domingo, março 16, 2003

PORTUGAL E A GUERRA: O que se passou hoje é bastante claro. Os Açores era um bom ponto de encontro em termos geográficos, e as Lajes é uma base importante, e foi por isso que a Cimeira decorreu nos Açores. Portugal, como é óbvio, foi apenas o anfitrião, até porque não tem papel no mundo para ser mais do que isso. Cumprimos: estivemos do lado dos nossos aliados, e não deixámos a Espanha açambarcar o atlantismo. Quanto aos que cumularam o PM com mimos de «estalajadeiro», «criado», e quejandos, é a linguagem que a casa gasta. Afinal, muitos destes esquerdistas que falam em «lacaios do Império» até sabem alguma coisa sobre o tema «lacaios» e sobre a realidade «Império». Esses esquerdistas, na verdade, não estão indignados, estão apenas desempregados. PM
GUERRA: A cimeira das Lajes foi, como se esperava, uma pré-declaração de guerra. A paciência não é eterna, e Bush até insistou excessivamente num acordo negociado: foi a França que anunciou que vetaria todo e qualquer acordo. Agora, se Saddam não abandonar o Iraque - e não o fará - a guerra é inevitável. E não continuem a repetir que se trata de uma guerra «unilateral»: mais de vinte países apoiam a acção militar. Esperamos que os profetas da desgraça se enganem mais uma vez, como se enganaram no ataque ao Afeganistão, e que a guerra seja o mais curta possível, com o menor número possível de vítimas civis. A guerra é obviamente contra Saddam e o seu regime, e não contra o Iraque. Alea jacta est. PM
TOPONÍMIA: O Rossio foi repabtizado pelos esquerdófilos a Praça da Paz. Propomos que a Av. da Liberdade se passe a chamar Avenida do Encontro de Culturas. PM
SLOGAN INFAME PARA O DIA DE HOJE: «Somos todos Açorianos». PM
CHOMSKY, OPUS 862: Ao nosso leitor Manuel Pinheiro, que se indigna com a recepção sempre entusiaste de Chomsky na nossa imprensa, temos que dizer que esse entusiasmo não é exactamente uma surpresa, pois não? E aproveitamos para o alertar para um debate sobre Chomsky onde estarão presentes Infames. Depois damos mais informações. PM
RISCO E BECKETT: Mais um contributo esclarecido:

No debate (que não o é bem) entre liberalismo e conservadorismo, parece-me que um conceito importante é o de risco: um liberal sabe que a liberdade implica um certo risco, mas está disposto a aceitá-lo; um conservador é avesso ao risco. É aliás aí que eu vejo a ponte entre o socialismo e o conservadorismo: ambos partilham a aversão ao risco – se bem que proponham remédios diferentes. Em contrapartida, conservadores e liberais partilham o pragmatismo, ou, em termos mais correctos, o empirismo: as ideias elaboram-se a partir da observação do mundo. Para um socialista, é o contrário: as ideias (e os ideais com elas) fazem-se antes, ou fora, do mundo – e o facto de o mundo ser avesso às ideias socialistas não colhe: é o mundo que está errado, há que mudá-lo. A necessidade de recorrer às vanguardas iluminadas está presente na ideologia de esquerda desde Platão. Sou, claro, um liberal, ainda que sem a bagagem teórica que gostaria de ter: [assim que houver espaço no cartão recorro à vossa bibliografia]. Mas sou um adepto fanático do Beckett: potente argumento para não se ser conservador, não é? (Luís M. Serpa)

Comentário: Caro Luís, tem razão quanto ao empirismo e ao pragmatismo, embora tenhamos de reconhecer que os conservadores têm por vezes uma certa tendência para a idealização. Em matéria de risco, não sei se estamos de acordo, porque os conservadores não recusam o risco: limitam-se a achar o risco menos excitante que os liberais. Em todo o caso, estamos de acordo na caracterização do(s) socialismo(s): a aversão ao risco, o «teorismo», as vanguardas. Querer mudar o mundo, nos termos radicais em que certo socialismo o propõe, é evidentemente um distúrbio das capacidades cognitivas. Finalmente, Beckett: para além de o desafiar para criarmos o clube dos Adeptos Fanáticos de Beckett, não creio que Beckett possa ser lido em chave ideológica. Era um homem avesso a esse tipo de manifestações, e que eu saiba só tomou quatro posições políticas na vida, três delas sensatas (esteve na Resistência, e assinou um manifesto pela libertação de Arrabal e, se não me engano, Havel) e uma perfeitamente admissível (Miterrand à presidência). O que se pode dizer é que a desolação do seu universo é de um pessimismo radical, e que amanhãs que cantam em Beckett não é imaginável. Claro que Beckett não era um conservador, mas creio que um conservador só pode sentir afinidades com - nomeadamente - o teatro de Beckett. PM
QUE BELOS REGIMES: O nosso leitor nacionalista ataca de novo:

Ao contrário da Clara Pinto Correia, indico a fonte (edição online do Rivarol, ponto de encontro de muitas correntes do nacionalismo francês) e não traduzo para português, já que o idioma, nisso terão certamente razão, não é dos mais estimulantes. "Voici une liste des pays qui ont été bombardés par les Etats-Unis d’Amérique depuis la fin de la Deuxième Guerre mondiale, dressée par l’historien William Blum: Chine 1945-46 Corée 1950-53 Chine 1950-53 Guatemala 1954 Indonésie 1958 Cuba 1959-60 Guatemala 1960 Congo 1964 Pérou 1965 Laos 1964-73 Vietnam 1961-73 Cambodge 1969-70 Guatemala 1967-69 Grenade 1983 Libye 1986 El Salvador 1980 Nicaragua 1980 Panama 1989 Irak 1991-99 Soudan 1998 Afghanistan 1998 Yougoslavie 1999. Dans combien d’entre eux ces bombardements ont-ils fait directement émerger un gouvernement démocratique, respectueux des Droits de l’Homme? [Dans cette liste est omise la Somalie, opération «Restaurer l’espoir» de 1992-93.] (Pedro Guedes)

Comentário: Caro Pedro, obrigado pela sugestão nacionalista. Quanto à guerra, nós aqui na Coluna não somos adeptos do «angelismo» em política internacional, nem da exportabilidade generalizada da democracia. Mas pense nessa lista e veja se consegue dizer alguma coisa positiva sobre esses regimes. PM


KINKS 1 BEATLES 0: Um mail sobre cultura popular e ideologia:

Tema bastante improvável, esse da britpop. Mas mais improvável ainda é a opinião acerca dos Beatles, principalmente porque vinda de um confesso amante de pop descomprometida, feita de melodias intemporais e de boas doses de "onde é que eu já ouvi isto?". E, dito isto, permito-me partilhar com a Coluna uma reflexão acerca da única banda que conheço em cujas letras encontro a "disposição conservadora" de que nos fala Oakeshott: os KINKS do grande RAY DAVIES. Numa década, a de 60, em que qualquer indigente de guitarra na mão, fosse ele americano, britânico ou malaio, escrevia sobre a autoestrada 66, as paisagens psicadélicas, a revolução, o amor universal e, de uma maneira geral, os amanhãs qe cantam, Ray Davies confessava que o seu maior prazer era e seria sempre a pint diária que bebia com o pai no pub do bairro. Com efeito, na escrita de Ray (e, 30 anos depois, na do Damon Albarn da fase pré-queda do cabelo e pré-pacifista-amigo-do-Ken Livingstone) é clara a tendência conservadora de quem prefere disfrutar das pequenas alegrias do presente a ansiar por orgásmicas utopias. Vê-se isso em temas como "Waterloo Sunset" ou "Sunny Afternoon". Para além de que o sentimento de perda é uma constante na música dos Kinks. A prová-lo estão canções com títulos como "Where Have All The Good Times Gone" (o título mais politicamente incorrecto dos sixties) e, acima de tudo, um álbum inteirinho com o nome de "Village Green Preservation Society", onde a Inglaterra ideal não é uma hipótese futura, mas um passado que não volta, a Inglaterra dos bowler hats, da strawberry jam e dos steam-powered trains. Ray canta, em "This Is Where I Belong", "I can´t think of a place I´d rather be, the whole world doesn´t mean that much to me". Mais elucidativo só mesmo o nome da filha do líder dos Kinks: Victoria. (Francisco Mendes da Silva)

Comentário: Now we're talking. Caro Francisco, os Kinks são outra história, e esses sim muito cá de casa. A minha opinião sobre os Beatles é assumidamente Infame: são canções boas para trautear, isto é, canções boas sem letra (as letras do Beatles provocam-me cólicas renais incontroláveis). Mr. Ray Davies é outro campeonato. Nunca o tinha visto nessa perspectiva oakeshottiana, mas faz todo o sentido. Os Blur, como o Francisco diz, pareceram-me os herdeiros dos Kinks na crítica social sofisticada (por oposição à crítica social selvagem - embora genial - dos Pulp), mas agora o Damon passou-se, há que dizê-lo. Os Kinks são realmente bardos do quotidiano, e isso para mim é muito mais interessante do que canções charradas sobre a fraternidade. A propósito, a ex-sra. Davies, Chrissie Hynde, disse a semana passada, creio que num concerto, que esperava que os americanos fossem derrotados pelo Iraque. Não critico a senhora, bem pelo contrário: era tão bom que os nossos amigos esquerdistas assumissem sempre as suas opiniões de modo tão honesto... E agora vou ouvir «Waterloo Sunset», se me dá licença. God save the Queen. PM
EURICO, NÃO ESTÁS SÓ: Aqui reproduzimos o mail de um leitor que pertence a uma outra direita, que não a nossa, mas que tem evidentemente liberdade de expressão:

Começo por fazer minhas as palavras de Eurico de Barros, transcritas num vosso post anterior e de cujos textos regulares de opinião no DN sinto saudades. Aproveito a propósito para vos lançar o desafio de sugerirem aos leitores da Coluna o site das ideias de Pat Buchanan (afinal de contas, há pouca “direita” americana que valha a pena ler). Também eu sou contra esta guerra petroleira. Também eu sou contra a guerra, mas pelo lado politicamente incorrecto da direita a sério, da direita nacionalista que recusa todo e qualquer centrismo. Tal convicção não me impede de gostar da poesia de guerra, género onde não falta qualidade e diversidade, apesar do esquecimento conveniente da imprensa escrita e da crítica, para além da esmagadora maioria dos editores, mais interessados em divulgar os não menos bélicos e sempre emocionantes escritos de Mao, do Che ou do Dr. Kumba (neste último caso, justifica-se um apoio público à edição da obra). O próprio Pedro Mexia poderia ir divulgando na Coluna alguma da poesia de guerra que já terá certamente encontrado nas suas incursões “reaccionárias” pelas estantes da Librairie Francaise, o que quanto mais não fosse, deixaria em pé mais alguns cabelos ao Dr. Prado Coelho (mais de pé, só se sugerissem umas visitas pela net à italianíssima Libreria di Ar)... Aproveito pois para vos enviar dois poemas portugueses escritos na frente de combate e escolhidos de forma praticamente aleatória em “O Corpo da Pátria - Antologia Poética da Guerra do Ultramar 1961-1971” (Ed. Pax - Colecção Metrópole e Ultramar, nº 68, Braga, 1971). A obra em causa, difícil de encontrar, mas que ainda se apanha em alguns alfarrabistas generosos, está dividida em duas partes: a poesia da frente e a poesia da retaguarda. E é sempre tão bom reler o Rodrigo Emílio e os seus “Poemas de Braço ao Alto”...


Rodrigo Emílio
"Moçambique 61/Aerograma"

Porque a Pátria assim decreta
Feriu-me a seta
De lado a lado.
A mim que sou poeta
Sagrou-me e vestiu-me ela se soldado.

E não contam assombros.
Ainda que eu arda
Sei que A transporto aos ombros
Desta farda.

Mas já o sol descerra.
E entanto, tanto faz.
Aqui a paz chama-se guerra,
chama-se guerra esta paz.

E por cá ando
Por aqui estou
Somando a quanto fui
O que hoje sou.

