaram peditórios públicos. Não era generosidade. Não era ocupação de tempos livres. Era o imenso pragmatismo feminino a funcionar. Pensem num dos casais mais célebres de todos os tempos, Xantipa e Sócrates. Conhecem o que Sócrates pensava. E Xantipa? Quem era Xantipa? Discutia Parménides com o marido? Lavava o sovaco? Nada disso importa. Porque Xantipa sabia mais do que Sócrates, é o que vos digo. E talvez olhasse para o pobre com algum compassivo desprezo. As mulheres não querem saber o que as coisas são. Querem saber como as coisas se apresentam, como foram ontem, como são hoje. Querem saber como fazer. A estratosfera que fique para os leitores de Heidegger. Arendt? Passo. A Sartreuse? Passo duas vezes. Doutorandas em Adorno? Give me a break. Procurem uma terna beleza culta, com passagens de "Os Maias" na cabeça e o teatro de Nelson Rodrigues. Eu sei que isto existe. Eu acredito no acaso. PL

MENEM: Quem conheça um módico de História argentina, reconhece este gesto desistente de Menem. A crise económica não passará depressa. Os argentinos têm um problema crónico com a democracia. No passado, Menem foi um presidente errático, frequentemente abusivo, um daqueles "democratas" que apenas o são quando lhes apetece. Vai ser o maior crítico de Nestor Kirchner. E se Kirchner falhar, Carlos Menem estará aí, seguro e providencial, para arrumar a praça. Nada que não seja usual na América Latina. PL
O SÁ QUE SABE: A TVI divulgou ontem a notícia: um falso vídeo pornográfico com a imagem manipulada de Fernanda Serrano circula pela Net para gáudio dos imbecis. Para desfazer o equívoco, a TVI decidiu ouvir o consultor de imagem Sá Leão que, depois de analisar a «casa», a «qualidade da casa», o «aspecto da casa», deu uma sentença terminal: aquilo nunca poderia ter sido feito em Portugal. O problema está, portanto, na «casa», na «qualidade da casa», no «aspecto da casa», e não, como qualquer pessoa de senso compreende, na criminosa manipulação de imagens. Não ocorreu também à TVI que entrevistar o Sá Leão sobre este problema é um pouco bizarro: o homem é um dos poucos portugueses profissionais que poderia ter realizado a película. Mas, claro, aquela «casa» não engana ninguém. PL
SAME OLD SHIT: Miguel Portas inicia o seu texto no DN com um pedido de desculpa aos leitores. «Não é fácil a um cronista que é dirigente político comentar acontecimentos em que participou». Uma bela confissão que, obviamente, não impede o nosso Miguel de utilizar uma página do jornal para fazer pura propaganda do Bloco de Esquerda. Isto horroriza? Longe disso. Num país onde houvesse uma imprensa verdadeiramente moderna e independente, estes doces exercícios de masturbação partidária, ainda por cima pagos, seriam repudiados com algum vigor. Mas em Portugal não existe uma imprensa moderna e independente. Não admira, por isso, que a «opinião» jornalística esteja radicalmente entregue a empregados partidários que utilizam os respectivos postos para continuarem no jornal o que não conseguiram no Parlamento, na sede ou na estrada. Em Inglaterra, a opinião é uma especialidade jornalística, exercida por jornalistas ou comentadores autorizados. De quando em vez, lá vem a opinião de um político - a opinião de um político convidado. Em Portugal, não: os jornais são o natural prolongamento do sermão ideológico interno. É o retrato do nosso atraso. JPC
LADRÕES DE BAGDAD: João Miguel Tavares escreve no DN sobre os seus dias em Bagdad. E dos textos ressalta a mesma história: os iraquianos têm um fascínio absoluto por futebol e conhecem os jogadores portugueses com uma rapidez impressionante. Mário Bettencourt Resendes acha que isto é a prova da nossa desportiva vitalidade no mundo. Será. Mas estes excelentes relatos do João Miguel demonstram mais do que isso. Demonstram o que sempre se soube - mas apenas se confessava em privado: que a melhor forma de açaimar o fundamentalismo islâmico passa pela «ocidentalização» possível desta gente. Não falo de colonialismo tipicamente oitocentista, o que seria um anacronismo e uma absurda imbecilidade. Falo na exportação possível daquilo que transforma a vida ocidental num misto de horror e prazer, excitação e tédio. A exportação do futebol, do cinema, da televisão, da Coca-Cola e do striptease. E, por que não dizê-lo, da bebida, do jogo, da prostituição. É preciso corromper moralmente o Islão com os prazeres seculares do mundo civilizado. O ódio não nasce naquelas paragens do globo onde o «império» americano se instalou com violência e força. Eu, por exemplo, não conheço terroristas de Hong-Kong ou Singapura. O ódio nasce em regiões culturalmente desoladas, que usam as horas livres, não para comer hamburguers - mas para produzir as bombas, e os homens-bomba, que nos acabarão por matar. JPC
VENÚSIOS: Televisão? Um bom entretenimento para apedeutas. Chego a casa, ligo o caixote e um senhor doutor – obviamente, médico – disserta abundantemente sobre um problema qualquer. No discurso do homem, a palavra «hajam» repete-se incessantemente, com uma naturalidade assassina. Enojado, mudo para o Canal 1. Nicolau Breyner em cena. E a pergunta: «Qual o vulcão que se encontra junto a Nápoles?» Resposta da concorrente: «O Venúsio». Por amor de Deus, venham cá a casa. E livrem-me. Desta. Merda. JPC
DUDU: Estamos há já uma semana sem a crónica diária de EPC. Eu discordo dele de 2ª a 6ª e, em geral, concordo com ele aos sábados, mas a falta nota-se. Prefiro o desacordo com Coelho que o acordo com Sarsfield. Safa. PM
PROBLEMAS POR RESOLVER: O Diogo Belford Rodrigues coloca-nos mais perguntas difíceis sobre o trabalho prostitucional (assim não vale): De facto, são inúmeros os desafios que se colocam a quem quiser legislar sobre a matéria:

Fiscal- além da já citada retenção, qual será o IVA aplicado? Artigo de Luxo ou Bem de Primeira Necessidade? (será uma comissão a decidir?) Poderão existir incentivos regionais no IRC?

Saúde- Se a necessidade de sexo é crónica deverá haver comparticipação do estado? E genéricos? E poderão existir deduções no IRS de quem utiliza?

Segurança Social- Qual será a idade de aposentação? Irão os maridos de Bragança fazer um abaixo assinado para que seja considerada profissão de desgaste rápido?

Prevenção Rodoviária- Deverão as mulheres da vida alegre usar um colete refector como os automobilistas?

Miguel Cadilhe- conseguirá finalmente atrair investimento para Portugal?

Carvalho da Silva- Haverá unidade sindical? Serão os sindicatos regionais (tipo PRCSEI - Prostitutas da Região Centro, Sul e Ilhas) ou de sector ? Haverá uma Associação Patronal (tipo ANAIS- Associação Nacional de Actividades e Indústria Sexual)? Terão assento na
Comissão Permamente de Concertação Social?

João Nabais- Quem vai proteger os direitos do consumidor?


