domingo, abril 20, 2003

TESTE DE FERRO: À semelhança de Mexia e Lomba, camaradas de estrada, também eu me submeti às agruras do teste político em voga. Podem baixar o braço e remover caridosamente a braçadeira: libertário de Esquerda. O que, atendendo ao questionário, nem sequer me surpreende. Existe disseminada pelo mundo a patética ideia de que ser conservador - rótulo que me une aos outros dois infames - é uma disposição facilmente tipificável em valores e comportamentos. Ser conservador, para o senso comum cultivado, é ser católico, monárquico e muito amante de touradas e guitarradas. Erro crasso. Em termos pessoais, aviso já que abomino o fado e tenho um desprezo instintivo por ganadarias (abro excepção para certos movimentos partidários). De resto, a minha relação com o catolicismo é assaz problemática e, em relação à Monarquia, respondo como bom conservador: conservemos a República. Porque o problema central que um conservador enfrenta lida directamente com o poder, ou seja, com a imperiosa necessidade de o limitar e domar. Assente numa visão essencialmente negativa da natureza humana e da fragilidade do Bem, sei que a função de um governo é, tem de ser, deve ser, necessariamente limitada, cautelosa e céptica, nunca motivada pelos calores do delírio utópico. Sou, como Michael Oakeshott, «conservador em política e radical em tudo o resto». Ou seja: precisamente por ser um conservador em política, precisamente por entender a necessidade de açaimar a ferocidade do poder, é que sou um radical em todos os outros domínios da vida humana. Acho que os indivíduos devem procurar vidas felizes por sua conta e risco - e que essas vidas felizes, desde que não coloquem em causa os arranjos tradicionais que resistiram ao teste do tempo, nem sempre obedecem à minha particular concepção de Bem. Isto implica uma visão necessariamente tolerante a nível dos costumes, coisa que o teste político não percebe e que tipifica como se vê. JPC
POVO GLOBAL / POVO LOCAL: Os nossos amigos do Blog-de-Esquerda levam muito a sério a opinião pública internacional, mesmo que a opinião pública internacional não os leve sério a eles. Ouvir o dr. Louçã ou o dr. Portas perorarem sobre o «povo global» como se falassem da Mona Lisa, é, no mínimo, caricato. Mas, enfim, o «povo global» destes senhores, na sua imaginosa abstracção, é, no fundo, o outro «povo» que lhes falta. PL
A PÁSCOA: Sic Radical, 12 horas e 33 minutos (em Bagdad não interessa): um homem apossa-se furiosamente das nádegas de outro. A usurpação dura vinte e cinco segundos. Os meus sobrinhos, de férias pascais, perguntam-me se é isto a Páscoa. PL
ALFREDO: É preciso ter cuidado com Alfredo Barroso porque zanga-se muito e chama-nos nomes feios sem qualquer dificuldade. Mas eu juro que nunca me ri a ler um texto de Alfredo Barroso. E ele cita muito Eça, Camilo e um dos meu heróis, Nelson Rodrigues, que devia ser ensinado nas escolas desde cedo. Mas se calhar estou enganado. E, atenção, nunca disse isto. Não quero sarilhos. PL
FECHAR A LOJA: Fiz o teste muito em voga e o resultado foi "Liberal de Esquerda". Depois do PM - um "esquerdista libertário" segundo o veredicto da dita prova -, vejo-me eu como um "liberal" (coisa que não me agrada) e de Esquerda (coisa que me agrada menos). Só falta o JPC mas, João, se no teu caso o resultado for 'comuna', bem podemos fechar a loja e mudarmo-nos para o Blog de Esquerda. Será melhor que manter a farsa. PL
EXPRESSO RELAX: Segundo o Expresso deste sábado (1ª página), "Ferro Rodrigues convive com jovens com menos de 30 anos". O Expresso tem toda a liberdade para ter uma página Relax, imitando assim o DN, o Correio da Manhã mas, sobretudo, a Capital, hoje e sempre imbatível neste domínio. Agora, na 1ª página parece-me um pouco excessivo. Ao menos, que haja sigilo. PL

sábado, abril 19, 2003

SERVIÇOS MÍNIMOS (4): Maria Bochicchio, uma intelectual italiana que namora (ideologicamente) com o inimigo, resolveu dedicar aos infames da Coluna estes versos de Czeslaw Milosz.

Noi, gli ultimi capaci di attingere gioia dal cinismo.
Gli ultimi la cui astuzia à prossima alla disperazione.

Sta già nascendo una generazione mortalmente seria
Che prende alla lettera ciò di cui noi ridevamo.
SERVIÇOS MÍNIMOS (3): Pergunta teórica: é possível ser militante de um partido e não alimentar sujidades no miolo? Dito de outra forma: a militância num partido significa debilidade mental grave? Não quero ofender as consciências pueris. Mas acho que sim. Esta tese, que alimento há anos, foi recentemente confirmada por Jeremy Paxman, em The Political Animal. O livro foi publicado em Inglaterra e Paxman procurou responder a uma questão aparentemente vulgar: por que motivo não respeitamos os políticos? Por que motivo desprezamos essa triste gente que, com um fanatismo absolutamente inusitado, gosta de chatear o parceiro e impingir voluntariamente a inanidade? Resposta de Paxman: porque o mundo da política partidária acaba por medrar uma casta à parte. E Paxman é claro: ao analisar a vida de dezenas e dezenas de exemplares, o autor não encontrou gente heróica, confiante, sabedora e iluminada. Au contraire. Encontrou graves exemplos de criaturas anedóticas, histéricas, obsessivas e complexadas, sem uma satisfatória vida pessoal. Razão tinha Wittgenstein: nunca procures resolver os problemas do mundo quando não foste capaz de resolver os fantasmas da tua vida privada. JPC
SERVIÇOS MÍNIMOS (2): Reforma do sistema político? Só débeis podem respeitar o cozinhado. Eu não respeito. Não é apenas a abusiva interferência na vida interna dos partidos que me incomoda seriamente. É mais do que isso. É, no fundo, a certeza de que parte do meu trabalho servirá para sustentar as acrobacias revolucionárias do Bloquinho, ou as demências jurássicas dos comunistas portugueses. Para não falar dos socialistas, sociais-democratas, populares, monteiristas, carreiristas, higienistas e restantes seitas, que pululam por aí com preocupante assiduidade. Numa sociedade aberta, os partidos deviam sobreviver com o dinheiro daqueles que se identificam com a trupe. Sem excepção. JPC
SERVIÇOS MÍNIMOS (1): O dilema vem em Bullets Over Broadway, do meu amigo Woody Allen. Estamos à beira do precipício. Numa mão, o único exemplar das obras completas de Shakespeare. Na outra, um ser humano anónimo, à imagem dos seres humanos anónimos. Não podemos salvar tudo. Temos de fazer uma escolha. Shakespeare para a eternidade. Ou uma criatura vulgar. Não ambos. Escusado será dizer que a Esquerda radical optaria, sem esforço, pelas obras de Shakespeare - e nunca pelo ser humano anónimo e vulgar. Basta ver as reacções da manada aos saques no museu de Bagdade. Sim, não nego a dimensão monstruosa do crime e a perda universal para a Humanidade. Mas, no exacto dia em que a UNESCO verberou acidamente a incompetência americana no terreno, surgiram novas notícias das atrocidades de Saddam no Iraque. Uma vala comum, perto de Kirkuk, com dois mil cadáveres, provavelmente de dissidentes curdos, assassinados pelo regime em 1980. Alguém se excitou com a coisa? Longe disso. Nenhuma palavra digna de registo. A começar pela Esquerda piedosa. Estes amantes da Humanidade, como sempre, só se comovem com abstracções, nunca com a verdade trágica dos factos. Como se duas mil pessoas nada valessem, ante o saque de objectos museológicos. É o eterno retorno: a Esquerda excita-se com a perda do «património» porque dois mil cadáveres numa vala comum não são pessoas concretas, com formas concretas de existência. São, como diria o outro, mera estatística. JPC

