domingo, março 30, 2003

CLARO QUE SIM: (...) tente por um momento suster essa raiva visceral à esquerda ou ao que pensa que é a esquerda. Não é obrigatório ter sempre razão. Do lado que você combate com tanto frenesi há gente estimável, que tenta pensar pela sua cabeça, viver uma vida decente, procurar aquilo que é irredutível na condição humana. (Luís Januário)

Caro Luís: Obrigado pelos comentários e elogios ao blog e à minha versalhada, que a modéstia me impede de reproduzir aqui. Quanto à sua queixa: eu não tenho nenhuma «raiva visceral à esquerda». E claro que na esquerda há gente estimável e decente (alguns são meus amigos, mesmo se adeptos dos Três Barbudos). A questão não é pessoal. Trata-se apenas de contestar ideias de que discordamos e que - e este é o ponto - são apresentadas como naturais, evidentes e obrigatórias para quem leia, pense ou escreva. No dia - ainda distante - em que entre nós estar à direita seja tão nornal como estar à esquerda, já não barafustaremos tanto. Entretanto, vamos alimentando a polémica e lendo os livros uns dos outros (o Luís, a Mariana e mais 400 leram os meus). Thanks. PM
NEM SEQUER FALTAM OS COMUNAS: Ao contrário do que aqui disse, nem sequer faltam comunas na net, embora se trate de um grupo de discussão, e não de um blog. Um amigo comunista (foi bonita, esta expressão), que nos trata por «meus caros», mandou-nos o link: está aqui. Já temos hemiciclo na net. E os fachos, não arranjam um? PM


EU CLÁUDIO: Recebemos um mail do Cláudio Anaia, que não se picou com a referência a um Parque Natural com o seu nome, e pelo contrário se revela de uma simpatia verdadeiramente guterrista:

Num país onde a mediocridade, a falta de rigor politico e o respeito por princípios e valores estão na ordem do dia, é com alguma satisfação que sou a partir de hoje um verdadeiro leitor desta vossa coluna, onde podemos dar mostras de que vale a pena por cá andarmos. Achei curioso ser considerado Parque Natural pelo sempre energético e activo PM. Mas olhem que tem que se arranjar um grandinho porque ainda existem por aí muitos... Se calhar é falta de coragem de dar a cara, mas isso já é outra questão. Fui avisado que os «pais» desta cada vez mais famosa coluna são de direita, e que por isso tinha que ter algum cuidado. Não liguei ao meu bom amigo, à má lingua... E como uma vez o Jorge Coelho me disse que eu era o socialista mais a direita que ele conhecia, estão assim abertas as portas para futuras coloborações, o que acham ? O que importa é romper o politicamente correcto e debater, conversar, discutir ideias, isso sim é muito importante, deixar de ser uma carneirada que vai atrás do rebanho. E porque não ser uma reserva de parque natural ? (Cláudio Anaia)

E a carta é toda assim, de uma extrema cordialidade (cada vez mais me convenço de que não devo ser católico, colérico que sou...). Caro Cláudio: toda a gente é bem vinda à Coluna. Publicamos uma selecção de mails com todas as opiniões, desde que não incluam a expressão «filhos da puta» (dirigida a nós). Socialistas católicos são bem-vindos, com excepção do Franciscano do Telemóvel. Mas será que os «socialistas católicos» são necessariamente «à direita»? O exemplo francês não nos diz necessariamente isso (Lamennais e Lacordaire, e mais recentemente os discípulos de Mounier), mas em Portugal talvez seja verdade. Estar em reuniões com o Jorge Coelho, suponho, é a forma que o Cláudio escolheu de fazer penitência para louvar o Criador; sempre é melhor que chibatadas nas costas (há quem goste...). Estamos abertos a todas as tendências políticas, incluindo Amigos de Olivença. E estamos tão contentes de ter democratas burgueses na blogosfera que até nos sentimos um bocadinho socialistas. OK, estava a brincar... PM

Ó ARABISTAS: Mais uma dúvida para a vossa erudição, desta vez linguística: algum dos nossos leitores, perito em idiomas não-civilizados (just kidding, folks...), sabe como se pronuncia o apelido do Bigode de Bagdad? Aqui na Coluna eu sempre disse Ussain, mas o JPC, por exemplo, diz Ussáin, e nos media é a mesma coisa.~É a velha história da eispo ou écspô no ano de 98. Mandem as vossas doutas lições para colunainfame@hotmail.com Podemos querer despachá-lo, mas primeiro há que saber dizer o nome do gajo. PM
NÃO O ELOGIE: Sou um tipo de esquerda que só leio o vosso blog por indicação expressa do meu caro amigo Tiago Cavaco. Mas atenção! Estou muito longe do paradigma normal do pessoal de esquerda, o que até leva o meu amigo Tiago a dizer que nem sequer sou de esquerda, que sou elitista de mais para ser de esquerda, e que qualquer dia vou acordar e perceber que afinal sou um conservador de direita. Contudo considero ser possível ser politicamente de esquerda e psicologicamente conservador. É tudo uma questão de pressupostos. As minhas raizes profundamente protestantes, especialmente marcado por uma ética Calvinista, não me deixam ser um liberal de esquerda comum. E nesse sentido acho que desprezamos em conjunto um grande número de idiossincrasias esquerdosas. Mas esse é um tema que só por si daria uma discussão infinda. Pode ser que qualquer dia a possamos ter. O que me leva a escrever este mail é a minha mais profunda concordância com o que o João Pereira Coutinho disse sobre Mia Couto. Gostava, no entanto, de acrescentar um pequeno pormenor: O senhor Mia Couto é um PLAGIADOR!! Pois é meus amigos, se calhar não sabiam desta faceta mais vil do nosso caro amigo. Mas é verdade. O senho plagiou por inteiro, sem sequer ter o pudor de disfarçar, um poema de um extraordinário escritor brasileiro chamado João Guimarães Rosa. Não tenho comigo os poemas em causa, mas assim que os tenha mando um mail. Espero que possa contribuir para finalmente exorcizar estes pseudos-intelectuais da nossa, ou pelo menos da minha, limitada paciência. (João Cunha Marques)

Caro João: Estamos espantados com a comunidade Calvinista portuguesa. Acho difícil ser politicamente de esquerda e psicologicamente conservador, a não ser que a pessoa se case (private joke indecente ao meu amigo NCS). Mas é preferível isso que ser politicamente de direita e psicologicamente progressista. Está no caminho certo. Sobre o Mia Couto, não o elogie: é preciso ter a noção de que o Mia não tem capacidade de plagiar o Guimarães Rosa, que era um génio. Quando muito, pode plagiar um neo-realista português on acid, a desfazer-se em neologismos e «estórias». Quanto à moralidade política, baste dizer que de um ex-funcionário da FRELIMO não recebemos lições de liberdade. PM
COMMON PEOPLE: Acompanho viciadamente a Coluna, mas tenho que dizer que o post de PM sobre a Opinião Pública foi para mim uma desilusão. Como direitista, que é PM, deveria aceitar a realidade e não ficar ofendido pelo comportamento das “pessoas comuns”. Esse erro é típico daquela gauche que “gosta muito do povo não lhe suporta é o cheiro”. Num post de JPC em que transcreve um mail (excelente) de Fernando Albino é dito que os “«nossos» políticos terão gerido mal a difusão desta mensagem” (da importância da guerra como ameaça para o nosso modo de vida). Ora, não lhe querendo dar o epíteto de “nosso político”, temos que reconhecer que, o ar bemzoco e o discurso conceptual de PM sobre a tirania de Saddam sobre os curdos, etc…, diz muito pouco às “pessoas comuns”, mas a sua mensagem de fundo acompanhada do ladrilhador português é algo que “liga” as pessoas à sua realidade e surte muito mais efeito. Lembram-se, concerteza, dos contos de Eça de Queirós, em que um cavalheiro num salão lê o jornal em voz alta e vai descrevendo acidentes em paragens longínquas onde morreram milhares de pessoas, o que só merece uns monossílabos enfastiados das senhoras presentes, mas quando se vai aproximando geograficamente e acaba na estória de uma condessa (?) que é conhecimento comum dos presentes, e que torceu um pé, a reacção é de grande comoção. Por isso PM não se zangue com a opinião pública e não desvalorize o ladrilhador do Iraque, caso contrário ainda corre o risco de se tornar o nosso Manuel Alegre da direita (o que seria penoso e um desperdício). (Cincinato)

Caro Cincinato: já expliquei o que quis dizer. Percebo o efeito do relato, mas lamento a fraqueza do argumento que move as massas. Confesso que nunca ninguém me tinha chamado «bemzoco», mas tal característica ter-me-ia dado jeito em certas situações de galanço no Restelo. «Manuel Alegre da direita», porém, viola a Convenção de Genebra. Não admitimos insultos tão graves na Coluna. Os meus advogados entrarão em contacto consigo. PM

SÓ FALTAM OS COMUNAS: Já há blogs AD, blogs PS, blogs BE, mas cadê os blogs PCP? Não haverá aí um grupo de rapazes que queira gastar umas horitas de sono em defesa da Coreia? PM
CRISE DE IDENTIDADE: Ainda em Badmunstereifel, o Filipe Nunes (belas iniciais), escreve:

Estamos fartos da direita portuguesa, que é hoje o que sempre foi: beata, antiliberal e salazarista (o prof. Freitas sabe do que fala). Acreditamos que não estamos condenados às prosas lineares do arquitecto Saraiva e aos pensamentos profundos do Comissário Delgado. Mas também não nos confundimos com uma certa esquerda que, por tudo e por nada, se põe a descer a avenida, indignada, ao som das cantigas «de intervenção». Este país relativamente relativo merece mais. Seremos uns Estados Gerais para uma imensa maioria, que junta militantes oriundos das cavernas partidárias com sofisticados independentes exilados em Florença e Frankfurt. Seremos uma esquerda liberal e socialista, porque, sem igualdade, a liberdade é só para alguns. Uma esquerda que gosta da Europa e dos Estados Unidos, mas que, definitivamente, não gosta de Bush: um homem que se deita com as galinhas e troca o whisky pela Bíblia só pode ser um gajo sinistro. Como no 24horas, teremos tudo aquilo a que o bloguista tem direito: futebol, política, bares, discotecas, Hollywood, surf e culinária. E também, semanalmente, as frases, os menos e os mais que houver. Fica prometido.