Comentário: Com tantas ideias, Diogo, ainda o hão-de nomear para a comissão legislativa que erguerá o edifício jurídico do trabalho prostitucional. Escuso de lhe dizer que não tenho respostas para os seus problemas. Talvez seja melhor contactar uma ou várias meninas matulonas que aparecem regularmente n'A Capital. Sinta o pulsar das massas. Ouça a sociedade civil. PL

quinta-feira, maio 15, 2003

TALVEZ FEDERAR: Carrilho apoia Soares para a Presidência. Só Soares, diz o filósofo, pode federar a esquerda. Errado. A Coluna Infame nasceu precisamente para federar a esquerda. E não há dia que não os deixemos federados. PM
EXTRADIÇÃO: Para os nossos amigos do Brasil, um pedido cândido: extraditem depressa a dona Fátima. E, se não for muita maçada, entreguem-nos o advogado Paulo Ramalho também. Obrigado e não têm de quê. PL
STORY OF MY LIFE: Compreendo muito bem a estratégia do advogado da sra. Felgueiras. Eu próprio pedi recentemente um habeas corpus. Mas levei tampa. PM
SIGN O' TIMES: Hoje, na redacção de um jornal português, os directores, para se manterem informados sobre o que realmente importa, liam avidamente... os blogs. PM
SAPATÃO? Em mais um texto impagável, Luís Delgado revela à Pátria que o ministro José Luís Arnaut é a «Dama de ouros». Diacho, será que a Sónia Brazão é lésbica e não sabe? PM
ODORES: O Monólogos de Tasco, um blog que não conhecíamos, entra na discussão: A Coluna Infame debate-se com o premente problema de grande parte das pessoas que lêem cheirarem mal! Bom, quer-me parecer que este problema se pode extrapolar para muitas pessoas que frequentam actividades "culturais". E eu que o diga, que tive que gramar várias sessões do Festival das Curtas Metragens de Vila do Conde nas proximidades de um individuo que coincide com a descrição naquele blog. Ainda por cima, parecia ser alguém relevante para a "fauna" presente. Já para não falar quando, durante o meu estágio de licenciatura Erasmus em França, tinha que gramar com a presença de uma aluna de douturamento (Libanesa, acho... mas os/as francese/as não lhe ficavam muito atrás) a trabalhar a 3m de mim! Confirma-se por isso uma certa relação entre a cultura e o odor. Ah, bom, não sou só eu a notar o fenómeno. Fico mais descansado (ou não). PM
MAIS UM REAÇA: O Luís M. Serpa manda-nos umas frases sobre o tema cheirosas & letradas:

C'est parce que tous les vrais littérateurs ont horreur de la littérature à certains moments, que je n'admets pour eux, - âmes libres
et fières, esprits fatigués, qui ont toujours besoin de se reposer leur septième jour, - que deux classes de femmes possibles : les filles ou les femmes bêtes, - l'amour ou le pot-au-feu. - Frères, est-il besoin d'en expliquer les raisons ?"

*

Il y a des gens qui rougissent d'avoir aimé une femme, le jour qu'ils s'aperçoivent qu'elle est bête. Ceux-là sont des aliborons vaniteux,
faits pour brouter les chardons les plus impurs de la création, ou les faveurs d'un bas-bleu. La bêtise est souvent l'ornement de la beauté; c'est elle qui donne aux yeux cette limpidité morne des étangs noirâtres, et ce calme huileux des mers tropicales. La bêtise est toujours la conservation de la beauté ; elle éloigne les rides ; c'est un cosmétique divin qui préserve nos idoles des morsures que la pensée garde pour nous, vilains savants que nous sommes!

*

Règle sommaire et générale : en amour, gardez-vous de la lune et des étoiles, gardez-vous de la Vénus de Milo, des lacs, des guitares, des échelles de corde et de tous romans, - du plus beau du monde, - fût-il écrit par Apollon lui-même !

*

Mais aimez bien, vigoureusement, crânement, orientalement, férocement celle que vous aimez ; que votre amour, - l'harmonie étant bien comprise, - ne tourmente point l'amour d'un autre ; que votre choix ne trouble point l'État.


(Baudelaire, Choix de Maximes Consolantes sur l'Amour)

E o Luís acrescenta, de memória, uma outra atribuída ao nosso amado Charles: amar uma mulher intelectual é um prazer de pederastas. Ah, o Infame. PM
MUSES WANTED: Uma musa tem de ser: lindíssima, letrada e não nos ligar nenhuma. Só o terceiro elemento (o mais fácil) não chega. Serve para nos inspirar, para lavarmos os olhos e a alma depois de lermos a Visão e para efeitos gerais de platonismo instantâneo. Candidaturas para colunainfame@hotmail.com. Obrigadinho. PM
MUSA LUSA: Recebemos algumas sugestões sobre musas. Ana Lourenço foi uma delas, claro, mas as Tábuas Sagradas não permitem. Tem que ser moça (teoricamente) available. Outra leitora sugere Sandra Felgueiras. Nunca vi a menina, mas o JPC já cometeu uma gaffe com o rebento felgueirense, e não me parece. Depois, há a leitora Vera Martins, que se candidata a musa: Pertenço ao sexo feminino, sou solteira e leio livros. Dizem que sou alta e vistosa. O que é que umamamusa (sic) faz? Acrescenta a Vera que preferia ser musa dos Fedorentos, o que não me espanta, mas olhe que os três canhotos já estão aviados. Talvez o «palestiniano» ZDQ não diga que não. Mande foto que nós reenviamos. PM
MENEM EVITA (A DERROTA): Uma das muitas curiosidades da América Latina é que alguns democratas são muito parecidos com os ditadores. Fujimori, Menem, e assim por diante. Agora, Menem desistiu da segunda volta das presidenciais argentinas. Ainda bem. O peronismo pode ser um case-study muito interessante sobre os limites da diferença esquerda/direita. Mas é sobretudo umas «ideologia» pimba. O que vale é que Kirchner é de um partido completamente dif... err... Bom, e há mais isto: o sr. Kirchner vai ser Presidente com os votos da primeira volta, isto é, com 22 % dos votos, o que é uma base de legitimidade fraquíssima. Não sei se haverá precedentes, mas é uma situação bizarra. PM
TEMPESTADE UMBILICAL: Nem sei que vos diga. O calor aperta e eis que se espalha pela cidade uma nudez tormentosa, bruta, assassina: a nudez dos umbigos. Já vi dezenas de umbigos hoje e o dia nem sequer acabou. É uma tempestade umbilical, amigos. Rigorosamente umbilical. (Não há aqui egos com inflamações). Onde quer que uma alma vá, esbarra com umbigos. Umbigos pequenos, umbigos disformes, umbigos baços, transparentes, umbigos cobertos de substâncias metálicas, umbigos desenhados com tatuagens provocadoras. Umbigos, umbigos, umbigos. Não sei, repito, não sei o que dizer sobre isto. Entendam-me: não são os umbigos a causa das minhas lamúrias; é a sua beleza falsa, é a sua beleza irrealizável que me provoca tremores. Se a moda continua, garanto-vos que me planto nas maternidades o tempo que for preciso. E o umbigo das próximas gerações será um umbigo fechado. PL





