domingo, abril 27, 2003

HUMANUM EST: Agradecemos a quem nos manda correcções de gralhas. Outro dia, em vários posts de madrugada, escrevi mal sete ou oito palavras, e só as emendei na manhã seguinte, quando reli os posts. Mas por vezes escapam mesmo à releitura. Por isso, é bom que nos alertem. Mas toda a gente tem lapsos e desatenções, meus amigos: não vale a pena mandarem-nos mails a dizer que somos ignorantes e analfabetos. Zanguem-se com as nossas ideias, não com os nossos lapsos. PM
AINDA ABRIL (5): Dos três DDD de Abril, que balanço? A democracia foi um sucesso, apesar do PREC, e um case-study só ultrapassado pela transição espanhola. O desenvolvimento também se deu, apesar do PREC, e sobretudo depois da adesão europeia. Mas a descolonização - aquela descolonização - isso, meus amigos, é a grande vergonha de Abril. Aí, quem venceu não foi a liberdade, foi apenas o PREC. E como sabemos que grande parte dos festejantes de Abril são adeptos do PREC, nunca entoaremos loas a Abril. Desculpem lá. PM
AINDA ABRIL (4): De vez em quando «convidam-nos», cinicamente, para ir ao desfile cívico do 25 A. Mas, como bem pergunta o Intermitente, como seria recebido pelo povo marchante um cidadão com, digamos, uma bandeira do PSD? A liberdade é, felizmente, de todos, mas o 25 de Abril é vosso, caros esquerdistas. Pena que outro 25 tenha instalado a democracia burguesa. A vida é assim. PM
AINDA ABRIL (3): Ana Gomes, diz o PÚBLICO, ergueu o punho e gritou «o povo unido jamais será vencido». Desde o Dr. Strangelove que não víamos um impulso refreado mas tão impossível de conter. PM
AINDA ABRIL (2): Vi imagens do Pedro Adão e Silva na manif. O Pedro Adão e Silva numa manif do 25 de Abril é como o Pedro Mexia num desfile da Elite Model Look. PM
AINDA ABRIL: Ontem estive out, e por isso aqui ficam, atrasadas, cinco notas ainda sobre Abril. Começo pela biografia. O JCP contou aqui uma experiência decisiva que teve num dia 25 de Abril. Ao contrário do João, não foi a 25 de Abril que perdi a virgindade (circulam mesmo rumores plausíveis de que ainda não perdi a virgindade). Mas, ao contrário do João, eu já estava entre o número dos vivos em Abril de 74. Tendo nessa altura um ano e meio, não é difícil responder à pergunta BB «onde é que estavas no 25 de Abril?»; estava, naturalmente, em casa. Mas tentei saber o que fiz especificamente nesse dia. Um rápido inquérito indica que se não estivesse a dormir me entregava a intensa actividade defecativa. Faz sentido: desde aí até hoje, a minha atitude para com o 25 A tem sido precisamente essa. PM
O EVANGELHO SEGUNDO MARK: O senhor Mark Eitzel esteve esta noite no Lux, em Lisboa. E não deixou qualquer dúvida: trata-se de um dos grandes songwriters contemporâneos. Um concerto acústico, com abundantes piadas, divertidas introduções, apartes, confissões. De fatinho, mais gordo e careca, mas sempre com a sua pera, Eitzel entrega-se em palco: balança o corpo, bate com os pés, dá saltos desajeitados, todo ele é um organismo em movimento entrecortado, bizarro. Podemos fazer uma genealogia dos songwriters geralmente chamados deprimentes, que associaria cada estado de espírito a uma tendência psicológica ou psiquiátrica e sobretudo a um tipo de álcool ou de outra substância. Mark Eitzel é um poeta dos bares, mais propriamente dos bares à hora de fechar, e há algum torpor alcoólico nas suas canções, apesar do modo vigoroso como as interpreta, com uma voz cheia e por vezes berrada. Há um stand-up comedian em Eitzel; diz que se mudou de S. Francisco porque não gostava do «amor» obrigatório que o ectasy causava a toda a gente, além de que um careca não pode usar «flowers in his hair». Mas os relatos divertidos e desesperados não pararam por aqui: amores frustrados, uma mulher que queria o seu esperma, a morte da mãe, as drogas, o desejo de mudar de cara, uma conversa com um dj. As introduções deslizam suavemente para a canção, como se dela fizessem parte, o que lembra de certo modo o Tom Waits dos primeiros álbuns. Eitzel é um mestre do que em inglês se chama «self-deprecation», e cada história, cantada ou contada, é um vinheta do que Mr. Eitzel chama cruelmente a sua «wonderful life». Um pessimista hardcore. Mas (cá está) um pessimista esquerdista: não faltaram as imbecilidades políticas: a América prepara-se para ser o regime mais fascista que já se viu (sic). Momentos altos da noite: «I've Been a Mess» (sim, a canção sobre Lázaro), um «Gratitude Walks» cantado à beirinha do público, e «Patriot's Heart», na qual Eitzel, desgostoso com a pátria, vê como razão para o seu patriotismo uma cena patética entre um stripper masculino e homens mais velhos (!). «I was born catholic and american», diz, mas hoje detesta ambas as heranças, embora estejam ambas em quase cada verso de cada canção. Divertido, desesperado, disserta sobre a morte que nos vai apanhar a todos e sobre o seu testículo direito. Zangado com a guitarra, que se engasga, desliga-a e toca, unplugged, em cima do público. Uma hora e um enconre depois Mark sai do palco. Um evangelista tem que se fazer à estrada. PM

sábado, abril 26, 2003

REINALDO PNEUMÁTICO: A propósito do meu último post sobre o 25 de Abril, o Gato Fedorento resolveu partilhar com os leitores uma história igualmente iniciática e igualmente sexual. Contam os fedorentos:

Agora vejam bem como é a vida. Não é que conheço uma história muito parecida, que se passou com um meu amigo? Chamemos-lhe Bernardo d’Orey Vasconcellos e Souza d’Almeyda e d’Andrade (nome fictício), para proteger a sua identidade. Também ele perdeu a virgindade no dia 25 de Abril. Foi com um moçambicano chamado Reinaldo. O “Bernardo” estava na herdade dos pais, no Alentejo, à sombra de um sobreiro, a ler. De manhã tinha lido o The Meaning of Conservatism, de Scruton e agora estava a acabar o Against the Current, de Isaiah Berlin. Já não iria começar o Rationalism in Politics and Other Essays, de Oakeshott, que tinha comprado em Londres no fim de semana anterior, porque foi nessa altura que apareceu o Reinaldo, a distribuir panfletos sobre a Reforma Agrária. O momento foi particularmente feliz para o meu amigo porque o Reinaldo acumulava funções no seu país: além de membro do comité central da Frelimo, era presidente do Grupo Desportivo dos Operários de Maputo, em cujos balneários granjeara a alcunha de “O Mastro”. Apodo, aliás, amplamente merecido, segundo o “Bernardo”. Foi o primeiro encontro desse meu amigo com a Esquerda e a Revolução. E ele nunca mais quis outra coisa