Socialistas e liberais: lemos várias vezes o post para confirmar. E é mesmo isso - socialistas e liberais. Ainda há esperança no mundo. Mas ficamos em angústia identitária: aqui na Coluna não somos salazaristas (gostamos é do Churchill), nem antiliberais (somos por todas as liberdades, mesmo as que não gostamos) e muito menos beatos (se eu sou o mais beato dos três, estão a ver a beatice que aqui reina). E não nos deitamos, manifestamente, com as galinhas. Será que não somos de direita? Ó Relativos, por favor, digam-nos quem somos. PM

BOCAS RELATIVAS: A Mariana Vieira da Silva (com um nome desses, não quer vir escrever para a Coluna?) pergunta:

Será que o Pedro Mexia não gritaria censura! censura! se o seu livro Duplo Império (sim, lemos E gostámos) fosse banido das livrarias por claras alusões a questões que mais ou menos vagamente pudessem fazer lembrar a guerra? Posso lembrar-me de 1000 razões para não ouvir os B'52's, mas não ouvir porque é um nome de um qualquer armamento é ridículo demais.

Cara Mariana: é evidente que a proibição radiofónica a que o meu post se referia é uma patetice; apenas escrevi que não se pode pôr em paralelo com as restrições às liberdades no Iraque. Quanto a banirem o meu livro das livrarias, não seria grande dano para a literatura portuguesa, e não geraria em mim um acto de revolta. Até porque não me apetece ir viver para as Canárias. PM
BUSH ADMITE RENUNCIAR AO MANDATO: O Rio de Janeiro declarou George Bush persona non grata (proposta dos comunistas votada por unanimidade). Pedimos aos nossos leitores brasileiros para comentarem a magna notícia. colunainfame@hotmail.com Mandem vir. PM
TERRAS DO DEMO: O Cruzes Canhoto mandou-nos este mail:

Escrevo só para felicitar o PM por ter demonstrado tal coerência em tão curto espaço de blog. Falo nomeadamente da auto-assupção como "conservadores DEMOCRÁTICOS e laicos" na resposta ao Ricardo Noronha e na tese "Isto, meus amigos, é a «opinião pública». E querem alguns basear a moralidade política nas comichões mutáveis destes aglomerados tontos." em relação à Opinião Pública. Tenho de cumprimentar efusivamente a vossa aristocrática facheza por ter farejado que o "demo" de "democracia" não vem do grego "povo" (como pensam os tolos) mas do portuguesíssimo "dê-mo" e logo o termo significa "dá cá o bastão que aqui quem sabe disto e devia mandar sou eu". Agradecíamos pois a publicação desta cartita no vosso bloguito acompanhada da piada da praxe que lemos sempre com gosto. Caso contrário seremos forçados a enxovalhá-los no sítio do costume.

Caros Canhotos, há uma certa confusão aí, aliás na esteira de declarações de Rangel (ou de Manuel S. Fonseca, não juro): dizia o senhor que não se podia dizer que o público televisivo é estúpido e depois dizer que o eleitorado (as mesmas pessoas) é inteligente. Ora bem: há um equívoco neste raciocínio, porque a soberania que o eleitorado exerce tem uma solenidade que não se pode confundir com o exercício bocejante do zapping. Até porque a soberania só vale quando há eleições: se eu amanhã for aqui ao Liceu Camões pedir para depositar o voto na urna, eles não me vão dar a urna; neste momento, não estou investido desse poder de cidadania e de soberania, ao menos por esse meio. O mesmo se diga do exemplo que eu dei: o que eu critiquei não foi a democracia, ou seja, o primado das maiorias em eleições, mas a opinião pública (essa que oscila a cada dia, e por vezes com base em razões ridículas, como a citada). Quando e se o eleitorado decidir castigar Bush e Blair, Aznar e Durão, nada o opôr, mas os governantes não podem estar sempre a decidir por sondagem, até porque durante uma legislatura as opiniões públicas mudam trinta vezes de opinião. O eleitorado pode não ter razão, mas a sua decisão é soberana; a opinião pública é apenas o catavento da semana. Nada de confusões. PM
TALKING HEADS: Sobre um outro post (a «civilização»), o João já respondeu, mas quero apenas frisar que os Infames são solidários apenas com as opiniões expressas pelos outros Infames na Coluna, e não fora dela. Por exemplo, o JPC é do FCP, enquanto eu preferia inscrever-me no PEV do que ser dragão. PM
COMPANHEIRO VASCO: Num dos primeiros posts, os Relativos atacam o nosso amigo Vasco Rato. Dos nossos amigos chamados Vasco, não nos lembramos de pior alvo. Quer dizer, se os socialistas não gostam do Vasco Rato, qure dirão do Vasco Caldas ou do Vasco S. Caetano à Lapa? PM
O BLOG DO RATO:

1. O Rato é um sítio admirável (honnit soit qui mal y pense...). Em que outro lugar podemos encontrar canetas Rotring de bico fino, beber Budweisers com os betos, orar pela socialização dos meios de produção, ou observar um desnível rodoviário que faria corar de vergonha os arquitectos das pirâmides? Mas o Rato tem também, encimando o largo, a Casa Cor de Rosa. Nessa casa apalaçada mora o Partido Antifascista de Badmunstereifel, conhecido pelos íntimos, por qualquer razão, pela sigla P.S.

2. Ora o PS criou um blog. Bom, não é verdade, quem criou um blog foi uma nova geração de badmunstereifels pertencentes ao inner circle de Ferro Rodrigues (it's a dirty job, but someone's got to do it). O blog chama-se País Relativo, em homenagem às únicas maiorias que o partido consegue, e é escrito por nove pessoas (!), incluindo duas moças (as quotas, ah, as quotas...). Conheço - de apertar a mão - um deles, o Pedro Adão e Silva, mas o Pedro Lomba (o irmão do Pedro Lombo) conheçe-os a todos (excepto as moças) e diz que são democratas. Nós passávamos a vida a polemizar com os bloquistas, porque há que atacar os chefes da oposição, mas já sentíamos falta de democratas na blogosfera: os nossos adversários esquerdistas tendem a ser devotos dos Três Barbudos. É por isso bom que haver um grupo de bloggers que não exige que eu perfure o meu mamilo direito com joelharia do Bali nem pretende socializar a minha biblioteca em faot da Junta de Freguesia de Carnide. Haja Deus, perdão, Grande Arquitecto.

3. O PR (não confundir com Portugal Radical) põe o seu blog sob a égide de Alexandre O'Neill, tirando o título de um verso de um poema. É desde logo animador que não se ponham à sombra do songwriter tonitruante da casa e lhe prefiram um poeta a sério (mas também a brincar). O'Neill é também autor do slogan imortal «voto no PS / mas ele não merece», frase que baila na mente de quase todos os socialistas a valer que conhecemos, que no fundo preferiam botar o papelinho pelos trostskistas.

4. Estes novos socialistas são burgueses, isto é, vão a Londres e ao Lux, e isso sempre nos põe no mesmo plano (mais por Londres que pelo Lux, convenhamos). São uma geração pós-narcisista. Não quero dizer que evitem o reflexo no riacho ou no espelho da privada, embora a actual liderança o recomendassse, mas que se afastam do pior PS, que está aliás em declínio: os Narcisos, os Candais e outros que tais. Um dos Relativos até foi corrido do jornal do PS por se enganar na espécie animal a que pertence o Autarca das Varinas. E são moços com humor, na escola BB (Barroso e Brederode), o que nos vai dar um trabalhão (é tão melhor chatear os marxistas sisudos).

5. Há uma curiosidade: um dos rapazes do PR chama-se Mark Kirkby. O Mark é, como o nome indica, um espião inglês a viver no Estoril (Ian Fleming fala dele num dos seus romances), para além, evidentemente, de dono do bar lisboeta Captain Kirkby. Soubemos porém que o Mark, em protesto contra a coligação anglófona, se vai passar a chamar Marcos Carrapato, até para ser aceite como candidato pela Margem Sul.

6. Os Relativos são um pouco fracturantes, até porque quem muito fractura muito factura, ideia que a Coluna tem tentado ingloriamente põr de pé (so to speak). Por isso, ao contrário do que se temeu, o blog não se chamará Blog Central.


7. Temos, entretanto, alguns pedidos a fazer à nova geração, que podem canalizar via JS ou Grupo Parlamentar. É um singelo pacote de medidas legislativas urgentes, sobretudo na organização interna de Badmunstereifel. Assim:

- expulsão imediata do fogoso José leather boy Sócrates, que está na bancada com ar de fã de Pergolesi num concerto dos Linkin' Park; do eclesiástico Jaime Gama; e do futebolístico José Lello, que ousou achincalhar o Papa Soares

- criação do Parque Natural Cláudio Anaia, uma reserva para espécies ameaçadas, neste caso os católicos socialistas

- dinamização do Movimento Jamila em Território Nacional, evitando, como de costume, chutar para a Eurolândia os jotas, como o Burocrata Seguro (foi descansar) e o Sexo Sousa Pinto (foi estudar a legislação comparada em Quotas Transgender no Tribubal Constitucional)

- eleição de uma porta-voz giraça, género JAD (não sou fã da Filha do Chefe, mas serve)

- publicação, em edição ilustrada e em braille, da novela erótica de Soares Filho

- eliminação da eleição directo do Presidente da República, porque senão ele acaba por mandar o seu eleitorado à fava

E por agora chega.

8. Saudamos pois, os nossos camaradas súcias (mas onde está o Miguel Romão?). Espero que se demarquem do partido no vosso blog, no sentido de não lerem primeiro os Manos Silva antes de terem opinião própria, como fazem no Parlamento. Vamos à bordoada irónica. E uma noite destas tomamos todos um copo (tragam as meninas, por favor).