sexta-feira, abril 18, 2003

INTERVALO: Caros amigos (e inimigos): parto daqui a horas para o Portugal (relativamente) profundo para convívio familiar e pascal (sim, porque eu não sou nenhum esquerdista libertário, diga o teste o que disser...). Vou estar sem net (gulp) durante alguns dias, e por isso a Coluna será menos actualizada. O JPC assegurará os serviços míminos («serviços mínimos» e «JPC» é redundância, eu sei). Peço que até ao meu regresso não enviem mails, a não ser que se destinem ao PL (o Coutinho não responde). Não se esqueçam, no entanto, de que precisamos de mais indicações de textos para um top ten sobre a guerra. O Indy de ontem já fazia algo semelhante. Queremos apenas artigos, integrais, de preferência com links. Mails para colunainfame@hotmail.com Para citar o João Miranda, são 15.30 em Lisboa, 17.30 em Damasco. Boa Páscoa. PM
FOI VOCÊ QUE PEDIU «DIREITO INTERNACIONAL»? A magnífica ONU, no seu esplendor (sublinhados nossos): A Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas adoptou hoje uma resolução moderada sobre os abusos dos direitos humanos em Cuba. O texto, que não faz qualquer referência à recente vaga de repressão dos dissidentes políticos cubanos, foi aprovado por uma curta maioria. A resolução, apresentada por três países latino-americanos — Uruguai, Peru, Nicarágua — e apoiada pela União Europeia e pelos EUA, obteve 24 votos a favor, 20 contra e nove abstenções (...) O texto aprovado hoje não refere a condenação de 79 dissidentes cubanos, no início deste mês, a pesadas penas de prisão, nem a execução de três dos onze autores do desvio de um barco, com o qual pretendiam fugir para os EUA. Entre os opositores da resolução estão a Rússia, China, Índia, Paquistão e Venezuela, bem como a maioria dos países-membros africanos. O representante russo denunciou a "política de dois pesos e duas medidas" da Comissão. Por seu lado, o representante cubano envolveu-se numa troca de palavras acesa com o seu homólogo americano e acusou o Peru, Uruguai, Nicarágua e Costa Rica de serem "lacaios nojentos" de Washington. Ao mesmo tempo, considerou que a Comissão atravessa "uma profunda crise de credibilidade". Cuba anunciou ainda a intenção de apresentar na Comissão uma resolução que condena os "actos terroristas" cometidos contra o país pelos EUA. O regime de Fidel Castro governa a ilha desde a revolução cubana, de inspiração marxista, em 1959. A Comissão dos Direitos Humanos da ONU é composta por 53 membros e actualmente presidida pela Líbia. Criada em 1946, a Comissão é o mais abrangente fórum mundial sobre direitos humanos (...). Pois. PM
SCOOP: O Contra a Corrente publica, em exclusivo, a verdadeira história de Saramago & Cuba. A não perder. PM
TODOS À AMAZON: Sobre a tradição: há um livro de estudos coligidos por Eric Hobsbawm e Terence Ranger, The Invention of Tradition (1992) sobre as «tradições» de extracção recente. O livro é excelente, como todos os que ainda não li. Junto segue uma recensão que encontrei na net: por exemplo, o kilt escocês é uma invenção inglesa do século XVIII... O que o Mel Gibson queria era mostrar as pernas... Julgo que não se pode debater este tema sem ler esse livro, que coloca a questão da tradição no tempo actual: o tempo das verdades absolutas voláteis. A minha impressão é que as tradições são hoje mais rápidas a estabelecer-se e mais rápidas a desaparecerem. São impostas pelos media e pela economia das próprias «tradições»: se correm bem como negócio, impõem-se como tradições. A televisão ajuda, impondo ideologicamente a tradição. Ao terceiro ano de uma iniciativa, a televisão começa a apresentá-la como tradição. Lembro-me que o «dia dos namorados», que não era comemorado entre nós, foi lançado como operação comercial pelo Shopping Amoreiras, em meados dos anos 80. Dois anos depois, era «tradição». A televisão (RTP, na altura) falou da «tradição». Em breve se espalhou a todo o país, primeiro através do comércio, depois pelas próprias pessoas influenciadas pelo comércio, publicidade e media. Embora seja triste para a nossa costela saudosista e ruralista, sempre ansiando por aldeias de Monsanto mais portuguesas de Portugal, mais portuguesas que Portugal, suponho que teremos de aceitar que a tradição, sendo uma construção conceptual de um conjunto de pessoas, existe quando esse conjunto de pessoas acha que ela existe: uma tradição é uma tradição quando as pessoas a aceitam como tal. É indiferente que confundam tradição com hábito, porque isso também resulta do afrouxar das correntes que ligam as pessoas à sociedade que as rodeia. Para um urbano sem raízes, uma «tradição» é exactamente a mesma coisa que um «hábito» social repetido. (Eduardo Cintra Torres)

Caro Eduardo: totalmente de acordo, e nada a acrescentar, apenas dizer tínhamos feito um link precisamente para esse livro, escrito numa perspectiva ideológica oposta à nossa mas que chega a conclusões interessantíssimas, e importantes mesmo para a vitalidade de um pensamento conservador crítico. Um livro fundamental. PM

quinta-feira, abril 17, 2003

ESTOU PREOCUPADO: O Intermitente indicou um segundo (mini)teste ideológico. Fiz o teste, e de novo: «liberal de esquerda». Isto é de propósito para me desacreditar? PM
LORENZ: O Hugo M V pergunta se, para os assuntos aqui abordados, On Agression é o livro mais recomendado do Prof. Lorenz (não o Eduardo Lorenz). É pois. E a seguir leia The Blank Slate, do Steven Pinker. Quem continuar esquerdista depois destes dois livros é aconselhado a lê-los de novo, até passar. PM
NHECA NHECA: O David (v. mail anterior) pergunta também se não achamos que Ayn Rand escreve muito mal. A questão é esta: ter sangue na guelra e teorizar não é em geral grande mistura (V. os Infames). A Rand é uma polemista engraçada, uma russa com pêlo na venta, mas como teórica, nheca nheca (como diz uma amiga minha). Nem é bem escrevar mal: o furor deve ter um lado irónico, e a sra. Rand tem demasiada seriedade para o seu furor, além de ser uma racionalista, doença degenerativa para a qual recomendamos sumos de fruta e sexo em grupo. PM
QUESTÃO DE VEIA: Ora essa de chamar ao Realismo de pessimismo e a fantasias da realidade de optimismo é perverso e deve-se certamente a alguma veia católica da sua parte. Você devia tentar encontrar paz na realidade, se você não gosta da realidade o problema não está na realidade, o problema está em você e aliás é por isso mesmo que paradoxalmente o verdadeiro pessimismo está na esquerda. O louco que inventa a fantasia tem que ter um problema com a realidade, tem que olhar para ela e ver com pessimismo o que não está lá. Enfim, não sei se me expliquei bem, tenha cuidado pois essas visões "pessimistas" têm invariavelmente implicações morais. (David Duarte)