Uma bela história que, ainda por cima, é inteiramente verdadeira. Desde logo porque eu conheço o «Bernardo» e posso afirmar que, da última vez que o vi, ele encaminhava-se apressadamente para a Almirante Reis. Chamei por ele. Perguntei-lhe como estava. E ele, visivelmente encantado, tratou de me dizer que a vida corria melhor do que nunca e que agora, na sede do Bloco, ele trabalhava incansavelmente no Grupo de Trabalho Homossexual. Estranhei. Então o Scruton, o Berlin, o velho Oakie? Ele disse que eram coisas do passado. A vida mudara. Por causa, claro, do Reinaldo. Aliás, contou-me o «Bernardo» que o Reinaldo fora prontamente contratado pelos dirigentes do Bloco - e por alguns «ortodoxos» do PCP - para arregimentar as novas gerações sob a grande bandeira da Revolução. «Dá mais resultado do que Marx ou Engels», disse-me ele, com um brilhozinho nos olhos. «Só este mês, tivemos 45 novas inscrições. E o PCP, 23. Por causa do Reinaldo. Há até quem lhe chame, em homenagem à foice e ao martelo, o Reinaldo Pneumático. Incansável.» E lá foi o «Bernardo», outrora um liberal clássico, subitamente convertido aos encantos da Utopia e da Revolução. JPC

sexta-feira, abril 25, 2003

OH, CARMELA!: 25 de Abril. Recordo esta data com uma lágrima no canto do olho. Foi no dia 25 de Abril que perdi, penhorado, a virgindade. Lembro-me bem: uma caseira dos meus tios que pululava pela herdade com os seus seios juvenis e fartos. A apanha dos morangos. O morgadinho - neste caso, eu - que se aproximou silenciosamente de Carmela (assim se chamava a petiza). E o encontro de dois corpos tomados por desejo insano, entre o galinheiro e a horta. O momento foi particularmente feliz porque Carmela era filha de um sindicalista da Marinha Grande que nutria pelo grande patronato um ódio desmedido e bestial. Foi o meu primeiro encontro com a Esquerda e a Revolução. JPC
ABRIL (4): 25 de Abril, 1974: o meu pai tinha 33 anos, a minha mãe 30. Perdoem-me: sou um nostálgico. PL
VERDES OU VERMELHOS? O partido ecologista português «Os Verdes» intriga. E intriga porque é o único partido ambientalista da Europa que consegue fazer longos e tonitruantes discursos sem se referir, uma única vez, aos problemas do ambiente. Já que estamos em maré reformista dos partidos, pergunto-me se não se poderia acabar com esta fraude? PL
BIG KUMBA : Da Guiné não têm chegado boas notícias. Francisco Fadul e o Juvenal africano, Kumba Ialá, não são, segundo parece, os parceiros mais indicados para uma partida de Squash. Sempre que pode e precisa, Kumba não hesita um segundo em afastar o opositor mais insignificante. Ontem, o ministro da defesa foi demitido e as últimas semanas têm tido eventos semelhantes. No meio de tudo isto, claro, Kumba continua a declarar-se um democrata, tal como todos os outros líderes políticos do continente africano. Só não percebemos a razão deste lento e cirúrgico engrandecimento do poder pessoal do irmão Kumba; se o senhor quer mesmo uma tirania, que ao menos aprenda com a vizinhança e faça as coisas como deve ser. PL
IGNORÂNCIA: Este senhor é um dos maiores especialistas em ética e filosofia dos valores e passou por cá há escassas semanas para as conferências da Bentham Society que tiveram lugar em solo pátrio. Os jornais portugueses conseguiram a extraordinária proeza de ignorar o homem. Estas coisas definem o nosso jornalismo. PL
ABRIL (3): É curioso como os esquerdistas gostam de mostrar (e bem, em certa medida), como são aborrecidos, previsíveis, patetas e conformistas as datas, os rituais, as efemérides das famílias conservadoras Mas haverá evento anual mais aborrecido, previsível, pateta e (sim) conformista do que o 25 A? PM
BOM RAPAZ: Os americanos capturam Tareq Aziz. Espero que esse facto não seja um impedimento à sua candidatura a Prémio Nobel da Paz. PM
NOSTALGIA: Sem querer entrar nos domínios do Voz do Deserto, aqui deixo uma sugestão essencial para a discoteca dos nossos leitores: o best of de Carlos Paião. Temos que ser fiéis à nossa infância, amigos, e nesse ponto o conceito de «foleirada» é irrelevante.PM
ABRIL (2): Ontem almocei, galhofeiramente, com um PC, consultei o meu mail no computador de um bloquista, e parece-me que paguei um café a um socialista. Abril é quando um homem quiser. PM
GUITO: A finalidade deste blog, sob a capa de discussão de ideias, era:
a) receber propostas financeiras
b) receber propostas sexuais
(não necessariamente por esta ordem). Pois bem: acabámos de receber a nossa primeira proposta. Financeira, claro. Se tudo correr bem, um português estupidamente rico e incauto esbanjará as suas avultadas posses para apoiar um projecto editorial «de direita». Contaremos outros pormenores do mais espectacular suícidio de euros de que há notícia assim que tivermos mais informações. PM
S&M: Se não fossem os americanos, os xiitas continuariam sem sangrar anualmente por um bigodudo medieval qualquer. Há trinta anos que não se podiam chicotear e anavalhar nas ruas, por causa do bigodudo de Bagdade. Agora podem. Graças a Bush. Mal-agradecidos. PM
EU SOU PIOR: Corre nalguns blogs canhotos a ideia de que eu sou mais «tratável», mais «cordato», mais «esquerdista» do que o JPC. Nada de mais falso. Sou um moço muito mais iracundo, agressivo e direitista que o Coutinho. Tenho é mais paciência. E isso, em política, faz muita diferença. PM
INDY: Temos recebido algumas censuras pelos nossos elogios ao Independente. Mas reparem: para além de nos interessar que mais gente compre o jornal, para que o Coutinho e eu tenhamos cheques chorudos, o Indy é o único jornal «dos nossos» cá no burgo. Tem muitas falhas e faltas? Com certeza. Não é o Independente da década de ouro? Claro que não. Mas é provavelmente o único jornal que não terá colaboradores hoje na Avenida, a lamentar o triunfo do parlamentarismo, da propriedade privada e da liberdade de imprensa. PM
POLITICS: O PL já aqui postou o decisivo poema do Yeats, que para nós serve de carta de princípios. Porque há uma coisa une os três Infames, para além de tudo o que sabem: a ideia de que a política não é a coisa mais importante do mundo. Há realidades bem mais decisivas para nós. Acabei aliás de estar com duas dessas realidades no Pavilhão Chinês. PM
ABRIL: Alguns dos nossos leitores imaginarão decerto que nós não gostamos do 25 de Abril. É mentira: nós gostamos imenso do 25 de Abril. Sobretudo quando calha à sexta. PM

