domingo, abril 06, 2003

POP: Sou um fã esquerdista da Coluna. Por motivos muito românticos, deu-me para voltar a ouvir os Sonic Youth. Imagino que o Pedro Mexia os tenha em alguma conta, julgando pelas outras referências que já lhe conheço. É isto que queria saber. Como é que um conservador gosta de música de esquerda? (Este ‘como’ é mesmo como, não porquê; porquê percebo eu: são muito bons). Sei que os SY são de esquerda, um bocado anarco-pós-estruturalista, feministas, e se se ler muitas das letras, e se souber do contexto quotidiano norte-americano percebe-se, etc... Mas não é disto que estou a falar, não é da mensagem. Uma palavra aqui e acolá, os sons, o tom, a voz a da Kim Gordon, principalmente , o radicalismo, a onda, isto tudo a mim ressoa-me pelo corpo, pelo coração, de uma forma que é de esquerda e intrinsecamente anti-conservadora. É impossível imaginar os SY sem me sentir assim. Não sei se estou a disparatar, mas tenho curiosidade de saber o que pensa disto um conservador que me cheira que gosta deles; e caso não goste, digo já que acho que a mesma coisa se aplica um pouco a outros, aos Radiohead, aos Pixies, talvez a grande parte das referências musicais que já lhe vi na Coluna (mas, por exemplo, os Smiths: eram pró-labour, mas não os sinto como esquerda --neles, é irrelevante). Sente alguma coisa de esquerda, ou, para o efeito, conservadora, quando ouve estes grupos? Ou isso aqui não interessa? (Gonçalo Praça)

Caro Gonçalo: antes de mais, ficamos muito satisfeitos por haver «fãs esquerdistas» da Coluna, significa que não são primários e que gostam de tomar contacto com ideias diferentes. Obrigado pela fidelidade e pela pergunta. No que diz respeito à música pop (penso que se refere apenas a essa) há uma clara cisão aqui na Coluna: os Pedros são devotos e o João é no mínimo desconfiado. As razões pelas quais eu gosto maniacamente de música pop são em primeiro lugar biográfico-etárias, em segundo lugar culturais, e muito pouco políticas. Biográficas e etárias porque a música pop é a banda-sonora de adolescentes, jovens e jovens adultos: ninguém como os songwriters pop sabe dizer (mas também chorar, sussurrar, gritar, emudecer, sugerir, esgasgar, desdizer) o que sentimos nessas idades, e as experiências essencialmente de ordem afectiva - embora não estritamente amorosa - pelas quais passamos. Como eu costumo dizer, ao ouvir certas canções penso sempre que o songwriter esteve, este tempo todo, debaixo da minha cama, a espiolhar-me a existência. Do ponto de vista mais cultural, a boa música pop apresenta alguns desafios que me parecem muito interessantes: musicar poemas (ou letras tendencialmente poéticas), voltando assim às origens da poesia; chegar às massas como a literatura não chega; cruzar imaginativamente as artes, através por exemplo dos videoclips; conseguir triunfar num oceano de pastilha elástica para os ouvidos. A política, no meio disso, interessa-me menos: existem grupos com evidente carga política, aliás quase todos à esquerda: Dead Kennedys, Clash, Billy Bragg, Public Enemy, ou outros que tomam publicamente posições políticas, dos Beatles aos REM. À direita, um leitor nosso sugeriu Kinks, mas podemos acrescentar os primeiros Blur, o Cohen, os Joy Division, bem como uma linha de instrospectivos algo reaças, de Nick Drake a Will Oldham. Os Sonic Youth (gosto deles, pois gosto), são realmente uns belos canhotos, embora os Radiohead e os Pixies tenham uma cabeça demasiado esquizóide para serem consideradas bandas políticas. Por outro lado, como definir Tom Waits, Depeche Mode ou os...Duran Duran? Smiths é um caso diferente: os rapazes eram anti-Maggie e anti-monarquia, mas que eu saiba participaram apenas uma vez, e sem grande convicção, na festa do Labour (Red Wedge), e o Morrissey a solo encostou-se a posições claramente nacionalistas e xenófobas, para além de um negrume radical, daqueles incompatíveis com amanhãs que, errr, cantam. Mas para responder à sua pergunta, não sinto nada «de esquerda» nem «de direita» a ouvir os grupos de que gosto, embora, como ficou claro, quanto mais pessimistas mais os aprecio, e isso, realmente, seja bastante direitista. Mas não me incomoda nada a música «de esquerda» (gosto muito dos Clash), como não me incomoda nada a literatura ou o cinema «de esquerda» pelo simples facto de defenderem ideias que eu não defendo. Nas artes quem não for ecuménico é faccioso, e os Infames são claramente ecuménicos. Só nos falta convencer o JPC. PM
LIVROS, POLÉMICA, HUMOR: No próximo dia 9 de Abril, quarta-feira, pelas 18.30, tem lugar no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, a primeira sessão dos encontros É a Cultura, Estúpido. Organizados pelas Produções Fictícias, os encontros serão realizados mensalmente, e têm uma entrevista, críticas sobre livros, polémica política e humor, em rubricas como Leitura Obrigatória e O Que Não Ando a Ler. As sessões serão apresentadas por Anabela Mota Ribeiro, e terão como participantes os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos e os colunistas Daniel Oliveira e João Pereira Coutinho (este últimos realizarão um debate que, nesta primeira edição, será sobre Chomsky e a guerra no Iraque), além de um artista convidado para falar (finalmente) a sério num sketch final. O autor do mês será Pedro Rosa Mendes, que estará presente com o fotografo João Francisco Vilhena, a propósito de "Atlântico", obra da autoria de ambos, a ser lançada no dia 10 de Abril. Há livro de reclamações.

sábado, abril 05, 2003

ESQUERDA(S):Tínhamos à esquerda alguns blogs marxistas e compagnons de route, e por isso na Coluna falávamos de «esquerda» e de «esquerdistas» indistintamente para nos referirmos à comunada. Com o aparecimento dos Relativos, instalou-se a confusão. É que os Relativos são da esquerda parlamentar, mas não faz sentido nenhum chamar-lhes «esquerdistas» (alguns são francamente mais burgueses do que os Infames). Assim, ponto de ordem à mesa: a partir de agora falaremos de esquerda para designar toda a canhota e de esquerdistas para falarmos dos marxistas de vários coturnos; para os Relativos, por isso, propomos a designação... sociais-democratas. Parece-vos bem? PM
«CONSERVADORISMO»: Creio que um dos pontos interessantes do revisitar desta questão, é o de que se trata de mais uma área em que a esquerda denota desorientação. A esquerda sempre se considerou revolucionária, sempre se viu a combater o status quo, ou seja os conservadores. Um dia sim, lá instituiriam os amanhãs que cantam. Não viu que combateu, ganhou e lá instituiu qualquer coisa,o seu próprio status quo. Sinistro, diga-se de passagem. O qual se começou a desmoronar, graças a Deus, com a queda do muro de Berlim. O principal já caiu, falta o Estado providência e outras miudezas caras á esquerda. Assim, a esquerda vê-se na desconfortavel posição, para ela, de ser conservadora, de conservar o que resta do socialismo. Uma realidade para a qual não têm suporte ideologico na sua bagagem. (Ana Cristina Vasconcelos)

Cara Ana: não direi que acompanho totalmente o seu argumento, mas tem razão quando diz que certa esquerda pretende sobretudo «conservar» (as «conquistas de Abril», p. ex.), e que por isso aparece como reactiva e quase reaccionária (é o que explica em parte o declínio do PCP). Mas essa atitude «conservadora» nada tem a ver com o conservadorismo como doutrina politica (quando o Ricardo Noronha diz que Estaline era «conservador», isso não torna o Pai dos Povos nosso companheiro ideológico, como se pode facilmente compreender). O conservadorismo faz-se por referência a valores, que se consideram positivos e essenciais à satisfação das necessidades humanas (da propriedade privada à família, passando pelas liberdades cívicas e políticas). A atitude de conservar um statu quo - de esquerda ou de direita - faz-se por referência a uma recusa da mudança, que de todo em todo não defendemos. Há conservadores no sentido ideológico que são conservadores no sentido vulgar (imobilistas, reaccionários), mas não é manifestamente o nosso caso. Se fosse, nem um blog tínhamos, estávamos a berrar contra a «sociedade tecnológica» e a brandir ao povo o Júlio Diniz e o Unabomber. PM
ESTE NÃO É PIMBA, PROMETO: Mais um blog novo, desta vez não ofensivo é o Fora da Lei, de um amigo do nosso estimado Tiago Cavaco. E nós que pensávamos que os calvinistas portugueses eram todos seguidores do Italo. Bem-vindo, amigo. PM
LIVROS, POLÉMICA, HUMOR: No próximo dia 9 de Abril, quarta-feira, pelas 18.30, tem lugar no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, a primeira sessão dos encontros É a Cultura, Estúpido. Organizados pelas Produções Fictícias, os encontros serão realizados mensalmente, e têm uma entrevista, críticas sobre livros, polémica política e humor, em rubricas como Leitura Obrigatória e O Que Não Ando a Ler. As sessões serão apresentadas por Anabela Mota Ribeiro, e terão como participantes os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos e os colunistas Daniel Oliveira e João Pereira Coutinho (este últimos realizarão um debate que, nesta primeira edição, será sobre Chomsky e a guerra no Iraque), além de um artista convidado para falar (finalmente) a sério num sketch final. O autor do mês será Pedro Rosa Mendes, que estará presente com o fotografo João Francisco Vilhena, a propósito de "Atlântico", obra da autoria de ambos, a ser lançada no dia 10 de Abril. Há livro de reclamações.
ERA DE ESPERAR: Como não deu qualquer atenção ao último mail que mandei para a Coluna Infame (não sei se o achou banal ou mal escrito...), tudo me leva a crer que terá a mesma atitude para com este...enfim, já me começo a habituar... Queria manifestar a minha perplexidade (já deve estar todo contente com a hipótese de uma discordanciazinha para poder responder depois, com o tom categórico que o caracteriza - e que às vezes até tem bastante piada, mas nem sempre! )relativamente ao seu comentário ao blog A Cagada. Compreendo um certo sentido de humor em torno de assuntos que a mim não me fazem rir, aceito (mas não subscrevo, bem pelo contrário)a postura crítica relativamente às manifestações de rua e respectivas palavras de ordem ou coreografias...são tudo coisas que passam pela nossa forma de ver o mundo, pelo modo como nos relacionamos com as coisas e pelos ideais que defendemos, logo, é legítimo e compreensível. Como lhe disse no último mail (aquele que nunca chegou a publicar, embora eu não tenha sido mal educada - não tenho esse hábito, embora seja de esquerda!, nem ofendido ninguém nem utilizado vocabulário menos próprio), leio o vosso blog diariamente porque me interessa acompanhar o debate de ideias, porque gosto de conhecer o modo de pensar dos que não pensam como eu e também porque me agradam, muitas vezes, alguns posts de ordem cultural (aprecio o seu gosto cinematográfico, literário e musical, bem como as críticas que faz nessa área). Os posts que não me agradam, e que muitas vezes tenho vontade de contestar, de discutir, de ripostar, são sempre posições que posso, muitas vezes, aceitar (nunca concordar!) porque prezo a liberdade dos que não pensam como eu e porque lhe reconheço as qualidades que me levam, também, a continuar a lê-lo (elevado nível cultural, bom gosto - às vezes demasiado "chic", uma atitude correcta na forma de expor as suas ideias - é verdade, às vezes arrisca alguma demagogia, mas isso é um mal de muita gente- e um sentido de humor muitas vezes hilariante - vê, a esquerda ainda sabe rir, mesmo quando o que a faz rir é contra si própria!). Esta conversa toda (tão alongada porque já sei que mais ninguém terá oportunidade de ler o que escrevo aqui) para dizer que o seu comentário positivo ao blog A Cagada (que apresenta como um blog "mais divertido que os marretas" acaba de deitar ao chão quase todas as ideias que fui formando sobre si, e que já enunciei atrás. Você, que se queixa, com razão, do mau gosto pimba e ordinário da praxe, que acusa tantas vezes a pimbalhada do "povo" de falta de nível cultural...então você acha que um blog que se refere aos homossexuais de modo humilhante, ofensivo e nazi (já sei que vai achar exagerado, mas alguém que escreve que, e cito de A Cagada