Saudações conservadores

PM

sábado, março 29, 2003

OU PENSAVAS QUE BASTAVA APRENDER O HINO? Deco estreou, entrou, marcou. Mas nada de festejos: primeiro precisamos de saber se ele será adepto do Pinochet. Ou pensavas, irmão, que bastava aprender o hino? PM
PÕE CARAÇAS NISSO: Entre os mails recebidos, destacam-se mais uns tantos da Rita Dias, a mais indignada das nossas leitores, e de quem já aqui falámos. A Rita manda-nos regularmente comentários furibundos sobre o posts da Coluna. Mas no seu último mail acrescenta também uma bocas à minha aparição televisiva na RTP (o primeiro canal a cobrir a guerra). Diz a Rita, implacável, que eu tenho uma dicção «entaramelada» e que sou «feio para caraças». Um dos diagnósticos é velho, o outro novo. Nunca dei por deficiências pronunciativas, e os meus amigos, apesar de comparecerem contrariados aos meus recitais, calaram infamemente essa debilidade mediática. Mas fica aqui prometido que vou recorrer aos serviços da Sra. D. Glória de Matos (que diabo, se resultou com o Prof. Cavaco, também há-de resultar comigo). A questão estética, helàs por moi, é bem conhecida cá de casa, e bastante mais dispendiosa de alterar (nunca mais vem o cheque do Pentágono). A minha condição de P.E.A. (Pessoa Esteticamente Alternativa) é a prova de que os gregos não tinham razão: a beleza nem sempre acompanha a sabedoria. Mas se a opinião pública pressionar, prometo só aparecer na rádio, e mesmo assim só depois de tratar da dicção. Mas repare, Rita, que há vantagens em ser P.E.A.: quem lhe disse que eu não quero ser líder do PSD ou do PS? PM
SERVIÇO PÚBLICO: O João enganou-se num post na população da China, e logo choveram uma dezena de mails sapientíssimos a rectificar a coisa. Thank you so much pelas correcções. A vossa cultura faz-nos sentir tão estúpidos como autarcas do Bloco Central. Mas acho que os Infames podem lucrar um pouco com a sabedoria e inside information dos nossos leitores. Assim, leiam este post:

Encontro, metido no meio de uma Spectator, o post it com o telemóvel da Cristina Mohler, o tal que ela me mandou na festa da semana passada, e que tinha perdido. Escrevo o número na agenda, para não me esquecer: 96 634 54 56. PM

Este número, ao que parece, é falso. Mandem-me por favor o número correcto. Obrigado. PM
OS BRAVOS DO PELOTÃO: Actividades jornalísticas e literárias deixaram-me semi-ausente nos últimos dias. Mas os Bravos Infames mantiveram a Coluna em marcha (para Bagdad). E agora, vejam só: novidades, a estreia de blogs, e imensos mails (incluindo a nossa amiga de Nápoles oferecendo convívio bucal). Deixem-me arregaçar as mangas, pôr o telefone vermelho no descanso, dispensar a criadagem pelo fim-de-semana e meter-me ao trabalho. I'm back. PM

sexta-feira, março 28, 2003

O THOMAS MANN DA MESOPOTÂMIA: Não bastava o morticínio ou a fortuna gigantesca. Como todos os ditadores da História, Saddam resolveu experimentar a literatura e o romance. O resultado é Zabiba e o Rei, livro que chegou hoje às livrarias portuguesas pela Europa-América, depois de ter sido editado na China, Índia e França of course. Em Zabiba e o Rei, um Rei da Mesopotâmia apaixona-se, candidamente, pela plebeia Zabiba. Mas Zabiba, segundo a metáfora, é o Iraque, assim como o Rei é o próprio Saddam. E todo o livro é sobre esta paixão de Saddam por uma plebeia que simboliza a ascensão do Iraque.
ANDREW: Ouçam mestre Sullivan. Não é preciso escrever mais nada.

One lesson of the ferocity of the Saddamite resistance is surely this: who now could possibly, conceivably believe that this brutal police state would ever, ever have voluntarily disarmed? Would a regime that is forcing conscripts to fight at gun-point have caved to the terrifying figure of Hans Blix, supported by the even more itimidating vision of Dominique de Villepin? I'd say that one clear lesson of the first week is that war was and is the only mechanism that could have effectively disarmed Saddam. If true disarmament was your goal, it seems to me that the inspections regime has been revealed, however well-intentioned, as hopelessly unsuited to staring down a vicious totalitarian system. PL
TOLERÂNCIA: Coisa curiosa: dou um erro perfeitamente desculpável num post recente - troquei 13 biliões de pessoas por 1300 milhões, ou seja, confundi a minha conta bancária com a população da China - e a caixa electrónica da Coluna rebentou de insultos, radicalismo e ódio. Deve ser isto a velha «tolerância» de que fala a Esquerda. JPC
PACIFISMO E PLURALISMO: Boas notícias, gente da paz. Têm agora à vossa mercê um novo Pugwash (sem o Bertrand Russell, claro, mas não se pode ter tudo na vida). O «Movimento pela Paz» nasceu no Porto e é um primor de pluralismo: PCP, Bloco, Verdes, acompanhados por associações de estudantes, sindicatos e, não nos esqueçamos, pelo providencial Movimento Democrático de Mulheres. É desta que a guerra acaba. PL
TENHA MEDO, TENHA MUITO MEDO: Segundo parece, a China tem 1300 milhões de almas, número assombroso que transforma a República no mais povoado território do mundo. Ouçam bem: 1300 milhões de almas. Isto, que é um truísmo enciclopédico, foi prontamente esquecido pela histeria do jornalismo que nos servem. De acordo com as notícias avançadas, 34 pessoas - eu vou repetir: 34 pessoas já morreram devido a um vírus de gripe assaz atípico que, verdade seja dita, também ceifou mais uma dúzia nos territórios vizinhos. Ou seja, em 1300 milhões de pessoas, 34 - eu vou repetir mais uma vez: 34 tombaram devido a uma gripe atípica. No fundo, no fundo, o que seria de nós se o jornalismo reinante não servisse um novo Apocalipse todas as manhãs, com o café do pequeno-almoço? JPC

P.S. Obrigado aos leitores pela correcção demográfica. Vou trocar de enciclopédia.
MIAU, MIAU: Tenho andado na corda bamba. Mas só uma única vez senti a sombra da desgraça sobre mim: quando assinei um artigo onde partilhava com o mundo o meu genuíno desprezo pela prosa de Mia Couto. Foi no Independente e os argumentos são resumidos numa única frase: acho Mia Couto um caso extremo de iliteracia, só tolerado pela crítica lusitana porque os complexos coloniais continuam a fazer-nos cócegas no miolo. Escusado será dizer que a minha caixa electrónica entupiu. Recebi de tudo: prelecções académicas, teses de mestrado sobre a literatura das palhotas, insultos suínos, uma ameaça de morte e um vírus particularmente esfomeado que, verdade seja dita, passou a ser presença regular no correio lá de casa. Lembro esta história, hoje, porque Mia voltou ao ataque. Como? Por favor, segurem-se: publicando uma carta aberta ao presidente dos Estados Unidos da América. Não, não é apenas Luis Delgado que tem o património da correspondência com Washington. Mia Couto, seguindo uma escola heroicamente inaugurada por Idi Amin - títere africano que tinha por hábito dirigir missivas aos grandes do mundo -, Mia Couto, dizia eu, escreve um longo, longuíssimo panfleto onde dá mostras da sua confrangedora pobreza intelectual e histórica. Entre a distorção grotesca e o puro terrorismo emocional, que os débeis adoram, Mia lá vai desfiando o seu desprezo pela América e o seu amor pelo povo iraquiano. Lemos o que lemos e, por breves momentos, esquecemos tudo: as múltiplas tiranias de Saddam, o sofrimento dos iraquianos sob o jugo do regime de Bagdade, as constantes violações da comunidade internacional, as ligações com o terrorismo, os cheques generosos para as famílias de suicidas palestinianos. Tudo é apagado pela prosa mentirosa e delirante de Mia, que comoveu o coração frágil da Esquerda. Para esta gente, a «liberdade» e a «paz» resolvem-se com retórica, cimeiras, babugem intelectual - nunca pela força, nunca pelo uso terminal da força. Que a História lhes mostre precisamente o contrário, eis um pormenor que não parece arrefecer a consciência utópica dos indígenas. JPC

quinta-feira, março 27, 2003

BOEING 747: Um novo blog apresenta-se aos leitores e, com particular urgência, resolve abrir as hostilidades. Dizem eles que, ao ouvirem a minha entrevista na TSF, ficaram arrepiados com a xenofobia e o racismo exibidos. Eu não pretendo incomodar a sabedoria do asilo. Mas, em abono da verdade, que fui eu dizer à TSF? Se a memória não me atraiçoa, disse muito simplesmente que o 11 de Setembro alterou as nossas concepções do mundo e que a civilização ocidental, porque odiada por um fanatismo criminoso de extracção islâmica, tinha duas opções: ceder ao imobilismo e à chantagem; ou, então, defender-se, combatendo directamente as raízes do terrorismo, ou seja, ditaduras que alimentam redes terroristas e podem, inclusive, ceder armas de destruição maciça a fanáticos que não têm qualquer prurido em usá-las. Contra nós. Contra aquilo que entendemos por «mundo ocidental». Isto, para os rapazes, é um sacrilégio e um abuso. Compreendo. Talvez não fosse um sacrilégio e um abuso se um boeing 747 lhes entrasse pelo apartamento adentro. JPC
CHEGARAM OS FABIANOS: Semanas inteiras a polemizar com marxistas deixam marcas. Não é fácil apanhar com Lenine ao pequeno-almoço. Uma pessoa começa a ter desmaios, cólicas, prisão de ventre. Uns resistem mais, outros menos. Uns padecem com gravidade, outros vão tolerando. Mas com tantas teses sobre Feuerbach uma coisa é certa: qualquer alma sensível ganha uma invulnerável paixão pela democracia burguesa ou aceita todo o socialismo que não signifique plantar batatas no Kholkoze de Almada. Pois bem, gente sofredora: as nossas horas de martírio terminaram. O catecismo bloquista acabou. Chegou o paisrelativo, o blog do socialismo de gravata e scones ao lanche. Os autores? Muitos conhecidos. O Mark Kirkby, fabiano de origem e companheiro de lides académicas, que, por vezes, assina com os pseudónimos Mark Bobela ou Mota Kirkby; o Rui Branco, florentino e, garanto-vos, gente boa; o Pedro Adão e Silva, outro florentino, bem-humorado e o nosso próximo ministro do Trabalho (num Governo da rosa); o Filipe Nunes, um dos poucos esquerdistas que apoia o Belenenses; o Miguel Cabrita; o Pedro Machado, que eu conheci episodicamente há uns anos em Florença. Só não conheço as meninas, peço desculpa, mas com a companha que têm, estão já aprovadas. Rapazes, sejam muito bem-vindos. Agora, se me dão licença, no more apologies e vamos ao que interessa. PL
OPINIÃO PÚBLICA: Estive há dias num programa da RTP, para comentar a guerra e suas consequências. E pude observar de perto a «opinião pública», antes, durante, e depois do programa. Essa «opinião pública» exprimia-se em conversas de café (antes), em apartes (durante), em falatório (nos intervalos), e na discussão (depois). Foi muito curioso registar as reacções de um auditório cheio de pessoas comuns. O que diziam as pessoas comuns: que queriam a «paz», que havia «crianças a morrer», que Bush e Saddam estavam bem um para o outro, que nem mais um soldado para o Iraque, etc. E se alguém falava das violências da tirania, dos curdos, dos familiares assassinados por Saddam, dos enforcados na praça pública, essas pessoas - especialmente as donas de casa - diziam «isso é lá com os iraquianos» (nobres sentimentos). Mas eis que um dos convidados, que tinha trabalhado como operário nos palácios de Saddam, relatou o luxo asiático da casa-de-banho do senhor de Bagdad. E a partir daí - ouçam o que vos digo - as pessoas começaram a mudar de opinião, a comentar que era preciso correr com o facínora, instaurar a democracia, e assim por diante. Não, repare-se, por razões substantivas (os curdos que se quilhem), mas por causa do luxo que ofendia os membros da audiência na sua condição de suburbanos remediados. Isto, meus amigos, é a «opinião pública». E querem alguns basear a moralidade política nas comichões mutáveis destes aglomerados tontos. PM
OS ROGEIROS CANHOTOS: Fomos forçados, pela avalanche mediática e pelos muitos mails, a entrar no tema «guerra». Mas não nos pronunciamos sobre os aspectos militares mais concretos, porque não sabemos nada de estratégia, modelos de caças, armas químicas e coisas assim (somos uns belicistas muito amadores...). Mas gostamos de ver a sabedoria militar dos que se pronunciam sobre a maneira como a guerra está supostamete «a correr mal» à Coligação. Muitos desses comentadores nem sabem de que lado uma pistola dispara, mas são uns peritos a dar bitaites sobre flancos, raides e minudências guerreiras. E ainda falam mal do Rogeiro... PM
MAIS EQUIVALÊNCIAS: Ao que parece, a rádio inglesa não vai transmitir certas canções que lembrem a guerra. «Vêem, não é só o Iraque que tem censura», clamam os pacifistas. Quando fazem essa comparação, não sentem, nem por momentos, uma náusea de desonestidade? PM
UMA RAZÃO LITERÁRIA PARA A GUERRA: Mia Couto. PM
DESCULPA, Ó ALVES: Temos lido os mails de leitores e os posts de Andrew Sullivan sobre a BBC, e só podemos pedir desculpa à TSF, que ao pé da sua congénere inglesa é verdadeiramente a Rádio Mundo Livre. PM
MAMADA: A excessiva atenção que V. Exas. dedicam à guerra despreza outros acontecimentos em curso, sem dúvida mais subterrâneos mas não menos determinantes. Quase todos, diga-se, ocorrem na Sic Mulher. Ainda hoje, o essencial programa "Sexto Sentido" discutiu a gravidez, o parto e por aí afora. No "por aí afora", as senhoras presentes debruçaram-se (digamos assim), e vá lá saber-se porquê, sobre a "mamada". Repito, escudado na citação: a mamada. Durante horas de emissão, o termo foi usado e abusado com largo despudor, ignoro se em obediência aos conselhos recentes de peritos ingleses, ou se motivado por malignos e ocultos propósitos. De qualquer modo, elas bem tinham avisado: um canal sem tabus. (Alberto Gonçalves)