TANTO RACHA: O Público do dia entrevista um grupo de jovens iraquianos para perceber o que pensa a juventude mesopotâmica do mundo. A peça corre tranquila até ao momento em que uma petiza iraquiana chamada Rasha é questionada sobre educação sexual. Posso ser doente mas, meus amigos: pedir à jovem Rasha uma opinião sobre este assunto, não é querer saber demais? PL
A DEMOCRACIA NOVA Não quero estragar-vos o dia mas o Público de hoje transcreve uma parte dos estatutos da Nova Democracia, a segunda tentativa de Manuel Monteiro ficar na História como o político mais irrelevante do nosso tempo. Uma olhadela rápida à obra. Não há surpresas, não há decepções, não há pilhérias baratas. Monteiro deseja ardentemente um Portugal de «uma nova síntese», um Portugal «acima das velhas querelas», um Portugal de «respeito pela palavra dada», um Portugal contra «a descida do nível». Certo. Tudo muito profundo. Tudo muito inédito. A única estranheza reside na limitação de mandatos. Vejam bem: Monteiro decide criar um partido só para ele e fixa um limite à sua reeleição. Asneira crassa. Eu, meus amigos, se um dia fizer um partido, é para lá ficar a vida toda. E depois chamem-me nomes que vão ver se me importo. PL
ATENÇÃO ATENÇÃO: Um apelo: precisamos de uma Musa nova, visto que as nossas duas musas anteriores (who shall remain nameless) não estiveram pelos ajustes. Eu ainda por cima, ao que dizem, até poeto, e não passo sem musas. Sugestões para colunainfame@hotmail.com Ah, é verdade, a Ana Lourenço não pode ser. Não há por aí musas solteiras? Vá lá, amigos, encore un effort. PM
CAMÕES: O Prémio Camões foi muito bem entregue. Rubem Fonseca contribuiu imenso para tornar o romance brasileiro urbano e desenvolto, cansados que já estávamos de jagunços, coronéis e fazendas. Formalmente brilhante, tematicamente obsessivo, moralmente cínico, Fonseca é um Infame. De esquerda, com certeza, mas se tivesse um blog nem imagino o hate-mail que teria das Brigadas Feministas e outros Amigos da Humanidade. Rubem, amigo, a Coluna está contigo. PM
MAIS UM: Pois é, amiguinhos, mais um blog de inspiração conservadora liberal. É o No Quinto dos Impérios. Francisco Mendes da Silva (Viseu/Coimbra), Diogo de Belford Henriques (Lisboa), Fernando Albino (Londres), João Vacas e Martim Borges de Freitas (ambos em Bruxelas) são os mestres de cerimónias. Alô UBL, toca a fazer o convite. E um abraço de boas-vindas aos confrades. PM
AINDA AS LETRADAS E CHEIROSAS: E já que estamos com a mão na massa, mais uma reacção zangada ao post higiene/leitura:

Vem este post a propósito do vosso que a pretexto de falar sobre sem-abrigos acaba a falar do que, aliás, se pretendia: mulheres- associação curiosa... Verifico, aliás, que vou atrasada porque como eu já uma série de leitoras reagiu e felizmente, também, leitores.
Claro que nas vossas respostas, (sobretudo naquela da Joana Gomes) vou confirmando o que já suspeitava e que não é uma susceptibilidade minha, pois em comentários com a MVS do país relativo logo se estabeleceu um consenso: os infames são machistas o que se encaixa perfeitamente dentro da máscara conservadora, bamboleando-se, por vezes, pelo cavalheirismo condescendente porque, também, esse se encaixa dentro do ser monárquico e ,sempre, de direita. Corolários da simplista reflexão dos infames: Uma mulher bem cheirosa é, provavelmente, frívola e inculta. Uma mulher que lê muito é, provavelmente, mal-cheirosa e não atraente. Pois é: uma mulher que descure a sua grande função neste mundo que já não é a de ser uma flor, um biscuit, mas uma sex symbol, um objecto para ser possuído, mostrar “status” e causar a cobiça alheia, e se ponha a ler- crime de lesa majestade, a ler e a estudar e a cheirar mal- está perdida. Já a um homem se perdoa tudo. Se trabalha muito com a caximónia, pode deixar a casa toda desarrumada, suja, a feder, vestir um fato amarrotado e em moda há cinco anos atrás, esquecer-se das horas para um encontro e não saber tratar das questões práticas da vida. É homem e é intelectual! Perdoam-se todas as abstracções.
Agora uma mulher e ainda por cima intelectual não tem atenuantes. Já, agora, eu e a Mariana estamos curiosas- nós lemos porque temos que e gostamos, será que as pessoas à nossa volta têm pudor de nos dizerem que somos mal-cheirosas?
(Clara Macedo Cabral)

Cara Clara: tanto equívoco, tanto tiro ao lado, tanta misturada. Vamos por partes:

- Não sei o que entende por «machismo». Creio ser a convicção de que o homem tem ou deve ter mais dignidade, poder, inteligência, direitos, ou o que quer que seja, do que uma mulher. Desafio-a a encontrar um post onde isso se diga. Agora se «machismo» é manifestar veemente apreço pela beleza e outros atributos de certas mulheres, então eu PM não apenas assumo a característica, como registei a patente.

- Não temos uma «máscara conservadora», somos conservadores. Se fosse preciso escolher uma máscara, teríamos uma mais popular no burgo, não lhe parece?

- «Cavalheirismo condescendente» começa bem e acaba mal.

- O JPC e o PL não são monárquicos, e eu sou vagamente, porque acho um tema secundário.

- Não fizemos uma «reflexão», exprimimos uma impressão. É a minha experiência, cara Clara, e olhe que eu conheço razoavelmente o meio literário & associados. Aliás, como viu, outras pessoas, mesmo as de direita, têm experiências mais felizes que a minha.

- «Uma mulher bem-cheirosa é provevelmente frívola e inculta». Isso seria uma tese, e nós não temos nenhuma tese sobre o assunto. O mesmo raciocínio vale para a situação inversa, do juízo sobre as cultas.

- «Uma mulher que descure a sua grande função neste mundo que já não é a de ser uma flor, um biscuit, mas uma sex symbol, um objecto para ser possuído, mostrar “status” e causar a cobiça alheia, e se ponha a ler- crime de lesa majestade, a ler e a estudar e a cheirar mal - está perdida». Não defendemos essa ideia, not by a long shot, em lado nenhum, embora a primeira parte do seu lamento corresponda a uma realidade e uma mentalidade que existe abudantemente, e não fomos nós que a inventámos. E que não existe mais à direita do que à esquerda, aliás.

- Quanto aos homens e às suas características, não é um assunto que nos preocupe grandemente, como imagina.

- Não sugeri nada de desagradável face a ninguém em especial, muito menos em relação à Clara e à Mariana. Lamento dizer à Clara que a maioria esmagadora das mulheres letradas que conheci até hoje corresponde à minha descrição. É a minha experiência, e estou habituado a ser azarado. Mas não fiz nenhuma lei sobre o assunto.