(segue-se um diatribe anti-gay demasiado hardcore para reproduzirmos aqui)

é um blog divertido? Acha engraçada a referência humilhante (e, já agora, banal, de tão grosseira) à orientação sexual de cada um? Acha divertida a linguagem asquerosa, pimba e pouco imaginativa (é tão fácil escrever os mesmos palavrões vezes sem conta...) do blog em questão? Ou será que elogia o tal blog pelo apoio que este dá à guerra e pelas críticas que faz à Palestina e ao Avante? Seja lá qual for o motivo, parece-me estranho vindo de alguém como você. Enfim, desilusões todos temos, não é? Claro que vou continuar a ler o seu blog (embora isso a si pouco lhe interesse), mas agora sempre com a certeza de que o que vou encontrar não é um conjunto de opiniões apresentado por pessoas com quem eu quase nunca concordo, mas que vou tendo em boa conta; agora estarei sempre à espera de ver a pimbalhice e a banalidade a espreitar em qualquer canto...E tenho pena, a sério que tenho. Uma direita inteligente, culta e com vontade de debater é mais "perigosa" (acho eu), mas a mim interessa-me mais do que a mediocridade brejeira da direita pimba a que Portugal nos tem habituado...Vejam lá se não caem no mesmo. (Sara Figueiredo Costa )

Cara Sara: fui procurar o tal mail anterior e não o encontrei, talvez tenha vindo num dia super-abundante e sido precepitadamente printado ou qualquer coisa assim, porque realmente não tenho ideia nenhuma de o ter lido. Quanto à Cagada, repare: o humor ofensivo (como é o caso), é humor à mesma; pode dizer que não acha graça, mas ele não deixa de ser humor por ofender uma classe de pessoas. Eu sou católico, e considero humor legítimo as anedotas sobre o cristianismo, desde as piadas com freiras até ao preservativo no nariz do Papa, mesmo se por vezes esse humor me possa ferir. A Cagada é, em parte, um mail de hipérboles, feito para chocar, porque nem o mais grunho do grunho pensa aquelas coisas. Imagino que a Sara não se ria com temas e teses de que discorde; eu não funciono assim. Se acha que eu concordo de algum modo com o que eles escrevem (imaginando que é a sério), está no seu direito, mas é totalmente falso. Se não se pode fazer humor (mesmo vulgar) com, digamos, os homossexuais, o que nos separa dos que pretenderam proibir o sketch da «Última Ceia»? (repare que não é a qualidade do humor que está em causa, mas a temática). Se considera, a partir de agora, A Coluna Infame um site pimba e banal, temos pena. Mas talvez fosse bom escandalizar-se com o que nós escrevemos e/ou defendemos, e não com as piadas ordinárias que nos possam fazer rir. Porque nós nos rimos, por vezes, com piadas ordinárias, e temos um monte de outros defeitos. Tenha um pouco mais de paciência com as imperfeições humanas, não faça de Robespierre, que morreu virtuoso mas guilhotinado. PM

sexta-feira, abril 04, 2003

NÃO LIGUEM, PÁ: O nosso leitor Rui Baptista chamou-nos a atenção para uma frase que nos tinha escapado, de Otelo Saraiva de Carvalho ao 24 Horas de dia 2: «Saddam é um homem sereno, determinado e com uma grande capacidade de liderança. (...) Não tenho dúvidas de que é um homem de esquerda». Tivemos entretanto hipótese de ler as declarações de Otelo, o Mouro de Veneza. Por vezes a direita tem a tendência para demonizar os Capitães de Abril; mas realmente figuras como Otelo não são de tragédia, mas de opereta. Otelo é um filibusteiro, um irresponsável, e mesmo a história do «Campo Pequeno» foi uma asneira que lhe saiu boca fora. Essa entrevista sobre Saddam é mais uma imbecilidade do partenaire de Julie Sargeant no inesquecível clip erótico da SIC. Não temos dúvida que certa esquerda gosta de Saddam. Não temos dúvida que Saddam se inspira no estalinismo. Mas claro que isso não tem nada a ver com o que em geral, no Ocidente, entendemos por «esquerda» e que em geral a esquerda gosta tanto de Saddam como nós. Neste caso, ser de «esquerda» ou de «direita» não é importante: Saddam é um tirano, isso é que conta, e é por isso que merece ser derrubado, pá. PM
PRAXE: Caros membros da Coluna Infame, gostava de vos colocar uma pergunta, que pouco tem a ver com o tema que domina a actualidade, no entanto que suscita polemica no meu grupo de amigos e colegas. Somos estudantes na universidade de Coimbra, cidade e universidade que sao ha muitos anos palco das tradicoes academicas, o conjunto destas tradicoes, isto e, toda a vida academica denomina-se praxe. No entanto eu quero questionar a praxe, referindo-me apenas aquela que e praticada aos caloiros nos meses iniciais de seus cursos. Em relacao a praxe existem dois grupos que se opoem, uns sao os anti-praxe, os outros defendem as tradicoes e praxe tal como ela e, e nao querem terminar com ela, nem modifica-la. Ora como ja devem ter notado, a falta de acentos neste texto e evidente, mas tal deve-se ao facto de estar em Salamanca( aproveito para enviar um "piropo": ¡mesmo em Salamanca nao deixo de ler a vossa coluna!), e os teclados espanhois impedem a utilizacao de acentos. Em Salamanca nao existe esta praxe e penso que este facto e bastante benefico para a vida academica. Sendo assim a minha questao e a seguinte: sera que devemos manter uma praxe retrogoda, e que nao acompanha o correr dos tempos, em Coimbra. (Mário Sena)

Caro Mário (e amigos): a praxe era um tema que queríamos tratar. até por já ter sido levantado por leitores do Blog de Esquerda, nomeadamente o Francisco Frazão. A resposta é simples: os Infames não têm o menor respeito pelas «tradições académicas» em geral, e pela «praxe» em particular. Em Coimbra dizem-me que é diferente, não sei, mas em Lisboa e no Porto as actividades académicas são uma parolice entre o pimba e a imperial, penosos de ver e ouvir e indicadores de debilidade mental galopante. A praxe é uma prática de iniciação semelhante à que existe em muitas actividades e grupos, mas face ao tipo de abusos, de animalidades, de actos criminosos, pensamos que a praxe deve ser o mais limitada possível, e em todo o caso, sempre voluntária (que façam joguinhos e pinturas de cara risonha, estamo-nos nas tintas). Somos conservadores, não tradicionalistas e, de resto, são as academias com menos «tradição» que mais ligam a essas parvoíces. Não somos contra a praxe e a tradição académica pelas razões da esquerda (que tem a ver essencialmente com raciocínios sobre a luta de classes e outras cassetes); somos contra a praxe porque somos contra a piroseira e a bestialidade. Obrigado por nos lerem em Salamanca. Um abraço a todos. PM
UM BLOG COM BOLINHA: Chama-se, singelamente, A Cagada, e é o pesadelo de todos os politicamente correctos. É ainda mais divertido que os Marretas, o que é dizer muito, e pode causar convulsões de riso. Só deve ser lido, no entanto, por estômagos fortes, sobretudo se forem femininos. Ficam (duplamente) avisados. PM
UM BLOG SÉRIO: Ainda só espreitámos, mas com este nome, só podemos gostar: é A Montanha Mágica. Thomas, amigo, os Infames estão contigo. PM
NEM TODOS, MEUS AMIGOS: O leitor Luís Manuel Guarita pergunta: Vocês publicam todos os emails que vos chegam ou só os que vos apetece publicar? Se publicássemos todos os mails que recebemos, não fazíamos mais nada na vida. Publicamos uma selecção, e por vezes com algum atraso, dependendo dos afazeres. Quem os selecciona e responde sou quase sempre eu, que os outros Infames têm mais com que se entreter. Os critérios são: o tema, a clareza, a pertinência. Os critérios de não-publicação e não-resposta são: insultos, banalidades, má escrita. A «triagem» de que o leitor fala no seu mail é inevitável. Mas esclarecemos que, como já se viu, não publicamos apenas mails favoráveis. Alíás, nos próximos dias temos uns quantos mails adversos (mas civilizados) a responder. A sua carta faz também uma insinuação que, se bem percebemos, é absurda. PM

ALBERTO: (Nota: Alberto Gonçalves é um Infame honorário, e aqui iremos publicando posts da sua autoria. Não é um regime de correio, porque é quase da casa, e estamos quase sempre de acordo, por isso não haverá comentários. Bem-vindo, Alberto). PM

Não tenho dúvidas de que a experiência directa da guerra afecta os jornalistas. Não me refiro, exclusivamente, àqueles que passam férias no hotel Palestina, em regime de meia pensão, incluindo excursões diárias a hospitais nas camionetas da Baastours. Mas também à rapaziada que ficou no Ocidente. Sobretudo, não sei porquê, em Lisboa. O JPC já comentou o comportamento de Manuela M. Guedes, ex-cantora pop, deputada popular e discreta linha avançada do “monteirismo”. Mas os casos abundam. Ontem, por exemplo, o “Opinião Pública” da Sic Notícias abordou o triplo despedimento do sr. Peter Arnett (NBC News, MSNBC e National Geographic). Em rodapé, os divertidos sms de insulto a Bush. Em estúdio, a moça da locução e Diana Andringa, mulher e mito. Ante o olhar deleitado da moça, a dona Andringa pôde desfiar o longo rosário da “hipocrisia” americana, que, sabemo-lo bem, sempre cala os que dizem a “verdade”. A coisa corria pelo melhor, até que os calores do conflito, somados à excitação que o bigode de Saddam naturalmente inflige numa senhora de certa idade, se fizeram sentir. Então, as hormonas da dona Andringa entraram num fandango e saiu esta: “O Arnett, aliás, já fora despedido da CNN por revelar o uso de gás sarin pelos EUA no Vietname.” Sucede que a mentira, aqui, não é do Pentágono, mas do sr. Arnett, que de resto a confessou antes de ser posto na rua, em 1999. É apenas um ligeiríssimo pormenor, mas que teria dado outro sentido às revelações da dona Andringa. Infelizmente, essa jornalista modelar esqueceu-se de acrescentá-lo, tomada que estava pelo frenesim anti-bélico. Não obstante, a moça da locução sorria, atónita pela erudição da mestra. É assim que se aprende: em breve, haveremos de ver a moça em, digamos, Teerão, exibindo o “lado humano” do conflito e reafirmando a objectividade do jornalismo pátrio.