Caro Alberto: a Coluna não despreza a importância decisiva da Mamada, sem a qual o curso da História Universal teria sido muito diferente. Não temos estado atentos à SIC Mulher, nossa máxima culpa, mas sabemos que outros canais têm tentado a Mamada como arma de prime time, com resultados modestos. E agora, repare neste prodígio: vamos terminar esta brevíssima resposta sem nenhuma referência a JAD. A não ser esta da frase anterior, subliminar ou evidente, como preferirem. As ideias misturam-se melhor no sono REM. PM

quarta-feira, março 26, 2003

OS COFRES DO PENTÁGONO NÃO VÃO AGUENTAR: O Manuel Pinheiro, um dos criadores do blog De Direita pede-nos que o divulguemos. Com todo o gosto, Manuel. Eis o link. Os nossos patrões não vão ter guito para tanto vassalo. PM
UM POUCO DE HISTÓRIA: Almeida Santos aparece constantemente como um dos "cães de fila" do movimento anti-guerra. Mas, verdade seja dita, o ex-deputado é um autêntico pacífista em tudo o que para mim este termo comporta. Ou seja, pacífista é, na meu modesto leigo entender, alguém que escolhe sempre o caminho mais fácil; aquele que em vez de pautar a sua acção pela ética e pela coragem, fá-lo conforme o resultado que lhe provocar o menor numero de danos possível; no fundo, que melhor termo para definir o pacífista que não seja a expressão: COBARDE. Neste sentido, nunca é demais lembrar as misteriosamente "abafadas" palavras de Almeida Santos, em 3 de Agosto de 1974, ao jornal "Expresso", numa altura em que este pacífista era Ministro da Coordenação Interterritorial: "Timor, digamos que é um transatlântico imóvel, que nos custa muito dinheiro. A indonésia não está interessada em nos substituir no suporte financeiro a Timor. Há três correntes: Uma é partidária da independência total, o que é de um irrealismo atroz; outra defende uma ligação com a Indonésia, que, como já disse, parece não estar interessada; outra sustenta a manutenção de uma ligação com Portugal; e esta parece ser a soluçãp fatal neste caso, visto não haver margem para grandes raciocínios nem capacidade de manobra. Eu, francamente, não gostaria que o saldo do nosso ex-império colonial viesse a ser apenas uma permanência na Indonésia ocupando metade da ilha de Timor. Pode, no entanto, vir a suceder." O curioso é que este senhor foi, durante a crise pós-referendo em timor, uma das "cabeças-de-cartaz" do movimento pela libertação deste Estado. Também foi este pacífista "dos quatro costados" que, enquanto Presidente da Assembleia da Republica, se recusou a receber na assembleia da republica aquele que era até então, pasme-se, considerado como o mais Pacífista dos pacífistas: o Dalai-lama. Digo-vos, o mais GRAVE, disto tudo é que, durante anos, foi este o "homem máximo" daquele que é o mais democrático dos orgãos de soberania da nação! (Manuel Castelo Branco)

Não me parece, caro Manuel, que os pacifistas sejam necessariamente cobardes: também há cobardes belicistas. Não é aconselhável enveredar por essa catalogação moral. Um conservador não aprecia esse método. Agora quanto às incoerências de alguma esquerda, e do PS em particular, estamos conversados. Se nos mandar mais posts sobre o assunto, a Coluna fica sem espaço para mais nada. PM
PRIVATE DUNCAN: Private Duncan, homem de extremo-centro, perguntou-nos se achamos que esta guerra é legal. Sim, achamos que se pode defender a legalidade da guerra. Mas, sobretudo, achamos que, quer se baseie ou não na Resolução 1441 do Conselho de Segurança e noutras resoluções das Nações Unidas repetidamente violadas pelo Iraque, esta é, precisamente, uma guerra por um novo Direito Internacional da Guerra. O actual, dependente de um Conselho de Segurança de 5 países, de uma Carta que não prevê o direito de ingerência humanitária e conserva ainda capítulos para os territórios sob tutela, está definitivamente obsoleto. PL
LOUÇÃ, JÁ TENS SUCESSOR : O Ricardo Noronha (ó João, tens um irmão comuna?) teve uma congestão de infâmias, e mandou-nos uma daquelas diatribes marxistas puras e duras que afinal o burgo ainda esconde. Sem humor, e de mão na Kalashnikov, vamos responder sumariamente a este amigo de classe operária (sempre que há alguma coisa a responder). Aqui estão os posts comentados, por ordem inversa à ordem do Blog de Esquerda, onde apareceram.

Falta-me espaço e tempo para comentar o sexismo infame neo-chique dos neo-conservadores. Prometo voltar à carga quando tiver ocasião.

We can't wait. Não se esqueça de nos chamar «homófobos».

Os argumentos relativos à suposta predisposição dos franceses para a rendição, ainda por cima invocando a II Guerra Mundial, também permitem algumas gargalhadas. Pois era outra coisa senão conservador esse governo que tanta facilidade teve em entender-se com os Nazis? E seria ele mais ou menos francês do que a resistência que se prolongou durante toda a ocupação nazi? E os governos norte-americano e britânico que resolveram não intervir em Espanha, onde alemães e italianos testaram o seu material mais recente e as suas novas tácticas de guerra motorizada? Seriam eles por acaso pacifistas de esquerda? Os argumentos de comparação desta guerra com a ascensão do fascismo são ridículos. A única comparação minimamente aceitável é a que atribui responsabilidades aos governos das "democracias ocidentais", pela criação das condições óptimas ao fundamentalismo religioso, e/ou a regimes ditatoriais de origem militar (como outrora ao fascismo), para que estes crescessem e se afirmassem contra as "ameaças" nacionalista ou comunista em emergência no mundo árabe durante a Guerra Fria. Como dizia Kissinger relativamente a Somoza, o sanguinário ditador da Nicarágua: "Ele é um filho da puta. Mas é o nosso filho da puta."

Vichy era um regime conservador autoritário e beato, nós somos conservadores democráticos e laicos (independentemente das opções religiosas de cada um). Quanto à resistência, lembro que foi uma coligação enorme de franceses de todas as áreas políticas, mas que um conservador, De Gaulle, teve alguma importância no assunto (a não ser que ache que De Gaulle era um guerrilheiro de miocrofone» como dizia... Vichy). A comparação com o fascismo e o nazismo tem apenas a ver com os perigos do pacifismo, nada mais. Quanto ao resto, de acordo, excepto o ponto das «alianças perigosas», que merecerá um post mais extenso em breve.

A esquerda enganava-se no Afeganistão, diz a direita cheia de esperteza saloia. «Diziam que ia ser difícil e em três meses tudo se tornou fácil». Convido todos aqueles que sustentam a ideia de que o Afeganistão se tornou uma democracia e um lugar seguro para viver, após a invasão americana, a passear fora das duas ou três principais estradas e a penetrar no "país real", onde os senhores da guerra e das papoilas, os chefes tribais, continuam a fazer a sua lei e a gozar na cara do governo fantoche de Karzai e das divisões americanas ali estacionadas.

Convido-o a dizer a um afegão na rua - e sobretudo a uma afegã na rua - que está pior agora do que com o regime talibã.

O discurso sobre a guerra tem sido particularmente infame. Todos desejam que haja poucas baixas entre a população civil, mas «se tiver mesmo que ser, então seja». O que estamos a ver é que nenhuma guerra, a não ser as que se passam em filmes de Hollywood ou jogos de computador, é verdadeiramente cirúrgica (pelo menos na medida em que o emprego da metáfora não se distancie quilometricamente do sentido original da palavra "cirúrgica"). E agora vêm os americanos queixar-se de que os iraquianos não combatem segundo as regras. É preciso ter uma enorme dose de humor para lidar com tanto cinismo sem recorrer a insultos. O país que mantém centenas de presos em Guantanamo às margens de qualquer legalidade, sem sequer uma acusação e qualquer tipo de prova, vem falar de legalidade? Esperavam porventura que os iraquianos ficassem simplesmente à espera de uma derrota honrosa e leal, segundo as regras da cavalaria, quando estão a defender as suas casas e famílias? Com um pouco de sorte dividiam o campo, marcavam as horas e escolhiam as armas. É óbvio que o número de vítimas tem tendência a aumentar quanto maior for a vontade de resistir da população. E mesmo quando os americanos chegarem a Bagdad, poderão eles fazer outra coisa senão aquilo que os Israelitas fazem em Gaza e na Cisjordânia – intimididar e assassinar com o intuito de desmoralizar a resistência?