Caro David: a diferença entre «realismo» ou «pessimismo» é uma quezília velha, ela mesma enquadrável numa posição relativamente... pessimista. Eu escrevi sobre o pessimismo quanto à natureza humana. A questão da «realidade», assim como a põe, já não é estritamente política, nem sequer talvez filosófica, mas no meu caso sobretudo literária. Os meus autores de cabeceira, é verdade, não são grandes adeptos da «realidade», o que, admito, será um «problema» (embora a «veia católica» de muitos deles não tenha sido encontrada, mesmo depois de aturados testes). E tudo, meu caro, tem implicações morais, excepto talvez dormir a sesta. No que não diz respeito a mim, PM, nem sequer aos Infames, mas ao conservadorismo como corrente, o que escrevi é o que dizem todos os estudiosos direitistas sobre a direita. Não sou assim tão douto para ter imaginado isso sozinho. PM
ANARCO-TRANSMONTANOS: Aqui têm o novíssimo blog da revista que mais importa (não, não é a Ideias à Esquerda). PM
CORRAM: Caros canhotoblogues, só para vos lembrar que O Independente saiu hoje, e que estamos ansiosos pelas vossas diatribes da semana contra o Vasco, a Miriam, o JPC. O jornal, como gostam de nos lembrar, vende muito pouco, mas a vossa irritação hebdomadária compensa essa escassez de reaças nas bancas. Desde os tempos da Dupla Gloriosa que não nos divertíamos tanto às sextas-feiras. PM
CHRIS: Uma das melhores consequências, no plano intelectual, da guerra do Iraque, foi o nosso mui estimado Chris Hitchens ter abandonado a Nation e os seus compagnons de route da esquerda descabelada para apoiar a luta contra o terrorismo e os regimes que o apoiam. Não que Hitchens se tenha convertido ao neo-conservadorismo, de todo: o que o nosso cronista terrible afirma é que não se percebe que a esquerda (da qual faz parte) não se una em torna da defesa das liberdades do Ocidente, contra todas as ameaças vindas daqueles que detestam as nossas sociedades democráticas, plurais, livres, laicas. Hitchens bushista? É preciso nunca ter lido uma linha do que tem escrito. Christopher Hitchens é a demonstração, infelizmente rara, do que afirmámos várias vezes na Coluna: que não percebemos que a esquerda democrática (o que exclui uma boa fatia) não seja sensível ao combate pela liberdade, não só nos países ocidentais, mas também nos países «não-preparados» para a democracia. Hitchens não mudou de barricada; apenas, como escreveu, não podia continuar a dar-se com pessoas que dizem que a América ou o terrorismo islâmico estão bons um para o outro. Chama-se a isso decência. Parabéns, camarada Hitchens. PM
O LIVRO: O livro dos tempos que correm - digam o que disserem - não é «De L'Esprit de conquête et de l'usurpation» de Constant mas «L'Homme Revolté» de Camus. O niilismo anda literalmente à solta. PL
CUBA: Não percebo o alarido sobre Cuba. Julgamentos sumários, execuções, presos políticos... Qual é a novidade? PL
MARK EITZEL: Dia 26, Lux, Mark Eitzel. Não é preciso convite. A festa é do povo. PL
FONIX: (Re)fiz o questionário mais em voga na blogosfera, e deu-me o mesmo que há alguns meses atrás: tendência para Libertário de Esquerda. Das duas uma: ou está realmente muito malfeitinho ou demito-me da Coluna e vou como escudo humano para Damasco. PM
EU TAMBÉM SOU PROTESTANTE: O Voz do Deserto fez um link para um página sobre o Kierkegaard, o meu autor de cabeceira entre os autores de cabeceira. Chama-se a isto ecumenismo. PM
JÁ CÁ ESTÃO TODOS: Obrigado a todos os/as bloguistas as indicações sobre os respectivos blogs para o meu texto no Indy. Com estes dados todos, nem vou poder dizer que o artigo foi escrito por mim. Quando estiver nas bancas eu aviso. PM
ASAS DO DESEJO: A propósito do mail anterior, de novo o esclarecimento: não somos apóstolos da América, não achamos que a América tem sempre razão, não defendemos que são uma potência moral, nada dessas coisas. Dissemos que, no caso iraquiano, o «Direito Internacional» sofreu um bloqueio e que sem força não há Direito. É perfeitamente normal que discordem desta tese, mas não nos ponham como arautos de angelismos. Em matéria angélica, a Coluna só gosta da Angelina Jolie. PM
SIM: Esqueceu-se na sua lista interminável de países bombardeados pela América, de Angola e dos seus trinta anos de guerra. Essa, raramente apareceu nos écrans da CNN... Como Angolano agradeço à América o seu silêncio de ouro, ou melhor de petróleo, a sua rápida intervenção no conflito, a deposiçã o de um ditador, os 15 milhões de minas, os milhares de de míudos amputados, etc. Este pessoal tem muita lábia.... (Nuno Soares)

Caro Nuno: a sua tese, sem bem percebo, é a de que a América age selectivamente, e mais de acordo com os seus interesses do que com a moralidade internacional. É evidente que sim. PM
MEET THE PRESS: Alguns têm estranhado a nossa «queixa» de que não há jornais de direita em Portugal, tirando O Independente. Argumentam que existe O Dia, O Diabo e o Correio da Manhã, mas isso é como dizerem, depois do apocalipse nuclear, que não se extinguiu a espécie feminina, sobra a Engenheira Pintasilgo. Olha que grande alívio. Dizem também que a esquerda não tem nenhum jornal diário; mas tem a Visão, a clara maioria dos jornalistas e editorialistas do PÚBLICO, e uma boa parte dos colunistas do EXPRESSO. À direita alinham, além do Indy, a maioria dos editorialistas e colunistas do DN, a direcção do EXPRESSO (nos dias pares), e no PÚBLICO JMF e Pacheco Pereira. Um empate técnico. Mas o que aqui referimos foi uma posição editorial clara do jornal à direita ou à esquerda, e aí só temos a Visão e o Indy. Gostávamos que houvesse mais. Era menos confuso e mais honesto. Infelizmente, ao contrário do que pensam os nossos amigos esquerdistas, os capitalistas não apostam um tostão num jornal de direita. PM
SOBRE A CEGUEIRA: Ainda não tínhamos escrito sobre o assunto: Cuba.

Após uma volta por esta Lisboa demasiado cinzenta, ligo o computador e leio uma mensagem de correio electrónico que é uma das mais agradáveis surpresas dos últimos tempos. O escritor José Saramago assinou um artigo no diário espanhol “El País” em que, juntando-se a milhões de pessoas das mais variadas ideologias, rompe de uma vez por todas com a ditadura do “el comandante”. Referindo-se à execução, após um “julgamento” sumário, de três dos cubanos que tentaram sequestrar uma lancha, na esperança de deixar o regime repressivo de Havana para trás, o Nobel da Literatura deixa clara a sua opinião: “Cuba não ganhou nenhuma heróica batalha fuzilando esses três homens, mas perdeu a minha confiança, destruiu as minhas esperanças e defraudou as minhas expectativas.” Mesmo que a linguagem utilizada por Saramago não seja a mais dura, pelo menos a acreditar na tradução portuguesa -o Pentágono e a Casa Branca ainda não pagam a assinatura do “site” do “El País” e não encontro a edição impressa aqui pela redacção... -, publicamente declaro que só não tiro o chapéu ao escritor porque não tenha hábito de o utilizar. Seja qual for a opinião que qualquer um de nós possa ter sobre o exilado nas Canárias, não há dúvidas que as suas palavras poderão fazer com que muitos seus correlegionários ideológicos parem para pensar e percebam que não é defensável apoiar um ditador só porque é inimigo dos Estados Unidos. E isto sim, faz de José Saramago um verdadeiro amigo dos cubanos.
Leonardo Ralha

Caro Leonardo: infelizmente, não o posso acompanhar nesse regozijo. Sabe que perceber a natureza do regime cubano em 2003 (dois mil e três) não é propriamente digno de louvor. Dir-me-à que mais vale tarde do que nunca, e que a voz de Saramago tem uma certa repercussão. Talvez, mas olhe que os comunistas puros e duros ficaram na mesma, como se viu no nosso parlamento, e nalguns textos delirantes que se escreveram, incluindo um de Miguel Urbano Rodrigues, ao qual perdi o rasto (alguém me pode mandar o link?). Quem denuncia Cuba em 2003 é como quem denunciou a União Soviética em 1989 (mil novecentos e oitenta e nove): um oportunista e um bandalho. Lamento dizê-lo, mas de Lanzarote nada temos a aprender sobre a cegueira. PM

