domingo, fevereiro 23, 2003

INDEPENDENTES: Queremos evidentemente dar as boas-vindas aos novos leitores, aqui trazidos pela publicidade que o Paulo Pinto Mascarenhas gentilmente nos fez na última edição do Indy. A Coluna Infame é um blog conservador, mantido por João Pereira Coutinho, Pedro Lomba e Pedro Mexia. Agradecemos comentários, sugestões, e a correcção de erros de facto ou de lapsos ortográficos. Esta semana pedimos aos leitores que nos enviem respostas à seguinte pergunta: quem são os grandes (artistas) que ainda nos restam? Correspondência para colunainfame@hotmail.com. Os textos, salvo menção em contrário, são susceptíveis de publicação aqui na Coluna. Digam coisas. PM
UM 25 DE NOVEMBRO CULTURAL: Rui Ramos é um dos raros historiadores portugueses que não teve o disco formatado, isto é, que não engoliu esquerdismo com a papa Cerelac. É também um dos mais enciclopédicos e brilhantes. Leiam aqui o seu depoimento de hoje no PÚBLICO. O mofo não vai durar para sempre. PM
LOVE IS IN THE AIR: A nova moeda teve nos nossos concidadãos efeitos sexuais inesperados e magníficos. Na minha rua - velhas inclusive - nunca se falou tanto em «eros». PM
MAIS UM ESFORÇO: Manuel Monteiro vai formar um novo partido. A notícia foi recebida com apreensão na sede do POUS. PM
TOP OF THE POPS Os renascidos e fabulosos Go Betweens vêm a Lisboa. Não quero parecer que tenho comissão, mas a verdade é: tudo às FNAC's comprar bilhetes. O mundo não anda por aí cheio de songwriters perfeitos. PM
EM VEZ DOS TELEJORNAIS: Já que estamos em maré de artes, uma sugestão: não percam o «Artes e Letras» de hoje (RTP 2, 20:30) sobre Giacometti, o artista que sem conhecer Kate Moss inventou a escultura anoréxica. PM
ANTES O SAMUEL QUE O BERTOLDO: O F.F. também é autor da tradução de Primeiro Amor, a narrativa de Beckett encenada por (e com) Miguel Borges (o actor mais ameaçadoramente corporal que por aí anda). O livro foi publicado pela Âmbar, e os leitores de Lisboa e Porto hão-de saber que as FNAC's estão abertas aos Domingos. PM
UNIDOS: O Francisco Frazão, autor do post a que nos referimos, está ligado aos Artistas Unidos, e os Artistas Unidos são um dos poucos motivos de júbilo da nossa cultura, nomeadamente a teatral. Os A.U. têm andado, como os leitores saberão, de casa às costas, vítimas de um comportamento errático dos responsáveis da cultura, quer camarários quer governamentais. É pena. Não somos, ao contrário do que alguns nos queriam, adeptos da «revista» e dos ranchos folclóricos. Na Coluna gostamos imenso, por exemplo, de Pinter (do dramaturgo) e achamos excelente que se possa ver o novo teatro europeu em Lisboa. Sabemos - é evidentíssimo - que os A.U. são uma companhia politicamente alinhada, e do lado mais longínquo da nossa barricada. Mas - e aqui voltamos ao assunto - assim como há uma suspension of disbelief (desculpa lá, Bertolt), também julgamos que em certos momentos a arte precisa de suspension of beliefs, isto é, de uma comunhão em valores estéticos mais flexíveis do que a nossa personalidade ideológica quotidiana. Não sendo assim, só leríamos e veríamos os correlegionários, o que além de tudo o mais nos punha, aqui na Coluna, em evidentes apuros quantitativos. Até porque há um problema adicional: nós podemos saber quem são os nossos em termos de arte contemporânea, mais isso é mais difícil (e provavelmente inútil) para os clássicos e os antigos. E há aparentes paradoxos: os gostos literários de Marx, por exemplo, eram imensamente conservadores, e um dos seus autores preferidos era, por exemplo, Sófocles. Ora aí está um ponto em que eu o Karl estamos de acordo. PM
LOST IN TRANSLATION: Quando por vezes (por curiosidade e coleccionismo) leio literatura portuguesa em tradução, percebo a imagem errada que passa para o estrangeiro. É que em inglês, francês, espanhol, italiano, a nossa prosa de ficção soa muito melhor do que é em português, enquanto a nossa poesia raramente conserva o mesmo brilho (poetry is what gets lost in translation, etc). Foi talvez por isso que deram o Nobel ao Saramago. PM
ASSUNTOS SÉRIOS, ENFIM: Muito interessante o comentário do Francisco Frazão. De facto - e em última análise - a distinção clara entre política e arte acaba por ser um preciosismo intelectual pouco exacto. Mas não será que sem esse preciosismo não seremos todos um pouco mais bárbaros? Continuaremos esta conversa. PM
GRACIAS: Em pouquíssimo tempo, chegaram três sugestões de livrarias espanholas. Obrigado aos leitores que as enviaram. Um dos nomes chamou-me a atenção: Libreria Victor Jara. Se calhar até mando vir dessa. Agora digam: imaginam um esquerdista a mandar vir livros duma Libreria Primo de Rivera? No lo creo. PM
VOLTA, REVEL, ESTÁS PERDOADO: E o César de Melhor Filme Estrangeiro foi para...tchan tchan tchan tchan...Bowling for Columbine, claro. Critério, escusado será dizer, estritamente cinematográfico. PM
BLOCO LIBERAL: Já aqui falámos nos blogs conservadores Esmaltes e Jóias e do Picuinhices (o Espigas ao Vento ainda não defendeu, até agora, nenhuma ideia conservadora, para o pormos nessa lista). Agora descubro mais três, ligados a correntes liberais-libertárias, o que nos dá uma grande alegria, fartos que estamos da direita reaccionária do costume. Como se chamam estes blogs pagos pelo Pentágono? O Liberal Libertário, o Valete Fratres! e o O Intermitente. E haverá mais, em breve. Para que os portugueses na blogosfera saibam quem são Nozick, Ayn Rand, ou o velho Hayek, entre outros defensores das liberdades individuais (que muitos verão como «bizarrias» na nossa direita fossilizada). Aqui na Coluna somos conservadores-liberais, na esteira de Raymond Aron (e do grande Tocqueville), mas saudamos vivamente os «camaradas» liberais e libertários. Todos não somos demais para enfrentar o regresso festivo do esquerdismo e a multidão dos idiotas úteis. PM