quinta-feira, abril 24, 2003

25 DO A: Amanhã, dia da liberdade, eu vou percorrer familiarmente o passeio público. Do Marquês aos Restauradores. PL
VOLTANDO À SPECTATOR: Se querem mesmo fundar uma Spectator portuguesa, digo-vos já que conheço um capitalista inteligente. Mas há um problema: ele dedica-se, sobretudo, à criação de porcos. E daí, pensando bem, nem há muitas diferenças. PL
OUTRO POST SEM TEORIA POLÍTICA HARD CORE: As dúvidas teológicas andam a perturbar grandemente a blogosfera. Eu queria aqui solenemente dizer o seguinte: eu acredito Nele e acredito que não O podemos conhecer. Mas são tantas as vezes em que isso não me chega. PL
SPECTATOR: Ciciclicamente: a Spectator à portuguesa. Conheço a novela. Começa com um almoço (restrito). Segue-se um jantar (também restrito) na casa de um dos potenciais escribas. Novo almoço depois. Tudo se encaminha. A lista de colaboradores está feita. O nome da revista. A periodicidade. A escolha do director. Até que alguém vem com a pergunta sagrada: e a massa? Resposta pronta: não há. Não há massa. Então, tudo recomeça: o almoço, o jantar, o almoço, a lista... Surge então uma ideia: alguém providencialmente esclarece que conhece um capitalista, que andou com ele na escola, namorou com a irmã e está certo que ele não deixará de dar uma ajudinha, em nome da sanidade cultural do país. É a salvação. Mas passa um mês, passam dois meses, passam três...e nada. O capital pôs-se a salvo. E a Spectator à portuguesa fica para o ano seguinte. PL
DOW JONES: O João Miranda destapou-nos a carapaça: a Coluna é de esquerda em matéria de economia. Pois é: a nossa relação com essa distinta ciência não é fácil. Sabemos que a inflação é uma subida de qualquer coisa mas há tantas coisas que sobem que isso não pode, manifestamente, ser um critério. Sabemos que bolsas de valores pegadas a sedes do PC, como a portuguesa, têm um inexorável destino: a desgraça. Já o Dow Jones interessa-me e temos uma opinião mais abalizada: é um grande actor de filmes pornográficos. Aquela película com a Rebecca Kelly é uma verdadeira obra-prima. PL
CHRISTOPHER: Christopher Hitchens, alcoolizado, resolveu agredir a mulher. A história vem na Onion, com uma imagem do nosso Chris pendurado em dois polícias e de pontapé ao alto como se estivesse a sovar um saddamita. Nesta hora infausta, uma pergunta ao Chris: tens mesmo a certeza que a senhora se rebolou com um árabe? PL
PHOTO: Acabo de ser demoradamente fotografado para uma revista. Percebo que uma entrevista sem fotos é estranho, e não quero ser implicante. Mas tenho pelo menos quatro razões para detestar fotografias em que eu seja o objecto:
1) a questão etno-filosófica: como os índios, acho que as fotos roubam a alma
2) a questão substantiva: qual é a relevância do meu aspecto para o que eu faço (no caso da entrevista, a crítica literária)?
3) a questão comportamental: ao posar (!) para uma sessão fotográfica, sinto-me idiota, um pouco mais para a esquerda, levanta a cabeça, olha para mim, um sorrisinho fázfavor
4) a questão estética: sou adepto da perpetuação do belo; a escumalha estética (como eu) não tem que ser fotografada

Uma consolação: «vai aparecer colado à Monica Belluci». Isso, meus amigos, só mesmo numa revista. PM
A ONU: Sabiam que 5 dos 16 países mais repressivos do mundo fazem parte da Comissão de direitos humanos das Nações Unidas: China, Cuba, Líbia, Arábia Saudita e Síria? Sente-se, é verdade, a falta da Coreia do Norte. Sempre que o representante líbio pergunta ao representante chinês: «Quantos mataste?», ele responde «Uns quantos mas é o Kim que tem o recorde». PL
TRANSPORTES: O comentário abonatório mais repetido sobre um determinado livro vem habitualmente de mulheres e é este: «Este livro transportou-me para um mundo novo, um mundo que ainda não tinha visto». Minhas senhoras: têm a certeza que leram livros ontem à noite ou andaram a brincar ao quarto escuro? PL
ENSINO: A marretada começou a guerra: depois do Iraque, dos partidos, a próxima batalha chama-se universidades e ensino superior. Deixo aqui a primeira posta: no ensino não deve haver democracia. PL
ESTE POST NÃO TEM TEORIA POLÍTICA HARD CORE: Eu tenho irritações. Muitas irritações. Em pensamento, peco como vocês não querem saber. Sempre que vou levantar dinheiro a um multibanco e encontro uma fila de espera, a alma que está a utilizar a máquina resolve tirar o dia para experimentar todos os seus serviços: paga a electricidade, compra bilhetes para a Mónica Sintra, carrega o telemóvel, transfere algum dinheiro para a sua conta na Suiça (em nome do sobrinho) e, no fim, decide consultar o saldo. Em dias destes só me apetece invadir a Polónia. PL
LOUÇA ESTRAGADA: O assunto nem merece longa prosa. Francisco Louçã (conhecido entre o operariado inglês por Francis of the dishes) escreve hoje um artigo no Público denunciando a herança anti-iluminista, inspirada em Leo Strauss, dos neoconservadores americanos. O problema de Louçã é que ele não é um exemplar e recomendável representante desse bendita tradição iluminista. Gente como ele andava a enforcar duques em 1793, mujiques em 1917 e uma multidão de desgraçados em 1950 no país da grande muralha. O iluminismo na boca de Louça não passa de louça estragada. PL
RUI RAMOS: Não é só por causa do JPC e do PM que vale a pena comprar o Indy. O jornal traz hoje um fulgurante ensaio de Rui Ramos sobre o 25 de Abril. Que Rui Ramos não tenha ainda uma página inteira nalgum jornal para derramar a sua sabedoria, é um clamoroso sinal de que o jornalismo português anda atrasado. PL
O NORTE É UMA NAÇÃO: Hoje devia ser proibido escrever sobre política. A estrada da circunvalação e a rotunda da boavista vão a caminho da grande final. Força, rapazes. PL
INTELOS: Os intelectuais cubanos residentes vieram defender Fidel. Os intelectuais iraquianos vêm agora dizer que nunca apoiaram Saddam. Peço emprestada uma expressão cara ao JPC: pode ter-se algum respeito por esta manada? PM
VÍRUS GLOBAL: A melhor frase que ouvi sobre o vírus que assola o Oriente e se começa a alastrar: «pois, a culpa é da globalização». Nem a Naomi Klein diria melhor. PM
PANS & CO: Tivemos acesso ao projecto de Estatutos da Nova Democracia. Chamou-nos a atenção o ponto 12: «Não serão admitidos na ND homossexuais e bissexuais». Curiosos por saber como determinam essa tendência nos candidatos a militantes, informou-nos a D. Adozinda, do Gabinete de Imprensa, que «o dr. Jorge Ferreira mandou vir daqueles testes que o Vaticano quer introduzir nos seminários». Ao que parece, é um moderno kit que contém, entre outros items, um CD dos Village People: quem resistir a dançar será admitido como um Novo Democrata. Força, Manel. PM
DIREITO AO NOME: Tenho um carinho especial por aquele senhor «mais conhecido por Abu Mazen» (que o nome dele é bem mais complicado). Mas detestava que os jornais dissessem: «Pedro Mexia (mais conhecido por Adalberto Seixas)». Se o senhor é «mais conhecido por», porque é que não muda simplesmente de nome? Arre. PM
AINDA ABRIL: Os canhotoblogs lembram, de coração apertado, o 21 de Abril, isto é, a passagem de Le Pen à segunda volta das presidenciais. Pelo que temos visto escrito, não tiraram ainda as lições mais importantes. Há três ideias que saltam à vista. Uma é a idiotica que é tornar certos temas «de direita», quando na realidade apenas existem respostas de direita (ou de esquerda). Outra é o prejuízo que o esquerdismo lunático (três candidaturas trostskistas???) causa às possibilidades eleitorais da esquerda. E outra ainda, a mais séria de todas: de tanto chamar os partidos e governos de direita de fascistas, a esquerda fica sem credibilidade para quando grita «lobo» e é realmente lobo. Aprendam, senhores. PM
FORÇA, CAPITÃES DE ABRIL: Se o FCP e o Boavista se apurarem hoje para a final da Taça UEFA, este dia ficará na história: o 24 de Abril. PM
BEST-SELLER: O caso Casa Pia entrou numa nova fase: a das Cartas Abertas. Carlos Cruz escreveu uma carta aberta, Pedro Namora escreveu uma carta aberta e até os tribunais fazem dos acordãos cartas abertas, com insinuações totalmente descabidas para uma peça processual. Esperemos ansiosamente por uma carta aberta, que digo?, pelas memórias de Jorge Ritto: Visão Retrospectiva da Diplomacia Portuguesa. A Oficina do Livro chamava-lhe um figo. PM
A COLUNA CANHOTA: A Coluna está perplexa. Com a criação da UDL - União dos Directores Livres - começamos a estar à esquerda dos nossos camaradas. Na verdade, a associação constituída por José António Saraiva, Henrique Monteiro, António Ribeiro Ferreira e José Manuel Fernandes tem tomado posições que nos ultrapassam pela direita. Nalguns casos concordamos no essencial (JMF), noutros achamos uma pura patetice (JAS), mas a verdade é que as redacções esquerdistas da pátria são de momento liderados por perigosos neo-conservadores. Bizarro. PM
DECLARAÇÃO DE VOTO: Não sei se há alguma novidade nesse domínio que me escapou, mas circula nos blogs uma questão presidencial: quem votará ou não no Prof. Cavaco. Assumo uma posição clara, sem prejuízo da opinião diferente dos outros Infames: não votarei Cavaco nas presidenciais. Ponto final. PM
A MALTA SOMOS PERIGOSOS: Terminada a volta pelo Blog de Esquerda, mais um post a comentar, desta vez do Manel:

Temos no entanto de confirmar que existe um problema com o famigerado teste. As dicotomias um pouco sumárias que nos apresenta talvez fossem eficazes aqui há umas décadas. Mas a direita, pelo menos a mais perigosa neste momento, mudou entretanto de pele. O Pereira Coutinho, na Coluna infame, diz com alguma pertinência que «ser conservador, para o senso comum cultivado, é ser católico, monárquico e muito amante de touradas e guitarradas. Erro crasso». Será, mas o Coutinho peca por excesso quando pensa que a renovação que ele pretende para as hostes conservadoras já está consumada. Vale mais como declaração de intenções que como análise política. A direita portuguesa ainda é, por muito que custe à Coluna, essencialmente retrógrada. Mas a seu jeito o Pereira Coutinho tem de facto razão, e não apenas sobre a direita de que se reclama. É que a direita que pensa, age e ganha terreno, compreendeu que a batalha contra a modernidade dos comportamentos está há muito perdida e que nessa esfera não tem armas para se bater com os liberais que lhe disputam o espaço político. A direita conservadora e populista de hoje quer ser modernaça e sem preconceitos. Se o Haider ou o Bossi (e sobretudo o Pym Fortuin) tivessem feito o teste, apareceriam provavelmente como direita libertária. Ou seja, o terrível populismo que hoje se desenvolve deixa a mensagem seguinte: «façam o que quiserem com a vossa vida privada, nós ocupamo-nos do resto». Faltam no teste mais perguntas dobre «o resto». Sobre a relação com os outros, ou com o «Outro». Se o teste insistisse menos sobre a moral individual e um pouco mais sobre questões como a imigração, a segurança, os bairros sociais, as prisões, a duração das penas, os serviços públicos, as liberdades associativas e por aí fora, talvez os resultados fossem mais claros e as águas mais facilmente separadas.

Estou no essencial de acordo com o que o Manel diz sobre a inanidade do teste e sobre grande parte da direita portuguesa. Não estou de acordo com a associação do Haider e do Bossi com o Pim Fortuyn, que é um fenómeno bastante diferente, e bastante mais bizarro. Não estou nada de acordo quando o Manel sugere que a evolução de grande parte da direita em matéria de costumes se deve apenas à constatação de uma «batalha perdida», porque julgo que tem antes a ver com factores mais profundos, um dos quais é o décréscimo do elemento religioso entre a direita. Quanto aos temas «públicos» que o Manel elenca, com certeza que não estamos de acordo com a esquerda marxista, nem podíamos estar, em assuntos como a segurança, a política penal e a imigração, embora não perceba muito bem o item «liberdades associativas». As diferenças nessas áreas mantêm-se, e discutiremos de certo muitas delas em breve. Nessas matérias, a direita está em grande medida onde sempre esteve, e os marxistas também, e quem deu piruetas foram os socialistas. Uma última nota: ninguém aqui na Coluna pretende a «renovação» das «hostes conservadoras». Já o dissemos e repetimos: escrevemos aqui apenas o que pensamos, defendemos as nossas ideias, e não temos qualquer outra ambição que não essa, muito menos a de reformismos alheios à nossa natureza. Além do mais, não queremos complicar a vida à direita, fazendo com que deixe de ser previsível e reaccionária e se torne modernaça e «perigosa», como o Manel generosamente nos apresenta. PM

quarta-feira, abril 23, 2003

PESSIMISMOS & COMUNAS: Nos blogs canhotos há algumas polémicas e picardias com a Coluna, como de costume. Comecemos por dois posts do Filipe Moura, no Blog de Esquerda:

Discordo em absoluto da tese do Pedro Mexia: não há correlação nenhuma entre esquerda/direita e optimismo/pessimismo. Poderia enumerar uma enorme lista de pessimistas de esquerda, a começar pelo Steinbeck que ele refere, e passando pelo António Lobo Antunes, mas prefiro recordar optimistas de direita, como Luís Delgado. Este autor acaba um em cada três artigos com "o que é preciso é recuperar a confiança e o optimismo"; "o ano que vem vai com certeza ser muito melhor". Tal optimismo é uma característica muito americana e devo dizer que até o aprecio, pois ele reflecte autoconfiança. Este estado de espírito é precisamente o que nos falta a nós, portugueses. Mas, quando em excesso, também pode reflectir um certo primarismo. O Pedro Mexia também gosta de referir que o optimismo é característico da juventude, "um defeito que passa com a idade" (palavras dele). A idade e a experiência de vida tornam as pessoas cépticas e pessimistas. Por esta ordem de ideias, que tal reconheceres que os americanos são, em geral, infantis, Pedro?

Caro Filipe, a ideia de o pessimismo antropológico ser uma característica definidora da direita não foi inventada por mim: de Hobbes em diante, todos os autores que consideramos «de direita» acentuam essa característica. E sublinho: pessimismo antropológico. Não se trata do pessimismo psicológico, que não é da ordem da ideologia. Citar-me, contra o Maquiavel e descendentes, o Luís Delgado... ó meu amigo... Se os americanos são infantis? Muitos são, mas esse «em geral» é demasiado vago para definir todo um povo. Os Estados Unidos têm muitas características de um país recente e idealista, entre as quais pode estar alguma dose de infantilidade, mas isso não chega para uma caracterização assim tão genérica. Aliás, acrescento que o idealismo americano é uma das características que menos me agrada nos EUA.

Anda a direita (José Manuel Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Mexia) muito apoquentada com a nova lei dos partidos, particularmente no que diz respeito ao PCP. É espantosa esta preocupação – António Ribeiro Ferreira também a partilha, pelo que anteriormente escreveu nos editoriais do DN – da direita pelo PCP "autêntico" e "genuíno". O que só prova que um PCP ortodoxo e desfasado da realidade (e consequentemente enfraquecido) só convém à direita. Por mim, se a constituição proíbe – e bem – partidos fascistas, não vejo por que razão não há de proibir o estalinismo e o centralismo "democrático". Afinal, não é esta "igualdade de tratamento" que a Coluna Infame tanto quer?