PS: Entretanto, recebi um mail do Tiago Tibúrcio, um dos Relativos, que me manda o link, que viu no Intermitente (então era aí que o tinha visto). Se isto não é a blogosfera em acção, não sei o que será. Obrigado ao Miguel e ao Tiago.
MAIS PESSIMISTAS: Neste passado mês, de Março, li dois livros que me fascinaram: «O Deus das Moscas» e «Homens e Ratos», de Golding e Steinbeck respectivamente. Ambos os livros falam da «natureza humana» de que falas, e no modo que os homens abordam essa natureza, que pode ser pessimista ou positiva, tal como afirmas. Ambos os autores, de início, sonharam com a visão positiva dos homens, acreditaram que o homem é por natureza bom. Mas ao longo de ambas as narrativas este pessimismo torna-se mais visível, e cada vez mais, até culminar numa revelação de como a «natureza humana» pode ser má. Agora consigo perceber este pessimismo. (Mário Sena)

Por essas e por outras é que o Steinbeck começou como um herói da esquerda - em The Grapes of Wrath - e acabou um pária, quando levou certas ideias que já esboçara às suas consequências políticas nas últimas décadas de vida. O Golding, esse, não sendo um grande escritor, do género Thomas Mann ou Eliot, era sem dúvida um senhor, e The Lord of the Flies é uma machadada quase orwelliana nas infantilidades do século. Continuação de boas leituras. PM
BISCOITO: Agora é que eu fiquei baralhado... que direitas e esquerdas não se distinguem perfeitamente por temas, disso já estava eu consciente. Um momento fulcral foi a defesa do aborto pela esquerda, eu que pensava que defender a vida era o expoente máximo de igualdade! Isto representou um amadurecimento ideológico da minha parte. Mas uma pessoa gosta de se sentir enquadrada meu amigo... É que essa da natureza humana deixou-me como o proverbial personagem, na anedota do titanic, que não sabe para que bote se lançar. Eu que me estava cada vez mais a identificar como psicologicamente conservador, mas ressalvando um certo reaccionarismo político. (era o reaccionário o que pensava mais no futuro, ou engano-me?) Fiquei orfão... Onde é que eu me encaixo se considero a natureza humana essencialmente neutral? Devem ser laivos de anti animismo na minha formação... E por favor não me digas que sou de esquerda, por que a minha natureza humana tem de fundamental o biológico e não o histórico. (Hugo M V)

Caro Hugo: a indecisão ideológica, o «centrismo» ou, no caso presente, a visão «neutral» da natureza humana correspondem, na política, ao que certos autores defendem sobre a bissexualidade: és um homossexual que ainda não se assumiu. Politicamente falando, claro. Creio que umas leituras de Konrad Lorenz farão de ti, em três tempos, um Infame às direitas, passe a redundância. PM
PCP (THE GOOD ONE): Consegui pôr o Paulo Cunha Porto a escrever. Oh happy life.

É verdade, a Preguiça é o meu pecado capital preferido; porém, um repto desses, vindo de quem vem, não pode passar sem resposta. Aí vão algumas ideias gerais que sobre o assunto me ocorrem:
- A espirituosa imagem usucapião por ti usada traduz uma ideia de apropriação. Uma Tradição política ou cultural que se preze centra-se antes na noção de propriedade, entendida no estrito sentido de característica definidora. O decurso do tempo é condição necessária mas não sufiiciente para a consecução do seu estatuto. Sardinha explicitou-a como «a permanência na continuidade», fórmula que mereceu transcrição por J. Evola em L`Homme au Milieu des Ruines, com crédito autoral e tudo. Para além da antiguidade parece-me fundamental que uma tradição expresse o carácter essencial dos seus sujeitos, como o terá feito relativamente aos avós deles.
-Quanto tempo, perguntas? Não há, nem pode haver, um critério universal. Eu, reaccionário teimoso, tendo a estabelecer como
mínimo delimitador dessa condição o início em data anterior a 1789, enfim a voragem da contemporaneidade. Friso, ninguém está vinculado a tão arbitrária orientação... Outros monárquicos pouco meigos para com o demoliberalismo como os meus mestres Nimier, Laurent e Blondin encaminhavam-se decididamente por gostos e opções vitais muito mais ancoradas na época do que no espírito clássico, por muito devedores que se confessassem de L`Action Francaise. Nesta margem de tolerância julgo radicar a possibilidade de diálogo útil e cooperação com conservadores como vocês. O vosso farol, W. Churchill, dizia -permito--me relembra-lo - «venero o passado, desconfio do presente, temo o futuro». Se entendermos a 2ª premissa como resistência às oscilações ditadas pelas modas e a 3ª como rejeição das transformações programáticas globais tão escalpelizadas por Oakeshott, estaremos talvez diante de um objectivo comum.
- É verdade que touros fados & praxes são assimilados frequentemente ao meio da Tradição. Mas entre os tradicionalistas da nova geração muitos há hostis a tais gostos.
Esperando ter clarificado o meu obscuro pensamento sobre uma Realidade Luminosa.
(Paulo Cunha Porto)

Caro Paulo: esclarecidos como sempre, mesmo nos pontos em que podemos não ter exactamente a mesma visão. Nada a acrescentar ao teu douto esclarecimento, apenas um mea culpa: estive vários meses a escrever neste blog sem me referir a Roger Nimier, Antoine Blondin e Jacques Laurent, uma geração de Infames que, escusado será dizer, são muito cá da casa. Obrigado também por teres colmatado tão grave lacuna. PM


quarta-feira, abril 16, 2003

LÓGICA: Ainda não foram encontradas armas químicas. Logo: não existem armas químicas. Ainda não foi encontrado Saddam. Logo: Saddam não existe. PM
PRIMEIRO BALANÇO: A guerra (militar) terminou, e não vamos insistir mais nos assuntos que já foram abordados. Estamos sim empenhados em discutir os problemas de futuro que se levantam. Quero, no entanto, elencar algumas das características positivas e negativas desta guerra, em jeito de balanço.

Positivas

- a queda do regime de Saddam
- uma vitória militar rápida
- o número baixo de vítimas militares, e relativamente baixo de vítimas civis
- a separação de águas ideológica no Ocidente

Negativas

- a posição da Igreja Católica e de alguns «moderados»
- a incapacidade da ONU
- o divisionismo franco-alemão
- os saques ao museu e biblioteca nacionais de Bagdade
PM
PARTIDOS: O PL ainda não terminou os seus comentários sobre a nova lei dos partidos, mas quero alinhar aqui duas convicções gerais e três particulares. Julgo que os partidos têm por vezes monopolizado as formas de fazer política, sobretudo porque as organizações e associações políticas são todas satélites de um dos partidos parlamentares; por isso, era importante que se diminuísse o monopólio dos partidos na vida política. Por outro lado, a nossa experiência democrática é recentíssima, e praticamente não tinha antecedentes, pelo que me parece que há todo um clima anti-partidário e mesmo anti-democrático que por vezes é preocupante. Não me refiro apenas ao brutal desprestígio da Assembleia da República, mas também a um sentimento generalizado de hostilidade à polémica, ao confronto, ao conflito. E sobretudo, existe a noção (à esquerda e à direita) de que o adversário nem devia existir numa sociedade como deve ser; é comum que aos partidos e correntes de opinião exteriores ao Bloco Central seja negada a sua democraticidade, a sua racionalidade, o seu direito à existência. Conheço muito poucos democratas, isto é, pessoas que se sintam bem em viver em sociedades de confronto, e uma Lei dos Partidos ou outros mecanismos legislativos não resolverão isso.