Alberto Gonçalves
NÓS, EM FEIRAS? Diz o Filipe Nunes, um dos Relativos: PM, aparentemente, não acredita na esquerda liberal. No plano intelectual, finge ignorar Rawls, Walzer e Bobbio. No plano nacional, ainda não percebeu que a Igreja católica empurrou o liberalismo para a esquerda. Prefere viver um velho sonho de muitos leitores do Independente: o da direita liberal-conservadora portuguesa. O último que se dedicou a essa nobre causa foi o Dr. Portas que, quando chegou ao Caldas, logo tratou de arranjar uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, metendo o liberalismo na gaveta. Foi por causa dos «ciganos do rendimento mínimo», do «Paulinho das feiras» e da «lavoura» que chegou a ministro de Estado. Não foi certamente por defender a livre iniciativa. E não me venham com a vossa putativa independência. Não se precipitem. Lembrem-se que o antigo director do Independente também dizia que jamais usaria gravata, e vejam agora o estado em que ele está. Meu caro PM, a verdade é esta: ter, em língua portuguesa, um blog «liberal e conservador» é como fazer uma sardinhada na Trafalgar Square.

Caro Filipe: eu acredito na esquerda liberal, e tenho umas luzes sobre os autores citados, sobretudo Walzer. Espanto-me é que o PS, que há não muitos anos era contra a tv privada, e que agora tem amores bloquistas evidentes, se reclame do «liberalismo». Se isso é verdade dos jovens turcos do PS, tanto melhor, fico realmente satisfeito. O conservadorismo liberal da Coluna não será afectado por percalços como os que afastaram o dr. Portas do caminho mais sério: aqui prometo que JPC, PL e PM não darão jamais beijinhos em feiras e mercados nem invocarão Nossa Senhora (gravata já usamos, por vezes, mas os Relativos também, não venham com bloquices). Este blog é conservador e liberal porque não representa nenhuma tendência estabelecida entre nós, em termos oficiais, mas espelha as nossas influências políticas anglo-saxónicas, que sempre assumimos. Este blog pode ser conservador e liberal porque não está ligado aos partidos da direita portuguesa, um deles que se diz «democrata-cristão» (que horror) e o outro que não se diz coisa nenhuma. Ninguém é completamente independente, porque cada um tem as suas ideias e está mais próximo de quem as partilha, mas não me parece, caro Filipe, que sejam os Relativos que nos possam servir de modelo nessa matéria, pelo menos até criticarem alguém do PS no vosso blog. Ficamos, no entanto, à espera de uma maior elaboração (e os Relativos são universitários) dessa influência da Igreja no liberalismo de esquerda; é - sem ironia - um tema que nos interessa. E essa da sardinhada em Trafalgar parece, sem dúvida, uma fantasia erótica do Mark. PM



A PROPÓSITO: Hoje de manhã, informados da demissão do Ministro das Cidades, exclamámos em coro: «Qual Ministro das Cidades»? Isaltino era uma das várias nulidades deste Governo, que ainda mantém vários. Por aqui, nunca «isaltinámos», e achamos mesmo que este Governo é fraco. É apenas a questão da guerra que nos faz cerrar fileiras, por assim dizer, pois aí estamos em pleno acordo com a política seguida. Terminada a guerra, reservamo-nos o direito de criticar o Governo em qualquer área, bem como de o elogiar quando acharmos merecido. Repito: A Coluna Infame, embora da mesma área ideológica do PP e do PSD, não está ligada ou vinculada a estes partidos. Não esperem encontrar deste lado, para contrapôr aos Relativos, os Absolutos. Nem pensar nisso é bom. PM
PARA QUE CONSTE: Aos amigos Relativos, mas também a todos os leitores, avisamos que podem disparar à vontade sobre o PSD e o PP. A Coluna Infame representa os seus autores e não esses partidos. Um Relativo disse mal de Avelino Ferreira Torres? Tudo o que disserem é pouco. Imbecis e grunhos da nossa área ideológica são, antes do mais, imbecis e grunhos. Preferimos sempre um esquerdista inteligente e civilizado. Para que conste. PM
AVISO # 2: E por falar em consciências morais, recebemos uma simpática nota do pároco da nossa freguesia, que nos pede o respeito pelos Mandamentos, em especial pela determinação de não desejar a mulher do próximo. Assim sendo, lamentamos anunciar que esta blog deixará de ter referência a Joana Gomes Cardoso (comprometida) e Joana Amaral Dias (comprometida com um futuro ministro). Tentámos uma solução de recurso, a Governado Civil Teresa Caeiro, mas sendo namorada de um amigo também recaía sob a proibição. Estamos, portanto, sem musa. Pedimos aos leitores sugestões. Sem musa não temos... ideias. PM
AVISO # 1: Como aqui dissemos, o nosso estimado provedor, dr. Providêncio Canhoto, esteve em Cuba, a participar no Congresso «Educação Socialista Grátis». Há semanas que devia ter regressado. Tentámos ligar para Havana, e nada nos disseram. Até que hoje, numa notícia da Reuters soubemos que o dr. Providêncio está entre os mais recentes detidos pelo regime castrista por actividades contra-revolucionárias. Desconhecemos o que pode estar na origem desta acusação, mas vamos esclarecer os leitores assim que tivermos mais dados. A esperança (de que ele não volte) é a última a morrer. PM

quinta-feira, abril 03, 2003

ATENÇÃO, ATENÇÃO: Responsáveis dos blogs Valete, Intermitente, Marretas, Contra a Corente, Picuinhices, Cruzes Canhoto, Relativos, Blog de Esquerda são chamados à recepção. Por favor, mandem um mail em branco para colunainfame@hotmail.com com o subject «inquérito». Na volta do correio receberão pormenores. Obrigado. PM
MAIS UM: A nossa mais atenta leitora, Ester Andrade, tem um blog, em colaboração. É o Espada Relativa. Passem por lá. PM
QUESTÕES DE PACHACHI: Pois pois, chamem-lhe propagação da espécie... E ainda me esqueci, para ficarmos no "Islão como religião", das 70 virgens que esperam os mártires. Aliás, quanto a isto, apresentei as minhas dúvidas a um amigo muçulmano. É que dito assim sem mais nem menos 70 virgens parece muito mas não esqueçamos que é para toda a Eternidade. Ora isto levanta problemas teológicos interessantes, não resolvidos pelas belíssimas sutras do Corão. Será que o stock de virgens é renovável, de maneira a que o mártir tenha sempre 70 ? É que depois da primeira vez, em princípio e salvo milagre (que é mais para os católicos) ou deficiência de legis artis, uma virgem deixa de ser virgem. Mas não me atrevo a incomodar mais as V. inteligências com problemas de tão baixa extracção intelectual. (Abel Campos)

Caro Abel: pelo contrário, o tema interessa-nos sobremaneira, embora não sejamos adeptos de virgens, por razões que demoraria a explicar. Essa das virgens que continuam virgens também nos escapa. Mas nós e o Islão, sabe como é, não somos íntimos. PM
CONSERVAR AS LIBERDADES: Ser conservador nas vossas palavras é tão só desfrutar do que existe: liberdade, conforto material e, sem ingenuidade, saber que tal não se faz com doces discursos mas dando a vida com coragem, em guerras de preferência preventivas, antes que os inimigos do nosso sistema de valores se apetrechem com armas tão potentes quanto as nossas. Estaríamos todos esquecidos das lições de Churchill e do século XX, quando os totalitarismos de direita ou de esquerda quase trucidaram a esperança da democracia, afinal o menor dos males? Tudo se resume a defendermo-nos antes que seja tarde demais sem utopias de pulverizar a democracia pelo mundo. Abraçar utopias é alienarmo-nos da verdade incontornável da espécie humana: os homens nunca pensarão da mesma maneira e têm a maldade no coração. Vocês não falam mentiras bonitas. O liberalismo à escala mundial seria voraz em termos ecológicos e convenhamos quem acredita em casa, automóvel, blogosfera para todos? Mas pergunto o exemplo de Israel e da Palestina não nos servirá para nada? Não tarda nada o mundo não será mais do que Israel e a Palestina à escala mundial, com homens-bomba e cada um a lutar com as armas que tem- pedras ou terrorismo? Haverá alguma solução à vista para algum país e para o mundo enquanto ao ódio se responder com o ódio? Homens ou profetas pensaram nisto uma vida inteira. Cristo, Buda, Gandhi falaram no mesmo tom do princípio da não violência. Uma única vez, resultou politicamente. E mesmo Napoleão afirmou que pior que uma derrota é uma vitória. Hoje no Público Abderrahim Lamchichji refere que estas intervenções externas só podem enfraquecer a corrente árabe democrática e encorajar as correntes árabes contestatárias mais conservadoras. Caminhamos para que mundo? Democracia e bem-estar para 1/3 da humanidade aterrorizada não se vá dar o caso de os restantes 2/3 da humanidade não-democrática, vivendo em países nevrálgicos e armados ameaçar o seu “modus vivendi” que, diga-se, o 1/3, a minoria, lá no fundo no fundo nem pretende exportar/ universalizar já que esgota recursos finitos e, como tais, não usufruíveis por todos? Conservadores, não utópicos o mundo não se faz com incertezas, mal ou bem constrói-se cada dia que passa, mas vocês nunca têm dúvidas? (Clara Macedo Cabral)