- Termino dizendo que não tem conta as vezes que ouvi gente de esquerda a queixar-se do mesmo. A diferença é que a Coluna é Infame, isto é, sincera, e não tem medo das Brigadas Feministas. Nem de nenhumas outras. Politicamente correcto por aqui é insulto de marcar duelo com pistolas. PM
FAZ SENTIDO UM NOVO PARTIDO DE DIREITA EM PORTUGAL? Depende. Se o novo partido estiver disposto a discutir a Europa, sobretudo numa altura em que Bruxelas, através da sua Convenção de «sábios», deseja liquidar a independência nacional, dotando a União de supremacia legal sobre a lei pátria e chamando para si competências típicas de um Estado federal, então tudo bem: «Europa» é coisa que não se discute neste país, coisa abolutamente insólita em todo o mundo civilizado. JPC
FAZ SENTIDO O NOVO PARTIDO DE MANUEL MONTEIRO?: Não. JPC
ESTAMOS SEM MUSA: Chego a casa, abro o mail, e até me doem partes cá dentro (partes decentes, esclareço). Um mail da nossa sex symbol. Aliás, da nossa ex-sex symbol, porque a menina pede-nos o escrupuloso cumprimento do Não Desejar a Mulher do Próximo a que nos comprometemos. Está prometido, Joana (snif). Também anotámos os restantes esclarecimentos, e vamos ler o artigo da Vanity Fair que nos recomenda. Mas e agora, quem nos escreverá a seguir? Aposto que o próximo mail é da JAD, a dizer que nos lança a claque do Bloco à canela se continuamos a falar das camisolas caneladas que ela usa. É assim, amigos, as nossas musas até nos podem escrever, mas só mesmo para nos mandaram ir morrer longe. Estamos, oficialmente sem musa. E como todos sabem, não há nada pior que um homem sem musa. PM
COLONIALISMOS: As palavras do advogado brasileiro de Fátima Felgueiras não são a prova de que o colonialismo português fez estragos. São precisamente o contrário: a evidência de que o colonialismo português não ficou por aquelas paragens o tempo que devia. JPC
SOMOS POUCOS: Pedro Mexia incendiou as hostes ao tecer algumas linhas sobre a estranha relação entre literatura e sabonete. De acordo com Mexia, a relação não é, digamos, líquida. E a coisa, como sempre, acabou por extravasar para as relações entre os sexos. É possível encontrar uma mulher simultaneamente bela e culta? Uma mulher com a beleza da Michelle Pfeiffer e os miolos da Martha Nussbaum? Mexia tem dúvidas. Desconheço a opinião do Lomba - mas o Lomba, como qualquer leitor de Nelson Rodrigues, sabe que «toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma». Talvez tenha chegado a altura de ouvir o Mestre, ou seja, eu. E que vos diz o Mestre? O Mestre diz-vos que mulheres simultaneamente belas e cultas são uma aboluta raridade. Não se encontram. Ou encontram-se a muito, muito custo. Mas, cautela: a coisa é particularmente dramática nos homens. Homens belos e simultaneamente cultos? A coisa ainda é pior. Esqueçam. Somos dois ou três e ponto final. JPC
MACACOS: Duarte Moral tem razão: José Mourinho é um dos mais notáveis treinadores de futebol. Vi a entrevista de segunda-feira na SporTV e confirmei o que já pensava do cavalheiro: altamente preparado, moralmente corajoso, intelectualmente articulado. Um profissional competente que, para não variar, é apelidado de «arrogante» pela incorrigível matulha interna. Nenhuma novidade. Neste país, é sempre a mesma cantiga: quando aparece alguém capaz de articular duas ideias com coerência e de as defender com galhardia, a plebe agita-se e horroriza-se com os modos da criatura em causa. E gosta logo de arrumar o assunto na velha prateleira da arrogância, ou do elitismo, ou do snobismo - atitude que fatalmente define o nosso atraso. É o velho código dos primatas, que Kubrick captou em 2001: se não entendes, destrói; se não te agrada, devora. JPC
INQUIETAÇÃO PESSOAL: Compro o último livro de Maria Gabriela Llansol e pergunto: mas esta senhora existe? Ensaio resposta: Maria Gabriela Llansol é uma criação posta a circular por Eduardo Prado Coelho. JPC
DO FUNDO DO CORAÇÃO: Theodore Dalrymple escreve na New Statesman: morrem diariamente, em Inglaterra, 600 pessoas com ataque cardíaco. Alguém se rala? Claro que não. A pneumonia atípica é chique. Os enfartes não são chiques. JPC
VIDA DURA: Os estudantes não querem pagar mais propinas? Percebo a rapaziada. E solidarizo-me com ela. Digo mais: apoiar esta justíssima luta estudantil passa por uma experiência in loco numa qualquer universidade portuguesa. Sobretudo se olharmos para o parque automóvel da seita: BMW's, Audis, Volkswagen, por vezes um Mercedes fugidio. A vida é dura. JPC
MUDAR DE POVO: O que une Fátima Felgueiras a Silvio Berlusconi? Fácil: o facto de serem, ambos, produtos genuínos da democracia mais genuína. Esta verdade parece incomodar alguns democratas que, ultimamente, têm dissertado nos jornais sobre a natureza maléfica destas duas criaturas. Não lhes ocorre que, no caso de Fátima, e no caso de Silvio, a esmagadora maioria do povo está com eles. E, pior ainda, voltaria a confiar neles para um novo mandato. Moral da história: mudamos de regime ou mudamos de povo? JPC
LINHAS E SOMBRAS: Saio para a rua e constato o milagre: o Público resolveu publicar The Shadow-Line, de Conrad, em tradução portuguesa. A coisa dá pelo nome de Linha de Sombra - e, para os felizardos que a compraram, adianto já que se trata de uma das mais brilhantes obras de toda a história da literatura europeia - e um dos meus livros da vida, sobre o qual escrevo abundantemente na próxima edição da revista Os Meus Livros. É a história de um jovem capitão que conhece, pela primeira vez na vida, um ordálio brutal: uma viagem de barco com uma tripulação moribunda. Então o capitão, orgulhoso e arrogante como é próprio da idade, enfrenta uma experiência-limite que, como todas as experiências-limite, o lançará num processo de amadurecimento interior - cruzamento dessa «linha de sombra» que, cedo ou tarde, todos atravessamos sem voltar para trás. Além disso, e ainda sobre The Shadow-Line, aqui fica um pequeno aviso para o nosso auditório letrado: podem ler Hume, Burke, Oakeshott e os conservadores da praxe. Mas para perceber alguma coisa sobre a essência do «conservadorismo», é preciso começar por Conrad. E é preciso começar por este livro de Conrad. Está tudo, tudo, tudo, tudo lá. JPC


VIDA DE ADULTO: Chegam-me aos ouvidos comentários graves sobre a minha abominável personalidade. Os Relativos, por exemplo, confessam aturar 2/3 da Coluna, o que fatalmente exclui 1/3 deste maravilhoso trio. E a blogosfera é pródiga nestas posturas. Hmm. Que posso eu dizer? É um facto que sou autoritário, arrogante e particularmente intratável. Além disso, pioro com a idade, as pessoas que me rodeiam começam a não tolerar a peçonha e sei que, mais cedo ou mais tarde, pagarei estes maus modos com a inevitável solidão da praxe. Mas gostaria de esclarecer que, ao contrário do que afirma a típica mentalidade nacional, nunca confundi opinião política, cultural ou social com simples ataques pessoais, dirigidos à pessoa - e não ao papel público e político que ela representa. Entendo que um português típico leia o que escrevo e acredite genuinamente que estou a ajustar contas com alguém. Erro crasso. Não me interessa se o sr. X é bom chefe de família, bom amigo, contribuinte exemplar e uma simpatia em pessoa. E não utilizo este talento que o Demónio me deu para acertar contas com damas e cavalheiros. Interessa-me apenas a forma como essas damas e esses cavalheiros se comportam em público, sobretudo se forem titulares de cargos que eu pago, com evidentes responsabilidades no país onde vivo. No fundo, faço minhas as palavras de Paulo Francis, que são o credo do meu jornalismo e que releio com a frequência necessária:

Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que julgue. Acho que quem ofende os outros e os leitores é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado.
(A Folha de S. Paulo, 1/10/1983)


Um abraço, rapazes. JPC

quarta-feira, maio 14, 2003

ROSA-FLOR: Os acólitos do PS puseram a mão na consciência com Fátima Felgueiras. Acontece. Não a conheciam bem. Não sabiam dos estranhos eventos que percorriam o convento camarário. Deram ouvidos a Narciso Miranda (vejam em que silêncio de chumbo está o nosso Narciso). Desprezaram os avisos repetidos de Barros Moura. Preferiram a vitória política embutida à decência pública. Sem pretender agastar muito o PS, diria que sobram duas lições relevantes desta historieta: a primeira é a de que os partidos políticos portugueses mostram um invejável bom gosto nas escolhas que fazem para os cargos autárquicos (se um dia começarem a recrutais candidatos locais no Linhó não espantarão ninguém); a segunda é de que, por mais que o PS insista no contrário, Fátima Felgueira não é Paulo Portas. Há um mundo de diferença entre Felgueiras e Portas, pela razão simples de que Portas não foi acusado de nada e a dona Fátima foi acusada de tudo. E tudo no exercício do seu tenebroso cargo. PL
PROSTITUCIONALIDADE: Voltando ao "contrato de trabalho prostitucional", surgiu-me uma pequena dúvida técnica que não consigo resolver. Se a prostituição for legalizada (como deve ser) e a seguir tributada (como também deve ser), como é que deve ser feita a retenção na fonte? PL
É OU NÃO É? Um Best Of dos James no rádio do carro, princípio da década de noventa, memórias em catadupa. Estamos sempre pegados ao passado. Isto pode ser coisa de conservador mas não será que somos todos assim? PL
SURPRESAS: Passo hoje por uma livraria, visito a secção jurídica por dever de ofício e esbarro com um título completamente inesperado: "o contrato de trabalho prostitucional". Estamos sempre a aprender. PL
CONRAD: Amigos: aceitem um conselho. O Público de hoje distribui aos leitores interessados uma obra-prima da literatura europeia: "Linha de sombra" de Joseph Conrad. É um livro que tem o melhor de Conrad: os seus ambientes nebulosos, os seus famosos capitães, divididos entre o destino e a impossibilidade de uma escolha moral, a sua insistência na «palavra certa». He who wants to persuade should put his trust not in the right argument but in the right word. Absolutamente imperdível, é o que vos digo. PL
BARALHAR: Não sei, amigos, por que lêem esta coluna. E a razão é simples, meridiana: perdem tempo. Tempo para ler as magníficas cartadas que Luís Delgado anda a dar diariamente no Diário de Notícias. Luís Delgado tem sido o melhor guionista do jornalismo português nos últimos tempos, embora haja opiniões divididas sobre o seu melhor argumento. Até esta semana, a minha preferência ia direitinha para a série "Os Melhores Ministros", uma comédia de 5 episódios que Luís Delgado decidiu terminar quando percebeu que não havia mais ministros para elogiar. Mas chegou entretanto "Baralho Político" que é uma comédia mais madura, quase trágica, metafórica, cheia de parábolas e algum esoterismo pelo meio, e uma grande, grande e afirmativa mordacidade. O joker, o ás de espadas, o rei de ouros, o valete de copas... Tem sido uma delícia perceber a subtileza dos raciocínios e das comparações de Delgado. Claro: há coisas menos boas, até um pouco infelizes: essa de chamar rei de paus a António Costa ou valete de paus a José Sócrates ou mesmo dama de paus a Ana Gomes, não nos parecem tiros muito bem atirados e roçam o insulto. Mas o baralho continua e os próximos episódios prometem supresas: quem será, por exemplo, a manilha de espadas? E qual é, já agora, a cor do trunfo? A saga prossegue. É certo que, por vezes, não se percebe qual é o jogo de Luís Delgado. E por vezes, dá a ideia de o baralho estar mal baralhado. Por isso, Delgado, de vez em quando, para satisfação dos leitores: baralha e torna a dar. PL
TENHAM JUÍZO: Entre outras coisas originalíssimas, alguns leitores dos canhotoblogs acusam-me de estar numa comissão governamental (para estudar o regulamento das bolsas literárias) por serviços ideológicos e por causa do «tacho». Quanto aos serviços ideológicos, imagino que isso justificará também a presença de Teolinda Gersão (próxima do PS), Luísa Costa Gomes (apoiante do Bloco) e de José Manuel Mendes (do PCP). Tenham juízo. Quanto à designação de cargos públicos como «tacho», é bonito ver como os vossos sentimentos anti-democráticos vêm ao de cima tão facilmente: só vos falta chamar «sanguessugas» aos deputados e ganham uma inscrição no partido do dr. Monteiro. PM
SAI UM CAFEZINHO PRÁ MESA 3: Continuo práqui a ler os posts de hoje dos blogs nacionais. Já só me faltam dezessete blogs. PM
NÃO LHES OFENDAM AS NAMORADAS: Um dos porno-blogs assegura que, a julgar pelo que aqui escrevem, os Infames escrevem não fazem sexo há pelo menos seis meses. Caro amigo: tal como os mails, os comentários dirigidos a mim não devem ser assim generalizados a todos os Infames. Haja respeito. PM
COMO DISSE? Depois de apoiarem a reeleição da sra. Felgueiras, de chutarem Barros Moura, do apoio de Narciso, e tudo o mais, será que o PS ainda tem lata de continuar com a conversa Portas? O dr. Ferro diz agora que não discute na praça pública processos judiciais. Fazendo minhas as palavras daquela linguista da tv: como disse? PM
POBÃO: Os felgueirenses acham que a senhora Felgueiras não roubou, e que se roubou fez muito bem, e que fez muitíssimo bem em fugir. Nós não pomos em causa a democracia, longe disso, mas não podemos deixar de manifestar a nossa perplexidade perante a opinião do povo. O povo é soberano? Com certeza. Mas o povo apoia e elege Felgueiras, Jardim e Avelino. Go figure. PM
A FAMÍLIA GOMES E A COLUNA: Soubemos, entretanto, que a família Gomes lê a Coluna. Queixa-se a mãe Gomes que a tratamos mal; é mentira, minha senhora, eu até aqui saudei V. Exa., mas esses entusiasmos trotskistas é que não engolimos. Se moderar a linguagem, até a estimamos. Quanto à filha Gomes, a nossa querida Joaninha, queixa-se de excesso de atenção. Um esclarecimento: é verdade que eu babei libidinalmente o teclado por sua causa (e antes era o comando da tv), e aqui o dei a entender por extenso, mas só até saber que a menina era comprometida, que a malta é Infame mas respeita os Dez Mandamentos. Desde aí, até deixámos de ver a SIC-Notícias para não cair em tentação (mas que gira que estava ontem a entrevistar o José Milhazes, by the way). Disseram-nos entretanto que a menina é bloquista. Achamos mal. Dois sex symbols num só partido de esquerda? Isto está tudo virado. Qualquer dia deixam entrar mulheres feias na JP. Que tristeza. PM