Quanto a esta lei, de que conheço apenas as propostas e não o articulado (alguém sabe se está on-line), parece-me que tem algumas propostas positivas, sobretudo a de aumentar o número de assinaturas necessárias para formar um partido (5000 arranja-se com uma miúda peituda no estádio de futebol). Há um ponto que a lei não refere, que é o das juventudes partidárias, claramente uma das aberrações do sistema, com disparatadas quotas de eligibilidade, de inerências nos órgãos dos partidos, etc. Exigir aos partidos que se apresentam a todas as eleições sob pena de dissolução não faz sentido, até porque os pequenos partidos, que cultivam atitudes anti-sistémicas, podem querer, por exemplo, boicotar uma determinada eleição, e têm todo o direito a isso. Faz mais sentido é penalizar (mas julgo que apenas pecuniariamente) os partidos que façam campanha nos meios públicos e retirem as candidaturas, porque é uma atitude um pouco fraudulenta, mas mesmo aí não tenho a certeza. Quanto à «questão PCP», não tenha dúvidas: se os militantes do PCP aceitam livremente regras sui generis - como a votação de braço no ar, o centralismo democrático e quejandos - ninguém tem nada com isso, não é exactamente uma violação intolerável dos direitos políticos, são apenas as regras da casa (há outras casas que obrigam a usar gravata, smoking ou avental). Aliás, parece-me feliz a decisão do TC quanto às penas aplicadas aos «renovadores», porque os três senhores (e outros que não foram sancionados) passaram para lá do espaço de discordância normal dentro dum partido, e de um partido cuja natureza organizativa é conhecida. O PC é estalinista? Quem o descobriu agora é pateta ou oportunista. Não creio, por isso, que o Estado deve interferir na organização interna do PC, mesmo porque a esmagadora maioria dos comunistas concorda com os estatutos, como repetidamente se comprova. Arranjos de secretaria ficam sempre mal. PM
BICADAS: Um tipo ausenta-se por um dia, e tem logo mails e mails, mais piadinhas Silva. Vamos a isso, então, começando pelas bicadas esquerdistas.

1) «Vacas sagradas» - não temos «vacas sagradas» (isso vindo dum marxista só pode ser piada). Mas o site de Andrew Sullivan - é o blog (político) individual mais lido de que há registo, e ainda por cima é conservador. Além do mais, foi o nosso inspirador, e estamos quase sempre de acordo, daí as citações (sem comentário). Deixam-nos citar, deixam?

2) «Pessimismo» - não estamos sempre a dizer que somos pessimistas (o pessimista encartado da Coluna sou apenas eu), dissêmo-lo agora mais explicitamente como comentário a um mail. Reparo que não contestaram a distinção pessimistas / optimistas; é um avanço. E nós, para enésima vez, não estamos optimistas quanto ao futuro do Iraque: temos alguma esperança. Se fosse a mesma coisa, as nossas vidas seriam bem diferentes...

3) «Estilo» - o Manel tem um problema com o «estilo» (que diabo, marxista é marxista). Isso distingue-nos ainda mais do que as ideias sobre os meios de produção ou a luta de classes. Aqui professamos em absoluto a primazia do estilo. Um livro / artigo mal escrito não nos interessa, mesmo que estejamos de acordo com tudo o que nele se escreve. Não é este o momento, mas voltarei a este tema: para a direita (na literatura francesa isso é imensamente notório, pelo menos desde Flaubert) o estilo é o essencial, e não apenas na escrita. (Por falar em literatura francesa: Manel importas-te de citar, uma só vez, para nós imprimirmos, um escritor não-comunista? Obrigado).

4) «Grunhices» - o Manel acha que nós escrevemos «dislates» (o Manel acha evidentemente que todos os comentadores e colunistas de direita escrevem dislates). Ok. Mas faço um apelo à tua honestidade, Manel: não te parece que entre os posts do Blog de Esquerda e uma boa parte dos comentários desse mesmo blog há uma distância brutal, em qualidade de pensamento e de escrita? É para responderes para ti mesmo, que não pedimos que ofendas os teus leitores. Por essa razão - e pela amostra de algum mail que recebemos - é que a Coluna não tem, nem terá, comentários.
O BLOCO É UM PARTIDO?: O Daniel Oliveira fez uma defesa comovida dos partidos políticos, o que até nem me parece mal. Mas, ó Daniel, a futura lei não se vai aplicar ao Bloco. O Bloco de Esquerda não é um partido. E, na essência, até foi criado para esconder os ternurentos partidos que o compõem. Por isso, está descansado. PL

terça-feira, abril 15, 2003

PARTIDOS: Vem aí uma nova lei dos partidos. A anterior - é bom dizê-lo - nascida nos idos anos 70 do Portugal revolucionário e assinada pelo Timoneiro Vasco Gonçalves, está mais do que datada e precisa urgentemente de revisão. Claro que serão os partidos (especialmente, o Central Park) a rever a lei dos partidos, o que não é exactamente animador. Em vinte e cinco anos de democracia partidária, os portugueses têm sido habituados a duas coisas: à artificialização da vida política e a um estentório falhanço do sistema em criar elites políticas. Os partidos, esses amoráveis grupos de almas sedentas de poder, não estão, evidentemente, interessadas em elites. Acima de tudo, os partidos apreciam séquitos e cortes obedientes. A mediocridade da praxe abunda. As regras são estapafúrdias (como aquela que assegura às juventudes partidárias lugares no parlamento e nos órgãos dirigentes de cada partido). A primeira razão que me faz apoiar uma lei dos partidos é esta: uma nova lei dos partidos só pode ser uma lei contra os partidos, uma lei que contribua para a despartidarização do regime. Em segundo lugar, e para além de temas quentes como o financiamento dos partidos ou a criação e extinção dos partidos (que podemos obviamente discutir), a melhor forma de desminar os partidos é mudá-los por dentro, reformando, radicalmente, os respectivos modelos de organização. O problema não é só o PCP, diga-se de passagem (o PSD tem também algumas normas internas que pouco têm de democrático). O problema está nesta defesa, particularmente injustificável, da especificidade dos partidos como associações de cidadãos livres. Sei que os partidos políticos portugueses - não apenas o PCP - não são exactamente o clube desportivo de Alcabideche. Mas a ideia de que uma qualquer singularidade destas associações os torna impermeáveis a regras elementares de democracia interna, parece-me claramente abusiva e insustentável. To be continued. PL
ESQUERDA LIBERAL: Já que o Relativo Filipe Nunes invocou Michael Walzer como um dos autores de qualquer esquerdista liberal que se preze (já agora, alerto o Filipe que, nos anos 80, o Pacheco Pereira e o João Carlos Espada passaram pelo Clube de Esquerda Liberal e hoje...é o que se vê), eis um pequeno excerto de um texto de Walzer publicado em Março na Dissent: At this time, in March 2003, the threat that Iraq posed could have been met with something less than the war we are now fighting. And a war fought before its time is not a just war. But now that we are fighting it, I hope that we win it and that the Iraqi regime collapses quickly. I will not march to stop the war while Saddam is still standing, for that would strengthen his tyranny at home and make him, once again, a threat to all his neighbors. My argument with the anti-war demonstrators hangs on the relative justice of two possible endings: an American victory or anything short of that, which Saddam could call a victory for himself. But, some of the demonstrators will ask, wouldn't the first of these vindicate the disastrous diplomacy of the Bush administration that led up to the war? Yes, it might do that, but on the other hand, the second ending would vindicate the equally disastrous diplomacy of the French, who rejected every opportunity to provide an alternative to war. And, again, it would strengthen Saddam's hand. Ah, como seria bom se vocês lessem o Walzer até ao fim. PL