Caro Filipe: a direita está em geral de acordo com a lei, e até a propôs, vê lá bem. Quanto ao PCP, há uma questão de princípio: a lei não deve interferir com a legítima organização interna de um partido. E há uma questão de facto: a esmagadora maioria dos militantes do PCP são estalinistas e centralistas, como se vê pela patética taxa de adesão aos «renovadores» e a consequente impossibilidade de se formar um PC (R). A Constituição não deve proibir nenhuma ideologia, porque contrariar a livre expressão e organização de todos os movimentos de ideias é um procedimento antidemocrático. Claro que eu prefiria que não existissem partidos comunistas (estalinistas, se preferires) e fascistas, mas que isso fosse por decisão do eleitorado, e não por censura prévia. PM
NADA DE NOVO: No que à Coluna diz respeito (estou a começar a minha tour de cinco horas para me pôr a par dos outros blogs), tudo sobre rodas. O JPC cumpriu os serviços mínimos e mais ainda, e os ecos que me chegaram de que estava «feroz» não encontram prova nos posts que aqui escreveu (até parece que nunca leram o João, rapazes). O Pedro aprimirou a prosa queirosiana, deu um belíssima resposta a um belíssimo mail do Alexandre Franco de Sá (estás bom, Alex?), e escreveu a palavra «charivari», coisa que me deixa em estado de inveja homicida. Além disso, houve polémicas com os do costume, elogios sinceros e outros suspeitos à minha pessoa e até, obrigado Deus, uma referência ao Whit Stilman. A normalidade feliz. E eu que cheguei a supôr que tudo tinha mudado em cinco dias, não apenas pelas informações telefónicas que me foram chegando, mas por causa de uma série de ocorrências estranhas: na viagem, a CP com Perry Blake nos auriculares; à chegada, um taxista a ouvir uma sinfonia na Antena 2; no jornal, cartas simpáticas de escritores, e outras bizarrias do estilo. Suspeitoso que sou, fui ao lugar mais avesso à mudança, a prateleira de política da FNAC, e lá estavam: Chomsky, Louçã, Said e o resto do bando. Suspirei de alívio: nada de novo na capital do Império. PM
DAS SERRAS PARA A CIDADE: Houve um tempo em que não havia internet? Estava capaz de jurar que não. Cinco dias fora, numa pacata casa lousanense, com parte da familota e uns romances em atraso e já estava a ficar doente. Deve ser isto que os drogados sentem. Porque acontece, caros amigos, que eu não tinha net. Quer dizer, tinha um simpático cibercafé do município, ainda por cima à borla, mas não é a mesma coisa. O mail ainda espreitei, quando ia mandar artigalhadas para a imprensa, mas espreitar blogs, népia. E que saudades, Deus meu. A polémica, a política, os Silvas, o tipo com nome de central nuclear que nos odeia, a ginástica da Charlotte, os aforismos do Tiago, as marretadas, piadas machistas, os filmes que a malta viu. Houve um tempo em que não havia internet? Dizem que sim, mas não me lembro. Mas blogs, esses, existem desde sempre. Até apostava. PM
O RAPAZ É NOSSO: Pedro Mexia está de volta, para gáudio das hostes e do Zé Mário que fez questão de lembrar ao país, à blogosfera e à coluna a importância do Pedro. Claro ZM: desde que lançámos o estaminé, o Mexia manda, dispõe, insulta, vergasta e - verdade seja dita - não paga. O rapaz é um déspota absoluto, um patrão pior do que os do Vale do Ave. Mas tem tanto talento que o vamos deixando ficar. Já agora, ZM, querias o quê? Poesia domingueira? Intertextualidade? Desportos de inverno? Eu sei o que tu querias; o que tu querias era contar com ele aí no Blog-de-Esquerda na qualidade de membro independente. Lamento mas nada feito. Este rapaz demorou muito tempo a formar e já foi uma carga de trabalhos convencer os pais a entregá-lo ao nosso cuidado. Daqui, ele não sai. Paciência, ZM. Neste blog não pões o dedo. PL
SAUDADES DE SALAZAR: Pedro Mexia foi laurear a pevide e a Coluna ficou entregue ao Lomba e a moi même. Isto, pelos vistos, provocou intensa comoção nos canhotoblogs - que desataram a tremer com a alegada ferocidade dos posts. Até José Mário Silva, meu querido amigo, acha que o problema é pessoal, não teórico ou intelectual. Isto percebe-se? Dito de outra forma: percebe-se que um pouco de acelerador no tom do debate desperte logo a sensibilidade ululante das donzelas? Sim, meus amigos, percebe-se. Percebe-se com 48 anos de ditadura que, ao contrário do que sucedeu durante a Primeira República, tiveram como principal objectivo a remoção efectiva da política, e do debate político, das ruas. Se os canhotoblogs tivessem um conhecimento, ainda que vago, da prosa republicana que se publicava em Portugal antes da ditadura militar, saberiam que eu não passo de um menino de coro. Mas os canhotoblogs não sabem. E não sabem porque, durante 48 anos, a própria palavra «confronto» foi apagada pela força do chicote, da repressão e da censura. Não admira que, hoje, 29 anos depois de Abril, quando o debate se acende e os argumentos faíscam, a Esquerda comece a ver ofensas, provocações e intoleráveis polémicas em todo o lado, esgrimindo uma superioridade moral que, obviamente, não tem. E, mais ainda, não admira que comece a ver no tom do debate, não uma forma de esgrimir ideias - mas uma maneira ilegítima de dar andamento a emoções pessoais. Para eles, escrever com agressividade é estar chateado com a vida (de preferência, pessoal) - e nunca a marca de um estilo puramente intelectual. No fundo, no fundo, os canhotoblogs preferiam um mundo ordeiro e pacífico, onde todas as vozes falassem com igual tom. Estes meninos não aprenderam nada. Eles continuam com saudades de Salazar - e do Portugal que Salazar ergueu. Para nossa incalculável desgraça. JPC
WHIT STILMAN: Um leitor pediu-nos impressões sobre o cinema de Whit Stilmann. O PM não deixará de meter aqui a colher. Eu vi «Barcelona» uma vez e fiquei esmagado com a inteligência e profundidade do homem. Stilmann pareceu-me uma espécie de Godard de Harvard. Tipos bem lavados, cultos e inexperientes a discutir Santo Agostinho. Diálogos fulgurantes. Um cineasta imprescindível. PL
ERA SÓ APROVAR: Esta frase pertence a uma sumidade da política nacional que ocupou o Ministério das Finanças num Governo recente. Deixei preparada uma proposta que garantia a substituição da sisa pelo imposto de selo, o que não provocava redução das receitas das autarquias. (Guilherme d'Oliveira Martins, in JN). Claro, estava tudo preparado. Existem governos que nos espantam pela generosidade. PL
BOAS ACÇÕES: Hoje, celebra-se o dia do escutismo. Não vou dissertar sobre a filosofia inspiradora da seita ou sobre as suas origens intelectuais. Mas acontece-me sempre que os vejo na rua, pequenos exércitos de calções no Inverno e lenços à volta do pescoço, grupos dispostos a fazer da vida uma «constante boa-acção»: ganho uma irrefreável vontade de me tornar um marginal, de pecar furiosamente, de assaltar bancos e agredir minorias. Tanta bondade, confesso-vos, agride. E se alguém me chamasse um dia lobito, eu ia-lhes literalmente à cara. PL