terça-feira, maio 13, 2003

MUNDO VIP: Hoje, no lançamento do livro de estreia do nosso amigo Nuno Costa Santos estava sala cheia e poucos não-bloguistas à vista: Infames, Relativos, Fedorentos, mais o Possidónio e quem sabe se outros. Pois é, amigos: toda a gente tem blogs. E daí a minha ausência relativa (simpaticamente lamentada por vários dos presentes): há mais de trinta blogs interessantes para ler, só na paróquia, mais os jornais, os blogs da entranja, e o resto da vida. A União dos Blogues Livres já tem vinte membros, apostados em livrar a blogosfera do vírus marxista. Não há tempo para tudo, mas a pedido de várias famílias tentarei não perder o pé. Entrentanto, fui mais uma vez humilhado pelo guarda-roupa dos Relativos, todos janotas ao pé de mim todo desfraldado e de barba por fazer. Conheci a Mariana, que é muito simpática, e nem merecia ser socióloga. E estava lá a amiga do Nuno parecida com a Béart, que não tem blog mas que podia até ser adepta do Orçamento Participativo de Porto Alegre, que eu me tornava No-Global on the spot. E chega de crónica mundana, vamos à substância. PM
HIGIENE E LEITURA: Como seria de esperar, o post sobre higiene e leitura motivou várias reacções.

Uma teórica:

Dois dias depois do meu post sobre a transgenia e os maus cheiros, na Coluna disparam sobre a directa proporcionalidade entre a quantidade da leitura e a qualidade do mau cheiro. Eu iria mais longe, porque tal razão directa me parece excessiva, e enquadraria o problema mais na vertente de uma certa estética e valores de alguma classe auto-proclamada de intelectual. Não sou a favor de elitismos, de sobranceria, e de arrogâncias; e, se me irritam as poses de bem-parecer, tão bem encaixadas num corte e perfumaria Channel, na sua altivez de classe dominante assente no pedestal dos valores económicos, também me repugna a arrogância intelectual de quem se despoja de supostos valores materiais e enverda por uma estética de valores contrários aos ditados pelos valores monetários. A charneira entre a sobranceria de uns e a arrogância de outros não existe, e uns são um decalque dos outros nas intenções. Daí parecer haver uma ligação directa entre a vacuidade mental do usuário de um enebriante e caro perfume francês e o cheiro infecto de um acérrimo e culto leitor com ares de intelectualidade. Ambos habitam um mundo de excessos, com visões redutoras sobre o mundo. Uma espécie de fundamentalismo que me perturba, que como todos as facções extremistas são pouco tolerantes. E se há coisa que eu não tolero, é a intolerância. (Nelson Alexandre)

Caro Nelson: de acordo, mas sempre é melhor citar Adorno a despropósito do que cheirar a bacalhau, não lhe parece?

Uma prática:

Não existe nenhuma relação inversa entre a higiene e a leitura nas mulheres que conheço. Muito pelo contrário, uma das mulheres mais estonteantes e espantosamente bem-cheirosas que conheço lê filósofos alemães, Junger, T.S. Eliot, Pound, Philip Larkin, Proust e Céline, Borges e Bioy Casares, todos «dans le texte», para além de devorar BD franco-belga, mas só em francês. Há já uns anos atrás, passámos um dia inteirinho literalmente encafuados na «Foyle's», em Londres (só saímos ao almoço para engolir umas sandes) e foi ela que insistiu em ficar mesmo até ao fecho das portas, não eu. E sim, é rapariga com firmes convicções políticas de direita - autoritária, ainda por cima. (E nunca a conheci senão microscopicamente depilada.) Por isso, e ao contrário do Pedro Mexia, a minha experiência neste domínio é absolutamente beatífica - literaria, higienica e aromaticamente falando. Porque tenho- também - uma amiga esquerdista encantadora, giríssima, educadíssima, lidíssima, que faz sauna e «step» e depilação «científica», tal como qualquer tia burra e boazona do PP que demora seis meses a soletrar um livro da Margarida Rebelo Pinto. «Eat your heart out, boyo!» (Eurico de Barros)

Caro Eurico: que tal é na cama uma miúda da direita autoritária? (sempre quis perguntar isto).

Uma intrigante:

Para lançar contradição entre as vossas crenças, afirmo que há seres etéreas, que também se dedicam ao prazer da leitura.
Descrevo-me: cabelo cobre , alta, magra, olhos verdes, lisboeta, na casa dos vintes, cheirosinha e bem depilada (passemos a parte do “anúncio de engate”…serve unicamente para contextualizar). E leio. Média 2 a 3 livros /mês, em português, em inglês em espanhol. Tenho vício de ler versões originais, aqueles paperbacks de letra miudinha a preços convidativos de 5 euros (economias de quantidade, dá para arranjar mais por menos). Tenho muito poucas pessoas com quem falar sobre livros :(. O público feminino da minha geração ficou preso a Isabel Allende , ao “Baunilha e Chocolate”, quando não confessam a sua admiração e identificação com os livros da Margarida Rebelo Pinto e Maria João Lopo de Carvalho . Os rapazes lêem revistas , e quanto muito, num momento de desvelo dizem que o Alquimista é o livro da sua vida ( infelizmente este episódio ocorreu com um espécimen bastante proporcionado e mesmo inteligente (!?)). Muito poucos lêem sequer mais de um livro por ano. Nunca souberam o que é ler Hemingway , ou Steinbeck ou Faulkner ou Green . Se quanto aos clássicos há um enorme deficit, literatura contemporânea é mentira. Quem é Rushdie ou McEwan ou Eduardo Mendoza ou mesmo Lobo Antunes. Não me acho particularmente culta por ter lido os autores que referi atrás (são aliás escolhas bastante mainstream). Mas incomoda-me ser a freak. É que mesmo os amigos sebosos de higiene relaxada não se safam… Beijinhos. A vossa leitora.
(Joana Vieira)