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João Conde Veiga
"Regresso"

Não fugi da guerra, não fui para Paris,
não fugi da terra, não traí o Povo,
eu fui ao combate debaixo do sol
e voltei de novo.
Posso aquecer-me com o sol mais quente
que me enche as veias, vinho de raiz,
não se vai á guerra e volta de novo
Sem se sentir dentro a voz de um país.

E posso olhar, olhar descansado,
as belas moçoilas bordando ao luar
sinais de esconjuro para o namorado
um dia voltar.

E posso falar, falar compassado,
com o velho homem que me disse um dia:
- Se eu tivesse agora a tua idade
era eu quem ia!

Num outro plano, confirmei hoje o que já suspeitava: a Coluna é bem mais interessante de ler ao sábado do que o Expresso. Começa a justificar-se uma edição em papel... ou não? Pelo menos uma
ZonaNon “à droite”, tribuna do pensamento livre e descomprometido das modas de Abril. (Pedro Guedes)

Comentário: Fica a sugestão «de braço ao alto», de dois poetas que aliás conheço pessoalmente (nada como conhecer a extrema-direita para se ser democrata). Não é essa a faceta do Rodrigo que mais aprecio, francamente, mas fica aqui o poema. O nosso desacordo quanto à guerra é coerente ideologicamente, de parte a parte. Na Coluna somos pela liberdade de expressão de todas as tendências (excepto democratas-cristãos). Quanto à edição em papel, é uma sugestão simpática, mas não creio que haja nenhum editor suficientemente Infame. E nós, ao contrário do que pensam os nossos amigos da esquerda, não temos capitalistas nossos amigos. PM
ELOGIO DOS FEIOS: Façamos então o elogio dos Feios. Ou, em linguagem politicamente correcta, das Pessas Esteticamente Alternativas (P.E.A.). Tenho, como é evidente, um particular carinho todo biográfico pelas P.E.A. E parece-me que neste momento estão em grande, particularmente os homens. Pensemos, no cinema, em John C. Reilly e Philip Seymour Hoffman. O primeiro aparece em todo o lado (Gangs, The Hours, Chicago), e o segundo tem uma curta mas saborosa participação no filme de P.T.A. (o qual não se enquadra na categoria P.E.A.). Aliás, os dois entravam em Magnolia, uma das obras-primas da década. Reilly é quase sempre um coitado: marido enganado, homem sem sorte ou destreza, pateta. Hofman tem outra agressividade, talvez pelo seu físico (a propósito, ele não é meu irmão), mas quem se esquece da sua personagem arriscadíssima nesse filme transgressor que era Happiness? As P.E.A. trazem um certo realismo ao cinema (sem cair nos exageros de Mike Leigh), uma vez que o mundo está cheio de P.E.A., que são em geral rasuradas do cinema. É muito bom que os cineastas se apercebam da centralidade destas figuras para uma cinematografia, mesmo se por enquanto lhes atribuam sobretudo papéis secundários. De Charles Laughton e Edward G. Robinson em diante, as P.E.A. provaram a sua valia no cinema americano, e é interessante que em plena ditadura estética consigam papéis em que possam demonstrar o seu talento. (Nas mulheres, a questão ainda não é tão nítida). Como P.E.A., quero deixar o agradecimento a Hollywood por não se esquecer da nossa classe martirizada e dar voz aos que na nossa sociedade não têm voz. Quem disse que o capitalismo oprime as minorias? PM
I KNEW IT: Eu sabia. O Paul Thomas Anderson não me ia deixar ficar mal. Punch-Drunk Love é, como eu esperava, um filme delicioso, e uma reinvenção do termo «comédia romântica». A candura weird deste filme, o seu romantismo nerd, são tocantes e francamente divertidos. O filme está pontuado por detalhes preciosos, por vezes sem qualquer significado, mas de uma vitalidade refrescante (a cadeira que se parte, p. ex.). Mais uma vez P.T. revela a sua faceta «religiosa» ou «mística» ou o que lhe queiram chmar: uma fé absurda em presságios, amuletos, coincidências. Adam Sandler (que conheço dos filmes atrozes) é um Jerry Lewis ainda mais bizarro, e Emily Watson prova uma vez mais como uma actriz pode ser «radiosa» sem ser exactamente bonita. É uma obra menor? Com certeza, mas também o são After Hours de Scorsese ou Prova d' Orchestra de Fellini, e no entanto parecem-me ambos indispensáveis na filmografia dos respectivos cineastas. São miniaturas que condensam os temas, e o tom, e a moralidade dos artistas que os fazem. Punch-Drunk Love é uma preciosidade porque é totalmente livre, totalmente pessoal, ao mesmo tempo que confirma um universo e uma mitologia. E P.T. soma quatro filmes bons em quatro filmes realizados. Não me lembro de outro cineasta da sua geração de quem se possa dizer o mesmo. PM

sábado, março 15, 2003

Mal tínhamos postado o texto anterior, recebemos o seguinte mail: Mas será que pensavam que aqui em Havana não há net? Os senhores entraram na rota da decadência moral e da abjecção completa. Volto terça-feira, e prometo intentar uma providência cautelar para impedir que sites frequentados por uma elite que devia ser bem formada faça ignominiosos links sexuais, com relatos íntimos e fotos impúdicas. A liberdade de expressão tem limites, amiguinhos. Na terça falamos. Isto não fica obviamente assim. Providêncio Canhoto, Provedor dos Leitores
IT'S THE END OF THE WORLD AS WE KNOW IT (AND I FEEL FINE): Os leitores bem-comportados desta Coluna não voltam cá depois disto. Vamos mesmo aconselhar uma visita ao novo blog erótico português. O blogger em causa gosta de meninos e de meninas (sobretudo de meninos), por isso quem tiver a sua sexualidade em dúvida é melhor não espreitar. A Coluna congratula-se com a chegada da imoralidade à blogosfera (porque fora da blogosfera estava por todo o lado). Além do mais, é um óptimo pretexto («cultural») para ver a gloriosa obra do Senhor (e das senhoras). Agora vá, tirem os menores da sala. PM
ALGUÉM DISSE «ESCRITORES HÚNGAROS»? Pelos vistos sim. E assim sendo, palavra ao brasileiro de origem húngara preferido cá na tasca. Nelson, fala aí:

Duas novelas de Istvan Örkény, A exposição de Flores e A Familia Toth, encontram-se traduzidas diretamente do húngaro para o português. O tradutor é meu bom amigo Aleksandar Jovanovic, que nasceu numa cidade da Voivodina iugoslava que pertencera antes da Primeira Guerra à Hungria. Os dois relatos foram publicados num volume da Coleção Leste (que, alias, dirijo) da Editora 34 Letras. Um latinista e tradutor hungaro que foi parar durante a guerra no Brasil, Paulo Ronai, traduziu duas belas antologias de contos hungaros, a primeiras das quais conta com um longo prefacio de João Guimarães Rosa. A Coleção Leste publicou também os Contos Apocrifos do tcheco Karel Tchapek e O Tradutor Cleptômano do hungaro Dezsö Kosztolanyi. Há varios romances de Marai traduzidos para o francês e vale também a pena ler suas memórias sobre o final da guerra e os anos quando os comunistas estavam tomando o poder na Hungria. Este livro foi traduzido para o inglês e publicado pela editora hungara Corvina. De acordo com muitos hungaros, o que de melhor Marai escreveu foram seus diarios. Ele também escreveu alguns bons poemas. Quanto à Hungria, o que ela tem de melhor é a poesia, particularmente Endre Ady, Mihaly Babits, Attila Jozsef, Miklos Radnoti, Sandor Weöres e Janos Pilinszky. (Nelson Ascher)

Comentário: Foi o especialista Coluna Infame em Literatura da Nova Europa. Mais especialistas em áreas diversas, da Criminologia Lombrosiana a Danças do Bali, ofereçam os vossos préstimos completamente à borla para colunainfame@hotmail.com. E obrigado ao Nelson por inaugurar essa secção. PM
A PROPÓSITO: Mais uma publicidade escandalosa (mas desta vez não ganho um tusto com isso). Os meus textos «civilizados» (por oposição aos «infame» são compilados desde Outubro no site O Real Absoluto. Prometo às almas sensíveis que não contém referências à guerra e ao conservadorismo. PM
LIVROS: Cada vez mais a informação e a cultura passam pela net. Recebemos, e gostosamente publicitamos, notícias sobre o Canal de Livros, escrito por um grupo de entusiastas que tive oportunidade de ver em acção na Universidade Nova e que tenho seguido na imprensa, em particular o Pedro Sena-Lino, crítico e poeta. Ponham nos favoritos, s.f.f. PM
POEMAS PELA GUERRA II: Apesar de ser um crítico «à direita» desta guerra - abaixo George W. Bush, viva Pat Buchanan! -, gosto de poesia de guerra (o que não quer dizer necessariamente anti-guerra), e aqui envio a minha contribuição. É um poema do grande Rudyard Kipling, incluído em «A Choice of Kipling's Verse», selecção de T.S. Eliot (tudo gente boa!), edição Faber & Faber. É um poema que, a um anglófilo de casca e gema como eu, dá um profundo arrepio na espinha.(É um poema de guerra civil...) (Eurico de Barros)

Edgehill Fight
(Civil Wars, 1642)

Naked and grey the Cotswolds stand
Beneath the autumn sun,
And the stubble-fields on either hand
Where Stour and Avon run.
There is no change in the patient land
That has bred us every one.

She should have passed in cloud and fire
And saved us from this sin
Of war - red war - 'twixt kith and kin,
In the heart of a sleepy Midland shire,
With the harvest scarcely in.

But there is no change as we meet at last
On the brow-head or the plain,
And the raw astonished ranks stand fast
To slay or to be slain
By the men they knew in the kindly past
That shall never come again -

By the men they met at dance or chase,
In the tavern or the hall,
At the justice-bench and the market-place,
At the cudgel-play or brawl -
Of their own blood and speech and race,
Comrades or neighbours all!

More bitter than death this day must prove
Whichever way it go,
For the brothers of the maids we love
Make ready to lay low
Their sisters' sweethearts, as we move
Against our dearest foe.

Thank Heaven! At last the trumpets peal
Before our strenght gives way.
For King or for the Commonweal -
No matter what they say,
The first dry rattle of new-drawn steel
Changes the world to-day!

(A batalha de Edgehill travou-se em Inglaterra em 1642, entre forças leais ao rei Carlos I e tropas do Parlamento. Os realistas ganharam, mas dois mais tarde, os «Ironsides» de Oliver Cromwell derrotaram o exército de Carlos I em Marston Moor, repetindo a vitória em 1645, em Naseby. Carlos I foi capturado em 1646 e executado em 1649. Cromwell tornou-se «Lord protector» da Inglaterra, Escócia e Irlanda em 1653, morrendo em 1658.)
POEMAS PELA GUERRA: Com um mail de Ruy Rey (atenção, Filipe, dois yy) começamos a rubrica Poemas pela Guerra. Em atenção ao sugerido por Eduardo C. Torres, e calculando que a Coluna estima a poesia de Robert Frost, junto envio «Greece», retirado de Early Poems, de uma colectânea de poemas seleccionados e editados pela Gramercy Books de Nova Iorque.

Greece

They say, "Let there be no more war ! "
And straightway, at the word,
Along the Mediterranean shore,
The call to arms is heard.

Greece could not let her glory fade !
Although peace be in sight,
The race the persian wars arrayed
Must fight one more good fight.