terça-feira, abril 22, 2003

O ESSENCIAL: Isto tudo quer dizer apenas o seguinte: que, no meu pobre juízo, não se pode afastar qualquer interferência da lei na organização interna de um partido político, supondo essa interferência deletéria e anti-democrática. Os partidos são associações privadas e, ou a Constituição é uma farsa para avozinhos, ou devem estar submetidos a regras essencialmente idênticas às que aplicam a uma vulgar associação privada. Acima de tudo, o que me preocupa mais nesta proposta são as regras - essas sim importantes - que definem e concretizam a liberdade fundamental de constituir um partido político. A proibição de partidos religiosos, fascistas, regionais (sim, regionais) parece-me um absurdo e um anacronismo tão grande que não percebo como é tanta alma se tem preocupado com o voto secreto, esquecendo que há cidadãos e ideias deste país que, simplesmente, não têm o direito de constituir partidos para a sua defesa. E o mesmo digo das regras sobre extinção dos partidos: exigir um número de militantes mínimos para um partido sobreviver já não é um absurdo, é uma tirania. Isto, meus amigos, nada tem a ver com a organização interna, com o voto secreto ou com a existência de um modelo de partido único. Tem a ver com algo mais importante: a liberdade de criação e sobrevivência dos partidos. Para mim, é isto o essencial e é isto eu quero ver discutido. Os partidos têm medo que o Estado lhes entre dentro de casa. Mas porquê, se a casa é, frequentemente, um atoleiro a pedir uma boa limpeza? PL
O PCP: Eu nem gosto muito desta proposta mas não vejo – nisso, até estou sozinho aqui na Coluna – que a intromissão no domínio interno dos partidos seja um pecado assim tão extraordinário, sobretudo ao pé de outros que ainda subsistem. Num certo sentido, está-se a empolar o caso do PCP, fatalmente no centro desta discussão, mesmo que isso incomode os camaradas. Ora, eu gosto muito do PCP. Gosto do Carvalhas, do Jerónimo de Sousa, da Dona Odete e, sobretudo, - todos temos um comunista predilecto – gosto do Vítor Dias, com quem me cruzei durante anos sem uma plausível explicação. Mas daí a achar que o PCP (ou qualquer partido, note-se) pode fazer o que quiser, moldando a sua estrutura interna como lhes dá na cabeça, vai um passo demasiado grande. O PCP é um interessante objecto de museu e não acho que, por gostarmos de objectos de museu, devamos dizer, pura e simplesmente, que os partidos são impenetráveis. Nada é impenetrável, como bem sabem. Que o PCP seja ou tenha sido estalinista, leninista, marxista, sovietista ou o que quiserem; que o Bloco de Esquerda vote em pé, deitado no chão ou na cama a eleição dos seus órgãos dirigentes, isso não significa que não deva haver um respeito mínimo por regras basilares de organização interna. Estou a falar de um respeito mínimo e de regras mínimas. Admito que o projecto vá demasiado longe (consultem-no na página da Assembleia), quando define o modo de eleição de cada órgão nacionais ou define as suas competências. Mas confesso que, dado o charivari que por aí vai, nem acho que a coisa mereça o estrondo. PL
PARTIDOS: O debate sobre os partidos começou. Dentro e fora da blogosfera. Óptimo. É de discussão que os partidos precisam: de discussão a sério, não de sardinhadas com delegados ou congressos inanes no Coliseu. Para o caso, estar dentro ou fora dos partidos é indiferente. Creio que ninguém possui uma qualquer vantagem nesta discussão por ser filiado num partido. O contrário também se passa: as virgens dos partidos como eu próprio, não têm qualquer autoridade adicional por causa disso. Depois, se queremos discutir a lei dos partidos, não precisamos de repetir os habituais eflúvios sentimentais e eróticos que os partidos costumam habitualmetne suscitar Sim, os partidos são essenciais à democracia, à política, ao poder, a quem gosta deles, a quem os quer. Sim, foram os partidos que, em Portugal, decidiram a sorte do regime, moderaram o poder militar, equilibraram a Constituição. Foram os partidos que consolidaram a democracia, impedindo que, nos anos mais dramáticos deste pais, a disputa pelo poder acabasse na rua, num espectáculo caótico e desorganizado. Tudo isto é verdade. Mas há uma coisa que não é verdade e que tem sido dita: o conflito político – o conflito que interessa, o conflito de ideias – não passa hoje fundamentalmente pelos partidos. Pretender, pois, que a maior ou menor aversão ao Estado de partidos vigente, exprime a atracção bem portuguesa pela União Nacional e pelo consensozinho, é ver apenas uma parte da realidade, não toda. Felizmente, há vida para além dos partidos, há conflito político para além dos partidos. PL
POLÍTICA: Eu queria dizer exactamente isto mas este rapaz irlandês antecipou-se:


Politics


`In our time the destiny of man presents its meanings in
political terms' - Thomas Mann

HOW can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here's a travelled man that knows
What he talks about,
And there's a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war's alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms!
PL
ENTRE CONSERVADORES: Caros infames: foi a minha amiga Clara Cabral quem, há dias, me chamou a atenção para a vossa coluna. Dizia-me que pertenciam, tal como ela diz que eu pertenço, àquela direita desenquadrada, sem obediências partidárias ou fidelidades preconceituosas, que se pode dar ao luxo de escrever o que pensa porque nada tem a ganhar ou a perder. Fui ler-vos. E, desde logo, achei estranha a vossa posição sobre a invasão e destruição do Iraque: simplesmente “a favor”. E achei estranha porque, com a excepção daqueles que assumem, de quando em quando, o papel de comissários partidários (como, neste caso, Pacheco Pereira), que frequentemente dizem a contragosto aquilo que são mandatados para dizer, não conheci ninguém de bom-senso que fosse simplesmente “a favor”. Tentei encontrar uma justificação sustentada. E achei-a na vossa evocação de uns lendários “valores liberais”. São “a favor” porque se trata, ao mesmo tempo, de 1) libertar da servidão, numa generosidade messiânica, os povos que não conheceram ainda a incomparável felicidade daqueles que vivem sob regimes liberais, e de 2) mostrar a superioridade desses mesmos regimes, com a sua livre iniciativa, o seu espírito empreendedor, a sua mobilidade, a sua tecno-ciência, a sua modernidade como “aceleração”, para usar a expressão de Peter Sloterdijk, de que a “liberdade” dos B-52 nos céus de um país inimigo é a mais patente manifestação (e a ligeireza com que se dizem asneiras a mais caricatural). Ao contrário do que sugerem, pelo menos implicitamente, parece-me que o que esta guerra demonstrou é a impossibilidade de sustentarmos argumentativamente qualquer “superioridade moral” de regimes e sociedades liberais sobre outras formas de organização política e social. Mesmo a tentativa do recentemente falecido John Rawls de encontrar uma hierarquia de modos de organização política a partir do liberalismo político, tolerando povos que, apesar de não liberais, sejam reconhecidos como “povos decentes”, parece hoje partir de princípios insustentáveis. E isso porque o que esta guerra permite vislumbrar é, para permanecermos na formulação rawlsiana, não apenas a possibilidade, mas até a probabilidade da coexistência entre liberalismo e indecência. Poderão certamente continuar a dizer, numa ingenuidade alegre e festiva, que as sociedades liberais são, apesar de tudo, aquelas onde se respeitam princípios políticos fundamentais, como a igualdade perante a lei ou o direito universal de participação política. Contra esta ingenuidade, talvez seja hoje até dispensável evocar a imagem de Tocqueville de um “despotismo dócil”, onde homens menorizados, deleitados pelos pequenos prazeres da sua vida privada, entregam a condução da sua vida pública a um governo que os proteja e decida por eles. O que hoje se passa, nas nossas sociedades liberais, é bem mais grave e não se reduz à imagem esgotada, mas verdadeira, de uma multidão de homens indiferentes a questões públicas sendo governada por “oligarquias disfarçadas” (de que os partidos políticos são, apesar de tudo, a versão mais inócua). O que hoje se passa é que o liberalismo actual conseguiu verdadeiramente produzir aquilo a que Rafael del Águila, numa expressão felicíssima, chamou “cidadãos impecáveis”: um conjunto de homens mentalmente anestesiados, que pensam, desejam, opinam e até sentem, como se fossem seus, um conjunto de lugares-comuns configurado por várias espécies de marketing, numa espécie de eugenismo mental em que uma “retórica política da liberdade”, descendente pobre de um iluminismo esquecido, encobre o crescimento desmesurado de um poder invisível. Só neste horizonte anestesiante teria alguma eficácia a actual retórica da “criminalização do inimigo”, juntamente com a da “guerra humanitária”, de cuja conjugação os mais recentes discursos do Presidente Bush passarão certamente para a história como os mais admiráveis exemplos. Sinceramente, não esperava ver-vos falar sobre esta guerra apelando para termos como “valores liberais”, “liberdade” ou “civilização”. Com isso, não vos parece que se tornam numa espécie de “Bloco de Esquerda” invertido? Parece-me que sim, o que é pena. Porque o que hoje faz falta na política em geral, e na política e cultura portuguesas em particular, é, para recordar uma distinção de Bonald, uma inteligência que seja o contrário do que o “Bloco de Esquerda” em Portugal representa, e não apenas mais uma sua versão, mesmo que seja, desta vez, uma sua versão ao contrário.