Uma guerra é uma guerra. Desejamos o menor número de vítimas. Se os americanos e os ingleses não tivessem (como felizmente têm) a imprensa e a opinião pública a vigiar imagens e informações, podiam arrasar à vontade, e ganhar selvaticamente, como se fez desde o início dos tempos até há quarenta anos atrás. Ainda bem que isso mudou.

Na política, cujo regresso foi entusiasticamente saudado, não vivemos no domínio das intenções e sim dos actos. Historicamente, não é nenhuma ficção afirmar que a direita conservadora apoiou, facilitou e/ou desejou a ascensão do fascismo para combater a praga da revolução social e colocar fora da lei a luta de classes. Assim foi na Alemanha, em Espanha, em Itália, em Portugal, Chile, Argentina ou Grécia. O Pedro Mexia, ao justificar o seu sentido de voto nos partidos da coligação governamental, estava apenas a ser irónico, mas não deixou de enunciar a forma de pensamento típico de um conservador em tempo de crise e convulsão: contra a subversão, a ordem a todo o custo.

A primeira parte do post é historicamente semi-verdadeira, mas é histórica, e não lhe quero lembrar a história daquela que foi a sua família política (a que imaginamos pelos posts). Recebemos o conservadorismo a benefício de inventário: analisando criticamente e rejeitando o que nos parece espúrio, ultrapassado, perigoso. A nossa percepção aguda dos fascismos mostra bem que aprendemos essa lição.

É como diz António Ferreira (autor do excelente «A queda do fascismo»): declarações de amor à democracia qualquer ministro turco do interior as pode fazer. Para a direita conservadora, a democracia que temos já é muito boa e devíamos dar-nos gratos por a termos. É como que uma espécie de dávida, que os indivíduos esclarecidos cá do burgo nos concederam num momento de inexcedível generosidade, para que nós pudéssemos confirmar-lhes o nosso apoio na sua missão dura de zelar pelos nosso destinos e contribuir para a nossa doutrinação civilizadora. Algo que devíamos valorizar muito, em vez de questionar teimosamente. Não admira por isso que achem necessário sujar um pouco as mangas do fato a pôr-nos na ordem outra vez – tudo para nosso bem, é claro – quando levantamos demasiado a garimpa. «Deixem-me trabalhar», dizia o outro, em quem por certo ainda votará o Pedro Mexia quando for ocasião para isso.

Esta parte é um disparate pegado, e não tem resposta possível. Para escrever coisas assim nulas, não vá para o Bloco: inscreva-se nos Verdes.

Em Itália, Berlusconi é corrupto e utiliza métodos fascistas (entre os quais fazer desaparecer activistas sindicais durante dias, fora de qualquer legalidade). Mas, para qualquer conservador italiano, "ou ele ou os sovietes". Pois não se viu já que na linha da frente dos que se opõem a este estado de coisas estão precisamente os mesmos agitadores de sempre (agora ao que parece a precisar de um banho e um novo par de calças)? Eventualmente, opormo-nos à direita, ainda que populista, autoritária, xenófoba, anticonstitucional, não fará de nós, objectivamente (esta é uma palavra que Pacheco Pereira herdou inequivocamente do seu antigo ídolo bigodudo), cúmplices de algo terrível, algo que se assemelha a uma traição, agora que a guerra, global, omnipresente, permanente, começou e a linha da frente está precisamente aí, a separar os bons e os maus, verdadeiros e falsos amigos da democracia?

O que quer que ache de Berloscuni, compará-lo ao fascismo mostra o seu respeito pela democracia.

Este medo, este pavor que os que mandam e seus respectivos cães de guarda – os cúmplices e os ideólogos da "normalidade" – têm da ralé, da chungaria, dos mitras, da subversão. E também das palavras claras, do conflito, do gesto claro e inequívoco de recusa da mentira e da farsa, da raiva e do ódio dos espezinhados, entediados, crédulos, alienados e sempre bem comportados (até ao dia...) zés-ninguém. Este medo, evidente na prontidão com que se coloca fora da democracia quem pura e simplesmente não partilha a fé na nossa democracia de baixa intensidade, não se explica apenas por convicções fortes. Por se sentir pouco segura relativamente às soluções democráticas e civilizadas próprias dos países desenvolvidos, a direita portuguesa reproduz todos os medos do inconsciente da burguesia portuguesa, desde 1974 receosa de que novamente a populaça se erga para lhe "roubar" o latifúndio, a fábrica e o banco, há gerações na família. Basta ver a velocidade e carinho com que Cavaco Silva entregou aos expropriados as suas antigas posses, os indemnizou pelos incómodos e se apressou a tranquilizá-los com o corpo de intervenção e o SIS, quando novamente soaram ruídos de descontentamento. Estes senhores têm medo da multidão e é esse medo que os atira para as posições mais reaccionárias. Por isso se servem da direita tachista (enquanto esta pintar alguma coisa para este campeonato) para nos dizer que temos de apertar o cinto e, a seu tempo, se servirão do populismo autoritário que emerge da crise social, económica e política em que vivemos, quando essa lhe parecer a única solução. Trancam as portas do carro assim que vêem aproximar-se algum indivíduo com aspecto menos remediado. "Chungoso, logo perigoso". E talvez não se engane tanto como isso ao ter medo. Basta andar um pouco mais nos transportes públicos desta cidade para perceber que algo de terrível resultará de tanto mal estar. A nossa miséria consumir-nos-á lentamente, mas só enquanto não os consumir a eles rapidamente.

Ó amigo, você está em comiciete terminal. Se não fosse de esquerda, diríamos que era o Travis Bickle. Avise-nos quando for poder, para nos pirarmos com as pratas para Boston.

Tudo isto para dizer que o posicionamento político e as opções que são feitas não obedecem a qualquer régua e esquadro e nem sempre cabem nas grandes famílias doutrinárias. Hoje conservadores, amanhã um pouco autoritários, logo depois anti-democráticos. Apenas o quanto baste. «Ou isso ou os sovietes», como já dizia, por certo com mais razão do que se quer imaginar, um qualquer nazi com as mãos manchadas de sangue. E não custa dizer que não foram apenas os Nazis, ou não estivesse já essa caminho iniciado por alguns eminentes dirigentes do «socialismo democrático», como Ebert – ministro alemão da Social-Democracia que ordenou o assassinato de Rosa Luxemburgo e de Karl Liebknecht em 1919, a quem pertence a famosa divisa «O Socialismo significa "trabalhar muito"» – ou Largo Caballero e o liberal Azaña, que ordenaram uma repressão de camponeses andaluzes em 1933, em Casas Viejas, onde homens e mulheres foram regados com gasolina e queimados vivos. Barbárie? Por certo tudo isso tem mais a ver com esta nossa (?) civilização do que o querem reconhecer certos civilizados. Há sempre um contexto para o texto do posicionamento político, por mais altissonante que este possa revelar-se em determinados momentos. À sua maneira, Estaline era um conservador e não por acaso se entendeu tão bem com Churchill. Após a sua ascensão ao poder, entre outras coisas, passou a ser lei a proibição do aborto e da homossexualidade, a subordinação dos trabalhadores à hierarquia das empresas, a glorificação do esforço e do trabalho, dos valores da família e da pátria. Há tantas camisas que servem a mesma compleição...

Grotesco. Continua a falar do presente através de suposições do passado, aliás discutíveis. É como dizer que quem quer mudar o mudo (a esquerda) acaba sempre por fuzilar gente (o estalinismo). Essa demagogia vale o que vale: nada. E chamar a Estaline «conservador» mostra bem o seu analfabetismo político. Ah, a nazi será a sua mãezinha.

Primeiro que tudo, a cartografia da direita. O Pedro Mexia não hesita em demarcar-se da direita real. Nada tem a ver com os broncos liberais tecnocratas e carreiristas do PSD, ou os pseudo-conservadores das feiras, da moderna, dos pensionistas, dos veteranos de guerra, do CDS-PP. A direita dele tampouco é fascista e para prová-lo estão as opções bem claras afirmadas em voz alta. «Somos de direita, sim. Mas antes de mais nada democratas e conservadores.» Como se pudesse ser assim tão simples. Ouvi uma vez da boca do Domingos Abrantes, dirigente do PCP há mais de 40 anos (por certo admirador das virtudes democráticas de Pyongyang), que «a reacção não brinca em serviço e, mesmo que hesite ao longo da corrida, quando necessário sabe escolher o cavalo que mais depressa atinge a meta». Assim, à falta de melhor e por agora, lá se foi o voto para a direita bronca, que Pedro Mexia odeia tanto como outro qualquer ser humano inteligente. Tudo porque, goste-se ou não, «era isso ou os Sovietes...».

A incapacidade para topar a ironia parece ser a doença infantil do esquerdismo. Tudo bem, as leituras deles não ajudam. Quanto à direita, é preciso conhecê-la como eu a conheço para realmente fugir dela a sete pés como eu fujo. Os Infames são três amigos, não são a extensão de nenhum partido, Internacional, think tank ou o que seja. Gostamos de estar em contacto com a esquerda, para nos sentirmos de direita. Se nos dêssemos só com a direita, a esta hora éramos bloquistas.

Com esse radicalismo todo, você ainda descobre a luz e acaba no PSD. Divirta-se um bocado com meninos ou meninas, vá ao cinema, compre uns ténis novos, relaxe. Tanto fervor revolucionário pode fazer mal aos órgãos vitais. Trate de si, Ricardo, que Rosa Luxemburgo não lhe vai puxar os cobertores e dar xarope.

E agora, vou voltar para o latifúndio. PM
QUANTO MAIS FILHA: Se tiverem fotografias da filha de Dick Cheney, enviem-nas para o mail da Coluna. É preciso saber se este escudo humano oferece protecção suficiente. PL
MIA COUTO: Não li a carta de Mia Couto. Mas preocupa-me que Bush possa pensar que Mia é uma cantora brasileira. PL
O GALO TORNA A FUGIR: É mais uma vez extraordinária esta posição francesa. Caso Saddam utilize armas químicas, a França prestará assistência humanitária sem intervir no conflito militar. Um conselho: se o Iraque utilizar armas químicas, a França que fique calada. PL
ADORO QUANDO ME CENSURAS: JAD no Parlamento fustiga fogosamente o governo. E os rapazes pareciam gostar. Adoro quando me censuras. PM
CURTO E GROSSO: Um leitor cujo mail é «private duncan» (será o senhor que mandou a granada?) pergunta-nos:

Não sou de esquerda nem de direita, mas inquieta-me a vossa arrogância (e que seca a vossa obsessão com o BE!); vocês também não são claros... pergunto eu: é ou não ilegal esta guerra? De certeza que vão enquadrar, contextualizar, subtilizar, exemplificar... era engraçado saber a vossa CLARA opinião sobre o atropelo da ONU... (por favor, não me venham com o Guterres e o Kosovo!)