Cara Clara: começando pelo fim, nós temos dúvidas, imensas dúvidas, mas confesso que a grande maioria delas não são no campo da política e, sobretudo, da definição ideológica. Ser conservador não é apenas «conservar» o nosso bem-estar, mas também trabalhar para o conseguir nos países que ainda não o possuem. E as guerras são por vezes necessárias para garantir as liberdades, tão essenciais como o bem-estar, e mesmo gémeas deste. Não acreditamos na não-violência como método. Também não acreditamos que esta intervenção militar seja causadora de mais terrorismo, que poderia acontecer de qualquer modo; esta intervenção pode, isso sim, evitar que futuros terroristas usem armas de destruição maçica fornecidas por Estados sem escrúpulos. Não nos são indiferentes os 2/3 do mundo não-desenvolvido: penso que isso é mais verdade para o dr. Mário Soares, por exemplo, que diz que Saddam «não tem importância nenhuma» (a mesma não-importãncia que o mesmo Soares atribuiu à invasão de Timor, por certo). Os Iraquianos (incluindo os curdos) que se lixem. A Clara tem toda a razão quando diz que a questão Palestiniana é essencial para pacificar o mundo; esperemos que as novas autoridades palestinianas possibilitem negociações sérias que levem à coexistência de dois Estados independentes e democráticos. (Nota: obrigado pelas simpáticas referências à minha poesia; mas desminto que nesses livros seja «poeticamente correcto, pacifista» («melancólico» é verdade). O poema que cita, aliás, é uma referência a Xenofonte, e não uma alusão pacifista, doutrina que abomino. Mas julgo que sugere isto: que o PM dos poemas é mais importante para mim que o PM das opiniões políticas, mais «verdadeiro», de certo modo. Tem razão). PM
OXONIANOS: Ó rapazes, tende lá paciência! Então vão buscar à net, e tomam a sério, um site imbecil e caceteiro, daqueles que aparecem aos milhões e que contam anedotas sobre os vizinhos? Toda a gente gosta, toda a gente vê quando não tem mais nada que fazer, mas fazer deles exemplo só pode ser piada. E depois, já agora, estou um bocado farto dessa história da eterna dívida de gratidão da Europa aos Estados Unidos. Parecem esquecer-se do La Fayette e do Toqueville, por exemplo, na formação dos EU, isto só para falar nos franceses. Não vos diz nada? Pois é, os portugueses são engraçados. Já foi chique a valer ser francófilo e agora o que está a dar na elite é ser anglófilo, desejar ter uma cottage em oxford, vestir casacos de tweed e sentir uma admiração paternalista por aqueles bravos rapazes do lado de lá do Atlântico. Ao menos, e se assim querem continuar, aprendam com o Mencken, que apesar de intelectualmente desonesto tinha um desprezo saudável pelos parolos do bible belt, que agora estão aí a ressurgir em versão blindada. De qualquer maneira continuem lá, que são das poucas coisas estimulantes na net portuguesa. (António Ramos)

Caro António: o site Merde in France é um site de combate, com os exageros e as fúrias que isso implica, mas é um bom veículo de textos e opiniões sobre la Frrrrrooooooooonce, que nos parece que deve estar sob vigilância mediática face às suas recentes posições indignas. «Eterna dívida de gratidão» não é vocabulário nosso, mas convenhamos que não temos razão de queixa do «intervencianismo» americano na Europa. Anglófilos, somos, assumidamente; há vícios piores. Agora, «Bible belt»? Nós? Tem lido a Coluna Infame? (Nota: vejo que escreve da Lousã, onde tenho casa e ligações afectivas fortes. Será que na Lousã há um grupo de ciber-adeptos interessante? Se houver, tomamos um copo na Páscoa). PM
PRÉMIO «ENTÃO E A ESCOVA DE DENTES»? How, I kept asking myself, could the Americans batter their way through these defenses? For mile after mile they go on, slit trenches, ditches, earthen underground bunkers, palm groves of heavy artillery and truck loads of combat troops in battle fatigues and steel helmets. Not since the 1980-88 Iran-Iraq War have I seen the Iraqi Army deployed like this. (Robert Fisk)
NAJAF: Hundreds of American troops marched into town at midday today and were greeted by its residents. (...) People rushed to greet them today, crying out repeatedly, "Thank you, this is beautiful!" Two questions dominated a crowd that gathered outside a former ammunition center for the Baath Party. "Will you stay?" asked Kase, a civil engineer who would not give his last name. Another man, Heider, said, "Can you tell me what time Saddam is finished?" Residents also pleaded for water and fuel, saying that supplies had been cut off for four days. Asked what else the people wanted, residents pointed to a building from which they said rocket-propelled grenades were launched, and asked the military to remove them.(...) "I was so glad to come back and see a guy on the street with pita bread," Mr. al-Waeli said. "I got some from him; he gave it to me and the other soldiers for free. He said you're one of them." Mr. al-Waedi said that Ayatollah Alsestani was being cautious about embracing the Americans because of uncertainty about how they would be viewed by the local Shiites. But he also said that the local Shiites were concerned that the Americans would not secure the peace and wanted to know, "Are you going to be here or are you going to leave us?" (...) Lt. Col. Duke Deluca, noting that the mines had been made in Italy, said, "Europeans are antiwar, but they are pro-commerce. (o NYT de hoje). PM
SADDAMITAS: Não estamos, felizmente, do mesmo lado deste senhor. Na Europa, Le Pen e Haider estão com Saddam. Nos EUA, Buchanan e sus muchachos estão contra a guerra. A direita radical em todo o mundo está na outra barricada que não a nossa. Esse é um dos melhoras certezas desta crise. PM
QUANTO AO MÉDIO ORIENTE: Também sem Saddam uma coisa parece certa. Será mais fácil combater os terroristas islâmicos sem o exemplo de um líder que passou os últimso dez anos a brincar com o Ocidente. E, por consequência, também será mais fácil disciplinar os abusos de Israel e dos sionistas mais raivosos. O conflito entre Israel e a Palestina nunca foi um mero conflito local. O que fez de Israel um Estado militarizado, com uma exacerbada preocupação de segurança foi um conjunto de países vizinhos que não aceitaram a sua existência e, se acaso tivesse podido, não hesitariam em empurrar os israelitas para o Mediterrâneo. Nós já não sabemos o que é a insegurança. A nossa percepção da guerra é totalmente a-histórica. Israel, pelo contrário, conhece, como sempre conheceu, a insegurança; conhece, como sempre conheceu, a guerra. (Na 1ª Guerra do Golfo, lembrem-se que o Iraque atacou Jerusalém). O fim deste regime iraquiano significa o fim de um regime que possuíu e utilizou armas químicas (que as tornaria a usar na sua primeira oportunidade), que possuíu armas nucleares; e todos concordaremos (talvez com a excepção de Mia Couto) que isto de ter armas de destruição maciça não é para todos. Julgo que não é preciso explicar que o parlamento iraquiano não controla Saddam. O fim do regime iraquiano é o fim da chatangem, da ameaça potencial. Estados governados por ditadores que alimentam irresponsavelmente um ódio planetário que custou já milhares de vidas ocidentais, são um factor de desequilíbrio de uma ordem internacional permanentemente precária. O fim de Saddam inicia uma nova era política para o Médio Oriente, uma era sem potências regionais e com mais fiáveis hipóteses de paz. Veremos se não temos razão. PL
DAY AFTER: Algumas ideias sobre a democratização do Iraque e os objectivos desta guerra. A existência de cépticos em gente que acredita que Cuba é uma democracia, chega a ser pilhérica. Não fomos nós que passamos os últimso decénios a brandir com o direito de auto-determinação dos povos. De modo que assistir às dúvidas feéricas de quem, desde o primeiro momento, preferiu o status quo a qualquer mudança política no Iraque, torna-se uma involuntária comédia. O que tem sido a ordem internacional senão um persistente esforço de state e nation-building? Olhem para o Estado de Israel ou, como lembra hoje Pacheco Pereira (once again), olhem para a Alemanha ou o Japão? E o que têm sido as Nações Unidas senão uma sistemática aplicação deste construtivismo político? A guerra ao Iraque, assim como a oposição a esta guerra, têm certamente muitos propósitos que não fazem dela um estrito acto de caridade com o povo iraquiano. No entanto, dizer que não se pode democratizar à bomba (como escreve o Relativo Filipe Nunes) ou dizer que a democracia não é de todo um dos objectivos desta guerra, é ignorar o que a deposição de Saddam permitirá. Claro que ninguém pensa (a não ser alguns lunáticos) em levar para o Iraque a democracia parlamentar, constituições com trezentos artigos, laicismo religioso e, por exemplo, blogs viciosos como este. O Iraque não precisa de ser uma democracia inspirada em Westmnister. Precisa apenas de um regime legítimo, respeito pelas liberdades fundamentais e um líder tranquilo sem atracção por substâncias químicas ou psicotrópicas. O objectivo primário da guerra - remover Saddam e o actual regime iraquiano - é uma condição necessária para qualquer evolução liberalizante, tanto do Iraque como do Médio Oriente. Se a democracia não é líquida sem Saddam, é seguramente mais possível. Pode não se trocar o Palácio de Bagdad por Westminster. Mas o que vier a seguir será infinitamente melhor que o passado. PL