Caro Alexandre F. de Sá: Embora não tencionemos voltar a discutir a justificação da guerra - porque, francamente, não desejamos repetir-nos -, abrimos uma excepção para o seu longo e interessantíssimo mail, que agradeço em nome da Coluna. Suponho que as questões que levanta são demasiado importantes para não serem respondidas, tanto por mim como pelos outros infames. A verdade, para começar, é que temos polemizado em demasia com gente que rejeitou a intervenção militar no Iraque, não em nome de valores políticos claros mas, antes, por causa de um anti-americanismo primário e ignorante. O Direito Internacional não é um valor político claro porque, se quisermos, este foi um caso que demonstrou como a legalidade formal das Nações Unidas pode divergir clamorosamente de uma mais ampla e mais importante legalidade substancial. Esquecemo-nos, entretanto, de que a nossa própria posição, vista a partir da família política onde gostamos de nos inserir – o conservadorismo – precisa de ser sustentada mais consistentemente para resistir às críticas de conservadores esclarecidos como o Alexandre. Aliás, esta discussão teve lugar em Inglaterra: alguns conservadores (por exemplo, Peter Hitchens) rejeitaram a guerra porque, segundo eles, esta é ou foi uma guerra liberal e esquerdista. John Gray escreveu um excelente artigo no New Statesman , contestando, no meio de citações de De Maistre, o optimismo revolucionário dos «novos jacobinos» que rodeiam o sr. Bush. Este mesmo debate está em ebulição nos Estados Unidos, com uma troca de mimos entre paleoconservatives e neoconservatives que mostra bem como anda brando o nosso jornalismo. Em que ficamos? Nós sempre dissemos que os motivos ideológicos desta guerra não eram tão importantes como os seus motivos estratégicos ou políticos. Desde o 11 de Setembro que os Estados Unidos estão legitimados a atacar, mesmo preventivamente, Estados que albergam terroristas, Estados que apoiam terroristas, Estados que colaboram com terroristas, Estados que mantêm um discurso político hostil, totalitário, anti-ocidental de que se alimenta o terrorismo. Portanto, esta guerra resultou de uma decisão nacional dos Estados Unidos, que nos parece legítima nestas circunstâncias e que nos pareceria legítima se fosse outro o país a ser atacado comos os Estados Unidos o foi, desde que – pormenor importante – fosse garantida uma utilização racional da força militar. Os motivos ideológicos da guerra vêm depois. Nós usámo-los moderadamente. Em parte, a nossa insistência nos “valores liberais” – embora sem o entusiasmo e o optimismo que o Alexandre nos imputa – deveu-se à necessidade de lembrar, no debate com todos aqueles que contestaram a guerra mas, estranhamente, se presumem muito progressistas e kantianos – que esta também foi uma guerra liberal e reformadora, procurando, nesse sentido, desacreditar a oposição que a esquerda lhe dirigiu. Mas, por outro lado, é evidente que a derrota de Saddam e a queda do seu regime, nos pareceram factos políticos importantes e louváveis. Temos muitas dúvidas sobre a pronta democratização do Iraque nem achamos que os regimes liberais sejam regimes de «incomparável felicidade» (de resto, nem acreditamos muito na felicidade política). Não achamos que os povos devam viver forçosamente em réplicas mal concebidas das democracias liberais. Mas, caro AFS, uma coisa parece ser certa: o 11 de Setembro trouxe, de facto, para a ribalta política o conceito de civilização. Eu sei que o conceito é discutível, eu sei que a sua descendência intelectual é suspeitosa, eu sei que esta gloriosa civilização liberal é useira em propagar a estultícia (mesmo lhe chamando cidadania); mas também sei que as coisas são o que são, que , mal ou bem, fazemos parte desse mundo e que, modestamente, preferimos esse mundo a quaisquer imaginosas experiências políticas, venham elas de onde vieram. E sei que, em certos momentos, é preciso atacar para não ser atacado, atacar para conservar o que se tem, mudando qualquer coisa. Com tudo isto, poderá responder-me, citando Cioran, que «quem pertence organicamente a uma civilização, não percebe a natureza do mal que a mina». É possível. Deixe-me só dizer-lhe uma coisa: Burke é um dos nossos autores; apreciamos a prosa de De Maistre e Bonald mas deixamos os seus livros na prateleira. Um abraço e escreva sempre. PL
CONGRATULATIONS: Ignorámos o facto – erro grave – e esquecemo-nos que o PS fez anos há uns dias e, por conseguinte, todos os socialistas da nação estão de parabéns. Foi difícil fazer um partido como este, nascido em 1973 em Bad Munstereifel (a escolha do local, convenhamos, nunca foi compreensível por uma pessoa sensata); o soarismo nem sempre foi suportável, bem sei; e, claro, cresce de vez em quando o desejo de mandar as trovas do Manuel Alegre para a Islândia. Entretanto, o PS cresceu, ganhou o poder, perdeu o poder, seduziu os católicos e os democratas-cristãos, descobriu um conhecido sacerdote e continua a enfrenesiar espíritos valentes e jovens, cheios de vontade de mudar o país. É evidente que o paradeiro de Rui Mateus continua desconhecido mas, que diabo, quem é que precisa desse delator que ousou desafiar a linhagem soarista e expor ao público os carunchos do armário? PL
RELEMBRAR TAMBÉM: Como já repararam, a voz, alma e espírito ditatoriais deste blog, Pedro Mexia, está fora de Lisboa, mais precisamente no Norte do País, no meio de prados verdejantes e vaquinhas brancas. Sabemos que está sem Internet mas não conseguimos apurar se tem tido a companhia de alguma camponesa rosácea, interessada em ouvi-lo perorar sobre a poesia portuguesa, do presencismo aos surrealistas. Até ao regresso do Pedro, a Coluna será actualizada mais vagarosamente. Espero que compreendam porque, como bons conservadores, nós funcionamos melhor com a autoridade presente. Temos alguns mails importantes a publicar, alguns atoardas que aguardam o cano e alguns vitupérios que não deixarão de ter, como sempre, o carinho que merecem. Portanto, fiquem aí. PL