Cara Joana: o mais provável é que por trás desse nome e silhueta femininos se esconda um latagão da Associação de Estudantes da Nova a gozar connosco. Caso contrário, falta uma coisa ao seu mail: telemóvel. PM
O CONGRESSO: O Intermitente captou em boa hora o slogan mais repetido na última Convenção Nacional do Bloco de Esquerda. Para a História de um congresso ignorado por pouco menos de dez milhões de portugueses, ficou este grito de guerra inspirado e mobilizador: “O povo está em luta, contra o cherne e a chaputa”. É um slogan arrojado, este: o povo luta, o povo combate o cherne, o povo enfrenta a chaputa...Sim, muito bonito, muito bem visto. Concordo. No entanto, custa-me dizê-lo, o slogan não é perfeito; é até, bem vistas as coisas, um pouco misterioso, um pouco enigmático. Reparem que, enquanto a identidade do cherne é perfeita e universalmente conhecida, a chaputa permanece uma incógnita pública e inconfessa. Que chaputa é esta? Em que chaputa pensa a confraria bloquista? Ninguém sabe. Mais: por que quer o Bloco combater apenas a chaputa? Por que não lutar contra a truta, contra o sável, contra o bacalhau podre? Porquê privilegiar a chaputa? O que tem a chaputa de tão nocivo para os outros cardumes políticos? Eu anseio honestamente pelas respostas do Bloco de Esquerda. Não que me desagrade a ideia de uma política piscícola. Agrada-me, conforta-me, que a chaputa esteja a ser perseguida pelo Bloco, tal como o cherne, que não vai ter um minuto de descanso. E até acredito que o Bloco é o grupelho certo para levar a cabo tão nevrálgica perseguição. Há apenas um problema: no alto mar, os bloquistas correm um sério risco de ninguém os vai levar a sério se continuarem a chamar-se Bloco de Esquerda. Talvez seja hora de mudar de nome. Sei que ninguém me perguntou mas eu dou uma ajudinha: "Pargos de Esquerda". Que vos parece? Pensem nisso. PL


ALBERTO: Do infame honorário Alberto Gonçalves. Sobre a viagem inter-continental de Fátima Felgueiras:

Que Copacabana a guarde. Por cá, de uma assentada, a dona Felgueiras rebentou com o PS felgueirense (?), humilhou a distrital do Porto e atirou o dr. Ferro para aquele estado de embaraço catatónico que lhe fica a matar. E isto são peanuts: desde que a senhora pôs os pés no Rio de Janeiro, na terça-feira, quinze favelas entraram em erupção, com confrontos entre polícias e bandos armados. Até ver, contaram-se uns dez cadáveres e o secretário local da Segurança Pública, o ternurento Garotinho, reconheceu ser impossível contrariar a recente vaga de violência. Citando uma gabarolice de Dali, por onde a dona Felgueiras passa, deixa o ódio e o escândalo. Ao menos por isso, ainda bem que não a detiveram antes da fuga - ou nesta altura o estabelecimento prisional da Polícia Judiciária
seria cenário de horrendos motins. Não custa imaginar a Liga de Amigos de Carlos “il Capo” Cruz a trocar tiros com o Grupo das Irmãs de Bibi, Dinis e Marçal, Sarl., em retaliação pelo fuzilamento sumário de alguns membros da Vale e Azevedo, Serviços de Limpeza e Pedestais de Cimento, Lda. Devagar, devagarinho, a nossa justiça escreve direito por linhas tortas.
(Alberto Gonçalves)
CALASSO: Gosto tanto deste trecho de Roberto Calasso (de um dos seus «49 noves degraus) que, quando estou com a neura, estes dois parágrafos parecem-me infinitamente preferíveis ao Júlio Machado Vaz:

« Existem incompatibilidades forçadas: o literato não quer ouvir falar da sabedoria oriental; o insatisfeito que tenta atingir a sabedoria oriental não quer ouvir falar de literatura; o erudito não quer ouvir falar de experiências não livrescas; quem faz experiências não livrescas não quer ouvir falar de filologia; quem confia nas demonstrações da ciência não confia nas demonstrações da mística; quem exalta a mística sente aversão pelas pesquisas experimentais; quem se centra no moderno, vê a barbárie no passado; quem se centra no antigo vê a degeneração no presente. Corolários: o literato fala por lugares-comuns das coisas últimas; o leitor de divulgações do Oriente adora qualquer forma de kitsch espiritual; o erudito não sabe viver; o homem que conhece a vida dá erros de sintaxe; o cientista explica o mundo reduzindo-o a uma pobre imagem; o entusiasta não sabe fazer contas; o neófilo não vê a antiguidade do presente; o restaurador não vê a modernidade do antigo» (Ed. Cotovia). PL