AS GUERRAS: Quem leia jornais e veja televisão, fatalmente descobre que há duas guerras: a militar e a política. Como toda a gente sabe quem ganhará a militar, resta-nos discutir a política. Aqui, os nossos compatriotas bem-pensantes têm feito uma interessante distinção: uma baixa americana é recebida com silêncio ou com uma olímpica indiferença; uma baixa iraquiana representa um sinal da barbárie e da carnificina americana. Isto também se aplica às leis da guerra. Os americanos estão obrigados a pôr um míssil na sala sem destruir a casa-de-banho mas os iraquianos podem tudo e 6 mil criaturas dispostos a dar a vida por Saddam é uma coisa banal e, claro, perfeitamente lícita. Os americanos podem, de facto, perder esta guerra política, na essência porque ela tem sido coberta com uma desonestida gritante. Mas não se iludam: quem a ganhará não vai ser a bamboleante opinião pública internacional. Essa será a última vitória de Saddam. PL
PARA VARIAR : Já agora, temos dez exemplares para oferecer da obra-prima «Zabiba e o Rei» (o romance de Saddam) e um 1 fim-de-semana no Hotel Palestina em Bagdad (sem as tropas da coligação). Basta responderem bem e depressa à seguinte pergunta: o que é um bom europeu? Os leitores estão convidados a enviar tratados, máximas e outros ensaios para colunainfame@hotmail.com . Pistas de reflexão: um bom europeu não insulta os belgas em estado sóbrio; interessa-se por mitologia grega; lê e concorda com os artigos de Teresa de Sousa and so on. PL
DÚVIDAS METÓDICAS: A seguinte dúvida me assola: porque é que a Coluna Infame é tão agredida? Porque é que uma parte dos nossos leitores teima em insultar-nos tão galhardamente? Por que depreciam as nossas qualidades físicas, insultando sem compaixão os nossos progenitores (e as nossas namoradas que, cegamente, acreditam na perfeição dos nossos traços)? Até o meu amigo Mark Kirkby, um conhecido Casanova da Cornualha, entrou na vaga e zombou da minha fealdade. O que se passa com esta gente? Qual a razão de tanto frenesim, de tanta agressividade, de tanta acidez? Não são eles os utopistas, os pacifistas, os leitores de Kant e de Maria Teresa Horta? Não são eles quem deseja harmonia e paz universal? O que se passa com esta população? Isto não é só explicado pela visibilidade polémica do JPC e do PM ou pelo facto de a generalidade dos nossos compatriotas adorar vítimas e não prezar especialmente que alguém levante a cabeça ou brinque com o lodaçal. Isto não tem a ver só com o facto de sermos conservadores e conhecermos de cor o hino americano. Isto não vem apenas da nossa posição sobre a guerra, do nosso amor ao libertador Pashashi e da nossa ânsia por um Iraque sem o hotél Palestina. O problema, meus amigos, é infelizmente mais prosaico. O problema está no sentido de humor. A esquerda nunca teve particular sentido de humor. Engels e Marx nunca escreveram uma piada (está bem, existe o Capital). O Pai Marx aprendeu o marxismo com Hegel, que, como se sabe, falhou uma fulgurante carreira como comediante de borla em Heidelberg. A esquerda tem explicações para tudo, racionaliza tudo e aceita mal que uns empertigados venham duvidar das suas magnas certezas. Não aceita o inexplicável, o inconsequente, o absurdo, a perda de tempo que há num inútil jogo de palavras. Não percebe que demasiado estruturalismo complica o sistema nervoso (e, como tenho insistido, gástrico). Não atinge que as ideias são muito menos importantes do que as surpresas da realidade. A esquerda é assim. Nós nem nos queixamos. E ainda nos rimos um pouco com esta saraivada de insultos e reprimendas. Só deixamos um aviso: deixem as nossas mães em paz. PL
MERCI: O indispensável Merde in France, que se dedica a desmontar a pusilanimidade de la Frrrroooooooooooonce, põe-nos nos seus links permanentes e diz sobre nós «A Coluna Infame is a Portugese blog with the right point of view. A rare thing in Continental Europe». Right and on the right, acrescentamos nós. Obrigado aos nossos amigos do mundo livre / merci a nos amis du monde libre / thanks to your friends from the free world (iraquiano não falamos). PM
INFÂMIAS: A Coluna Infame é um blog assumidamente conservador. Todos os dias, de segunda a sexta, Pedro Mexia (PM), Pedro Lomba (PL) e João Pereira Coutinho (JPC) renovam o stock e respondem aos fregueses. O endereço continua: colunainfame@hotmail.com .
NEGROS HÁBITOS: O assunto não me diz respeito. Mas merece comentário. Pedro Mexia tem sido violentamente verberado na correspondência da Coluna porque o auditório deste blog não aprecia particularmente a beleza física do Pedro. O Pedro é gordo. O Pedro é feio. E eles ainda não viram o Lomba, o Pereira Coutinho (sobretudo em cuecas) e os restantes «infames» que vão urdindo a contra-revolução pela sombra. O Pedro vai respondendo aos insultos porque, verdade seja dita, o Pedro sempre teve um particular carinho pelos débeis mentais. Acho a coisa enternecedora. Mas gostaria de acrescentar que ela revela uma atitude: uma atitude que, à Esquerda e à Direita, é muito familiar ao pensamento totalitário. Um pensamento que, para sobreviver, gosta de desumanizar o adversário, pintando-o com as cores de um - palavra importante - «degenerado». Um pouco de história talvez ajude. O conceito de «degeneração», que fez as delícias da ciência médica ao longo do século XIX, encontrou uma expressão maior na propaganda dos regimes totalitários, sobretudo na Alemanha. Desde cedo, nos filmes ou nas pinturas do Reich, a beleza da raça ariana – mães sorridentes, camponeses robustos, cavaleiros medievais sem mácula – era o contraste absoluto da «degeneração» física de pretos, judeus, ciganos, homossexuais, deficientes, seres viciosos e infectos, portadores de doença e de desgraça. No fundo, seres imperfeitos que, muito antes da solução final, foram objecto de uma longa campanha de humilhação. E não foi por acaso que, quando Goebbels organizou a exposição Expressionista de Munique em 1937, o objectivo não era apenas banir as obras expostas. Acima de tudo, interessava humilhar os artistas. Artistas viciosos (leia-se «homossexuais») que utilizavam nas suas telas motivos selvagens (leia-se «africanos»), capazes de corromper a pureza da raça. A beleza da raça. O valor da raça. Quando o auditório desata a criticar fisicamente o adversário, ele não está particularmente a inovar. Pelo contrário: ele está a regredir no tempo e a catar directamente no latão do lixo da Alemanha Nazi. Negros hábitos que não auguram nada de bom. JPC
CONSERVADORES: O que pensam os conservadores sobre a guerra? A posição não é consensual - e Peter Hitchens, jornalista inglês sobre quem escrevo no próximo Independente, é claro: nenhum conservador genuíno apoia esta guerra. Aliás, a guerra é incompatível com o pensamento conservador porque contrária aos valores que o conservadorismo abraça. A guerra destrói ligações fundamentais e provoca rupturas intoleráveis. Um conservador desfruta do que existe e não se lança necessariamente em aventuras bélicas. Acho a retórica deliciosa. Mas ela assenta numa visão errada do conservadorismo, que não partilho e não subscrevo: na ideia de que não é necessário proteger o que existe. Na ideia de que podemos desfrutar do que existe porque aquilo que existe não precisa de protecção: é um maná dos céus, como a chuva e o sol. Escuso de desmontar o argumento de Hitchens. A história inglesa do século XX, sobretudo com Churchill, é o contrário deste credo. Hoje, como ontem, para desfrutarmos do que existe - da liberdade que temos, do conforto material que fomos conquistando -, temos de estar dispostos a lutar. Por vezes, sem luta não há conservação. Apenas ruína. A ruína própria dos bárbaros. JPC
TODOS? NÃO. HÁ UMA PEQUENA ALDEIA GAULESA: Tenho notado que se têm debatido com a campanha pseudo-informativa a que se tem assistido na generalidade dos nossos media. Permitam-me então que partilhe consigo este meu desabafo. Dediquei parte desta manhã ao meu habitual exercício (que ultimamente se tem tornada cada vez mais rádiomasoquista) de ouvir a TSF e deparei com um “fórum” especial dedicado à – pasme-se – “Isenção dos Órgãos de Comunicação Social na Cobertura da Guerra do Iraque”. Ainda nutri uma vaga esperança de que fosse assistir a um debate sobre a propaganda existente entre as partes em conflito, a um ligeiro exercício de mea culpa por parte de alguns jornalistas, alguns comentários do estilo “pois é mas os outros são piores”, mas não. Abriram-se as hostilidades dando voz aos ouvintes que, como era de esperar, desfizeram-se em hossanas e louvores ao excelente trabalho da TSF (já parecia o “lambebotismo” ao Sr. Fernando Correia da Bancada Central), condenando a “hipocrisia” e a “propaganda” dos meios de comunicação anglo-saxónicos (!) e a desonestidade de “alguns jornalistas” como o Sr. Nuno Rogeiro (?), e de alguns jornais, com directores como o Sr. José Manuel Fernandes do Público, que fazem campanhas malévolas a favor da guerra (ás vezes pergunto-me de que planeta telefonarão alguns ouvintes). Pelo meio contactaram-se correspondentes nos diversos países, que, como é timbre geral da rádio, já nem sequer esboçam um mínimo de pudor e mostram abertamente a sua opinião. O correspondente de Espanha, a propósito de a televisão do estado ter sido a única a não transmitir “em directo a manifestação mundial anti-guerra” (não se admite!), descaiu-se e disse: “Mas o povo não é parvo, e …”. Parece-me que esta pequena amostra é má de mais para ser verdade. No entanto é apenas uma muito pequena amostra. O massacre “informativo” tem sido contínuo, disfarçado aqui e ali com um ou outro entrevistado que não alinha pela mesma bitola, para destoar e salvar a aparência do equilíbrio e isenção. Mas, enfim… Não sou fundamentalista. Concedo mesmo que entre a esmagadora maioria da comunicação social há certamente gente bem intencionada. Concedo até que estarão cobertos de razão! Mas o que fazem não é informação isenta; é propaganda! Começa a ser preocupante o “unanimismo” desenfreado que se começa a alastrar por aí. Nas conversas entre amigos, colegas de trabalho, no café, começa a ser perigoso não se estar de acordo com a maioria. Começa-se a viver um ambiente orwelliano (é assim que se escreve?) em que só é bem visto quem ladrar em voz alta insultos à Eurásia, perdão, aos Estados Unidos, e quem desprezar veementemente Emmanuel Goldstein, perdão, George W. Bush. A nossa opinião só poderá por vezes ser tolerada se, cobardemente, pelo meio inserirmos algumas observações do estilo “…mas o Sadam e o Bush estão bem um para o outro!”, ou então “…claro que tudo isto é só por petróleo!”, acompanhados de alguns cuidados argumentativos politicamente correctos. E o perigo é despoletarmos uma discussão colérica, sermos rapidamente apelidados de fascistas, neo-nazis, revisionistas (É verdade! Não ouviram no último Flash-Back o J. Magalães a chamar o JPP de revisionista?) reaccionários, anti-democráticos, e isto se tivermos sorte. Passamos a ser olhados como o anormal do bairro, com quem é melhor nem discutir. Rapidamente, se passa a ter cuidado e a nem abrir a boca, mesmo que se ouça o maior disparate em voz alta. Mais vale baixar a bolinha, e passar à clandestinidade! Os tempos não estão para se discutir abertamente opiniões. É claro que agora para o fim exagerei. Mas não tardaremos a lá chegar se estes órgãos de comunicação social (genericamente canhotos) continuarem na onda do “jornalismo de causas”, que como sabemos se alimenta fortemente na mama do mais difuso e perigoso campo do “politicamente correcto”! Um grande “bem hajam” e perdoe-me este desabafo. Continuem.Carlos Costa