Caro Soldado Duncan: Antes de mais queremos expressar a nossa preocupação pela sua indecisão ideológica: se não tem ideias definidas sobre o mundo, supomos que deva ser democrata-cristão, mesmo que ainda não saiba. Não perca tempo: tome, rapidamente, algo contra a obstipação e diga asneiras de vez em quando, que desopila. E obrigado pela acusação de «arrogância», fazia quase três dias que não recebíamas essa. Our aim is to please, como dizia o outro. Quanto à assídua presença do BE na Coluna, caro Soldado Duncan, tem apenas a ver com a hiperactividade mediática e bloguística do Bloco e seus membros e simpatizantes, que por isso necessitam de réplica Infame; mas só se pode realmente falar de «obsessão» nossa com o BE em relação a um terço do seu grupo parlamentar. Chega de lambarices. Quanto à nossa clara opinião sobre esta guerra, e sem qualquer contextualização: achamos que é uma guerra de libertação (do Iraque) e de auto-defesa (dos EUA e do Ocidente), e por isso justificada, mesmo se à margem da duvidosa «legalidade internacional» por ora reinante. . E como nos pede para não explicar, aqui fica a resposta sucinta. PM
RÁDIO BAGDAD: Um leitor, chama-nos a atenção para a Antena 1, que ao que parece disputa acirradamente com o TSF o título de Rádio Bagdad. Façam-nos chegar exemplos, por favor. PM
PRECISÃO: «(...) lamentamos todos os mortos civis iraquianos, lamentamos todos os mortos militares da Coligação. E esses são os mortos que lamentamos». Penso que muitas das baixas militares iraquianas, serão milicianos forçados. Terão direito também a um parsec de silêncio. (José Moz Carrapa)

Tem toda a razão, José, E esses desejamos que desertem, que se rendam, que se rebelem contra os seus líderes. O nosso post referia-se aos fiéis do regime, nomeadamente à Guarda Republicana e às milícias dos Hussein Jr. Essa gente é cúmplice da tirania, e não têm mais desculpa que os homens de mão dos nazis. PM
A VOSSA ATENÇÃO: Este blog é mantido por João Pereira Coutinho (JPC), Pedro Lomba (PL) e Pedro Mexia (PM). Os posts são assinados, e embora sejamos solidários com o que cada um escreve, as eventuais respostas são individuais. Mas para isso pedimos que os leitores indiquem no mail o autor do post comentado, ou o autor que querem ver a responder. E leiam bem as iniciais da assinatura, porque temos recebidos mails trocados. Assim, o Pedro, que está de casamento marcado, recebeu nude pics de uma leitora da Arrentela, o João foi parabenizado pelos seus poemas, e eu fui aconselhado a comer mais doces porque estou muito magrinho. É o descalabro, meus amigos, não pode ser assim. Vamos lá a atinar com os autores, o seu perfil e as suas necessidades gastronómicas e sexuais. Se não for pedir muito. PM
AH, FADISTA: A nossa leitora Rita Dias pertence a uma estirpe que julgávamos extinta: a das pessoas que se indignam com as nossa «alarvidades» (a sua palavra predilecta). Estamos a escolher um dos 37 mails que nos mandou com os seus protestos pacifistas, e aqui o postaremos. Se não fossem leitores como a Rita, para quem é que escrevíamos este blog? Para o Luís Delgado não vale a pena. PM
MALANDRICE: Estamos a receber spam de Itália, certamente mandada por um malandro esquerdista. Os últimos dois mails ofereciam «22.000 receitas de cozinha» e os serviços de «Arianna, 22 anos, de Nápoles, perita em massagem e felação». Bom, tendo em conta que já jantámos... PM
ARMAS DE OPOSIÇÃO MACIÇA: Ouvi algures Fernando Rosas falar em «oposição maciça» à guerra. As sondagens, entretanto, mostram que o apoio popular a uma intervenção militar é maior agora do que há umas semanas. Em matéria de objectividade, ficamos conversados. PL
Q.I. A Esquerda reinante pode finalmente descansar. Bush foi aprovado nos testes psicotécnicos. O QI do homem é totalmente humano. PL
ESSES NÃO CONTAM: O embaixador José Cutileiro (um belicista troglodita, como se sabe), teve sobre esta guerra a frase mais sucinta e exacta (cito de memória): «Já morreram dez americanos? Não, morreram três mil e dez». Ah, mas esses não contam... PM
NÃO DIGAS QUE EU DISSE: Quanto aos comentários «sexistas», «marialvas», ou o que quiserem, meus amigos, isso não distingue a esquerda e a direita, como sabe quem conversou mais de três vezes com gente de ambos os lados. A diferença está em que a esquerda, depois de comentar as maminhas da deputada, nos pede: «não digas que eu te disse isto» (não é um exemplo imaginário). É isso precisamente que o politicamente correcto significa: o reino das aparências. A «hipocrisisa burguesa» está bem vingada. PM
QUESITOS 518 A 574: Reparamos, de olhos bem abertos, que um leitor do Blog de Esquerda, publicou no dito os fascículos 518 a 574 da colectânea Marxismo Hoje. Teremos que responder, é evidente. Mas só mais logo, amiguinhos. Desde que chegou a democracia, os Infames deixaram de contar com as roças em S. Tomé e têm que escrever artigos, dar aulas, entregar papers e assim. O dia pertence ao castigo do pecado, que segundo a Bíblia é o trabalho («o suor do rosto»); a noite pertence, é claro, ao pecado, isto é, à infâmia. PM
PASSA O JOGADOR, NÃO PASSA A BOLA: Francisco Louçã, líder daquele partido que teve 25 % nas eleições, apresentou ontem um livro contra a guerra, escrito em parceria com Jorge Costa. Eu nunca gostei desse sarrafeiro... PM
SADDAM-MASO: Tortura matinal: o Fórum TSF. A Rádio Bagdad chega a extremos indecorosos. Nem a Al-Jazeera tem um discurso assim. E depois digam-nas que «a esquerda, coitadinha, não está representada nos media, bla bla bla». PM
FALTA A FOTOGRAFIA: David Hare escreve um artigo no Daily Telegraph onde relembra ao mundo o argumento preferido da manada pacifista: não existe uma ligação óbvia entre Saddam Hussein e o 11 de Setembro. Estas palavras, meus amigos, são sérias e, pior ainda, são verdadeiras. Espantados? Por favor, não estejam. Não existe, de facto, uma «ligação óbvia» entre uma coisa e outra - sobretudo se entendermos por «ligação óbvia» uma fotografia de Saddam e Ben Laden, algures em Bagdade, construindo duas Torres Gémeas em plasticina para prontamente as amassarem com dois aviões da Playmobil. Infelizmente, David Hare parece esquecer este dado fundamental: a campanha em curso não é uma resposta militar aos autores óbvios do 11 de Setembro. A campanha em curso, cautela, é uma resposta militar ao terrorismo. E, quando aqui chegamos, devemos colocar uma questão prévia: como emerge o terrorismo? Quais as causas do fanatismo islâmico? Para os leitores do Prof. Boaventura, as causas são económicas e uma maior redistribuição da riqueza evitaria estes fenómenos. Infelizmente, a sabedoria do Prof. Boaventura, e dos acólitos que o seguem, parece esquecer este dado curial: de acordo com as Nações Unidas, os cinquenta países mais pobres do mundo não têm organizações terroristas. O que obviamente nos atira para a evidência: é em estados sanguinários, dominados pelo ódio demencial ao Ocidente e com um acesso facilitado a armas químicas e biológicas que as redes terroristas encontram ninho e apoio. Saddam Hussein apresenta ligações com estas redes e a utilização de armas de destruição maciça consta do historial do tio Saddam. Uma fotografia dava jeito. Mas, na ausência de retrato, um pouco inteligência chega. JPC

terça-feira, março 25, 2003

STAY WITH ME: Em Pulp Fiction, quando Travolta regressa do wc, Amanda Plummer aponta-lhe a pistola, fazendo com que o anterior alvo, Samuel L. Jackson, furioso, grite: «Wanda, stay with me, baby». Agora que JPC e PL estão sob fogo cerrado dos leitores que nos escrevem furibundos, não se esqueçam que eu também tenho opiniões detestáveis, reaccionárias, infames. Porque nos últimos mails, até há elogios à minha poesia... Por favor... Não me envergonhem ao pé dos outros Infames. Ataquem-me, insultem-me. Stay with me. PM
LE PEN CLUB: O nosso leitor Pedro Guedes interroga-se: «Será que as vozes das deputadas do bloco não chegam ao mundo árabe? A esquerda está a perder, e bem, a exclusividade da luta contra a guerra». E segue-se esta bela notícia: 250 millions de téléspectateurs pour Le Pen ! Loin de toute hypocrisie et de tout faux-semblant, Jean-Marie Le Pen a pu longuement expliquer jeudi les raisons du refus des patriotes français de la guerre d’agression contre l’Irak. Pendant 1h30, le chef de file des nationaux était l’unique invité d’une émission spéciale d’une chaîne de télévision iranienne, concurrente d’Al-jazira, laquelle émet en direction de nombreux pays arabes. Ce sont ainsi 250 millions de téléspectateurs qui ont pu entendre le porte-parole de la droite nationale, dont les propos, abondamment commentés dès le lendemain dans la presse des pays en question, ont été très favorablement accueillis. De quoi encore accentuer la notoriété et le capital de sympathie dont jouit Jean-Marie Le Pen à l’étranger. Visto que as facções há meses antagónicas estão de acordo no tema mais importante da actualidade, é caso para dizer que se as eleições fossem agora, Chirac teria 100%. PM
LEIAM BEM: Para quem tenha dúvidas, aqui fica, sem meias-palavras: lamentamos todos os mortos civis iraquianos, lamentamos todos os mortos militares da Coligação. E esses são os mortos que lamentamos. PM
QUARTÉIS: Cresci no meio de quartéis, fardas, galões e um estranho convencionalismo que rodeia o mundo militar. Lembro-me de furar a divisão entre oficiais e sargentos porque nos poisos destes últimos encontravam-se as miúdas mais giras. Lembro-me de não me interessar nem um pouco por maciços volumes de estratégia militar que o meu pai, com abnegação, procurava que eu lesse. Lembro-me de achar, como ainda acho, muitos dos generais e outros oficiais portugueses retardados mentais. E lembro-me também de ouvir, como ainda ouço, a visão idílica e cerimoniosa do meu pai sobre a profissão militar. É essa visão de respeito, de risco, de admiração que me ocorre quando chegam notícias sobre os soldados tombados no Iraque. E não deixo de pensar no estado em que ficarão os idiotas da objectividade se esta operação for bem sucedida. PL
CONCURSO: As televisões portugueses andam freneticamente a competir pelo prémio Nós somos das poucas televisões que têm jornalistas em Bagdad. Meus senhores: tenham calma que estamos a falar de uma guerra, não dos jogos de futebol do União de Leiria. PL
PARAR A GUERRA: Depois de ter rejeitado esta guerra, de ter contestado a sua legitimidade e de ter libertado, em doses bovinas, a sua babugem anti-americana, o pacifismo militante pretende agora interrompê-la. Não lhes ocorre que parar a guerra seria um gravíssimo erro geopolítico, o reforço do poder de Saddam e de tiranias contíguas, a radical descredibilização do Ocidente numa comunidade internacional instável que, aqui e ali, rejeita visceralmente os seus valores. Com uma guerra em curso, haja responsabilidade. PL
NÃO ME LIXEM: Durante anos, acreditei na impunidade. Escrevia na escuridão e via-me, cavaleiro andante, com a tralha cultural toda atrás. Essa impunidade acabou. Mal abro o bico, um batalhão de leitores - invariavelmente mais cultivados do que eu - puxam do manual e corrigem a sabedoria do cafre. Fazem bem. João Noronha, um dos leitores mais cultos e com quem tenciono continuar a conversa sobre o «conservadorismo» e o «liberalismo» (ainda não me esqueci, Johnny Boy) relembra que a frase «the price of liberty is eternal vigilance» não é de Churchill, mas de Jefferson. Com certeza. Mas confesso a minha abominável ignorância: encontrei-a no velho Winston e, muito apressadamente, atribuí-lhe a autoria. Minha culpa, minha tão grande culpa. Mas absolutamente notável é a carta de Fernando Albino, que transcrevo integralmente.