Greece ! Rise triumphant. Long ago
It was you proved to men
A few may countless hosts o´erthrow :
Now prove it once again !
ESTAMOS «ENTUSIASMADOS» (FAVOR NOTAR AS ASPAS): Um «leitor entusiasmado» da Coluna escreve-nos:

Trata-se de um blog que une duas coisas muito agradáveis: é de Portugal e é conservador. Foi através do blog de Cláudio Téllez que descobri a existência da Coluna Infame, da qual acabo de me tornar leitor assíduo. Resido em Jundiaí, no Estado de São Paulo, onde, apesar de nossos nomes às vezes italianos, temos também nossas ascendências portuguesas... No mais sobre mim posso dizer que sou um estudante de música erudita na Universidade de Campinas, onde sigo o curso de Composição. De forma que, sendo "conservador" (acredito) em política, não o sou quanto à arte, embora o seja um pouco em comparação com alguns colegas.
Sou também católico, no que posso me dizer conservador por não apreciar as tendências de esquerda que há na Igreja, tanto
as «más» quanto as «ingênuas». Escrevo um blog chamado "O Mercador de Seda", que se pode ler
aqui. (Alfredo Votta Jr)

Comentário: Caro Alfredo, obrigado pelas suas palavras. Qualquer dia mudamos a redacção da Coluna para o Brasil (sem ser no Carnaval, para não termos medo). Ser «conservador» em arte tem pouca importância - sei que o JPC discorda - até porque os grandes artistas politicamente conservadores, do romantismo a Eliot (e mesmo depois) não eram conservadores em arte. Não somos muito kantianos aqui na Coluna, mas desde que lemos a terceira Crítica temos a convicção inabalável de que a arte tem total autonomia. Sem prejuízo de uma reflexão mais pormenorizada que já aqui iniciamos e que prometemos prosseguir. Ah, gostámos imenso do Magritte no seu blog. Ficámos clientes do Mercador. PM

sexta-feira, março 14, 2003

100 % SÓ NO IRAQUE: O Rui Baptista, no mesmo mail, diz-nos que não está 100 % de acordo com tudo o que aqui se publica, comentário que temos ouvido recentemente vindo da direita (supomos que desde o post sobre o Professor Cavaco). Queremos deixar este alerta: os leitores que concordarem 100 % com a Coluna Infame devem procurar ajuda psiquiátrica urgente, porque se trata de uma doença degenerativa que em poucos anos destrói a memória, a consciência e a identidade. PM
IRAQUE E AS VIRGENS: Dois temas conexos, como nos explica um leitor:

Não aprecio especialmente Bush, embora me tenha surpreendido na forma como reagiu ao 11 de Setembro. Acho que não foi eficaz a forma como abordou a questão do Iraque. Transmitiu uma ideia de que queria invadir o Iraque, acontecesse o que acontecesse. Isso deu armas às correntes anti-americanas que envenenaram a opinião pública europeia, bem como a Franceses e Russos que têm medo de perder os interesses que têm na região. No caso de Portugal foi ainda pretexto para que algumas pessoas começassem a fazer campanha eleitoral para as Presidenciais. Mas tudo isto é uma questão de estratégia, não foi perfeita é certo, mas a vida é o que é, não é o que nós queriamos que fosse. E o problema subsiste: o que fazer com o Iraque, mais importante, o que fazer com Saddam? Hipótese 1: Não fazer nada. Acabar com o embargo, nomear Saddam para o Nóbel da Paz e rezar para que não acorde mal disposto um dia destes e resolva aumentar a glória do Iraque, invadindo algum vizinho ou armando algum lutador da liberdade, daqueles que vão a seguir ter com as 70 virgens. Contem com os votos do Berloque de esquerda. Hipótese 2: É a hipótese Ana Gomes que é: sabemos que Saddam tem armas, sabemos que é um tirano, mas temos que o conter sob pressão, que é mais ou menos dizer: manter milhares e milhares de soldados à porta do Iraque indefinidamente (até que o Saddam morra de morte natural) tudo pago, claro está, com o dinheiro dos imperialistas americanos, e manter um embargo que a França e a Rússia violam sistematicamente. Hipótese 3: Invadir o Iraque e afastar Saddam. Instalar um regime prisioneiro de muitos interesses obviamente, mas que com certeza não será pior para o povo iraquiano, e todos no Ocidente podemos dormir um bocadinho mais descansados, porque existe menos um louco assassino à solta. Claro que não me agrada estar do lado de uma guerra, mas graças às patacoadas europeias, corrijo, franco-alemãs, essa é provavelmente a única saída no momento. Eles acolheram Saddam quando deviam ter apoiado Bush na pressão que obrigasse o ditador a abdicar ou a desarmar. Eles é que mataram a última hipótese de a coisa se resolver com o mínimo de horror para os Iraquianos. Agora que a guerra é inevitável, só há uma decisão a tomar, estamos com Bush ou com Saddam? Eu sei de que lado estou. (Rui Baptista)

Comentário: Caro Rui, penso que põe com clareza a questão da guerra: mesmo quem é contra a guerra (opinião absolutamente legítima e defensável) não tem sabido defender a sua posição, porque em geral se deixa cegar pelo anti-americanismo primário. Quanto às 70 virgens, é nítido que se trata de um país não-ocidental. Não creio que em toda a Europa haja 70 virgens. PM
SEM PORVENTURAS PODE SER: O Marreta Statler vem a terreiro defender a sua dama, a sociologia:

Eu sou daqueles que acha que a Sociologia precisa de se apoiar em dados empíricos (ao contrário da escola porventurista, que acha que o empirismo é burguês), mas também pode (e deve) apresentar e discutir ideias. Para isso, há, por exemplo, Niklas Luhman, um neo-funcionalista de boa cepa. Se me perdoar a ousadia, posso aconselhar "Observaciones de la modernidad - racionalidad e contingencia en la sociedad moderna" publicado na Paidós. Veja como começa o capítulo 2: «Se valore como se valore la situación cultural de la actual sociedad mundial, lo que se resalta como especificamente moderno ha sido acuñado por las tradiciones europeas. (...) [S]ólo Europa ha producido descripciones del mundo y de la sociedad que tengan en cuenta la experiencia de un cambio estructural radical de la sociedad desde la Baja Edad Media». Y por ahí va... Capaz de fazer os Porventuras deste mundo apanhar congestões... (Statler)

Comentário: De acordo, caro Statler, estava apenas irritado por ter comprado um livro sobre um tema que me interessa - a suposta «crise de valores» - de um senhor que aprecio, o Raymond Boudon, e me sair um análise estatística que podia ser feita por uma caloira do ISCTE. Voltarei ao assunto Sociologia em breve, porque confesso um animosidade com raras excepções (Max Weber, Simmel) face a essa ciência demasiado humana, e quero explicar porquê. Já agora, uma nota sociológica: o «tu» é de uso aconselhado entre Infames, excepto com as nossas tias, a quem tratamos por «a tia» com vista a obtermos dinheiro para fundar a Spectator portuguesa. PM
NOEL: Tyler, o nosso leitor do outro lado da Mancha, diz em defesa de Noel Gallagher que o rapaz «ridicularizou os anúncios anti-guerra do damien albano e do 3bibi (masive irack)». Anotamos. Mas estarmos de acordo com as posições de um artista não significa gostar da sua obra (desculpa, Manel). PM
E MAIS ISTO: Também anoto que para o Manel há «trincheiras» (ideológicas) na poesia. Aí - mais do que na política stricto sensu - estamos em total e irremediável desacordo. Entre os meus poetas preferidos estão Pavese (comunista) e Éluard (estalinista). Escusado será dizer que o Manel despreza tal ecumenismo... PM
E AGORA...BLOG DE ESQUERDA: Pois é, folks, chegou a nossa rubrica diária. Sobre o Allende, haveria muito a discutir, mas confirmo que com democratas desses ninguém precisa de ditadores. Sobre uma qualquer possível adesão minha ao Pinochet, é simplesmente grotesco face a tanto que aqui já se escreveu sobre essa família política. Será que o Filipe só lê os post da Coluna que não lhe estraguem os argumentos? O elogio a Scolari, esse, teve a ver com o caso Deco. Pura e simplesmente. Nem tudo é política, Filipe. Quanto ao post do Manel sobre a poesia, posso anunciar que temos já vários contributos, que serão postados e comentados daqui a uns dias. Mas anoto a persistente fúria do Manel contra o «estilo» literário. A gente sabe que Marx não é exactamente Flaubert, mas que diabo... PM
LEITORES ATENTOS: Um leitor, cujo nome não conseguimos decifrar, faz uma oportuna correcção sobre Cohen: Creio (posso estar enganado) que foi sim na altura da guerra do Yom Kippur (1973), quando o Egipto atacou Israel de surpresa, houve uma percepção de que o país poderia ser eliminado. Tenho algures em casa uma gravação de um documentário sobre Cohen em que ele explica isso, há uma frase que me ficou gravada na memória, «pacifism is like music for the heart of a killer».... . Tem razão. E o Cohen também. PM
AS NOITES DE BUDAPESTE / SÃO NOITES DE ROCK 'N ROLL: Ou assim opinava o Adolfo. Mas é de literatura que nos fala um mail de um leitor exilado na capital húngara:

Nas ultimas semanas tornei-me um leitor mais atento do vosso blog. Orfão de "O independente" devido à deslocalização e à inexistência de uma versão on-line sentia há algum tempo falta de um jornalismo de opinião adaptado à "minha" realidade . Pois aqui está. Na Coluna Infame. O meu obrigado. Escrevo para um detalhe: Sandor Marai que foi descoberto, por mero acaso, por um editor
italiano enquanto vasculhava um baú de clássicos em edição francesa não é o único escritor húngaro que merecia mais destaque em Portugal. Um dos melhores autores que li nos últimos tempos é hungaro, chama-se Istvan Orkeny (1912-1979) sendo os seus livros mais populares "The Flower Show" e "One Minute Stories". É a arte do burlesco roçando os limites do absurdo. E surpreendentemente actual: A história de "The flower show" tem como base a realização de um "reality show" sobre a
morte (o livro foi escrito na década de 70!) Podem encontrar um exemplo dos seus contos
aqui.

Comentário: Sermos lidos na Nova Europa (mesmo se por um compatriota) é um prazer. Temos anotado as críticas à falta da edição on-line do Indy e prometemos chagar a Inês com o assunto. Quanto aos húngaros, pode ser que beneficiem do famoso (e discutível) «efeito Nobel». Aqui na Coluna gostámos muito de descobrir o Kertész, mas confesso que o único outro húngaro que conheço é Peter Esterhazy e, de nome, Peter Nadas, que me dizem ser o Musil húngaro. Felizmente os nossos amigos da Anglosfera vão traduzindo o que é preciso, e a Amazon está à distância de um clic. Obrigado pela sugestão, you're always welcome. PM
THE HOURS: Não esperava grande coisa, mas realmente tenho que dizer que The Hours é um filme atroz. Todas as suas três narrativas são um flop grotesco. O segmento «Virginia Woolf» enferma da tradicional incapacidade do cinema americano para lidar com a literatura de uma forma minimamente subtil, que não seja a do génio contra o mundo, a do maluquinho com «vida interior» e assim por diante. A interpretação de Kidman (avec le nez) concorre apenas ao prémio de Best Make-Up, e só salvam a trapalhada o excepcional Stephen Dillane (sobretudo na cena da estação) e Miranda Richardson. O segmento fifties é mau de mais para ser verdade: esposas suburbanas frustradas em cenário einsenhoweriano de cliché. Julianne Moore parece em estágio para Far From Heaven (com um realizador a sério), e a cena das águas que rebentam bate o recorde de mau gosto visual desde as pétalas em American Beauty. (Em abono deste episódio diga-se que a boca de Julianne tornaria qualquer entretenimento da Disney num filme para adultos). O episódio «2001» é uma lamentável pessegada, com intelectuais tristes em fluidez sexual e tiques kitsch, com um Ed Harris a fazer apenas de coitadinho agressivo (you can do much better than that, Ed), Meryl Streep na sua performance mais arrepiante em anos e uma realização preguiçosa de Stephen Daldry. (Neste episódio só se salvam os olhos quase desafiantes de uma quase comum Clare Danes). Melodramas (sobre) intelectuais? Não, obrigado. PM
MANIA DAS GRANDEZAS: É impressão de quem ainda não tomou café, ou o PÚBLICO de hoje refere-se a mim?
TOP: O Nuno (Markl) à frente de Saramago no top. O mundo não está perdido. PM
SOCIOLOGIA: Acontece sempre que faço a parvoíce de comprar livros de Sociologia: espero ideias e apanho com estatísticas. PM
MAIS GRANDES: O nosso leitor Rui Baptista mandou-nos um mail com duas partes. As questões sobre o liberalismo serão respondidas no fim-de-semana. Por agora, os Grandes Artistas que ainda nos restam, e outros que ainda cá ficaram:

No cinema: David Lynch. Adoro cinema e há muitos outros que merecem a minha admiração, mas Lynch acima de todos. Na literatura: leio cada vez mais, mas não me sinto com capacidade para nomear ainda grande nomes da actualidade. Gosto muito de Naipaul, gosto de Suskind, Lobo Antunes, Garcia Marquez. Mas ando a ler os consagrados: Kafka, Dostoievski, Cardoso Pires, Eça... Na música: oiço muita música, mas continuo a ser um adepto ferrenho de rock. Não lhe chamaria propriamente Grandes Artistas (não sei se alguém se lembrará deles daqui a 50 anos), e embora cada vez oiça mais coisas e consequentemente menos tempo cada um, as bandas que oiço mais são: Pearl Jam, Radiohead, Placebo (P.M. vejo-te no Coliseu) Portishead, P.J. Harvey, não necessariamente nesta ordem e não necessariamente em todos os momentos. P.S. - Moro em Almada, e não é preciso ser tão pessimista em relação à natureza humana, pode ser que Almada possa ser libertada antes das oito gerações! (Rui Baptista)

Comentário: Obrigado pelas suas escolhas. Lynch: intocável. Não fui adepto da primeira hora mas neste momento é o mais genial construtor de pesadelos estilizados. Nos escritores, Suskind destoa na sua lista: serve para conversar com uma betinha de olhos verdes numa esplanada, mas não é literatura a valer. Naipaul e Garcia Marquez sim, pertencem aos poucos Grandes que ainda respiram. Kafka e Dostoievski são os mestres de qualquer pessimista que se preze (ah, e também são génios). Na pátria, Eça e Cardoso Pires são obrigatórios. A posteridade de Lobo Antunes ainda está em discussão, mas tem grandes momentos. Só um conselho, se me permite: leia também poetas. Na música, o Rui elenca três jóias raras: os andróides paranóicos, a diva da nicotina e Madame Polly. Os nossos amigos gender-benders também se recomendam, sem chegar ao zénite. Mas Eddie e os rapazes soam já foram de década, mesmo com alguma reinvenção sonora (e que eu tenha um blog chamado Coluna Infame se ainda ouço uma certa canção deles obsessivamente). White Stripes é muito engraçado, bastante colorido e um pouco incestuoso: espreite um disco do duo. E se não lhe repugna a imprensa francesa, leia Les Inrockuptibles. Sempre que não se dedica aos sem-papéis e aos direitos dos transsexuais ambidextros é uma grande revista. PM
SIXTIES: O problema com o slogan «sexo, drogas e rock 'n roll» é que uma trilogia não devia conter dois elementos sobrevalorizados. PM
LIBRAIRIE FRANCAISE: Anti-francês, moi? Quem me tira o meu abastecimento trimestral de franceses reaccionários, tira-me tudo. Ao pé do que estes senhores escrevem (em prosa magnífica), a Coluna até parece um estabelecimento recomendável (OK, não exageremos). PM
HAPPY FEW: Um dos maiores prosadores franceses do século passado foi um autor fetiche da Gallimard durante décadas, mesmo se nunca deixou de ser um estrondoso fracasso de vendas. Os livros de Marcel Jouhandeau vendiam à volta de quatrocentos exemplares. Como lhe dizia o seu amigo Jean Paulhan, não é preciso mais. Nem todos os países têm quatrocentas pessoas alfabetizadas. PM
LIVRO DE ESTILO: Aos nossos amigos bloquistas chocados com a linguagem de Vasco Graça Moura, pedimos que releiam o Livro de Estilo da Imprensa Trotskista. A nossa edição, um exemplar coçado encontrado num alfarrabista da Bolívia, não tem no índice capítulos sobre Subtilezas e Eufemismos. Mas é verdade que não temos a nova edição Porto Alegre, em dois garridos CD Rom's. PM
DIREITO OU DIREITA? No DN de ontem o João Miguel Tavares desmontava uma falácia óbvia: os bloquistas e outros Amigos da Humanidade são defensores ardentes do Direito Internacional, e da ONU, sua fiel depositária; mas se a ONU aprovar um ataque ao Iraque... não apoiam essa decisão. Ah, o Direito Internacional... PM
LIBERAIS E ATEUS: O nosso amigo brasileiro pergunta:

É possível ser liberal e ateu ao mesmo tempo? Os marxistas, pelo menos os de carteirinha, são ateus. Há algo que impeça um liberal de ser ateu? (Claudio Andrés Téllez)

Comentário: Eu diria que para ser liberal até convém ser ateu, ou ao menos agnóstico. Neste sentido: a crença religiosa, mesmo que seja imanentista, como o budismo, propõe sempre uma ética, e nalguns casos uma transcendência. Ora uma ética precisa e uma transcendência inescapável não são de molde a conduzir uma vida de acordo com o princípio soberano da liberdade (e estou só a analisar a questão do ponto de vista individual). A liberdade é uma forma de inesperado, e de reinvenção sem mapa, e um crente está de certo modo vinculado a certas coordenadas. No plano político, o mesmo acontece: uma sociedade liberal tenderá sempre a ser uma sociedade utilitarista, que se joga num certo plano de racionalidade (e de racionalidade económica, sobretudo), o que faz da adesão a uma outra grelha de valores uma espécie de viciação das regras. Não quero com isto dizer que seja incompatível ser crente e liberal, até porque é possível compatibilizar a crença com ideologias bem mais bizarras; apenas sustento que o puro liberal é um imanentista, mais preocupado com the pursuit of happiness do que com uma forma de superação humanista. Claro que no protestantismo existe uma via mais propícia a casar liberalismo e fé: Weber explica muito bem o processo no seu livro sobre o protestantismo e o capitalismo. Mas convém acrescentar que um conservador não tem que ser um crente, até porque respeita a autonomia das crenças religiosas. Digamos que no conservadorismo há um pressentimento de ordem que aponta para o espiritual, enquanto o liberalismo é uma filosofia do voluntarismo individualista. Há liberais - e sobretudo libertários - ateus. É mais difícil conceber um conservador ateu, mas realmente há pouquíssimos ateus no mundo, mesmo entre os que se dizem. A maioria das pessoas são agnósticas, porque o ateísmo é ainda uma religião, e dessa religião os conservadores não gostam. Espero que tenha respondido à sua pergunta, Claudio. Estamos cá para isso. PM
O FUTURO RADIOSO: Acabei de rever (pela sexta vez) The Sweet Hereafter, de Atom Egoyan, parte daquilo que eu chamo a Trilogia do Gelo, na qual incluo outros dois dos meus filmes preferidos da década: The Ice Storm e Fargo. The Sweet Hereafter é talvez o mais adulto dos três, provavelmente por ser o mais literário. Russell Banks - que Schrader também já levou ao cinema em Affliction - é um mestre do realismo metafórico, e um dos grandes autores americanos do momento. Em The Sweet Hereafter o mais interessante, no entanto, é que o acidente (com uma carrinha da escola) não é uma metáfora, apenas uma polarização a partir da qual os laços e os segredos de uma comunidade se desvendam. Uma comunidade supõe uma solidariedade difusa, uma cumplicidade equívoca e uma rede de interditos que o filme explora magnificamente (repare-se como o incesto, por exemplo, é tratado de forma subtil e justa). Trata-se de um filme sobre a desolaçao, magnificamente transmitida pelo fabuloso Ian Holm. Our children are lost to us, diz Stevens (Holm), e nesse momento os mortos reais e os mortos metafóricos são um só diagnóstico de um presente nada radioso. A cena quase bíblica da criança que tem que ser salva de sufocar com uma faca é magistral, mesmo porque não é mostrada, servindo como uma imagem forte para os fantasmas de Stevens. A mentira final de Nicole (a tocante Sarah Polley) é um boicote a todo o jogo de interesses, vinganças e frustrações que tomam a morte das crianças como pretexto. E depois há o permanente comentário, introduzido pelos versos que contam a história do Flautista de Hamelin, e que torna certos momentos quase aterradores, embora de uma enorme beleza. Welcome to hard times, diz uma personagem a certa altura, e isso define o filme: uma teia moral que nunca se rompe nem redime, e na qual mesmo o pessimismo é uma atitude ingénua. A masterpice. PM

quinta-feira, março 13, 2003

BRIT: Um mail com uma questão original:

Se há algo que gostaria de ver opinado (telegraficamente ou não) pelos escribas deste blog é um assunto que me apaixona, a mim pessoalmente, e é o que pode se chamar de "A influência e ligações deliciosamente perigosas entre o britpop e o New Labour". Ou seja, gostava de ouvir o que pensam sobre a música dos irmãos Gallagher, da literatura de Irvine Welsh e Nick Hornby (e, consequentemente do quase sub- género cinematográfico que daí directamente nasceu) ou da... er... arte, de Damien Hirst. By the way, não sei se sabem mas saiu um filmeco documental sobre isso mesmo, a ideia não me veio à cabeça sem mais nem menos, confesso. O site sobre este britpopumentario é este. (Tyler)

Comentário: Caro Tyler: De que falamos quando falamos de New Labour? Até há pouco, o Blair merecia-nos a mesma consideração que as pastas dentífricas - contra as quais nada temos - mas ultimamente a questão iraquiana revelou um líder que desconhecíamos, capaz de ir contra os seus interesses por causa das suas convicções. Se o New Labour é Giddens, bom, é o mesmo que a Emanuelle face às Penetrações Anais III: uma versão soft, um pouco pimba, mas no fundo com «alma de pássaro» (no sexual pun intended). A cultura britpop tem ups and downs: os manos Gallagher são herdeiros dignos dos Beatles (o que quer dizer que não os gramo), o Irvine Welsh tem alguma graça (mas desconfio que é sobretudo por causa da escrita fonética), o Hornby é menos pior dos produtos pop (embora a inclusão do I'm Like a Bird nas canções da sua vida levante dúvidas ontológicas e psico-sociais), e o «cinema popular» inglês serve para levar namoradas giras que não leiam Ernst Junger. Damien Hirst é outra coisa: a arte enquanto provocação mediática, o fuck you como teoria, o espanta-burguês em época em que o burguês não se espanta (embora ao pé dos premiados pelo Turner seja o próprio Caravaggio). Esteticamente o neo-pop inglês é um intervalo lúdico e simpático, e ideologicamente representa o dandismo semi-progressista-que-no-fundo-quer-andar-com-modelos. Nesse sentido, é um New Labour com estilistas em vez de sindicalistas. Sempre é um progresso (mas não muito). Cheers. PM
AS VELAS ARDEM: Como católico (em crise) acredito naturalmente em milagres (mas não no do «Prestige», convenhamos). E o que pode estar a suceder senão um milagre quando um romance excepcional de um (entre nós) desconhecidíssimo autor húngaro atinge a 4 ª edição? Terá sido à boleia do Kertesz? Não creio, antes disso já havia um considerável sucesso de estima. Refiro-me a As Velas Ardem Até ao Fim, de Sandor Marai. É uma belíssima história sobre a amizade, numa espécie de realismo de fábula, passe o paradoxo. Marai viveu o nazismo e o comunismo e suicidou-se nos Estados Unidos em 1989 (bad timing, se me permitem). A edição portuguesa é da Dom Quixote. PM
A/C LARGO DO RATO: Esqueci-me evidentemente de lançar um desafio ao Pedro Adão e Silva (eu trato o poder por «tu» por antecipação de década); é urgente a criação de um Blog da Rosa ou afim, que exprima a corrente política do «socialismo democrático» (mais conhecida por «burgueses a fingir que gostam do povo»). É que sentimos falta de gente dessa área a polemizar, até porque, ao contrário dos nossos amigos marxistas, os rosinhas de vez em quando estão no poder, e têm sempre que fazer essa divertida conciliação entre a (tímida) vontade de mudar o mundo e... o mundo. Socialistas, encore un effort. PM
POST OFFICE: Algumas regras básicas sobre o correio, dado o considerável aumento de tráfego. Os mails recebidos pela Coluna Infame são - salvo menção em contrário - passíveis de publicação, mesmo se em versão editada, por razões de clareza e sintaxe. Agradecemos dúvidas, comentários, indignações, alerta para gralhas e erros, fantasias íntimas, trocadilhos inanes e indicação de sites porcos. Os mails serão respondidos no mesmo tom em que forem escritos: cordialmente os cordiais, ironicamente os irónicos, sisudamente os sisudos, e assim por diante. Excepção para os mails insultuosos, que não terão evidentemente resposta, e cujos endereços adicionaremos a listas de spam que tenham por tema «Increase Penis Size Now» (porque em geral a malta insultuosa tem problemas conexos). Mais esclareço que só há uma pessoa com o cargo de ler, postar e responder aos mails (adivinhem quem), pelo que algum atraso terá de ser perdoado. A morada, uma vez mais, é colunainfame@hotmail.com. Que o Grande Arquitecto esteja convosco. PM
FORÇA FELIPÃO: Scolari não gostou das bocas e bitaites de Figo e demais estrelas sobre Deco. Quem manda na selecção sou eu, disse Felipão, e quem não estiver de acordo que se mude. Pronto, mais um Infame. PM
GORBY: Gorbachev diz que Saddam deve abandonar o Iraque, para evitar a guerra. Os esquerdistas é que tinham razão: este Gorby não é de confiança. PM
INFAME: Os polícias do pensamento já suspeitavam que o crítico de televisão do PÚBLICO, Eduardo Cintra Torres, tinha uma costela Infame. (Será que «Torres» conta como consoante dobrada, Filipe?). Agora, o Eduardo mandou-nos uma boa sugestão:

Proponho que os frequentadores do blog vão enviando para publicação poemas ou versos que encontrem a favor da guerra. De Homero a Pessoa and beyond há um acervo de poesia militantemente bélica com bons versos. Aliás, o único limite à minha sugestão é que os versos sejam bons. Depois mandamos editar a selecta em livro, talvez em Coimbra. E oferecemos um exemplar aos demagogos do dia que nos andam a esconder toda a boa poesia a favor da guerra produzida no mundo desde há milhares de anos. (Eduardo Cintra Torres)

Comentário: Os nossos literatos de esquerda são muito selectivos, Eduardo. São até capazes de dizer que não há poesia de exaltação da guerra. Homero, por exemplo, era um pacifista. PM
MAIL: O fim-de-semana será dedicado ainda ao tema Conservadores e Liberais, e daremos resposta às várias cartas sobre o assunto que nos têm chegado. Quem diria que há por aí tanta gente interessada em tais matérias? O nosso pessimismo gosta de se enganar. PM
MEETING COLUNA / PS: A propósito, um terço da Coluna teve hoje ocasião de conhecer um futuro ministro da nação, quiçá nosso Primeiro em décadas vindouras, e que é leitor deste blog acastanhado. Pedro Adão da Silva pareceu-nos um tipo às direitas (errr...não era isto que queríamos dizer) e com bom gosto em mulheres. E, além disso, inteligente, ecuménico e divertido. Coitado do Pedro, a ter de aturar os Narcisos... PM
ENQUANTO ISSO, NO RATO: No PS, Jaime Gama quer «esclarecimentos», enquanto Ana Gomes diz que foi uma decisão «criminosa». Quem manda na loja? PM
DURÃO: Durão disse que Portugal apoiará um ataque americano ao Iraque, mesmo que sem apoio das Naçoes Unidas. É uma decisão: 1) moralmente correcta 2) constitucionalmente legítima 3) políticamente clara 4) estrategicamente leal. Num momento destes não precisamos de políticos sinuosos, mas de posições firmes. Durão sabe de que lado está. Nós também. PM
TO BE CONTINUED: Correm notícias de que João Pereira Coutinho, José Mário Silva e Pedro Mexia se têm reunido regularmente com vista à preparação de um projecto cultural comum. Estaremos atentos aos rumores de tal aberração, e não deixaremos de a denunciar impiedosamente assim que tivermos mais pormenores. Os eventos contra-natura não passarão. PM
INFAMES: Depois de lermos o artigo de ontem de Vasco Graça Moura, suspeitamos fortemente que o cronista do DN anda a ler a Coluna Infame. PM
COMANDANTE COHEN: Recomendamos a «provocação musical» que o Voz do Deserto nos propõe:

Esse grandessíssimo judeu que é Leonard Cohen coloca-nos uma pergunta: "why don't you come on back to the war?".

Já houve um tempo em que a esquerda gostava de Cohen. Mas aquando da Guerra dos Seis Dias, Mr. Cohen ofereceu-se como voluntário israelita. Ó Leonardo, o que foste fazer... PM
FINALMENTE: Já tínhamos alguns mails zangados e protestativos. Hoje, finalmente, tivemos hate mail (e sublinho hate). Gostamos imenso destes democratas. PM
SÓ DÁ BRASIL: Mais um mail de além-mar:

Meu nome é Martim Vasques da Cunha e, apesar de ser brasileiro, sou filho de portugueses (como atesta o meu nome) e, graças ao blogue do Cláudio Téllez, cheguei à Coluna Infame. Logo me deparei com um blogue com um texto brilhante, opiniões sólidas (as opiniões conservadoras são sempre sólidas) e, surpresa das surpresas, com algo que não acontece por aqui: inteligência mesmo nos setores esquerdistas, sempre detectadas pelos olhos conservadores. Não sei se vocês sabem, mas no Brasil a cultura está dominada por uma hegemonia esquerdista que mistura Antonio Gramsci com seitas New Age, o que cria um pandemônio inigualável. Os esquerdosos (como costumo chamar os vermelhinhos - uma síntese de esquerdistas com asquerosos) são sempre pessoas sem cultura, que lêem os piores autores e não se importam em saber o que pensam o outro lado (por exemplo, um blogue como o Blog da Esquerda e o diálogo que a Coluna tem com ele é praticamente impossível no Brasil). Como se não bastasse, temos na Presidência o sr. Lula, do Partido dos Trabalhadores, apologistas de Che Guevara, Fidel Castro e Hugo Chávez, além de possuir conexões sinistras com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Claramente trata-se de um partido totalitário - mas ninguém na imprensa nacional ousa acusar isso, exceto sujeitos como o embaixador Meira Penna (www.meirapenna.org), o filósofo Olavo de Carvalho (www.olavodecarvalho.org), o jornalista Sandro Guidalli (www.midiasemmascara.org)e o jornal eletrônico O
Indivíduo (www.oindividuo.com), editado por Alvaro Velloso de Carvalho do qual sou um dos colunistas. Todas estas pessoas
são, por uma feliz coincidência, conservadoras e conhecedoras da tradição católica. O resto é uma waste land digna do poema
de Eliot. Espero que vocês continuem com A Coluna Infame e que não desistem, mesmo que tudo pareça que vá contra os desígnios
superiores. P.S. Vocês escreveram que Michael Oakeshot como o maior filósofo conservador do século XX. Mas já ouviram falar em
Eric Voegelin? P.S. 2: Explique-me a razão de sua desconfiança em relação a Stanley Kubrick.
(Martim Vasques da Cunha)

Caro Martim: (o Filipe pensa: «Martim»? «da Cunha»? Ah, o grande facho!) Ficamos realmente satisfeitos por estarmos a ser conhecidos no Brasil entre os blogs conservadores, e agradecemos as palavras. Tenho estado, nos últimos tempos, em notória aproximação à imprensa e cultura brasileiras (por causa de autores como Bernardo Carvalho ou Carlito Azevedo e, mais recentmente, do nosso very own Nelson Ascher) e muito me agrada ter feed-back desse lado. Como já aqui escrevi, fico espantado com esses núcleos de resistência intelectual no Brasil. Temos seguido os orgasmos múltiplos que se sucederam à eleição de Lula com um divertimento entristecido. (A propósito, Martim, vá-nos mantendo a par das ocupações selvagens por parte do MST). E prometemos visitar esses blogs e sites que nos aconselha. Quanto ao nosso bom relacionamento com o Blog de Esquerda, tem muito a ver com amizades pessoais, que para nós (e para eles) estão acima das divergências ideológicas. Mas não se iluda: em geral, nem a direita nem a esquerda são assim tão ecuménicas em Portugal. Estamos, espero, a dar um bom exemplo. Quanto aos autores, conhecemos o Voegelin, claro, mas deixarei o Pedro Lomba falar-lhe dele, porque saberá fazê-lo muito melhor do que eu. Quanto ao Kubrick, em estilo telegráfico a minha opinião pessoal: pretensão intelectual, frieza laboratorial, completo alheamento da vida (o que quer que isso seja), virtuosismo estéril, pessimismo soturno, e outras coisas assim. O Eyes Wide Shut é uma súmula perfeita disso tudo. Continue a ler-nos, continue a escrever, vamos fazer o possível por manter esta ligação ao Brasil. PM


É CARNAVAL, NINGUÉM LEVA A MAL: Os leitores do Blog de Esquerda têm o curioso hábito de responder aos posts... da Coluna Infame. Tudo bem. Quero só esclarecer o Filipe Moura que o «estou maravilhado» era apenas uma referência jocosa ao anúncio dos tele-encontros (que talvez ele não conheça), que os sidicalistas de que falávamos não eram o Bernardino e que os Infames não têm - valha-me Deus - «medo» do Carnaval (!!!). As nossas referências negativas, aliás, eram ao pífio Carnaval português, e nisso semelhantes às do próprio Blog de Esquerda (não conhecemos o Carnaval brasileiro in loco, e por isso é difícil saber se gostamos). Medo de gente aos saltos, de máscaras e maminhas? Ó Filipe, que ideia tão estranha... Finalmente, gostámos de conhecer a suspeita generalizada do Filipe face a pessoas com consoantes dobradas. Gente sem preconceitos é outra coisa. PM

quarta-feira, março 12, 2003

A COLUNA: A Coluna Infame é um blog de ideias, recados e insultos. Não aconselhável a almas sensíveis. Os nossos interesses oscilam entre Kleist e a cabeleireira do pátio. Politicamente, toda a gente já sabe o que somos. Escrevam-nos para colunainfame@hotmail.com. Atenção que às Terças estamos a tirar um curso de formação no FBI. Um abraço a todos. PL
A MULHER DA SIC: 4 h e 36 m e 20 segundos. Foi o tempo que perdi a ver a Sic Mulher, o novo canal para a mulher «jovem, urbana e actual». Estou fisicamente exausto. O canal para a mulher jovem, urbana e actual» pretende distinguir-se pela elevação dos programas. Não há ali um centímetro de perna feminina ao desbarato. A mulher «jovem, urbana e actual» tem um estatuto; é decidida e independente; é culta e delicada; e é atenta. Mas não pensem, ó alarves, não pensem que conseguem dali qualquer grão generoso de concupiscência. A «mulher jovem, urbana e actual» protege-se e valoriza-se. Certo? Certo. E, todavia, pergunto: não haverá uma mulher jovem, urbana e actual» que é, exactamente, o oposto da Mulher do canal da SIC. A mulher que julga ter ascendido à igualdade por dizer ‘foda-se’, em coro com o matagal masculino. Esta mulher pode ou não ver o canal da SIC? PL
A VOZ: Os elogios à Voz do Deserto são profundamente merecidos. A Voz escreve pouco, prefere o silêncio, o dito certeiro e luminoso, quase o aforismo, a intuição feliz. O autor da Voz chama-se Tiago Cavaco. Mas será o Tiago Cavaco que andou comigo no liceu nesses tempos idos em que os irmãos Bros (sim, lê-se como vocês querem que se leia) fingiam que cantavam? PL
O EXTERMINADOR IMPLACÁVEL: It's Eurico, folks, e veio para arrasar:

Já que o Pedro Mexia deixou a data passar em branca nuvem de opinião, eis uma pequena contribuição para mais um aniversário do 11 de Março. Que pena, que pena, oh mas que pena que o 11 de Março não tenha triunfado! Tinha sido um 25 de Novembro antecipado e ter-nos-ia (talvez) poupado aos momentos mais involuntariamente dadaístas do PREC. (Por outro lado, o que seria a minha geração sem a memória gloriosamente delirante e imperecível dos discursos do companheiro Vasco no «Verão Quente»? E da dolorosa recordação das coronhadas indiscriminadamente infligidas pelas bestiagas do COPCON à saída do inesquecível concerto dos Genesis - ainda com Peter Gabriel - em Cascais? E da troca de pedras e «slogans» e insultos e chumbadas e alguns balázios dos que matam com a extrema-esquerda no Chiado e no Camões ao sol morno da Primavera de 75, num micro-arremedo urbano de batalha de guerra civil?) Um dia talvez escreva as minhas histórias trágico-patéticas do 11 de Março, nomeadamente a do militar contra-revolucionário que antes de conduzir as suas tropas para fora do quartel e tomar o objectivo que lhe estava definido, decidiu ler uma muito inflamada e floreada proclamação revoltosa... e foi detido logo a seguir, está claro. E ainda se admiram que a direita militar raramente tenha dado uma para a caixa no pós-25 de Abril? Pronto. Lá se passou com pézinhos de lã mais um aniversário do 11 de Março. Como passará outro do 28 de Setembro. Para o ano é o 30º aniversário do 25-do-quatro. A ver se se poderá fintar a história (a cair cada vez mais para a mitologia) oficial e dizer umas quantas blasfémias sobre o tema e remar contra a corrente da vulgata heróica convencionada e dar uns quantos pontapés na vitrola que é pressurosamente posta a tocar o disco poeirento e riscadíssimo dos generosos-capitães-de-Abril, o equivalente político de um «Best of» da orquestra do James Last. E que se possa fazê-lo não só nos Blogs da Internet... (Eurico de Barros, num dia em que acordou mais reaccionário)

Comentário: Aqui na Coluna fomos poupados a uma memória activa dos anos dadaístas. Mas conhecemos bem a história dessa criminosa rebaldaria. E gostamos de a recordar, para não nos deixarmos apanhar em ingenuidades de carneirada. Se a «democracia popular» tivesse triunfado, nenhum de nós (os Infames, o Eurico, os blogs amigos) teria a liberdade de escrever o que escrevemos. Por isso, preferiremos sempre Novembro a Abril. PM
ESTOU MARAVILHADO: Mais um mail do país que nos deu Nelson Rodrigues, o guaraná e Deco:

Tenho estado acompanhando A Coluna Infame e estou maravilhado com a qualidade dos textos. Sou estudante de Matemática na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e devo me formar no final deste ano. Pretendo fazer o Mestrado em Economia. Desde criança, lembro-me de que a esquerda nunca foi bem vista aqui em casa - pois os meus pais e avós viveram todo o período de Allende, no Chile, e conheceram muito bem o que é um governo de esquerda. Foram anos de terrorismo, badernas pelas ruas, saques, desabastecimento, contrabando de armas cubanas, brigas nas ruas, violência, insegurança, etc. Costuma-se dizer que os anos de chumbo foram os de Pinochet, mas com certeza muito mais chumbo foi gasto pelos guerrilheiros de grupos como o MIR durante os três anos de Allende do que pelos militares durante todo o período militar (incluindo treinamentos). Pretendo escrever algo mais consistente sobre os tristes anos de Allende, mas ainda estou reunindo o material e no momento os estudos estão me tomando quase todo o tempo. Talvez pela experiência da minha família, talvez pelas leituras que tive desde criança, as minhas convicções são liberais. É justamente por isso que admiro muito o blogue de vocês: os textos são ótimos, tenho aprendido muitas coisas nestes últimos dias. Às vezes fico um pouco perdido quando as questões abordadas são sobre a política em Portugal, mas no resto estou adorando. (Claudio Téllez)

Comentário: Caro Cláudio, muito obrigado por nos escrever e pelas simpáticas palavras. Vou-lhe contar uma história. O ano passado, estava eu em Paris (hospedado, naturalmente, chez Sarkozy), e assistia a uma conversa com um poeta chileno, refugiado, anti-fascista, esquerdista, the works. E a certa altura alguém, para lhe adoçar a boca, elogia Che Guevara. O chileno, homem extremamente calmo e prazenteiro, muda de expressão e pede mais ou menos isto: «Não me falem desse senhor, fui amigo de muitos companheiros dele. Era um escroque, um terrorista da pior espécie. É pena que o Ocidente compre essas mitologias imbecis». E não juro que não tenha usado a palavra «cabrón». Moral da história: nós aqui na Coluna sabemos bem as mitolgias esquerdistas e os seus pés de barro, e a mitologia Allende é particularmente desonesta. Não somos, valha-me Imperio Argentina, por Pinochet. Mas não engolimos versões oficiais. Temos franca admiração pelos nossos amigos brasileiros que nos escrevem e que professam resistência ao esquerdismo obrigatório, sobretudo num terreno tão minado como é a América Latina. Quanto à política portuquesa, Cláudio, aqui vai um primeiro esboço. Temos cinco partidos: um conservador (que se diz popular), um liberal (que se diz social-democrata), um socialista (que é em parte social-democrata), um comunista (que é estalinista) e um trotskista (mas na verdade amigo do charro e do sexo em grupo). Nenhum deles é bom. Portugal é um país atrasado, mas a Grécia é mais. Os sindicalistas gostam da Coreia do Norte e os taxistas de Salazar. O Presidente da República foi ao casamento do Rei. Somos todos católicos não-praticantes, excepto 10 % da população, que é zapatista. Mais lições de algibeira em breve.

P.S. Visitem o blog do Cláudio aqui. PM
AO VER O SALDO DE CONTA: E pensam os nossos leitores esquerdistas que os Infames são das classes possidentes... PM
OH INCLEMÊNCIA: Perante certos leitores de poesia, só me lembro da expressão de um finíssimo amigo meu: «Este homem é o João Villaret português». PM
O PAPA: «O Papa», ia ele a dizer, e eu pedi «Não falemos do Papa, por favor». Afinal, ele só ia comentar a namorada nova do Pinto da Costa. PM
DE ACORDO: Finalmente um assunto em que estamos de acordo com o Blog de Esquerda, para além de Paul Auster e da heterossexualidade. O jornalismo de tendência é urgente, e penso que será a nossa geração a quebrar a actual situação aberrante da imprensa portuguesa. Declaro aliás, que comprarei o jornal que a esquerda fundar, como comprava o (mas não, desculpem, a Visão). Quanto ao Independente, a cujas fileiras agora também pertenço, o Ivan tem razão quanto ao site, mas é um pouco severo com o jornal. Claro que os Anos de Ouro Portas / MEC / VPV não se repetem facilmente, mas quando a crise acabar (someday) o Indy será um jornal melhor do que é agora; por agora, cumpre a função de ser o agregador de colunistas conservadores, que é o que essencialmente se lhe pede. E mais tarde ou mais cedo também haverá um diário conservador. Os nossos mealheiros crescem a olhos vistos. A nossa posição sobre a guerra não é de borla. PM
FNAC DAY: Amanhã (hoje) vou à FNAC, fazer a ronda do costume. E à minha espera vão estar, na prateleira da política, os mais recentes livros do Scruton e do Paul Johnson e uma carrada de Arendts, Berlins e Arons. Not bloody likely... PM
OH O QUE ME CUSTOU: Oh o que me custou não escrever um post sobre o 11 de Março. PM

terça-feira, março 11, 2003

DURÃO: Leiam este artigo da Constituição da República portuguesa. Esqueçam a prosa: é indigesta porque os nossos constituintes não leram, infelizmente, Balzac. Há quem diga que este artigo é violado, simplesmente porque Durão Barroso prometeu auxiliar os Estados Unidos numa intervenção militar, mesmo sem resolução das Nações Unidas. Auxiliar significa ceder o nosso espaço aéreo e a inevitável Base das Lajes. Ponto. Se já leram, podem ver como o artigo dá para tudo: tanto para sermos uma espécie de Cuba europeia como para nos empenharmos na promoção da democracia e direitos humanos a nível internacional. PL
NO COMMENTS: Timor manifestou apoio aos Estados Unidos e Vital Moreira escreveu hoje no Publico que há «Estados que nunca chegam a ser independentes». Suponho que este é um bom exemplo daquelas frases que não se comentam. Vital Moreira não escreveria o mesmo se Timor adoptasse posição inversa. A liberdade de opinião - de pessoas ou de Estados - é mesmo uma chatice. PL
DIREITO INTERNACIONAL: Mais lá para o final do dia, quando acabarmos o expediente e outros afazeres gravosos, poremos aqui um post sobre as declarações de Durão Barroso face à Constituição portuguesa (ou Prostituição, como dizia Nelson Rodrigues). Antes de falarem na Constituição, benzam-se. PL
O ESPECIALISTA: Pedro Bacelar é um jurista heterodoxo cujo doutoramento mistura citações de Carl Schmitt e Pearl Jam. Mas não insultem: para a TSF o homem é o nosso especialista. PL
GO-BETWEENS: I have known a hundred women / part of me loves to fail - isto é Go-Betweens. Que tocarão cá, brevemente, no Paradise Garage. Don't miss it. PL
CALVINO E KLEIST: Mais dois blogs recentes, e bem curiosos. O primeiro, Voz do Deserto , se bem percebemos, é calvinista (!), mas faz prova de um sentido de humor brevíssimo e devastador, e mergulha alegremente nas delícias e horrores da cultura popular. Um must. O outro, umblogsobrekleist, é... um blog sobre Kleist (outro dos meus autores de cabeceira). Autor: Alexandre Andrade (com quem já aqui polemizámos), um escritor que deviam absolutamente conhecer. O site serve de certo modo como montra do seu work in progress. É por isso um dos blogs mais literários, e não se aconselha a fãs da Shakira. A blogosfera portuguesa cresce a olhos vistos. PM
PARABÉNS: Aos católicos da carneirada aconselha-se a leitura das bicadas ao Papa no Blog de Esquerda. Parabéns pelos aliados. PM
PUBLICIDADE QUASE TOTALMENTE DESINTERESSADA: Quase, porque o livro tem um micro-poema meu. Aliás, é essa a ideia: poemas curtos ou excertos curtos de poemas para se mandar por SMS, esse novo meio de sussurrar. Chama-se A Alma não é Pequena, foi organizada por Jorge Reis-Sá e valter hugo mãe, e vai de Garrett a Pedro Sena-Lino. Namorem com a poesia portuguesa. PM
PUBLICIDADE TOTALMENTE DESINTERESSADA: Saíram dois livros que só têm desculpa para não comprar se estiverem com salários em atraso. São eles Molloy (1951), primeira parte da trilogia de Samuel Beckett e O Salteador (escrito em 1925, publicado em 1972) de Robert Walser, o senhor da Branca de Neve e o segredo mais bem guardado da literatura romântico-modernista. Ambos publicados em português pela Relógio d' Água. PM

segunda-feira, março 10, 2003

THE PRIVATE IS POLITICAL: Dizem-me que determinada figura pública (um intelectual de alto coturno) tem a posição que tem sobre esta guerra (pró) porque é muito americanófilo (viveu e ensinou nos EUA, etc.). É evidente que não é boa ideia confundir a experiência pessoal e as posições políticas, mas é também evidente que ninguém escapa à sua biografia e às suas simpatias e antipatias. Nós na Coluna somos assumidamente americanófilos, e portanto tendencialmente apoiantes das políticas americanas. E assumimos isso. Porque não assumem os anti-guerra (boa parte deles) a sua evidente americanofobia? Ficava tudo tão mais claro. PM
GANGS: Eurico «Bomb Israel Instead» de Barros escreve-nos sobre Gangs of New York:

Umas achegas para a leitura de «Gangs de Nova Iorque». Gosto muito, muito de Martin Scorsese, desde o tempo em que «Taxi Driver» estreou e alguns do que agora lhe chamam «mestre» o acusaram de «fascista», mas «Gangs of New York» é um filme inaceitável, desde a sua história de vingança de cordel arvorada em «tragédia» pífia de substituição do pai/filho, até ao complexo «felliniano» tendência «Satiricon» da encenação (fez mal a Scorsese ter ido filmar à Cinecittà...). Mas pior do que tudo são as distorções históricas. Por exemplo, os motins não foram, como o filme nos quer fazer querer, um levantamento multiétnico dos deserdados da cidade contra o recrutamento obrigatório e a isenção do mesmo pelo pagamento de uma soma elevada - os sublevados eram exclusivamente irlandeses, os emigrantes alemães não alinharam. Por outro lado, os irlandeses agiram levados em boa parte por um violento ressentimento social e racial contra os negros libertados que chegavam a Nova Iorque com mais capacidades laborais e educação do que os irlandeses, muitos dos quais nem sequer falavam inglês. No entanto, se há grupo que é glorificado no filme, são os irlandeses - que se esmeraram a atacar, mutilar e matar negros e judeus, orfanatos e igejas protestantes.
A verdade é que a importância - política, social, cultural e económica - de Nova Iorque à época é exagerada por Scorsese, que puxa a brasa à sua sardinha nativa. E se a «América nasceu nas ruas», como diz a «tagline» publicitária do filme, não foi nas de Nova Iorque, onde a escumalha se levantava por razões mesquinhas, mas nas de cidades patrícias como Boston e Filadélfia e em vários campos de batalha, onde um povo que queria afirmar uma identidade nacional nascente e os seus valores específicos, derramou o seu sangue pelas liberdades fundamentais de que hoje gozam, alarvemente, os seus decaídos e inconscientes descendentes.
(Eurico de Barros)

Comentário: O Eurico tem toda a razão nos comentários históricos, que aqui já tínhamos sugerido. Histórica e politicamente, Gangs é um filme falhado, e também é problemática a intersecção entre a história privada e os eventos públicos. Mas há momentos tão bons em Gangs, que é como um livro em que certas páginas geniais quase equilibram todos os outros defeitos. Como dizia um amigo meu: foi um empate entre Scorsese e a Miramax. PM
CAROS LEITORES: Temos recebido bastantes mails sobre a questão Conservadorismo vs. Liberalismo, que iremos publicar, comentando, nos próximos dias. Compreendemos a vossa impaciência e as vossas queixas pela morosidade, mas dêem-nos algum tempo. Não fazemos só isto na vida. Não se esqueçam que passamos boa parte do dia ao telefone com o Pentágono. PM
SOPHIA 1 RUMSFELD 0: Obrigado aos leitores e leitoras pacifistas que nos mandam poemas contra a guerra. É o grande mérito da literatura: não temos que concordar para gostar. PM
MULTILATERALISMO DE CONVENIÊNCIA: Um leitor opina:

A propósito da crise na Coreia Norte, não deixa de ser surpreendente a posição da comunidade internacional com destaque para a China, Rússia, os «pacifistas» França e Alemanha e por arrastamento a ONU, que viu os inspectores da comissão que regula a Energia Atómica, serem corridos da Coreia do Norte (tal como aconteceu no Iraque em 98). Todos eles procuram alhear-se do problema, atirando os EUA para a boca do lobo. A China e Rússia, que mantém com este regime relações privilegiadas, até porque receberam o querido líder há pouco tempo, têm usado a Coreia como arma de arremesso contra os EUA, pois a sua não intromissão nos assuntos da Coreia é o mesmo que dar luz verde à sua política de chantagem face ao Ocidente e aos EUA. E a ONU que em vez de chamar a China e Rússia às suas responsabilidades, pela proximidade geográfica e influência política face à Coreia do Norte, tem-se alheado do problema ( tal como o fez em 95 em relação ao Kosovo). É assim que o Direito Internacional se constrói? É esta a nova doutrina dos países que se sentem inferiorizados face aos EUA, alhearem-se e empurrar os EUA para a resolução de conflitos do género e depois à ultima da hora aparecerem como grandes defensores do multilateralismo e do apaziguamento pacifista, tal como acontece agora com o Iraque. Será este o caminho do Direito Internacional e da ONU que alguns tanto defendem ? É que se for, eu por mim dispenso… Quanto ao Prof. Palhinhas e à sua passagem pela ONU , as suas explicações estão ao mesmo nível intelectual daqueles que odeiam os espanhóis porque um dia foram passar férias a Espanha (como poderiam ter ido a França ou aos EUA…) e foram mal atendidos num qualquer hotel….descobrindo ali a sua causa. (Jorge Bento)

Comentário: Nenhum. Tem o leitor toda a razão. PM
OS PUTOS BELICISTAS: De vários lados, desde os rapazes da Periférica (thanks for the magazines, guys) até leitores que preferem não se identificar, passando pelas moderadíssimas namoradas, vários nos apontam o nosso excesso «belicista», o nosso «entusiasmo» pela guerra, e outras coisas assim. Lamentam sobretudo que não tenhamos em consideração os mortos e demais horrores. E perguntam se nos vamos alistar e partir para a frente de batalha. Compreendemos a inquietação dos puros de coração. Mas os Infames não são «entusiastas» da guerra, de nenhuma guerra. Isso só os Futuristas e os negociantes de armas. Nós achamos que esta guerra se justifica, e por isso defendemos a intervenção militar. Isso não significa que não tenhamos em consideração os horrores da guerra: mas os horrores são comuns a todas as guerras, e decerto estarão de acordo que mesmo as guerras mais justas - como a guerra contra o nazismo - causam violências abomináveis, umas inevitáveis e outras que podiam ter sido evitadas (Dresden, p. ex.). Por isso, questionar uma guerra pelo lado dos mortos e feridos não tem sentido. O que importa é estabelecer se a guerra é o único meio de atingir um fim mais valioso (neste caso, o desarmamento do Iraque) e, se for, tentar que essa guerra cause o menor número de vítimas inocentes. Caso contrário, todas as guerras seriam imorais, porque todas as guerras matam gente. Não penso que seja isso que defendem os transmontanos, os leitores e as namoradas. Quanto ao «belicismo de secretária», não chega a ser um argumento. Nenhum de nós gostava de combater numa guerra. Nenhum de nós gostava de combater sequer numa guerra justa. Temos, como toda a gente, o instinto de sobrevivência, e temos, como toda a gente, medo. Mas se o instinto de sobrevivência e o medo fossem os critérios para não fazer as guerras justas, estaria agora a escrever este post em alemão. PM
PARIS NÃO APROVA: Num texto postado no site dos nossos «irmãos inimigos», a correspondente em Paris dispara. Citamos:

Não li a entrevista de Freitas do Amaral e tomei conhecimento dela apenas pelo post de Pedro Mexia. Esclareço desde já que não tenho particular simpatia por Freitas do Amaral. Limito-me aqui a fazer algumas observações de carácter formal a esse post: a utilização recorrente de diminutivos insultuosos e tendendo ao enxovalho por parte do Pedro Mexia. Sem função argumentiva absolutamente nenhuma, a única função deste recurso... (chamemos-lhe generosamente...) estilístico, é plenamente retórica, visando a colocação imediata do adversário no plano do ridículo. O que é quase invariavelmente sinal de fragilidade argumentativa e de falta de seriedade na discussão; a relação entre «acreditar no Direito internacional» e a «santa ingenuidade» é a que pode estabelecer um «espertalhaço» perante alguém que respeita as funções para as quais foi designado e as tenta desempenhar o melhor possível. Dir-se-ia que é de uma «santa ingenuidade» um médico que acredita na medicina? Um físico que acredita no método científico? Um escritor que acredita na literatura?; o argumento de peso dado pelo Pedro Mexia para refutar a consideração de Bush, por Freitas, como sendo de extrema-direita, é a do anti-americanismo deste. Anti-americano porquê? Porque considera Bush de extrema-direita... as argumentações circulares nunca foram muito produtivas em discussões que aspiram à honestidade;
que Chirac seja um pateta é evidentemente um juízo de valor, partilhado por muito boa gente (e este talvez seja o único ponto em que estou de acordo com o Pedro Mexia, embora suspeite que por razões muitíssimo diferentes). Que a França signifique alguma coisa no mundo de hoje, já é outra história. Significa pelo menos um dos pólos do eixo Paris-Berlim, cujo papel na construção europeia me parece dificilmente refutável. Significa também, hoje, um veto a uma guerra contra o Iraque cujas implicações políticas e curiais não poderão ser ignoradas; Pedro Mexia distingue, no que diz respeito ao Papa, a posição «contra a guerra» e a posição «contra os EUA». Distinção que opera quando lhe convém, já que ela desaparece misteriosamente quando se refere a Salazar. A menos que Pedro Mexia tenha dons mediúnicos privilegiados, não me parece que da antipatia de Salazar pelos EUA se possa concluir o que quer que seja relativamente à posição que ele assumiria relativamente a esta guerra. O argumento não o é, por conseguinte; a falácia é velha como o tempo e as leis da implicação formal estão longe de ser respeitadas, como o deveriam ser num debate honesto.
Porque ainda há diferença entre discussão honesta e... canto livre. Ou estarei eu também nessa «santa ingenuidade» de que fala o Pedro?
(Vera Rodrigues)