Caro Carlos: obrigado por mais um testemunho sobre os media portugueses e a guerra. Da Rádio Bagdad nada nos espanta. Mas temos reparado nessa cultura do unanimismo, que só não se nota mais porque os poucos que dela destoam tem cargos relevantes: Primeiro-Ministro, directores de jornais, colunistas influentes. Se a Coluna Infame serve para alguma coisa, serve para isso: para mostrar que certas ideias podem ser defendidas, por mais inédtias e minoritárias que sejam, em absoluta normalidade democrática, sem se gritar «fascismo» à primeira discordância com o ideário esquerdista. Que ainda muitos gritem «fascismo» é a prova de que estamos no princípio de um percurso de anos. PM
COMUNAS: Pedro Mexia e José Mário Silva estiveram na Antena 1 para falarem de fascismo e comunismo. Ou, para usar a correcção, de fascismo e estalinismo, uma vez que o comunismo é outra coisa. Ou não é? Em relação à matéria, desfaço as minhas dúvidas: a equivalência possível entre o fascismo e o comunismo não está nos mortos. Está nos vivos. Está naqueles que criaram artificialmente a noção de uma Utopia possível, de uma Utopia futura - e tudo fizeram para a concretizar temporalmente. Não por acaso, Pedro Mexia falou na dimensão intrinsecamente religiosa das utopias. Sem dúvida. Para lá dos mortos, que o fascismo e o comunismo foram produzindo com uma brutalidade industriosa, ambos os totalitarismos partilharam a mesma linguagem quase-religiosa, ao prometer o Reino do Proletariado, ou da Raça, num mundo necessariamente corrompido pelos excessos da democracia liberal e pelas iniquidades do tempo presente, que era necessário redimir pela força messiânica do Führer, ou do Partido. Aqueles que acreditam nas intenções necessariamente benignas do comunismo, ao contrário da violência manifesta do fascismo, não perceberam coisa alguma do século XX e da dinâmica interna das utopias. Porque só existe Utopia quando a diversidade humana, quando a pluralidade de visões sobre o mundo e a vida, são violentamente esmagadas em nome de um Ideal que desce sobre a turba com a força de uma guilhotina. Não há qualquer bondade de raíz. Apenas a maldade do coração humano que acredita numa solução - na solução - para os diferentes problemas que afectam as sociedades humanas. Todo o pensamento utópico é sanguinário. À Direita e à Esquerda. Sem distinção. JPC
NEO NADA: De um dos mais rezingões leitores de blogs em Portugal, recebemos esta dúvida:

Sou amiúde apelidado de «neo-liberal». Gosto da palavra e aprecio que me chamem isso, apesar do evidente intuíto homicida com que a tentam espetar-me no lombo. Só tenho um problemazinho que me impede assimilar o adjectivo com prazer e gosto: não sei o que significa. De «liberal» ainda tenho uns lamirés; bastante fracos, é certo, mas sempre são uns lamirés. Agora de «neo-liberal» nem vestigios. Poder-me-ão, os senhores deste blog, que, tenho que confessar, apesar da extensa concordância de pontos de vista nos assuntos políticos, não aprecio por aí além, ser úteis a debelar tão chata deficiência? (Maradona)

Caro Maradona: «neo-liberal» não quer dizer nada. Para isso teria que haver uma doutrina chamada «neo-liberalismo», o que manifestamente não é o caso. «Neo-liberais» é uma palavra para a esquerda englobar capitalistas, economicistas, monetaristas, europeístas, americanistas e outros istas. Corresponde ao mundo capitalista pós-guerra fria, mas não é uma doutrina nova, não tem um teórico nem um corpo doutrinal. Os «neo-liberais» gostam de Hayek e Friedman, entre outros, que não são, convenhamos, tão «neo» como isso. Tal como «globalização» é um nome de código para «capitalismo», «neo-liberal» abrange todo aquele que não perfilhe teorias de estatização e dirigismo económico. Esse suposto «neo-liberalismo» não tem aliás, nada a ver com o liberalismo no sentido político, que aliás gerou várias correntes, à esquerda e à direita (de Constant a Paine, e assim por diante). Não se preocupe, pois, com o termo, continue a bloggar e despejar o seu mau-humor. Nós, como leitores do VPV, não desdenhamos nunca o mau-humor (e outros processos químicos) como pedra angular de ideias políticas. PM
DEIXE LÁ: Não é agradável assistir a que não existam 2 linhas de prosa dos blogs "à esquerda do centro" sem um ataque, directo, indirecto, referência jocosa, whatever em relação à Coluna Infame, em especial ao Pedro Mexia e João Pereira Coutinho (a exposição pública tem muito que se lhe diga). Será assim tão complicado escrever e expôr as nossas ideias em paz? Gosto e pratico a "discussão", mas neste momento é quase uma obsessão e tem tranformado o fluxo de ideias em ruído. Não sei se esta situação tem feito "mossa", se estão pensar moderar o tom ou o objecto da vossa escrita. Pela minha parte fica apenas um abraço solidário e um pedido "Stand Fast!!". Não fosse a Vossa Coluna, a Blogoesfera do "Mundo Livre" e meia dúzia de colunistas (bem contados) como é que eu conseguiria ler algo sobre a actualidade em português? (Manuel Pinheiro, do blog De Direita)

Caro Manuel: ataques (directos e indirectos), referências jocosos e sobretudo whatever são bem-vindos. Não podemos exercer o tipo de escrita que é padrão da Coluna Infame e depois ser umas margaridas da planície face a respostas e manifestações de desagrado. Só estamos a pensar em «moderar o tom» se começarmos a ter muitos leitores da categoria do Pacheco, que não deve ter muita pachorra para piadas sobre o sr. Pachachi. Entre o humor e as ideias é que nos queremos, e assim continuaremos, até dada a «vaga de fundo» dos nossos leitores quando pensamos em tornar-nos respeitáveis. As ideias de direita, ditas assim sem complexo como nós fazemos, irritam sempre um bocado, ainda por cima porque não somos latifundiários nem capitalistas, e temos o topete de ler livros, escrever literatura, colaborar nos jornais. Mas é tão fácil distinguir, por exemplo, os autores do País Relativo, do Blog de Esquerda ou do Cruzes Canhoto, que respeitamos, de alguns energúmenos que nos escrevem hate mail. A discussão política tem sempre um certo grau de agressividade, e achamos isso saudável. E dos energúmenos, como tem visto, também sabemos tratar. PM
PACHACHI STRIKES AGAIN: Então o Islão não gosta de Pashashi ? Então e as mil e uma noites ? E a poligamia ? E os 30 camelos por uma loura, cotação só atingida nesses lugares longínquos ? Só não revelo essa afirmação insultuosa a uns amigos islamistas que conheço por piedade para com a Coluna, que não quero ver atacada por um vírus qualquer de retaliação que poria o vosso blog só com um crescente verde a ondular ao vento, como fizeram uns malvados hackers no site da Al Jazeera com a bandeira americana. Que sejam fachos ainda se aceita (nobody's perfect, como dizia o outro), mas afirmações temerárias como essa ? Francamente... (Abel Campos)

Caro Abel: repare que eu falava do Islão como religião, não da cultura árabe: não me parece que as Mil e Uma Noites e as Louras por Camelos sejam mandamentos do Profeta; bem pelo contrário. E a poligamia, lamento desiludi-lo, era apenas uma medida de propagação da espécie numa altura - a de Maomé - complicada nesse aspecto. Não era por causa do deleite sexual (deleite sexual pode ser 30 namoradas, não 30 esposas). O Pashashi finalmente, chama-se afinal... Pachachi, e tem oitenta anos. Com esse nome e essa idade, é um motivo de esperança para nós todos. PM
UM SOM DE SHWA: O mais politicamente incorrecto dos críticos literários portugueses esclarece-nos a dúvida de pronúncia:

O nome próprio, nome de baptismo digamos, do Carniceiro de Bagdade soa mais ou menos HUSSINE, com H aspirado e dando ao U um som de «shwa», como no final de «tarde» em Lisboa. (Fernando Venâncio)

Caro Fernando: Obrigado pelo esclarecimento, tanto mais valioso quanto vem de um não-Infame. Estamos todos para aqui a fazer sons ridículos com a laringe, tentando dizer o nome de um bigodudo que se calhar a esta hora já está do lado de lá a curtir as virgens. Mas é por uma boa causa. PM
FRENCH, MY ASS: Recebemos este mail:

Olá! aqui de Paris,eu e os meus amigos da FNAC, (trabalho na Fnac como selector de música erudita)lemos (minhas traduções) os vossos textos como momentos de gozo e barômetro de opinião! A Coluna Infame é tããão periférica e os seus autores tããããão
convencidos que dá pena - Ai o meu livrinho hoje às seis da tarde!!!! - olha o protagonismo a querer emergir do mar de merda que é a vossa pequeníssima convicção belicista; tenham mas é juízo e trabalhem para melhorar essa cloaca desse país!!! é inacraditável o vosso orgulhozeco de direita eleganto-contemporanizado. Sinceramente: onde querem chegar??? Marcha sobre Lisboa?!?!??! New world order? Os tugazinhos, e a verdade é essa,por cá continuam irrisórios e motivo de gargalhada entre dois copos de vinho!!!! Vá lá, agora não venham com a perda da hegemonia gaulesa,OK? Falam de França assim num tu cá tu lá como se constituissem algum contraponto! Levantem mais a cabecinha, que ela não se vê! Têm a Espanha à frente, que ainda é grande!!!!!
Jean-François DeCrécy (traduzido por fátima DeCrécy)

E pensámos: confere com a simpatia parisiense, o tom de Ai-que-Grande-Potência-que-eu-Sou, o discurso «Como é que se atrevem?», um bocado da xenofobia esquerdófila (sim, também existe) e outras estimáveis características. Mas havia factos que militavam contra essa ideia: o mail tinha sido recebido a 1 de Abril, a linguagem esquedófila lembrava a FNAC sim, mas a do Chiado (o senhor que manda vir Chomsky às carradas), umas construções fraseológicas meio maradas (embora a «tradução» fosse tão má que era de supôr que não havia portugueses ao barulho). Não respondemos logo, sobretudo por causa dos problemas no Blogger. E pumba, nova carta, desta vez impaciente:

Olá! Então não me respondem?!?!? Vi uma fotografia do PM Mexia - é muito mau! - esteticamente(!?!?) que má figura! Você já aderiu às golinhas-manguinhas brancas a rematar a risca azul? Olhe que as miúdas não apreciam muito isso... A sua safa é , provavelmente a cosmética revolucionária para o libertar das olheiras e da gordura que transparece! Mas que feio que você é! Repare: é um poder compremetido, uma questão de imagem! sendo vocês tão pequenos, necesitariam duma melhor apresentação; ou seja, com tão baixa dialética e igual figura, meus caros: vão mas é escrever para o "Diabo" e para sucedâneos frustradinhos afins! velhadas expoliados não vos faltarão! Beijinhos da cidade LUZ para a aldeia escura!!! E vejam lá se me respondem!