A frase do Churchill que o JPC citou, «the price of liberty is eternal vigilance», tem raízes bastante antigas. Já Demóstenes alertava para a necessidade de desconfiar de déspotas e tiranos se queriamos proteger a Democracia. Em 1770, uma frase semelhante à citada é utilizada por John Philpot Curran, advogado e político Irlandês, no seu discurso de tomada de posse como Lord Mayor de Dublin: «the condition upon which God hath given liberty to Man is eternal vigilance». Há quem atribua a frase a Thomas
Jefferson mas o único registo de uma frase semelhante é num discurso de Wendel Phillips, abolicionista Americano, à Sociedade Anti-Esclavagista do Massachussets, em 1852. «Eternal vigilance is the price of liberty», afirmou ele num contexto ligeiramente diferente. Quem quer que tenha dito isso, e independentemente do contexto ou da intenção, a mensagem é clara e particularmente válida nesta altura do conflito: a liberdade não é um dado adquirido. A liberdade, que implica necessariamente a segurança individual e colectiva dos indivíduos, tem de ser assegurada pelo Estado, sim, mas, antes de mais, tem de ser desejada pelos cidadãos. O que me custa mais a aceitar nesta guerra com o Iraque, para além da tragédia que é em si mesmo qualquer conflito armado, é a profunda divisão da opinião pública ocidental. Manipulada por comunistas, fascistas e outros «istas» numa curiosa aliança, parece que o cidadão comum não se apercebe da realidade e da iminência da ameaça que Estados como o Iraque representam para o nosso modo de vida. Admito que os «nossos» políticos terão gerido mal a difusão desta mensagem - mas isso será para mais tarde analisarmos, se é que vale a pena o exercício. O que importa, parece-me, é difundir agora a ideia de que a principal ameaça às sociedades Ocidentais democráticas e livres não é o inimigo circunstancial do momento (hoje é o terrorismo islâmico como antes foi o comunismo e amanhã, sabe-se lá) mas sim a falta de vontade dos cidadãos de lutar pela sua própria segurança colectiva - o reflexo da liberdade e democracia da sua sociedade. É em alturas de crise que cada indivíduo se excede a si próprio e alcança a grandeza. Se assim é, e porque potenciam a realização e a felicidade individual, a democracia e a liberdade (e as sociedades que as protegem e que nelas se baseiam) terão sempre uma reserva de «fighting spirit» (que Churchill encarnou na perfeição) - «fighting spirit» que será tanto maior quanto maior for a vontade de manter essa democracia e liberdade. Por isso é que é fundamental manter a vigilância. Por isso é que é necessário pensar em termos individuais sobre a nossa segurança a cada momento.


Comentário: Razão tem a Esquerda indígena: a Direita, no fundo, no fundo, não pensa; é inculta; gosta de fados e touradas - e reduzia de bom grado Os Maias para duas folhas A4. Obrigado, Fernando. JPC
A FRASE (2): «The price of liberty is eternal vigilance» (Churchill) JPC
A FRASE: «Everyone is a reactionary about subjects he understands» (Robert Conquest) JPC
CONVERSA INACABADA: Decorreu na Coluna um interessante debate sobre Conservadorismo e Liberalismo que está longe de ter terminado. O correio foi farto e muitos mails continuam sem resposta. Não por muito tempo. O assunto voltará a ser debatido e as mensagens dos leitores, algumas delas de uma profundidade intelectual assinalável, serão transcritas e comentadas. Palavra de infame. JPC
«BOM, ISSO É UMA PERGUNTA COMPLEXA»: Um desafio aos blogs esquerdistas: meus amigos, quem preferem que vença esta guerra? Tenho a certeza que não são capazes de responder numa palavra: vão enquadrar, contextualizar, subtilizar, exemplificar, hostiricizar, em suma, não vão ser claros. Quem me dera estar errado... PM (Nota: acabei de escrever este post exactamente ao mesmo tempo que o Coutinho, sem estarmos em contacto. É um monstro tricéfalo, esta Coluna...).
UMA PERGUNTA: Agora que a guerra no Iraque é um facto em marcha, interessava perguntar ao Blog de Esquerda que tipo de vitória espera desta campanha. Honestamente. Será que os rapazes esperam uma vitória dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha - numa palavra: da civilização ocidental a que alegadamente pertencem - ou estão com Saddam Hussein até ao fim e só esperam uma vitória clara e moralizadora para Bagdad? A resposta a esta questão pode ser o retrato definitivo da Esquerda. JPC
HOLOCAUSTOS: Pedro Mexia já referiu o estranho caso do Holocausto entre parentêsis. O artigo foi escrito por Pedro Miguel Melo de Almeida no Público e pretende ser uma reflexão séria sobre a «indústria do Holocausto» que, mitificando e mistificando a matança de judeus (quantos? onde? quem disse?), tem contribuído para a falsificação do debate histórico. Não faltam referências aos «revisionistas» do costume (como Faurisson, um historiador imoral que só por caridade se chama «revisionista») e ao prefácio que Noam Chomsky, a Vaca Sagrada da Esquerda, escreveu para a obra Mémoire en Défense , do citado Faurisson. Infelizmente, o plumitivo desconhece, ou finge desconhecer, o vasto historial de atropelos históricos em que Chomsky é pródigo - e que conheceu um momento particularmente obsceno com a negação das atrocidades no Cambodja (uma brincadeira do benemérito Pol Pot que produziu, numa estimativa conservadora, dois milhões de mortos). E a terminar o artigo, o jovial Miguel não se coíbe de mostrar à plebe os verdadeiros intentos que o movem: um ódio demencial ao sionismo e a Israel, ou seja, um ódio demencial aos judeus e à natureza imperial da raça. Comentários? Apenas um: ao contrário do que se pensa, as origens do antisemitismo moderno não estão em Hitler e na natureza paranóica do Mein Kampf. As origens do antisemitismo moderno encontram-se ligeiramente mais à Esquerda. Primeiro, com o movimento iluminista de traço continental. Depois, com Karl Marx - ele próprio um judeu e que via na espécie a encarnação maligna do prestamista insidioso, amante do dinheiro, do capital e da exploração. Não admira que, um século depois, com o Muro feito em escombros e uma visível ausência de causas, a Esquerda acorra prontamente ao antisemitismo para não fazer a máquina parar. Razão tinha o outro. Na História, nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma. JPC
PRÉMIO ESCOVA DE DENTES: O prémio Escova de Dentes vai para todos os esquerdistas que diziam que Saddam estava desarmado, que a guerra seria um massacre de iraquianos, mas que agora sublinham que o Iraque está a resistir como os americanos não pensavam, e que não vai ser fácil vencê-los. Ao que parece, as tropas de Saddam só estão à espera de ver os aliados em Bagdad. Aí, atacam com a escova de dentes. PM
CARL SCHMITT TINHA RAZÃO: Esta guerra tem um efeito clarificador. Sobre a esquerda estalinista e trostskista já sabíamos tudo, sobre a direita fascizante também nada de novo, e sobre o oportunismo de grande parte da esquerda democrática estávamos infelizmente documentados. Mas os alinhamentos que a guerra provocou serviram para mostrar como os «centristas» e os católicos da carneirada são, definitivamente, nossos adversários. E por isso os trataremos sempre como tal.PM
SONDAGENS: É sabido que aqui na Coluna não nos regemos por sondagens, mas quem as agitou a toda a hora, fique-se com estas. PM
ALIADOS: O PÚBLICO de ontem tinha um artigo sobre o Holocausto no qual a palavra aparecia sempre grafada entre parêntesis. E pensar que eu há anos me espantei por ver o Chomsky a prefeciar um negacionista. Afinal era o primeiro passo desta nova aliança. A esquerda aderiu à imoralidade absoluta. PM
POIS: Rebemos este «Comunicado de Imprensa da Comissão Directiva do PNR»:

O Partido Nacional Renovador (PNR) condena energicamente a agressão contra o Iraque declarada por George W. Bush e pelos seus cúmplices britânicos e espanhóis da coligação. Trata-se de um acto de pirataria internacional que se mascarou com pretextos morais e políticos. O PNR entende que as Nações Unidas, cinicamente ridicularizadas pelos agressores, junto com todos os países que observam um espírito pela paz devem empreender todos os esforços para fazer parar, o mais rapidamente possível, esta guerra de agressão e pilhagem e assim evitar o massacre das populações, já de si enormemente martirizadas por mais de dez anos de embargo económico imposto pelos americanos.