ESTRANHEZAS: Estranho. Por um momento na História, estamos a discutir a democratização do Islão, a universalização dos valores liberais, a exportação da democracia para uma área tumultuosa como tem sido o Médio Oriente. Por um momento na História, estamos a assumir, com relativo optimismo, o discurso que tem acompanhado a esquerda desde, pelo menos, a Revolução Francesa. Neste momento decisivo das clivagens políticas, os nossos amigos esquerdistas assobiam para o lado e, toldados por um anti-americanismo primário, não estão a ver bem a realidade. Amigos: pensem lá bem no que estão a fazer. Não nos venham com citações de De Maistre para cima. A vossa incoerência começa a tornar-se grotesca. PL
MIOSÓTIS E OUTROS TEXTOS: Miosótis. Há uma nova editora na rua com este florido nome: Miosótis. O alvo nada tem a ver com jardinagem mas com as mulheres que compram livros. Que compram, note-se bem, mais livros do que os homens, «mas não têm a oferta que merecem». Segundo a Miosótis, as mulheres já mereciam há muito uma editora que olhasse por elas. A Miosótis editou já três livros; e, claro, todos eles são amplamente merecidos pelo público feminino. O primeiro foi «O Kamasutra para mulheres», de Vinod Verma, uma obra ímpar, há muito esperada, que, tivesse aparecido mais cedo, e a História do sufragismo seria outra. O segundo, «Não posso ter filhos», traz um luminoso prefácio de Maria de Belém Roseira, a Ministra da Igualdade mais desrespeitada de todos os tempos. Chega agora o terceiro livro da intensa e útil actividade editorial da Miosótis: «25 maneiras de gozar a vida sendo uma mulher de mais de 55 anos", de Sílvia Adela Kohan, uma obra notável pelo fôlego, pela imaginação precisa (são 25 maneiras, não 24, não 26), pela franqueza generosa (destina-se às mulheres com mais de 55 anos). A Coluna está obviamente interessada neste livro (e, como boa pedinte, solicita até pequenas ofertas). Convém esclarecer que nós nada temos contra a Miosótis, que desejamos o sucesso desta jovem editora e do seu público-alvo.
E fazemos nossas as palavras do outro: que floresçam dez, não, cem Miosótis. PL

KAGAN, UM RADICAL?: Na última edição de sábado do Publico, o marciano Robert Kagan tinha esta frase lapidar: «Os Estados Unidos não devem tentar dividir a Europa; deixem a França fazê-lo». PL
O MALHADINHAS: Creio que todos estaremos de acordo que, no leque de artigos míopes sobre a guerra, José Vítor Malheiros reincide todas as semanas. PL
TOP: Continuamos a organizar o nosso Top Ten de artigos esquerdistas sobre a guerra. Mandem a citação ou, de preferência, o link, para colunainfame@hotmail.com
MALDITOS YANKEES: É esta a famosa lista dos países que foram bombardeados pelos Estados Unidos, após o fim da 2a Guerra Mundial:

China 1945-46
Coreia 1950-53
China 1950-53
Guatemala 1954
Indonésia 1958
Cuba 1959-60
Guatemala 1960
Congo 1964
Perú 1965
Laos 1964-73
Vietname 1961-73
Cambodja 1969-70
Guatemala 1967-69
Granada 1983
Líbia 1986
El Salvador anos 80
Nicarágua anos 80
Panamá 1989
Iraque 1991
Sudão 1998
Afeganistão 1998
Jugoslávia 1999
Afeganistão 2001

Tem imensa força emocional, não tem? Analisar o que se passou em cada caso é coisa diferente, mas isso são minudências. Mas uma coisa é evidente na lista: que belos regimes esses que o imperialismo yankee quis derrubar. Malandros. PM
GRUNHOS: Nas últimas semanas, deixámos quase de receber mails de grunhos (não os publicaremos, não os comentaremos, não responderemos). Nos blogs que têm comentários, os grunhos (de esquerda e de direita) não param de crescer. Mais uma razão para não os termos. PM
MOVES: Este ano estou bater o meu recorde mais alto de filmes realmente maus: uns doze até agora, e só estamos em Abril. E nem todos eram americanos. PM
TRADICIONALISTAS: Recebemos um mail do meu caríssimo amigo Paulo Cunha Porto, talvez o homem mais à direita que eu conheço, mas exemplarmente tolerante e debatente:

Como agora deram em meter-se com a minha "família", ca tenho de vir em defesa dela. Claro que estão com a razão, conservadorismo e tradicionalismo não são a mesma coisa: mas aqui tem um tradicionalista que não gosta de touradas, nem de fado e muito menos de praxes académicas. Quanto a tourada, como dizia o outro, há que distinguir uma tradição de um mau hábito. E estou bem acompanhado pelo Papa do tradicionalismo portugues, o grande Antonio Sardinha, que sendo-o e ainda por cima vindo do Alentejo, subscreveu um abaixo-assinado de vários escritores contra esse bárbaro tratamento dos animais inocentes. O fado e as praxes estudantis nao tem antiguidade suficiente para serem uma tradição. O primeiro, como o conhecemos, nem chega aos 200 anos e, segundo as mais recentes pesquisas (Ramos Tinhorão, p.ex.), tem origem em intervalos de danças africanas. As outras são invenções ociosas de meninos a armar ao pingarelho, sem qualquer função útil. Defendo praxes, fora do meio académico, como rito de passagem que pontue o acesso a uma elite. Mas so por miopia alguem poderá ver essa aristocracia na maralha estudantil. (Paulo Cunha Porto)

Caro Paulo: é a questão que abordámos noutro post, os casos individuais não inviabilizam as tendências gerais, e concordarás que os tradicionalistas gostam, geralmente, de fado, touradas e praxes. Mas como sei que, como bom direitista, és um amigo da preguiça, e aqui te lanço um desafio para desenvolveres uma ideia do teu mail que me parece central: se as «tradições» funcionam como a usucapião, por mera passagem do tempo (e quanto tempo?) ou se têm características internas necessárias para serem levadas a sério. Ninguém como tu, um reaccionário esclarecido, para alfabetizar as massas. PM

segunda-feira, abril 14, 2003

LIBERTÁRIOS: Aproveito o tema para dar razão ao João Miranda, que diz que eu simplifico ao colocar os Libertários à direita. No caso americano (único em que essa corrente tem uma força relevante) o Libertarian Party é um aliado pontual dos Republicanos, e certamente que os seus votantes não se consideram de esquerda, embora, como diz o João, «direita» não seja uma palavra do seu agrado, ligada que está a um entendimento religioso do conservadorismo, proteccionista, tendencialmente autoritário, de costela probicionista. Mas a verdade é que um direitista pode ler a Reason com alguma calma, e quando discorda está em geral bastante divertido com a tese (que considera «lunática»). Aqui fica a correcção. PM
ESQUERDA/ DIREITA: A questão que eu gostava de colocar tem a ver com a definição de esquerda e de direita. Será que existem temas que podem ser exclusivos da direita ou da esquerda? Ainda no outro dia me foi dito que alguém que é pró-americano, não pode ser de forma alguma de esquerda, e ainda, questões como o ambiente, ou segurança social não podem ser temas da direita. Ora, eu considero-me de esquerda, apesar de não me identificar com nenhum partido de esquerda em Portugal, mas apesar disso penso que não se deve politizar todas as questões. Posso até dar um exemplo concreto, como o da privatização da água. Mas o que eu queria, caros infames, era mesmo uma definição clara, concisa e abrangente sobre o que caracteriza Todas as Esquerdas, e Todas as Direitas. E saber se é mesmo necessário separar águas, quando se trata de tomar decisões que poderam não ter nada a ver com o facto de ser de esquerda ou de direita? (Mário Sena)