Necessidade de protagonismo, a referência ao Diabo, era suspeita a mais. Mas o que nos tirou as dúvidas foram as considerações estéticas. Quando era a Rita, tudo bem, faz parte, quem não tem mais para dizer, sempre pode dizer «e além do mais, você é gordo», o que é francamente demolidor e final. Mas o João-Francisco preocupado com a minha plástica, e a espreitar o Indy, ainda por cima? Compreendi-te: o J.F. pertence a um minoria sexual, daquelas que gostam de homens magrinhos e musculados. Nada contra. E vai daí, vendo as minhas parcas habilitações nessa matéria, disse «credo, este não o queria nem para dançar o YMCA». Para além de ficar encantado com a notícia (ser gordo tem algumas vantagens), aconselho o J.F. a ir visitar a FNAC do Chiado, onde pode comprar mais treze livros sobre o SubComandante. Nos Armazéns, e mais acima, na Brasileira, encontrará hordas de magrinhos, razoavelmente de esquerda, e alguns sem costela (para, err, serem amigos de si mesmos). Nós, na Coluna, somos pela satisfação de todas as necessidades sexuais permitidas pela lei. Por isso, J.F., em vez de nos escrever mails um pouco iletrados a fazer de francês grotesco, despeja a sua, err, frustração. PM

quarta-feira, abril 02, 2003

TURN ON THE RADIO: Na Antena 1, depois da 00.00, ZMS e PM discutem Comunismo e Nazismo com Francisco José Viegas. Estes gajos estão em todo o lado. PM
BREAKING NEWS: O Blog de Esquerda acabou de postar um poema de Fernanda de Castro. Sim, essa Fernanda de Castro, a Natália Correia do salazarismo, esposa de António Ferro e tudo mais. Um momento de ecumenismo ideológico ou de distracção? PM
SALAZAR IS DEAD: Sobre este assunto ainda, uma nota. Aconselhamos os nossos amigos das várias esquerdas a ver os filmes de Eric Rohmer. Entre muitas outros motivos de prazer, está o modo como Rohmer analisa a diferença entre os comportamentos e os duscrsos. Não se trata apenas da hipocrisia, mas da descontinuidade entre teoria e prática. Os nossos amigos de esquerda (das várias esquerdas) são racionalistas, e supõem por isso a superioridade da razão, da educação, da conscialização. Eles imaginam, por exemplo, que um progressista não bate na mulher, não é um ciumento maníaco, não é homofóbico, e assim por diante. No mundo real, claro, há espancadores de mulheres de esquerda e direita, e o mesmo se diga de machistas perigosos ou anti-gays radicais. É certo que as ideias de direita têm tradicionalmente menos respeito pela diferença, incluindo a diferença sexual, e menos atenção às mulheres como seres evidentemente iguais aos homens (em direitos e deveres, entenda-se). Mas a nova direita, como terá reparado quem conversa com um espécime, já não é exactamente um bigodudo de Santarém que diz «a minha gaja», que quer matar «os paneleiros», que acha que as mulheres «só na cozinha». Há exemplares desses? Infelizmente, ainda alguns. Mas a direita das novas gerações está é por vezes tão progressista em matéria de costumes como o Bloco. Portanto, não insistam no nosso machismo, porque senão teriam que expurgar todos os bloggers activos, da esquerda e de direita, com excepção talvez do muito casto Blog de Esquerda (mas suspeito que o PAS iria na primeira leva de supliciados). O comportamento privado, tendo evidentemente uma componente política, não decorre necessariamente da ideologia, estando por vezes muito mais ligada a traços de personalidade, por exemplo. Essa da direita «salazarista», «trono e altar», «marialva», «machista», «homofóbica», «fascista», etc, que surge nos mails e nas prosas da esquerda é um grave problema de visão. Se julgam que isso corresponde ao retrato da direita portuguesa em 2003, vão ter algumas surpresas desagradáveis, e não apenas eleitorais. PM
ERA A BRINCAAAAAAR: Um amigo humorista (olha que difícil de identificar) dizia que tem comprovado ao longo dos anos que as mulheres têm mais dificuldades com o humor, em especial o absurdo. Mas pelos vistos também com a ironia. As meninas Relativas (Mariana e Sílvia) interpretaram de maneira imensamente política as nossas frasezinhas irónicas. Mariana, «tragam as meninas» queria apenas dizer: já conhecemos os rapazes, falta conhecermos as meninas, venham também tomar um copo. Mais nada. Sílvia (a Desconstrucionista), não julgamos que as meninas estão no País Relativo por causa de quotas, e pelo contrário saudamos finalmente um blog político com mulheres. Mais nada. Não sejam assim, nós até gostamos de mulheres na política. Quanto a namoradas, dois Infames estão servidos, obrigado, e o outro dedicou a sua virgindade a São Escrivá de Balaguer. Amén. PM
UM TEMA QUE NOS É CARO: Philip Roth é talvez o autor vivo preferido aqui da Coluna. Conhecemos as suas posições esquerdistas, mas se fosse por isso deitávamos fora dois terços da biblioteca. Cremos, no entanto, que se enganam os que interpretam o slogan «Bring Back Monica Lewisnky» como um «Bring Back Clinton» (sim, porque esse não bombardeava ninguém, respeitou sempre a ONU, la la la). Pensamos que Roth, sexmaniac que é, sugere que a George W. Bush faz falta essa arma de destruição maciça que é a Mamada (sim, voltamos ao tema). Há quem argumente que os «belicistas» o são por falta de Mamada (o JPC pede-me para desmentir a tese). Se o Buxe fosse felado (bela palavra), isso acalmaria a vontade de atacar Bagdad. Desconhecemos, como é óbvio, as práticas amigáveis de D. Laura Bush, mas suspeitamos realmente que haverá um défice nessa matéria. Mas talvez isso não resolvesse o assunto a contento dos pacifistas. Por exemplo, os Infames são, no doubt about it, pela Guerra (esta) e pela Mamada (várias). Por mais fálicos que sejam os misséis sobre o Iraque, às vezes um charuto é apenas um charuto, como dizia herr doktor. PM
APOCALIPSE NÃO: Quanto ao desafio lançado pelo ZMS, o Pedro já disse o que temos a dizer: a guerra ainda não tem quinze dias, as tropas estão a 50 km de Bagdad, falar de Vietname é um bocado insólito. Pedimos aos esquerdistas que não vejam só a BBC e a Al-Jazeera (passe a redundância). Falaremos aqui das «falhas estratégicas» em breve. Até lá, não se excitem, que ainda não vai ser desta que o Imperialismo será derrotado pelos Amigos Árabes. Nem o Pachachi deixava... PM
OS INFAMES, JARDINISTAS: O Hugo Leal, que com o Jorge Costa e o Franco Foda constitui o núcleo duro dos futebolistas que colaboram no Blog de Esquerda, faz um dicionário canhoto sobre a guerra. Comentamos brevemente esta entrada:

"Direita-democrática" - no sistema poliárquico moderno, os primeiros sintomas são a demagogia e o populismo. Não é contagioso e manifesta-se, geralmente, através de um anódino conservadorismo parlamentar; em Portugal, não passa de uma coligação para lamentar. Entre a súcia "neo-con" e demoliberal, com uma proto-síntese em Burke, há ainda, cá no burgo, os que citam Oakeshott e se deitam com "A Theory of Justice" de Rawls na sua cabeceira. Mas, conservando os hábitos púberes, como quem esconde a Playboy dentro de uma sebenta, o que os deleita mesmo é a personalização boulangista, representada pelas jaculatórias regurgitações do bobo da Madeira ou o providencialismo de sacristia de Joseph de Maistre. O objectivo é pôr o andor a andar para o trono e para o altar.

O Hugo está confundido. Muitos dos que connosco polemizam estão convencidos que somos o Guilherme Silva ou o Padre João Seabra. Olhem que não, olhem que não... Jardim? Ó meu amigo, Jardim está tão próximo do nosso ideário político como Helena Roseta do nosso ideal estético. Rawls também deve ser confusão, é mais para os Relativos, que nós neo-kantianos contratualistas só com muita moderação. Burke e Oakeshott com certeza, e a Playboy também, são referências intelectuais cá da casa. De Maistre lemos pelo estilo, que não pelas ideias. O «trono» não é muito popular aqui na Coluna (mesmo eu sou mais que platónico), e o «altar» já viu melhores dias. Quanto ao boulangismo (que referência antiquada: não quereria dizer poujadismo?) não vemos onde esteja. É o Monteiro? Vou perguntar às minhas tias se são boulangistas (vou apanhar um estalo). A demagogia, por fim, está bem distribuída por esquerda e direita. O populismo, concedemos, tem sido uma das armadilhas da direita recente, mas repare que nós aqui nós patrocinamos a direita político-partidária (que não nos interessa pessoalmente), mas apenas as concepções filosóficas e políticas de um pensamento conservador. Não seremos Paulos Portas aqui na Coluna: interessa-nos infinitamente mais o jornalismo e a academia que o parlamento e os mercados (credo). A dúvida repetida sobre a democraticidade da direita é de uma grande indigência intelectual, e é um assunto a que não voltaremos. Hugo Leal, Hugo Leal, fazes tanta falta no flanco esquerdo... PM