segunda-feira, abril 21, 2003

RELEMBRAR: A Coluna Infame é um blog assumidamente conservador, renovado diariamente por Pedro Mexia (PM), Pedro Lomba (PL) e João Pereira Coutinho (JPC). Comentários, heranças, insultos, propostas (de todo o tipo) para colunainfame@hotmail.com.
BOCAS DE INCÊNDIO (2): Ainda a propósito do teste, O País Socialista coloca uma questão pruriente. A saber: «Pergunto-me o que terá o mais encarniçado infame João Pereira Coutinho respondido no teste da moda à questão: 'a one-party state is better because it avoids all the arguments that delay progress in a democratic political system.' Strongly disagree? Disagree? Disagree ma non troppo? Agree um bocadinho?» Para logo acrescentar: «É que no âmbito dos serviços mínimos que assegurou para a Coluna no fim-de-semana pascal, ficámos a saber que JPC, apesar de não querer chocar os espíritos pueris - caro JPC, não há motivo para preocupação, daí já nada nos choca -, considera que todos os militantes de partidos políticos são débeis mentais e que os partidos - julgo que queria dizer, 'a terem que existir' - devem sustentar-se exclusivamente com as contribuições dos próprios militantes». Percebo a rapaziada do Rato. E, como dizia o outro, perdoo-lhes, porque eles não sabem o que dizem. Na verdade, não existe no País Socialista qualquer inquietude sobre a minha resposta à questão supracitada. Aquilo que pôs o celeiro a arder e os ratinhos a chiar foram as minhas considerações sobre «os militantes partidários», triste categoria a que os meninos do País Socialista abnegadamente pertencem. E aquilo que lhes custou ouvir foi a verdade, aparentemente trivial, de que a vida política é a escolha certa para pessoas com vidas privadas simplesmente miseráveis. Sobre isto, nada posso fazer. Apenas aconselhar: mais ar puro, menos Anthony Giddens, alguns copos ao serão, convívio apertado com filhas de dirigentes socialistas (falar com Ana Gomes) - e o número de telefone de uma massagista tailandesa que opera no Campo Grande. Não se acanhem e digam que vão da minha parte. JPC
BOCAS DE INCÊNDIO (1): Manuel Deniz resolveu comentar as minhas brevíssimas considerações sobre «a direita de que me reclamo». Que nos diz o Manuel? Diz-nos, com o radicalismo típico da seita, que «a direita que pensa, age e ganha terreno compreendeu que a batalha contra a modernidade dos comportamentos está há muito perdida e que nessa esfera não tem armas para se bater com os liberais que lhe disputam o espaço político». E, cheio de autoridade, acrescenta: «A direita conservadora e populista de hoje quer ser modernaça e sem preconceitos. Se o Haider ou o Bossi (e sobretudo o Pym Fortuin) tivessem feito o teste, apareceriam provavelmente como direita libertária. Ou seja, o terrível populismo que hoje se desenvolve deixa a mensagem seguinte: 'façam o que quiserem com a vossa vida privada, nós ocupamo-nos do resto'.» No fundo, para o Manuel, «a direita de que eu me reclamo» pode ser moderna nos comportamentos individuais, mas incuravelmente reaccionária nos comportamentos colectivos. E bastava que eu me pronuciasse sobre temas tão diferentes como «a imigração», «a segurança», «os bairros sociais», «as prisões», «a duração das penas», os «serviços públicos», «as liberdades associativas» e «por aí fora» para que a minha costela autoritária emergisse em toda a sua força dantesca. Eu, confrontado com as certezas do Manuel, não tenciono contestar tanta sabedoria. Mas, a título ilustrativo, gostaria apenas de acrescentar duas coisas. Primeiro: é um facto que não tenciono ser polícia moral de ninguém; mas quando afirmo que sou «um radical em tudo o resto», aí envolvendo os hábitos individuais e as individualíssimas «escolhas de vida», convém não esquecer que sou um «conservador em política», ou seja, que a minha preocupação essencial não é a preservação dos interesses de uma classe (como o Manuel) - mas a manutenção de estruturas e instituições que, pela sua intrínseca qualidade e utilidade, resistiram ao teste do tempo. Isto não significa que seja contrário à mudança. Pelo contrário: a mudança é necessária e, nalguns casos, absolutamente vital para a conservação daquilo que, na minha modestíssima opinião, constitui uma existência civilizada. Em segundo lugar, e também ao contrário do Manuel, não tenho nenhuma receita para os tópicos de discussão alinhavados. Ao contrário do Manuel, não tenho respostas automáticas para o problema da «imigração», da «segurança» e dos «barros sociais». Desde logo porque, ao contrário do Manuel, tenho muitas dúvidas sobre o mundo, em geral, e sobre a arte política, em particular. E, ao contrário do Manuel, entendo que só é possível pensar politicamente quando confrontado com problemas políticos concretos - e nunca raciocinando a priori e desenhando, a régua e esquadro, soluções políticas exclusivamente produzidas pelos meu desejo ou, palavra ainda mais repugnante, pela minha imaginação.Eu sei que, se lhe perguntassem, o Manuel dissertaria abundantemente sobre «a imigração», «a segurança», os «bairros sociais», «as cuecas da Catarina Furtado» e cinquenta mil assuntos para os quais o Manuel tem resposta pronta e livro debaixo do braço. Infelizmente, não pertenço a esse pelotão de luminárias. A vida é precária, plural, definida pelo imponderável que se abate sobre nós com pasmosa frequência. Talvez seja por isso que, até hoje, nunca conheci nenhum «conservador utópico», i.e., nenhum político ou pensador que, confrontado com as iniquidades do mundo presente, enveredasse por um mundo Outro, convenientemente arrumado e fechado na sua pasmosa perfeição. Seria bom que o Manuel, do alto da sua sapiência, fosse mais humilde e prudente. A realidade é ligeiramente mais complexa e, não raras vezes, dispensa receitas de manual. JPC
UM DIA NO PÚBLICO: Como será um dia no Público? Um dia normal, sem grandes notícias, grandes eventos. Um dia sem a pressão infrene da guerra, sem entrevistas fulgurantes a políticos pátrios, sem artigos de revisionistas, sem as análises do Prof. Rosas e do Prof. Vital. José Manuel Fernandes chega ao jornal bem cedo e exclama para a redacção: «Atenção, hoje vou escrever sobre os neoconservadores americanos. Vai ser um artigo longo. Três, quatro páginas. Depois haverá uma entrevista ao William Kristol. E um reportagem exclusiva sobre os «intelectuais de Washington». Se tiverem alguma coisa vermelhusca para publicar, paciência: fica para amanhã que amanhã também é dia do Senhor.» Segue-se um ruído contido, uma insatisfação mal disfarçada. Depois, JMF acrescenta: «Não, esperem, as vossas coisas não podem sair amanhã. Amanhã, sai um artigo do Kagan (tradução minha) e outro do Garton Ash (tradução minha). E já agora: avisem o conselho de administração, que vou para Washington os próximos três dias. Mas continuarei a dirigir o jornal de lá. Obrigado. PL