Pedimos o favor de mandarem também o mail para o Blog de Esquerda. Nós somos nós que estamos aliados com os fascistas... PM
ASSIM NÃO VALE: O Zé Mário percebeu que nós dizemos «gajas» e «saddamitas» para ver os esquerdistas a espernear. Assim não vale, ZM, qualquer dia estás a dizer que até nos conheces pessoalmente e que somos boas pessoas. Não nos desgraces... PM
ALBERTO, O GRANDE: Alberto Gonçalves, cronista do Correio da Manhã (todas as sextas), escreve:

Estranhei a ausência na Coluna de qualquer comentário sobre o discurso do sr. Michael Moore, ao receber o Oscar. Por acaso, vi parte da cerimónia em casa do JPC, mas nem o privilegiado convívio com as elites me impediu o sono antes desse terno momento. Felizmente, os noticiários de hoje fartaram-se de repeti-lo, não fosse algum português imaginar que George W. Bush é o
presidente eleito de uma democracia autêntica. Uma daquelas democracias livres de censura, que permite a qualquer demente, em qualquer lugar, babar em público as maiores insanidades. E, em seguida, ser aplaudido pelo beautiful but very worried people da pocilga a que Hollywood chegou. A esta hora, está tudo a ser interrogado pela CIA e a levar com os óscares na cabeça. Não tenho a certeza, mas julgo que no Festival de Curtas-Metragens de Bagdad pode-se insultar o Bush sem a mínima consequência. É nestas ligeiras diferenças que constatamos a suprema hipocrisia dos EUA. É o petróleo, claro.


Comentário: Verdade, Alberto: e ressonavas, meu velho. Mas não tive a oportunidade olímpica de partilhar contigo a alegria indizível de ver Michael Moore a insultar Bush e, muito subterraneamente, a sugerir uma admiração sentida por Saddam e pelo regime airoso e livre que o tio Hussein montou lá nas Arábias. Resta-nos a consolação, nunca devidamente apreciada, de saber que em Bagdad os cineastas gozam de direitos e garantias como em nenhum outro país do Médio Oriente e podem, muito livremente, caricaturar Saddam, seus traques e truques, com total impunidade. Tudo ao contrário de Hollywood, claro, onde as terapias do senador McCarthy, ilusões à parte, nunca deixaram de se exercer sobre os metecos. JPC
MAILS: Para um melhor escoamento de mails, voltamos a sugerir que indiquem com precisão o subject e entre parêntesis quem querem que responda. Obrigado. PM

segunda-feira, março 24, 2003

ÓSCARES (2): Falhei as previsões. Esperava a vitória de Scorsese (merecidíssima), de Gangs (não perguntem), de Day-Lewis (soberbo) e de Julianne Moore em duas categorias distintas. Mas tolero Chicago (que não vi, nem vou), acho Brody sublime e Polanski, cineasta irregular, merece este mundo e o outro depois do casamento com Emmanuelle Seigner. Mas não perdoo algumas ausências. A mais gritante foi, sem qualquer dúvida, a de João Botelho, cineasta português que assina A Mulher que Acreditava ser Presidente dos Estados Unidos da América - comédia brilhante, com argumento de José Casanova, o conhecido editorialista do Avante! e que merecia uma estatueta pelos Efeitos Especiais, Mentais e Menstruais. Numa Hollywood perfeitamente tiranizada por demagogos primários - meninas e meninos que gostam de insultar a exacta Casa Branca que lhes garante uma liberdade artística incomparável -, o filme de Botelho, e a presença in loco da criatura, seria uma importante vitória para a clareza moral em que a Esquerda é pródiga. JPC
ÓSCARES (1): É preciso reconhecer que correu bem. Uma cerimónia discreta, sem grandes piadas nem espalhafatos, com vestidos e fatos escuros, uma emissão sóbria e porventura não muito diferente do que seria antes da tv (os Óscares fizeram 75 anos e 50 de televisão). Steve Martin foi soft, e na circusntância não se lhe pedia que fosse hard. Houve algumas referências rápidas à guerra, uma mais evidente de Almodovar e Garcia Bernal (espanhóis e latino-americanos, o que esperavam?) e de Brody (este comovente). Em compensação, o presidente da Academia fez um discurso patriótico, Susan Sarandon portou-se bem, e Barbra Streisand até falou na liberdade de expressão, que não abunda, a que parece, em Tikrit. Liberdade de expressão que permitiu o prémio e o discurso de Michael Moore, como sempre ignobilmente propagandístico, primeiro aplaudido de pé e depois apupado. (Agora teremos os esquerdistas que detestam os Ócares a dizer: «vêem, o Bowling até ganhou um Óscar). Foi pena que a vitória surpresa de Eminem não tivesse o rapaz em palco a atacar o politicamente correcto reinante, mas Em estava de férias. Gostei de ver Chris Cooper premiado, a ascensão da Kidman é cada vez mais imparável (embora nem todos - como eu - estejam convencidos) e Brody era o único que podia, sem escândalo, arrebatar a estatueta a Day-Lewis. Scorsese, esse, ficou a ver navios, mas realmente este não era o melhor filme para o premiar. Os melhores momentos da noite foram, como sempre, as montagens e o in memoriam, prova de que Hollywood preza a sua História. Nota também para os dois Óscares de argumento serem os antepenúltimos a serem entregues, o que mostra a importância que mesmo para a indústria lhes concede. As mais belas: Diane Lane, apesar do penteado (era a minha favorita para Actriz), Jennifer Connely e a planturosa Salma Hayek, com Julianne Moore e Cameron Diaz demasiado maquilhadas. Catherine, mesmo com oito meses de gravidez, bate aos pontos uma top model anoréxica. E foi bom ver o prémio ao grande senhor que é O'Toole, e excelente Polanski ter ganho um merecido Óscar (e uma estalada às estúpidas leis que ainda penalizam um crime sexual com quase trinta anos). Fica a frase com que Kidman justificou a sua presença: because art is important. Embora esta ano a arte não abundasse, Hollywood safou-se airosamente. E com um filme escapista a ganhar a noite. PM
A INFÂMIA CONTINUA: Esta noite, na RTP 1, o infame Pedro Mexia vai estar presente no programa Prós & Contras. Atenção, meninas: é uma oportunidade única para se confrontarem com a materialização física do mais infame dos infames. Garantimos desmaios, histerias e orgasmos colectivos. JPC
MOTIVOS DE CONTENTAMENTO: Leitora Rita Dias: hesitei se haveria primeiro de responder ao seu mail ou à mensagem de uma leitora que, comovedoramente, nos ofereceu os seus serviços de massagem ao domicílio. Opto por si porque apreciei os seus comentários. Saiba que 1) Fico contente por saber que prefere as nossas alarvidades às alarvidades dos outros; 2) Fico também contente por saber que não se considera antisemita, fascista, comunista ou anarquista; 3) Não nos interessa nada o apoio de países que não respeitam liberdades básicas e um módico de regras democráticas mas vocês têm-se servido impudicamente dos apoios menos recomendáveis; 4) Fico contente por saber que não dorme só com Chomsky debaixo do braço. Um reparo apenas: a sua preocupação com o destino de Saddam e os seus conhecimentos acerca dos países que ofereceram casa ao ditador iraquiano chegam a ser enternecedores. Ciao. PL
DIREITOS DO HOMEM: Um lancinante apelo veio da Argélia, Rússia, Síria, Sudão, Malásia, Líbia, Burkina Faso, Zimbabué e República Democrática do Congo. Estes países pretendem que a ONU «discuta os efeitos da guerra sobre o povo iraquiano e a sua situação humanitária e reafirme a aplicação da Quarta Convenção de Genebra sobre os beligerantes». Nada a opor. Mas convinha que esta gente boa e democrática começasse a respeitar os direitos humanos dentro de portas. PL

LULA: É lamentável que Lula tenha oferecido o tal asilo ao tal Saddam. Li isso em algum lugar, mas não tenho acompanhado a guerra a não ser por rápidas passadas pela CNN e pelas leituras na Coluna Infame, no Cláudio Téllez e em diversos outros blogs ou sites. E quem ganha com isso tudo é a indústria dos Alka-Seltzers e assemelhados, pois o ódio aos americanos e os argumentos ridículos contra a guerra contaminaram a todos, e isto não pode fazer bem aos nossos estômagos. Adolescentes que não sabem nem apontar o Iraque no mapa (e talvez nem Portugal) bradam contra a "guerra por petróleo" e pedem "morte à família de Bush". Os senhores sabem: não é exagero. (Alfredo Votta Jr)

Caro Alfredo: Obrigado por ler a Coluna. Parece que, entretanto, o vosso Governo já veio desmentir a oferta de asilo a Saddam. Em que ficamos? O que nos choca nem é a concessão desse asilo (Lula é um político angélico que gosta de exibir gestos de fraternidade universal). O extraordinário é que, pela mera circunstância de estar a ser atacado pelos Estados Unidos, Saddam comece a ser visto com benevolência e até com alguma indisfarçável ternura. Volte sempre. PL
AINDA A MANIF: Meus caros, para um blog, ainda que facho, inteligente como o vosso, esse ataque de demagogia dispensava-se. Facadas e outras agressões en manifestações, pacifistas ou não, sempre existirão. Daí a tirar um argumento geral de um acontecimento infeliz... Eu não fui às manifestações mas hesitaria em dizer que todas as pessoas que foram são anarquistas, fascistas e antisemitas. Como dizia o outro, não confundamos género humano com Manuel Germano. (Abel Campos)

Meu caro Abel Campos: não disse que todos os manifestantes são anarquistas, fascistas e antisemitas. Por exemplo, na manifestação estava Maria de Lurdes Pintasilgo que, para mim, é ainda um objecto político não identificado . Há, no entanto, uma verdade irrefutável: muitos dos adeptos da paz, muitos dos pacíficos porto-alegrenses não passam de anarquistas a precisar de tomar banho, de antisemitas que não conseguem engolir o Estado de Israel, de comunistas e de fascistas que são capazes de se aliarem a quem seja necessário quando se trata de combater o inimigo americano. Chamá-los de pacifistas é um pouco exagerado, não lhe parece? PL
SARAMAGO: Sempre que Saramago pensa em voz alta, pedem-se comentários. Mas porque é que temos de comentar as alarvidades deste senhor? PL
LOBBIES: Informamos os interessados que o lobby judeu americano não votou em Bush e não é, na sua maioria, republicano. Menos Chomsky, por favor. Variem as leituras. PL
LULICES: O Brasil de Lula já ofereceu asilo a Saddam, no caso de este pretender deixar o poder. Os nossos amigos brasileiros devem estar orgulhosos desta hospitalidade. PL