MUNDO VIP: Ontem à noite, um Infame e um Bloggista de Esquerda passaram pela festa de aniversário das Produções Fictícias, que sopraram dez divertidas velas. À entrada do Lux cruzámo-nos com alguns rapazes (Vicente Jorge Silva, Francisco Louçã) e raparigas (Ana Bola, Joaquim Monchique) muito in, e lá dentro demos de cara com Eduardo Cintra Torres, Miguel Portas (sans JAD), Ana Lourenço e João Adelino Faria, um secretário de Estado, actores e cantores (incluindo o incontornável Jel) e muitas miúdas a quem gostávamos de ler Keats ao deitar. A esquerda predominava: a Nova Esquerda é tão Lux como Adorno (quem?). Deixámos um abraço ao Nuno Artur, bravo capitão, e demos de caras com outros elementos bloggísticos em amena cavaqueira. Os Badmunstereifels, claro. Desencontrámo-nos de Mark Kirkby, que se tinha retirado para discutir com Ferro a extradição de Ana Gomes para Jacarta, mas falámos animadamente com Filipe Nunes e Pedro Adão e Silva (um rapaz que aparenta ser da Juventude Popular, diga-se de passagem). O Pedro, puxando pela memória comprometedora, corrigiu a nota que eu aqui escrevi de o ter encontrado apenas uma vez, en passant. Diz o Pedro que já me viu dançar Killie Minogue... Perante este facto improvável mas grave, remexi na caixa negra e efectivamente confirmo que num casamento recente (onde havia uma miúda giríssima parecida com a Emanuelle Béart e cujo namorado estava com os copos) o Pedro e eu coincidimos, e de vodka limão em punho, abanamos a elegante (dele) e corpulenta (minha) carcaça ao som de Clash e Cure. Da Kylie Minogue não me lembro, mas eu tendo a não me lembrar da música quando penso na Kylie. Fica aqui porém o compromisso de que não voltarei a sacolejar o corpanzil em público, espectáculo evidentemente indecoroso e que se pode atribuir ao vodka e à Béart. O Miguel Romão também estava presente no Lux, com o seu rosto querubínico de conquistador de moças progressistas, e prometeu dar uma mãozinha aos Relativos. Estes Badmunstereifels são bons rapazes (e raparigas, Mariana, e raparigas). Mas não espalhem. Abandonámos o Lux pelas 3 da manhã. O nosso fotógrafo está ainda a revelar imagens dos grupos mais chiques e das maminhas mais insubmissas, e aqui será tudo postado, com as imperdíveis legendas, da responsabilidade do nosso convidado do mês, Cláudio Ramos. Façam da vossa vida uma obra de arte. PM
ANDRO PAUSA: Andamos, há dois dias, com problemas no Blogger (acontece a todos os homens, mais tarde ou mais cedo). Vamos tentar agora ficar a par com as novidades e as polémicas, e responder a alguma da correspondência. A propósito de correspondência, um aviso: para o mail colunainfame@hotmail.com devem ser mandados mails sobre textos da Coluna Infame ou assuntos que nela queiram ver tratados. Textos sobre o Vida de Cão (JPC), o teste de Constitucional (PL) e os poeminhas (moi-même) devem ser enviados para os mails dos respectivos autores. E o inverso também: não nos mandem para os mails pessoais textos sobre a Coluna Infame. Um pouco de método, senão é o caos. PM
À ATENÇÃO DO SENHOR MARK KIRKBY: O senhor Mark Kirkby deveria meditar sobre esta frase de Camilo: quem faz cócegas disfarçadas de beliscões, arrisca-se a sopapos involuntários. PL
BACK TO MARX: De volta ao Politburo, o Zé Mário questiona-se sobre o que dirão os apoiantes da guerra se o Iraque se transformar num segundo Vietname. Zé Mário: com duas semanas de guerra, essa pergunta não faz qualquer sentido. A não ser que haja aí um secreto e irreprimível desejo de o Iraque se converter num novo Vietname. PL
HIPÓTESES: Uma hipótese para comprovar empiricamente: a propensão para o dislate dos militares que têm ido à televisão comentar a guerra aumenta com o posto. Os tenentes-coronéis dizem coisas sensatas, equilibradas, razoavelmente informadas. Os generais conduzem-nos ao desastre. Isto, num certo sentido, explica o declínio das Forças Armadas portuguesas. PL
JAMILA: A senhora Jamila Madeira poderia revelar-nos a sua verdadeira identidade e deixar de se fazer passar por ocidental. É evidente que esta menina nasceu na Palestina, recita Ibn Khaldun no original e visita aos fins-de-semana a propriedade de Tarek Aziz em Bassorá. Talvez os Relativos nos ajudem a pôr fim a este disfarce descarado. PL
NÃO PERGUNTARAM: A quem nos acusa de sermos uns belicistas de cabeceira, respondemos como Mark Steyn na Spectator:

(Just for the record, I would have been happy to go to Iraq, but they didn’t ask. I’m not much in demand these days.) PL

terça-feira, abril 01, 2003

COMO NÃO PENSAR: O artigo de Vítor Malheiros no Público de hoje devia ser ensinado nas escolas. É um brilhante exemplo de como não se deve pensar. PL
MILÉNIO: Dizem-nos que a guerra em curso é uma guerra própria do século XXI. Dizem-nos que a guerra em curso é uma guerra do terceiro milénio, uma guerra religiosa que fez das profecias de Samuel Huntington uma triste realidade. As alusões ao milénio e ao século XXI começam a tornar-se desesperantes. Com as recomendações que se seguem, eu gostaria humildemente de propor aos meus compatriotas um conjunto de coisas que gostaria deixar de ouvir daqui para a frente:

1) O novo milénio é da religião, da mercantilização da fé.

2) O novo milénio é, sem dúvida, das mulheres.

3) Estamos numa época de transição; não admira a angústia neste fim e início de milénio.

4) O grande problema é que o mundo está numa grande incerteza, por causa da globalização.

5) Somos uma geração entre dois mundos.

6) Temos a obrigação de legar (isso mesmo, legar) um mundo melhor aos nossos netos.

7) O mal não é para nós, o mal é para os nossos netos que não sei como é que vão viver.

8) Falta-nos as referências, os valores.

9) A utopia mantém-se tão necessária hoje como no passado; a revolução também.

10) A política tem que ser feita com visões de longo prazo.

11) É o fim da política, da história.

12) Está à nossa porta uma nova Idade Média.

13) Já não distinguimos o bem do mal.

14) O mundo tornou-se um lugar inabitável.

15) Um dia, lamentaremos tudo.

16) O Ocidente pagará caro a sua arrogância.

17) O Dalai Lama será a personagem do novo milénio. PL
JÁ OUVISTE ESTA? Um dos meus momentos preferidos da sociabilidade quotidiana é quando um esquerdista me conta uma anedota «machista», «racista», «homofóbica» ou o que quiserem, e depois acrescenta: «não digas que fui eu quem te contou». Ah, a mulher de César... PM
DEFESA DA HONRA: Tem-se espalhado na blogosfera portuguesa a ideia de que sou «feio para caraças», entre outros epítetos estéticos. Decidi então procurar uma caixa de sapatos de fotos não muito antigas, comprar um scanner mais moderno, e repôr aqui a verdade, por amor à justiça e consolo da minha chorosa mãe. Serei feiote, ok, mas isto também não envergonha ninguém, pois não? PM
STRESS: Indeciso entre Lucrécio e um moralista francês do século XVIII, resolvi provar fruta proibida e comprar Where the Stress Falls, o último volume de ensaios de Susan Sontag. Tolero e aprecio os ensaios literários da senhora Sontag. A senhora gosta de Machado de Assis, Juan Rulfo, Sebald e Walser, e eu também. O problema de Sontag, e genericamente de dois terços do mundo, está quando a senhora resolve sair da literatura e pôr o pé na polis. Sontag, que um ano depois do 11 de Setembro escreveu que a guerra ao terrorismo era uma guerra imaginária, supõe que existe essa coisa chamada «cidadania da literatura», que o facto de escrever lhe dá uma superior autoridade para opinar sobre a república. Não dá. Se querem um conselho, leiam os ensaios de Sontag mas ignorem as suas opiniões políticas. O mundo não precisa de «cidadania literária». PL

segunda-feira, março 31, 2003

NO COMMENTS: Os pacifistas, os antisemitas e os franceses. PM
Hoje, às 18.30, na FNAC / Colombo, será lançado o meu livro de poemas «Eliot e Outras Observações», editado pela Gótica e apresentado pelo Prof. Fernando Martinho, da FLUL. Direitistas e esquerdistas são bem-vindos (e como estou bem-disposto, até serão admitidos democratas-cristãos). PM
VISCERALMENTE IDIOTA: No Fumaças, encontrámos esta pérola: «Acho que ser de esquerda é também uma questão de inteligência e de bom senso. Claro que há imensas pessoas de direita inteligentes, mas é preciso um certo cinismo» (Inês de Medeiros). Caro Luís Januário: percebe que a gente fique um bocado «visceral» com alarvidades destas, não percebe? PM
MAIS UM MÍSSIL AMERICANO: A Rádio Bagdad diz que os americanos arranjaram um senhor para liderar o Iraque pós-Saddam, e que se chama (não juro que se escreva assim) Pashashi. Exacto: Pashashi. O nome encontra vários problemas: 1. O Islão não morre de amores por Pashashi 2. O dito senhor não poderá ser levado a sério por Portugal e os PALOP (no Brasil passa, desde que o vice não se chame Shoshoti) 3. Santana Lopes poderá impugnar o nome, por plágio 4. Hostiliza os gays iraquianos, que farão o coming out no novo regime. Caro Patrão Bush: Pashashi??? Disso nem o seu antecessor se lembraria. PM
DANOS COLATERAIS: No ano passado, mataram Savimbi. Este ano, se Alá quiser, vão matar Saddam. E lá se vai a possibilidade histórica que alimentou essa grande anedota dos anos 90: a Aliança Iraque-Unita. PM
MEDIA IRAQUIANOS: Depois de 10 dias de autêntico massacre a ouvir a rádio Bagdad-TSF e a ver as Aljaziras (TV´s) cá do burgo, tive hoje oportunidade de apreciar um telejornal feito por profissionais e jornalistas de qualidade na TVE. Uma peça com rigor, equilíbrio e profissionalismo com reportagens sobre a guerra que não ultrapassaram no total 15 minutos (divididos entre reportagens do avanço no Kurdistão, em Bassorá e a situação em Bagdad) e que se limitaram a reportar as notícias mais credíveis sem recorrer ao habitual ministro da informação iraquiana que pelos vistos tem contrato exclusivo com as TV´s portuguesas, e sem as habituais visitas guiadas aos hospitais de Bagdad. Ainda oportunidade para uma entrevista com a comunidade iraquiana exilada em Londres, que não tiveram receio de perante as câmaras de TV dizerem que apoiavam a intervenção no Iraque para derrubar o regime e permitir que todos possam regressar em breve ao seu país, para uma vida digna sem Saddam. Curioso que os jornalistas portugueses não tenham conseguido encontrar por esse mundo fora (onde estão exilados mais de 1 milhão de iraquianos) um iraquiano que se mostrasse a favor da intervenção. Porque será ? P.S. A esquerdalhada começa a perder o vigor. Então neste fim de semana não vieram para a rua? Já cansados ao fim de 10 dias ou será que estão ligados ao computador a ler a Coluna Infame? (Jorge Bento)

Repare, Jorge, que por cá, mesmo quando um jornal tem editorialistas do Mundo Livre, vai sempre buscar uns colaboradores Iraquianos para compôr o ramalhete: veja como o DN foi buscar o sempre tão «ponderado» Robert Fisk, do Independent. Daí a existência dos «fachoblogs» e dos «canhotoblogs»: lemo-nos uns aos outros, mas não há misturas. Quanto às manifs, não se fie nessa: eles não se aguentam em casa muito tempo. Prepare-se para ouvir o ti-ri-ri-ri-ri do Zeca Afonso mais umas vezes. PM