segunda-feira, maio 12, 2003

PRESIDENCIAIS: A histeria sobre as presidenciais, quer-me parecer, atingiu os limites do suportável. Que se passa com esta gente? Que nostalgia é essa por eleições que ainda vêm longe, que não decidirão coisa alguma, que não passam de eleições decorativas, cerimoniais, corriqueiras? Estão com saudades de lixo na rua, cartazes à beira das estradas, bandeiras esvoaçantes, comícios, campanhas, tempos de antena, antevisões, noites eleitorais...? É disto que têm saudades? Calma, povo de Deus. O seu a seu tempo. PL
NEM EM SONHOS: Sonhei...(como é que hei-de dizer isto?). Sonhei que Maria de Lurdes Pintasilgo tinha criado um blog, juntando-se a Pacheco Pereira no leque de notáveis recentemente chegados à blogosfera. O blog chamava-se singelamente "Vou para Porto Alegre". Quando acordei sobressaltado, liguei depressa o computador e tentei em vão chegar ao link www.vouparaportoalegre.blogspot.com. Era tudo mentira. Voltei a dormir. PL
FORUM: O Forum TSF não é o mesmo desde que o tipógrafo Brito Aranha saiu de cena (inesquecíveis as suas sonoras imprecações contra - «os senhores do meu país»). E hoje descobri que, para além de uma espécie de Le Monde Diplomatique hertziano, o Forum tornou-se uma grande, portentosa ameaça para a circulação rodoviária. Ora, imaginem-se a conduzir na Praça de Espanha. 11 da manhã. Faixa central. Psicopatas nas faixas laterais. Psicopatas por todo o lado. Ligam a TSF e começam a ouvir o Forum. Fala-se sobre as presidenciais. As opiniões pululam e, atenção, vocês conduzem, vocês arriscam a vida, vocês esperam chegar inteiros aos vossos destinos. De repente, uma senhora extremosa sugere o nome de Ilda Figueiredo para candidata presidencial e, como se isso não bastasse, diz que Soares «rejuvenesceria» com uma nova candidatura. O que se segue não é claro. O perigo aparece. Os nervos crescem. A cegueira. Os semáforos deixam de existir. O carro descontrola-se. Tonturas. Um delíquio. É o vosso fim. O Forum devia ser banido. PL
WHO CARES? Não percebo porque embirram com a escrita atroz de Carlos Amaral Dias. Cada pessoa tem uma missão sobre a terra. E o Professor já cumpriu (carnalmente) a sua. E com 20 valores. PM
LIBERA NOS DOMINE: Um best of de Carlos Paião no top. O regresso do subbuteo. O que virá a seguir? O Bloco Central? PM
E O CORNO? Entretanto, depois de escrever o post anterior, lembrei-me do soundbyte do Daniel no último «É a Cultura», quando disse que não era marxista. Está tudo explicado. É que sexo e fraternidade universal não dá, há que escolher. Aliás, essa é a razão principal do falhanço de Marx: ok, sociedade sem classes, colectivização dos meios de produção, fim de exploração do homem pelo homem, mas e quando um gajo fosse encornado, o que fazia? Ah, velho Karl, não te devia ter escapado esse magno pormenor. PM
SEXO À ESQUERDA? Eu sei que da outra vez que o elogiei o Daniel Oliveira ficou incomodado, não fosse o dr. Louçã ver o assessor engraxado por um reaça. Mas tenho de repetir os encómios, depois de ler o post do Daniel sobre o Olímpia, e as suas próprias porno-memórias. Sejamos honestos: de uma forma ou de outra, a pornografia marcou-nos o imaginário, embora poucos sejam os que o admitem de forma explícita (P. T. Anderson é um deles). Foi por isso empolgante ver este suspiro nostálgico do Daniel pela Traci Lords e pela dupla penetração. Até fiquei comovido. Tanto mais quanto foi escrito no Blog de Esquerda, o mais casto de todos os blogs. O ZM é um lírico, o Manel um marxista full-time, e nem sombra de comentários sexuais por aquelas bandas (o Manel mesmo que quisesse não podia, por causa da Brigada de Costumes lá de casa). Aleluia pois, há sexo no Blog de Esquerda. PM
EMPREGUE O SEU TEMPO NESTE FILME: Está (ainda) em cartaz um filme a todos os títulos raro: um filme para adultos (no bom sentido da palavra). É sobre a humanidade (com «h» pequeno) na sua ambiguidade, contradição, estranheza. Alimenta-se do não-dito, da sugestão, do silêncio. Não nos oferece explicações baratas sobre a nossa vida individual nem sobre o funcionamente da sociedade. Sem deixar de ser resolutamente político, sobretudo na sua análise do mundo do trabalho, este é um filme que não prega sermões, não simplifica, não demoniza. É o cinema francês como devia sempre ser, e não enredado na auto-paródia intelectualóide de que tanto gosta. Chama-se L'Emploi du Temps, e o realizador é Laurent Cantet. PM
NO WAY: O grupo parlamentar do PCP tem sido criticado internamente por criticar os fuzilamentos em Cuba. Como é que alguém no seu juízo perfeito pode querer ser «renovador» naquele partido? Se querem renovar, entreguem o cartão. PM
FEIOS PORCOS E LETRADOS: Como já perceberam, aqui na Coluna flanamos bastante pelas FNAC. Aqui vai mais uma historinha da dita: há dias, na loja do Chiado, estava um cavalheiro dos seus cinquenta e tantos, um cinquentão absolutamente vulgar, embora com os cabelos bastante longos e sebosos. Mas esse não era o problema; o problema era o cheiro do senhor. Já fiz trabalho voluntário com sem-abrigo, e garanto que nunca encontrei um sem-abrigo que cheirasse tão mal. Privados do olfacto, estaríamos perante um homem maduro, vagamente intelectual, a folhear livros complicados, mas a verdade é que o cheiro sentia-se logo à entrada da loja. Banho naquele corpo, nenhum há uma década. Mas porque conto esta história, ainda por cima com o tema do banho, que tanto incomoda alguns dos nossos leitores? Porque sempre me intrigaram certas características das pessoas que lêem livros. Porque é que conheço várias pessoas que cheiram mal e lêem muitos livros? Poruqe é que conheço tantas mulheres que não se depilam e lêem muitos livros? Qual é a causa dessa relação inversa entre a higiene e a leitura? Reparem: toda a gente pode estar sujeita ao ocasional sovacame de tarde de Verão, e os moços tamanho L como eu particulamente, mas que diabo, nada que não se resolva com um roll-on. Mas cheirar mal por sistema? Andar (as mulheres) de sovaco peludo? Porquê, senhores? E porque é que gostam tanto de ler? O tempo de leitura tira-lhes tempo para a higiene? E porquê é que as mulheres mais inebriantemente bem-cheirosas que conheço não lêem livros nenhuns? Qual é afinal a relação entre leitura e odor? Peço ajuda aos nossos leitores: partilhem as vossas experiências neste domínio. PM
AH, OS JOVENS: Se a classe estudantil portuguesa se pode medir pelo seu comportamento durante a época da Queima das Fitas, o país tem o futuro tramado. Actualmente, o estudante universitário-padrão português forma-se em Direito, Engenharia, Letras, Medicina, etc. e, simultaneamente, em Alcoolismo e Vandalismo. Aqui há uns anos, aconteceu-me estar no Porto durante uma Queima e nunca mais me esqueci do espectáculo degradante de rapazes e raparigas à compita histérica para ficar em coma alcoólico. Um desses seres inferiores disfarçado de estudante do ensino superior vomitou em cima do carro de uma amiga minha que, como resposta ao seu protesto, recebeu um coro de vaias e insultos poderosamente avinhados, que envergonhariam o mais insensível sargento de infantaria veterano da Guiné. Batemos em prudente retirada no carro vomitado, porque já se agitavam bengalas na nossa direcção. Juntamente com as turmas mistas, os trabalhos de grupo, a «avaliação contínua», a participação na «gestão da escola», o guarda-chuva «pedagógico» aberto sobre os alunos para-delinquentes e a «manif» com calças abaixo e exposição do rabo na direcção do Ministério da Educação, a bebedeira de caixão à cova geminada com comportamento anti-social é uma das principais conquistas de Abril no departamento educativo. E já agora: que tal instituir a Queima do Estudante? (Eurico de Barros)

Caro Eurico: como sabes, criticar a «juventude» é meio passo para ser taxado de «reaccionário». Mas nessa matéria, os Infames são do mais reaccionário que há. Juventude? Isso passa com a idade. PM
GATOS: Madrugada de domingo. A TVI exibe (repete?) o programa do Jerry Springer à portuguesa (escapa-me agora o nome, do programa e do senhor). No estúdio, quatro seres humanos discutem açanhadamente um magno problema: um deles costuma pôr o gato a dormir dentro da máquina de lavar. O escândalo, a peçonha, a contestação aumentam de tom. O público esbraveja, espuma, insulta. O moderador, na sua estentória brutalidade, tenta serenar a revolta. Com razão. Por coisas menores, já se cometeram assassinatos, já se depuseram presidentes. O programa em causa é um símbolo perfeito da nossa época. Um dos grandes problemas da nossa cultura mediática é o artificialismo. Vivemos uma era de artifícios, falsidades, simulacros. Artifícios políticos, jornalísticos, televisivos, populares. O onanismo social campeia por todo o lado. E a televisão é apenas uma pequena ponta deste perigoso fenómeno. PL
REVISTAS: Ontem, as prateleiras da Fnac tinham à venda a "Revista Crítica de Ciências Sociais" do mestre Boaventura e do Prof. Pureza, um intelectual coimbrão conhecido mundialmente por procurar pureza nas relações internacionais. Na Fnac, eu raramente vejo a Análise Social. Se isto não é um descarada falta de imparcialidade livresca, vou ali e já venho. PL
FEMINISMO: Acreditem que um dos grandes problemas do feminismo contemporâneo traduz-se nisto: uma jovem editora, Miosótis, nasceu para publicar livros especificamente dirigidos às mulheres. Nas suas três primeiras edições, a Miosótis respeitou integralmente este propósito. Mas à quarta obra, a Miosótis resolve fazer uma pequena incursão à política e publica um livro sobre Bush, com as inanidades do costume. Ou seja, a ideia de uma editora para um público feminino foi rapidamente substituída por uma editora politizada, propagandística e, num certo sentido, pouco feminina. À primeira vista era uma impressão, agora é uma certeza: esta Miosótis não é flor que se cheire. PL