Comentário: Cara Vera, essa da «implicação formal» atirou-me do cavalo ao solo. Estamos nós em combate verbal destemperado e inconsciente, e apanhamos com regras lógicas e retóricas na cabeça. Prometo ir ler o Prof. Carrilho, e não tornar a pecar. Vamos então ao conteúdo das queixas da Vera. Em primeiro lugar - e como sempre - o estilo. Sem me querer repetir, direi apenas que um blog - este blog pelo menos - não é exactamente uma forma de jornalismo, mesmo que por vezes possa ter essa função para alguns leitores. Assim sendo, há toda uma série de regras de ponderação, equilíbrio, imparcialidade e assim por diante que aqui não se aplica. Não somos, valha-me São Leopoldino, o Sarsfield Cabral. Este é um blog de política, de combate político se se quiser, e daí conter a sua boa dose de ataques, imprecações, truques de linguagem de menorização do adversário, e assim por diante. Nesse sentido, somos aparentados à imprensa política alinhada. E quanto ao que a Vera chama excessos de linguagem, francamente, Vera, eu já li muitas vezes o Combate e conheço da net grande parte da imprensa vermelha, do vermelho pálido ao vermelho gritante; clamar «exagero!» vindo desse lado é um pouco estranho. Quanto ao «Direito Internacional», a comparação que a Vera faz não vale: a medicina é uma ciência, a física é uma ciência, e a literatura...bem, a literatura não sei bem, mas é alguma coisa. O Direito Internacional, pelo contrário, é - com excepção de meia-dúzia de regras básicas - wishful thinking. Eu tive uma cadeira de Direito Internacional no malfadado curso e sei bem que se trata de um jogo de boas vontades, chantagens, hipocrisias, missionarismos, e do poder da força, claro. Por isso, aqui na Coluna não acreditamos no Direito Internacional, e achamos extraordinário que o eminente Prof. Freitas mantivesse ilusões sobre a existência efectiva do dito antes de ir espantar o mundo na Assembleia Geral da ONU. Mas gosto muito de ver uma (suponho) bloquista a defender o aluno dilecto do Prof. Marcello Caetano. E Bush? Veja bem, Vera: se eu disser que uma pessoa com 1 metro e 70 é altíssima, isso deixa-me sem palavras para definir todas as pessoas que têm 1,80 ou 1, 90 ou mais. Assim, se Bush é de «extrema-direita», como se podem definir a Christian Coalition, o Ku Klux Klan, as milícias armadas, Timothy Mc Veigh e dezenas de outras tendências e organizações americanas? «Extremíssima-direita»? Além do mais, como se tem visto, aquilo que se pode sem dúvida chamar extrema-direita - nostáligicos do fascismo e do nazismo - estão contra a guerra, porque estão contra os Estados Unidos em qualquer circunstância. Foi por isso que disse que a direita não pode ser pró-americana e salazarista, porque não conheço um único salazarista (em sentido lato) pró-americano. Os salazaristas e companhia, escusado será dizer, não apreciam democracias. Finalmente, Xiraque (desculpa, ó Vera). Creio que achamos que o senhor é um pateta pelas mesmas razões, até porque o meu desprezo por Xiraque vem de muito antes deste episódio. Mas a verdade é que a França não tem peso no mundo, a não ser agora no Conselho de Segurança; e a Vera não me vai dizer que os Camarões são uma potência mundial porque têm assento no CS, pois não? Quanto ao eixo franco-alemão, bem, inclui a França e...a Alemanha (sem esquecer claro, essa «nação corajosa» que é a Bélgica). Não duvidamos que o eixo tem algum poder. Mas nós estamos convictos que o Eixo, como já aconteceu, não passará (desculpe, Vera, a falta de «implicação formal»). PM
CONVERSA ACABADA (3): A propósito do conservadorismo, alguns conselhos de leitura. É impossível não ler Montaigne, Hobbes e Hume. Burke é fulcral ao dar uma roupagem moderna ao conservadorismo clássico. Entre os modernos, Wittgenstein, Oakeshott, Strauss, Scruton, Kekes, O'Hear, Quinton, Berlin. JPC
CONVERSA INACABADA (2): Disse no último post que, em relação ao conservadorismo, há o entendimento preciso de que, para a manutenção dos arranjos sociais que sobreviveram ao teste do tempo, é necessário uma abertura necessariamente plural para os diferentes valores que podem, ou não, ser protegidos, defendidos e hierarquizados. E esta posição está em total confronto com o ideário liberal, segundo o qual a Liberdade (sempre com maiúscula) é o primeiro valor a preservar, do qual procedem naturalmente todos os outros. Alguns leitores poderão argumentar que a ideia de pluralismo, ao contrário do que eu penso (e escrevo), é pedra basilar do liberalismo clássico, não do conservadorismo. Admito que pensem assim e que, para este raciocínio, se apoiem em Isaiah Berlin - provavelmente o primeiro grande pensador do século XX a definir, brilhantemente, as potencialidades e os limites do value-pluralism. Infelizmente, sou obrigado a recusar a posição berliniana - e a dos liberais de extracção clássica - que se lhe seguiram. E digo mais: sempre achei Berlin um filósofo conservador precisamente pelo seu value-pluralism. Ou seja, se nós aceitamos que a liberdade (agora com minúscula) é apenas um valor - e não necessariamente o valor - no meio de outros valores igualmente importantes que é necessário compatibilizar e equilibrar (a justiça, a segurança, etc., etc.), procede daqui que a primazia da Liberdade - uma Liberdade independente de contextos ou necessidades reais - deixa de fazer sentido. Podemos amar a liberdade (como um conservador naturalmente ama) mas entendemos que, por vezes, é necessário temperar a liberdade com a justiça, ou a segurança, ou a ordem, ou a tradição - ou tudo aquilo que permite uma sociedade civilizada. Um liberal dirá, pelo contrário, que só a Liberdade possibilita uma vida feliz, ou seja, uma vida sem a presença do sofrimento - ou, se preferirem, sem a presença do Mal. Um conservador dirá, em resposta ao credo liberal, que mais liberdade não significa, necessariamente, menos sofrimento. Pelo contrário: ao aumentarmos a liberdade, estamos conceptualmente a aumentar a possibilidade do Mal ocorrer. No fundo, um conservador entende que não existem receitas a priori para os diferentes problemas que afectam as sociedades humanas. Cada problema exige uma resposta - e cada resposta pode não passar necessariamente pelo aumento da liberdade individual. JPC
CONVERSA INACABADA: O recente debate entre «conservadorismo» e «liberalismo» ainda não acabou. Óptimo. Esta parece-me ser uma questão essencial para perceber a Política no sentido mais puro e duro do termo. Sobretudo, o debate é excelente porque permite o enterro - definitivo? - dessa velha aberração linguística que dá pelo nome de «conservador liberal», um termo que significa zero e que é repetido, incessantemente, por meninas e meninos que se julgam à direita do PSD e desatam a debitar inanidades sobre a coisa. É certo que a minha visão do conservadorismo é profundamente herdeira de Oakeshott - visão que, entendam, tem pouco a ver com algumas posições conservadores igualmente legítimas (vide, p. ex., Scruton). Mas, voltando ao início da conversa, por que motivo penso eu que conservadores e liberais (clássicos, modernos, pós-modernos, etc.) estão em campos opostos? Facilito a resposta por motivos de clareza: porque um liberal tende a abraçar um valor basilar do seu próprio edifício teórico; um conservador, não. Um liberal entende que a construção política fundamental é aquela que permite a realização plena da Liberdade (independentemente da dimensão, positiva ou negativa, que este conceito adquire). Um conservador, pelo contrário, não acredita que a Liberdade seja o valor fundamental. Desde logo porque, para um conservador, não existe um valor fundamental. Existem valores fundamentais que, mediante determinadas circunstâncias, devem ser abraçados (ou rejeitados) de forma a proteger os arranjos que, sobrevivendo aos testes do tempo, se revelam úteis e bons. Não admira que, para alguns leitores, existam pontes de contacto entre conservadorismo e liberalismo «clássico». Certo. Certíssimo. Mas isto só se deve ao facto do pensamento conservador ter entendido, particularmente no século XX, que a liberdade era o principal valor a proteger - da mesma forma que, nos alvores de 1789, era a tradição e a autoridade. Os valores variam porque as circunstância variam. Mas os objectivos permanecem: impedir extremos de sofrimento e permitir que os indivíduos possam, em paz e segurança, prosseguir os seus próprios fins de vida pela manutenção dos arranjos sociais que sobreviveram ao teste do tempo. Voltarei a este problema. JPC
CAVACO: Nunca tive um problema com Cavaco. Certo: o sentido de humor nunca foi o forte do professor; e sempre houve nele uma aspereza e uma desconfiança pouco convidativas. Mas aceito que Cavaco foi um bom primeiro-ministro; e um primeiro-ministro necessário para a estabilização do regime. Claro que o cavaquismo acabou há muito. As maiorias absolutas não acontecem todos os dias. E, embora não seja costume, acho que não precisamos de nos ajoelhar sempre que Cavaco dá opiniões.
O nome de Cavaco para as eleições presidenciais, que ainda tardam, também não me causa pele de galinha. E se a esquerda apresentar gente pouco recomendádel - como João Soares, Almeida Santos, Manuel Alegre, por exemplo -, acredito que a opção Cavaco será até a melhor (agora que Freitas do Amaral aderiu ao Bloco de Esquerda). Quais são então as dificuldades? Há duas: a principal dificuldade, se quiserem, é de que quem propõe o nome do ex-primeiro-ministro está convencido que o cavaquismo pode ser ressuscitado com Cavaco na presidência. Ora, a imagem providencial de Cavaco sempre nos pareceu grotesca e é a última coisa que nos parece precisa de momento. Depois, é verdade que Cavaco Silva tem pouco perfil presidencial. É essencialmente um decisor frio e distante e o poder do Presidente da República passa por fazer discursos metafóricos, visitar lares de idosos e associações recreativas ao domingo à tarde. Estão a ver Cavaco fazer isto? PL
GRANDES: Continuamos a querer saber a vossa opinião sobre os grandes (artistas) que nos restam. Escrevam para colunainfame@hotmail.com.
PRÉMIO ESTE VALE POR DEZ: O nosso amigo bloggista João Noronha teve mais uma excelente carta publicada no PÚBLICO, de novo sobre o tema «os católicos e a guerra». Mas só desta vez reparámos que o João vive em Almada, o que o torna muito mais valioso e valoroso. Propomos que por essa circunstância tenha direito a um busto no Museu da República e da Resistência. E é com gosto que lhe entregamos o prémio Este Vale por Dez deste mês. Parabéns, João. Daqui a oito gerações, Almada será nossa. PM
FREITAS: O Prof. Palhinhas (plagio descaradamente uma expressão lida no Blogue dos Marretas) deu uma entrevista a Margarida Marante, publicada na edição de ontem da Notícias Magazine. E há dois pontos interessantes (digamos assim). O primeiro é que Freitas assume que acreditava no «Direito Internacional», insinuando que foi a sua passagem pelas Nações Unidas, (onde os americanos lhe ligaram jackshit) que o fez ver a luz. Santa ingenuidade. E foi essa passagem pela ONU que notoriamente o tornou anti-americano, ao ponto de dizer agora que Bush é de extrema-direita (o que empurra para fora das definições as várias correntes à direita de Bush dentro e fora do GOP). Palhinhas diz também que se inspira em De Gaulle no Papa. Só que De Gaulle foi o último representante de uma França ainda com alguma grandeza (já pelas ruas da amargura, é certo), enquanto Xiraque é apenas um pateta que julga que La Frrrrrronce ainda significa alguma coisa no mundo. E quanto ao Papa, o Papa critica esta guerra (está no seu direito, embora discordemos), não ataca os EUA, como faz o Professor. Freitas diz também que descobriu que a direita portuguesa é «salazarista». Sendo que boa parte parte da direita portuguesa apoia a guerra e que Salazar detestava a América, o Prof. deve estar a delirar. A questão, francamente, é de carácter. A tentativa de Freitas encenar um Caetano? Connais pas é repugnante, e evidentemente falsa. E a conversa sobre a peça de teatro tresanda a hipocrisia. Não se admire pois Freitas que os seus amigos o critiquem, e que a metade do país que votou nele o considere hoje um trânsfuga. Pouca gente tinha a legitimidade histórica de Freitas, que formou e aguentou um partido que tentaram eliminar legal e fisicamente, que votou contra a Constituição, que contribuiu para que o centro-direita chegasse democraticamente ao poder e que teve a mais entusiástica campanha presidencial da direita. Mas com as posições e atitudes recentes, Freitas deixou de significar o que quer que fosse para a direita. É um homem roído pelos complexos de esquerda e pelas debilidades de carácter, e uma figura politicamente arrumada. Graças a Deus que o dr. Soares ganhou em 86. PM
HORROR, NATUREZA HUMANA E NAOMI WATTS: Um pouco neura, apeteceu-me ir ao cinema na sessão da meia-noite, mas tinha visto todos os filmes que me interessavam (acho que não tenho estâmago para a Duras). Depois de uma consulta telefónica, acabo por me decidir por The Ring, porque acho piada a filmes de terror e porque tem Naomi Watts (porque é que no 2º esquerdo vive uma velhota que compra o Correio da Manhã e não a Naomi Watts?). Um filme competente, embrulhado no fim, como tantas vezes, mas Naomi Watts vale os 5 euros (posso dizer mais uma vez «Naomi Watts»?). É curioso como me permito ver filmes de entretenimento, quando me enfureço com livros de entretenimento. Uma hierarquia malgré moi na minha cabeça? Não sei bem, mas a verdade é que por vezes até dou por mim a ver telefilmes sobre melodramas familiares. Guilty pleasures, quem não os tem? Mas talvez haja uma razão, que aliás liga filmes de terror e telefilmes; refiro-me ao realismo, encarado na sua versão banal nos segundos e usado para reforçar a «normalidade» nos primeiros. E eu gosto de realismo no cinema. Sue me. Mas há também um outro ponto, que aliás vem a propósito da intervenção do Francisco Frazão sobre o Brecht e do debate sobre conservadores e liberais. O filme de terror é um género conservador: não apenas por ser um género, portanto um tipo de filmes codificado ao pormenor, mas sobretudo pelos temas que lhe subjazem: o medo, a morte, o unheimliche (tomem lá Freud), a sexualidade. A morte - a noção da morte - é um tema conservador por excelência, direi mesmo um tema religioso, porque a morte põe tudo em perspectiva e anula todos os optimismos. Também o medo - que a esquerda tantas vezes critica, como se não fosse um sentimento com a sua nobreza - é uma constante da vida, para citar o horrível poema, e a explicação de grande parte dos nossos comportamentos. A «estranheza» é um fenómeno largamente visível nas nossas vidas, mesmo para quem (como eu) não embarque em misticismos e espiritualismos. Na sexualidade, os filmes de terror são mesmo reaccionários: o sexo é sempre castigado, sobretudo se for entre adolescentes, o que faz algum sentido. E há sobretudo a existência do Mal, palavra contra a qual a esquerda pós-moderna sempre esperneia. Já foi notado que a Igreja criticou todo o tipo de filmes durante décadas, menos os filmes de terror. Nalgumas coisas a Igreja ainda é conservadora: os temas obsessivos que implicam com o que é a natureza humana, outro conceito que põe a esquerda aos urros. Voltarei ao assunto. PM