Caro Mário: isso são bibliotecas inteiras sobre o tema. Definir a esquerda e a direita implica imensas perspectivas históricas, porque os conceitos quiseram dizer coisas diferentes em diferentes momentos. Desde logo, é bom utilizar os termos esquerdas e direitas (como fazem os espanhóis), porque há gente à esquerda socialista, comunista (com 33 variações), ecologista, e mais outras famílias, e há gente à direita conservadora, liberal, nacionalista e mais coisas (e há essa aberração, a «democracia cristã»). Há pontos em que as esquerdas e as direitas se unem entre si, noutras há movimentos cruzados: um liberal estará de acordo com os socialistas (na versão «terceira via») nas questões morais, e os comunistas e nacionalistas estão de acordo em imeeeeeensos assuntos. Sugiro três livros em português: A Direita e as Direitas de Jaime Nogueira Pinto (Bertrand) discute o que o título indica numa perspectiva direitista. Uma visão de esquerdista pode encontrar-se em «Direita e Esquerda», de Norberto Bobbio (Presença). E para uma perspectiva divertidamente apetetada, nada melhor que Anthony Giddens, «Para Além de Esquerda e Direita» (Celta). Critérios tradicionais, como propriedade privada / estatização estão desactualizadas, porque a esquerda socialista evoluiu nessa matéria, mas mantêm-se outros como liberdade / igualdade, que me parece insatisfatório. O critério que me parece mais decisivo - o critério que me esclareceu o facto de eu ser de direita - é o antropológico. A direita acredita na existência de uma «natureza humana», e é extremamente pessimista sobre essa natureza. A esquerda ou não acredita na «natureza humana» (que diz ser uma construção histórica), ou considera que ela existe e é essencialmente positiva. De um lado Maquiavel e Hobbes, do outro Rousseau e Marx. Dessa concepção decorrem quase todas as consequências: atitude face às instituições, face às utopias, face à noção de progresso, e outras. Eu sou um pessimista em tudo, e também em política, e por isso dificilmente podia ser de esquerda (embora existam alguns casos de pessimismo psicológico de esquerda, de Pavese a Benjamin). Não creio é que a distinção passe pelos temas («as perguntas»), mas pelas soluções («as respostas»). Embora, p. ex., a imigração seja um tema caro a certa direita, a verdade é que a esquerda tem ideias sobre o assunto, e o contrário também sucede. Nenhum dos temas que refere é especificamente de direita ou de esquerda, mesmo se alguns o são tendencialmente (grande parte dos temas sociais tem uma óbvia origem na esquerda). E os temas que mais importam, que escapam à política, não podemos dizer que são de esquerda ou de direita (embora os marxistas discordem). Enfim, ficam alguns contributos, mas o melhor é ler autores que estudaram o assunto a fundo. PM
DEMOCRACIAS: Alguém disse que os Estados não têm princípios apenas interesses. Será que se pode dizer que os Estados democráticos, ainda que só tenham interesses, são forçados pela natureza do seu sistema de governo a prossegui-los no respeito de pelo menos alguns princípios morais? Se isso é verdade não estarão eles em desvantagem face a Estados não-democráticos que podem realmente prosseguir os seus interesses sem olhar a meios? (Fernando Albino)

Caro Fernando: com certeza que a posição de um Estado democrático é mais difícil do que a de um Estado não-democrático, porque nas suas acções tem de contar - felizmente - com a opinião pública, a imprensa, o parlamento, as leis, e as regras gerais de decência. A questão da «moralidade» em política é, como sabe, bastante armadilhada e problemática; direi apenas que todos os Estados, como todas as pessoas, agem por interesse, e que o interesse não é uma categoria negativa. Mas a democracia impõe o respeito por alguns princípios; quando estes são infringidos, os meios que referi servem para denunciar, e o voto para derrubar os governos faltosos. Essa é a grande superioridade (aqui sim, a palavra tem sentido) das democracias. PM
BREAKING NEWS: Não é um caminho isento de perigos e perplexidades, mas aqui fica a notícia do dia: o genoma está descodificado.
SERÁ QUE CUNHAL BLOGA? Há realmente uma coisa que me preocupa no discurso de certos blogs de esquerda: a ideia de que há uma diferença entre esquerda e direita que não passa pelas opiniões e valores, mas por critérios como: a seriedade, a coerência, a honestidade, a humanidade, e assim por diante. Ou seja: que há diferenças morais não apenas entre a esquerda e a direita (tese já suficientemente horripilante), mas que há diferenças morais entre uma pessoa de esquerda e uma pessoa de direita, com vantagem natural para a primeira. É o estalinismo no seu pleno delírio. Acreditam mesmo nisso? Nós, pelo contrário, achamos que a diferença entre a esquerda e a direita é de valores e por vezes de características sociológicas (sociais, económicas, educacionais, religiosas, de modos de vida) mas não, de todo, de carácter moral (muito menos no plano individual de cada pessoa). Peço que esclareçam se acreditam mesmo nisso ou se é um truque retórico, porque se acreditam estamos perante a tese totalitarista mais inacreditável que ouvi, desde que o dr. Louçã declarou que não tem amigos de direita. PM
PARTIDOS: Amanhã porei aqui o meu primeiro post sobre a lei dos partidos e a sua aplicação ao PCP. O Pedro Mexia responderá depois. PL
JUDGE REPORT: No último sábado, um grupo de rapazes e raparigas corajosos e com boas intenções respondeu a um pequeno questionário chamado «Prova de composição sobre temas culturais sociais e económicos". Os rapazes e raparigas querem ser juízes e a prova foi concebida magistralmente pelo Centro de Estudos Judiciários, uma organização muito influenciada pelas teses do Prof. Boaventura. Um pequeno excerto para se perceber o perigo que paira sobre a justiça portuguesa:

"Não é possível compreender as lutas antiglobalização a partir da globalização à qual elas se opõem. Quem se contentaria com uma explicação do movimento operário exclusivamente por via do capitalismo? Importa, por isso, afirmar fortemente o seguinte princípio geral da análise sociológica: não se explica a acção colectiva através daquilo a que ela se pretende opôr".

Em face deste texto, eis a pergunta:

Tendo em conta a recomendação do sociólogo Michel Wieviorka, expressa no texto acima transcrito, caracterize movimentos como o designado "Forum Social Mundial" que, anualmente, tem reunido milhares de pessoas na cidade brasileira de Porto Alegre.

Ainda não sabemos os resultados desta admirável prova de composição e, particularmente, da resposta a esta primeira pergunta, absolutamente neutral e nada politizada. Ardo de curiosidade por saber como é a blogosfera sociológica responderia. Propostas de correcção também serão bem recebidas. PL
DEMOCRACIA: Gostamos sinceramente de ver que a esquerda (liberal e anti-liberal) também tem dúvidas sobre a democratização do Iraque. Afinal, as dúvidas são mais frequentes entre os conservadores do que em quem acredita na música do amanhã. Já nos parece largamente mais desonesto que se pretenda minorar o resultado da intervenção militar com o argumento de que a deposição de Saddam não significa a democracia no Iraque. Claro que não há ainda democracia no Iraque e não vai haver tão cedo: isto é o óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues. De todo o modo, nós registamos a preocupação da esquerda e recomendamos aos iraquianos para moderarem os festejos. Para satisfação dos nossos amigos bloquistas, comunistas e liberais da rosa, só festejaremos quando os iraquianos forem às urnas com voto electrónico. PL
PESSIMISMO: A esquerda tornou-se pessimista, coisa que jamais achámos possível na nossa curta existência. Primeiro, as dúvidas prendiam-se com a dificuldade e duração da guerra, as baixas civis, a catástrofe humanitária; agora, trata-se da a impossibilidade de democracia, a desordem civil, a ausência de poder e o pluralismo étnico no Iraque. De facto, bloquistas, comunistas e rosinhas liberais duvidam por duvidar mas, quando se trata de apresentar alternativas, está quieto. Começo a acreditar que só a psicologia explica tamanha má-vontade. Para citar Adorno, já não é possível escrever depois de Porto Alegre. PL
BONS AMIGOS: O comediante de serviço Georg Haider garantiu hoje que o valioso ex-ministro da Informação do Iraque Mohammed Al-Sahaf está a salvo, embora não se encontre em território austríaco. Haider e Al-Sahaf são amigos, o que não espanta. Esta é, sem dúvida, a melhor notícia do dia. Todos os dias tememos pelo destino deste senhor. Mohamed é um talento e precisa de ser cuidadosamente preservado. O Museu Britânico aguarda-o e, em alternativa, a BBC. PL
SUBSÍDIOS: Quando um leitor chamado Ruy Rey decide escrever-nos, isso significa que a Coluna está finalmente a chegar ao seu público-alvo. Meu amigo: prezamos muito as suas cartas mas não quer presentear-nos com alguns donativos? O Pedro Mexia precisa de uma bolsa para o seu próximo livro de poesia. O João de um generoso apoio para repensar o conservadorismo português. E eu… eu não ia mal com um subsídio de habitação e renda. Agradecemos. PL
PS REGRESSA: Não, ainda não é o Engenheiro a fazer-se a Belém. Trata-se da notícia deste «Manifesto», que hoje recebemos, e publicamos:

A Puta Da Subjectividade é uma publicação online centrada em música independente e periférica. Propômo-nos a continuar a divulgar música que consideramos relevante, distribuída ou não em Portugal, como temos vindo a fazer desde a nossa abertura ao público em Setembro de 2002. Pretendemos tomar uma abordagem pura, apaixonada, honesta, despretensiosa e realista, em relação às obras e aos nossos conhecimentos. Não temos interesses comerciais. Abordamos discos novos, discos antigos, elaboramos artigos de fundo, dissertações e contacto directo com os artistas, sempre com transparência para o leitor.

Por uma puta em cada esquina!

Ass. Redacção de A Puta da Subjectividade


Sou um adepto dessa puta em particular, embora muita gente não goste nada. Seremos (eu e o PL, que o JPC não usa músicas dessas) leitores atentos e interessados. Só o grito final é que me parece um pouco demais (se vcs vivessem na minha zona veriam...). PM


GANHAR A PAZ: Existem dois aspectos positivos nesta guerra que convém referir; o primeiro foi a demostração por parte da coligação que não tolerará nenhum estado pária que apoie o terrorismo, ou que ameaçe o mundo. Este objectivo foi conseguido, a guerra foi curta, precisa (quase cirúrgica). Um outro objectivo foi igualmente conseguido: o apoio da população. No entanto, na minha opinião, para esta guerra fazer sentido, os membros da coligação, terão de se empenhar, na reconstrução e democratização do Iraque. Não haverá melhor arma ou escudo contra o terrorismo islâmico, que um Iraque livre, próspero e democrático. A longo prazo, este país serviria como exemplo, podendo até apressar o processo de democratização de paises vizinhos. Para além disto tudo, mostrava a muitos dos anti-americanos deste mundo, que suas teorias estão erradas, e pior, que muitas delas são absurdas. (Mário Sena)

Caro Mário: é isso que defendemos e desejamos. Sabemos que é muito difícil, por causa das várias etnias, da falta de tradição democrática, e da melindrosa questão da adminstração transitória. Os EUA têm uma oportunidade única de provar a sua seriedade nessa matéria. Não somos optimistas, mas também não somos derrotistas. Como muitos têm comentado, o mais difícil começou agora. E cá estaremos para comentar os desenvolvimentos. PM
LE PEN CLUB: Foi com um misto de agrado e de surpresa que li estas palavras (sobre a perda de mandato europeu de Le Pen). Já sei, por post anterior, que para Pedro Mexia, entre Le Pen e Chirac que viesse o diabo fazer a escolha, o que me parece coerente com as ideias que dele conheço. Mas confesso com total sinceridade que pensava que o PM era democrata a sério e respeitador da vontade popular. Ora, sabendo-se de todas as maroscas que o Estado francês e nomeadamente o respectivo "centrão" tem feito nos últimos anos para eliminar administrativamente a vontade popular (curiosamente com o resultado que se conhece nas últimas presidenciais...), não me deixa de surpreender o "tadinho", a deixar antever alguma alegria pelo facto, que aliás em bom rigor não ocorre exactamente nos termos do post de PM. O desrespeito pela vontade popular expressa pelo voto, quando o mesmo voto não se coaduna com as expectativas é uma prática manifestamente de esquerda (exemplos disso não faltariam) e estranho ver a direita democrática e infame a alinhar nessa equipa. Pedia então ao PM uma opinião: Será legítimo actuar contra Le Pen e demais dirigentes da FN de forma reiterada, independentemente da opinião que tenha deles o PM e que presumo que seja péssima, com o único intuito de ditar administrativamente a sua não elegibilidade? Aguardo, com sincero interesse a resposta. (Pedro Guedes)

Caro Pedro: Le Pen foi afastado do Parlamento Europeu por um motivo sério, a agressão a uma colega socialista. Parece-me uma boa razão para a perda de mandato. É verdade que não gosto do sr. Le Pen, das suas ideias, do seu grupo, e da sua família política em geral. Mas não tem razão ao imaginar que desejo alguma forma de não-elegibilidade eleitoral dos partidos da extrema-direita. Acho que podem concorrer, como quaisquer outros, a todas as eleições, desde que respeitem, como quaisquer outros, as regras do jogo. E não acho mais escandaloso haver eleitos adeptos de Mussolini e Hitler do que eleitos adeptos de Estaline e Mao. Estão bem uns para os outros. Agora é verdade que tudo o que lhes aconteça de mal me agrada, porque não os considero correlegionários em quase nada, como se viu neste episódio da guerra. Da dita «extrema-direita» só tenha respeito pelo líder que se afastou claramente dessas ideias: o sr. Fini, de quem aliás os verdadeiros radicais não gostam nada. Portanto, não confunda: acho que a extrema-direita (os nacionalistas, se quiser) tem lugar na democracia, como todas as tendências, e que não deve ser descriminada ou perseguida. Mas lá por achar que deve existir não quer dizer que lhe deseje sucesso. Esclarecido? PM
PRÓ E CONTRA: Esta semana lançaremos a rubrica Pró e Contra, destinada a discutir temas em que os Infames não estão de acordo entre eles (vai ser difícil encontrar assunto, convenhamos). A primeira discussão será sobre a nova Lei dos Partidos, mais concretamente sobre o que se aplica ao PCP. A favor estará o Pedro Lomba, e contra moi-même. Continuem sintonizados. PM
LAMBER A FRIDA: Aconselho a todos os esquerdistas o filme Frida. Mas não é um mau filme? É, é mesmo péssimo, incapaz de lidar com a arte sem ser de forma bizarra, ilustrativa, histérica, episódica. E a Kahlo nunca teve um pingo deagraça da Hayek (que é a melhor razão, ou as duas melhores razões, para desembolsar cinco euros). Depois aparece Trostsky, naquele estilo «idealista» da parvoíce hollywoodiana, neste caso mostrando o nobre Leão como um simpático Avô Cantigas em revolta contra o Zé dos Bigodes, que esse sim, era Mau. Lindo. Mas há sobretudo uma cena de cama memorável: ver Trotsky a vir-se é um momento que ficará para sempre gravado nas nossas mentes. Nunca mais leremos A Revolução Desfigurada sem imaginar o rosto desfigurado do Tio Leão em encornanço recolucionário com a esposa da camarada Rivera. Uma preciosidade. PM
ESCLARECIMENTO: Para quem se refere a nós como «neo-conservadores», esclarecemos que estamos muito satisfeitos com o conservadorismo clássico, muito obrigado, e dispensamos alegremente o «neo». «Neos» são muitos dos que passaram pela extrema-esquerda e viraram, e os Infames nunca foram alguma vez de esquerda (moderada ou radical). Daí, não consideramos a partir de agora que a expressão «neo-conservadores» usada em blogs se refira à Coluna Infame. Obrigado. PM