sábado, fevereiro 22, 2003

E AINDA: Um assunto completamente diferente. Se algum dos nossos leitores souber qual é a melhor livraria espanhola on-line, agradecia que me comunicasse para colunainfame@hotmail.com. A FNAC e o Corte Ingles ainda estão longe de ser suficientes, e a livraria espanhola (Alcalá), em encomendas, também não é solução. Gracias. PM
CAÇA AO INFAME? Já que a rectificação de um erro de facto me obrigou a quebrar o jejum de fim-de-semana, quero agradecer às almas caridosas - algumas mais sinceras que outras - que me avisam para as «consequências» das minhas opiniões e dos meus textos, sobretudo os de natureza política. «Consequências»? Caros amigos (e ocasionais amigos da onça): tenho escrito todos os meus textos, e manifestado todas as minhas opiniões, por convicção, seja em literatura, seja em política. Quero lá saber das «consequências» (algumas das quais, aliás, já me chegaram aos ouvidos). A democracia, last time I checked, caracteriza-se pela liberdade de expressão. Sei que sou infra-minoritário no meio em que me movo. Mas era preciso ser um verme para me reger por considerações desse tipo. Há sempre consequências das nossas acções. E se, como já me preavisam, algumas delas forem de boicote e marginalização, tanto pior. Não há nada como ir para a cama de consciência tranquila. PM
S. BERTOLDO: É normal. Se me mexessem com a Nastassja Kinski eu também partia para a ignorância. A última vez que falei com um marxista sobre Brecht - informando-o dos seus brilhantes «métodos de trabalho» plagiadores e negreiros - o dito cavalheiro ficou tão furioso que - palavra de honra - começou aos pontapés nas portas. Isto de santos, é melhor não lhes mexer. Agora, estava a ler Sontag e apareceu-me um poema de Brecht (um excerto) que postei aqui no blog. É verdade que não fui ver o contexto do poema (os livros de poesia estão ainda, por falta de espaço, em casa dos meus pais), e que o citei em estilo de divertimento tongue-in-cheek. Coisas que o blog tece. O Manel saltou logo em defesa de S. Bertoldo, dizendo que o poema não queria dizer nada disso, porque o Tio B .B. nunca iria escrever contra a Rua. Fui à morada paterna procurar os poemas de Brecht (que sempre me pareceram infinitamente superiores ao teatro) e o Manel tem de facto razão no contexto dos versos. Podia aqui entrar em subtilezas - citando outros versos do mesmo senhor, sobre outras multidões (as nazis) e o raciocínio efectivamente crítico de Brecht face a esses aglomerados - mas não quero fugir com o rabo à seringa: os versos estavam citados com base numa misreading minha, aliás contaminada pela maneira como a própria Sontag os interpretava no texto. I was wrong. Que diabo, eu não sou o dr. Cavaco. PM
INFÂMIA GRATUITA : A Coluna Infame é um blog conservador mas pecaminoso, actualizado de segunda a sexta por Pedro Mexia (PM), Pedro Lomba (PL) e João Pereira Coutinho (JPC). Opiniões, respostas e desabafos são bem-vindos para colunainfame@hotmail.com. Mas atenção: frases curtas, com pontos finais e verbos correctamente conjugados. Donativos também se acolhem, se os cheques vierem ao portador. No final do ano, se tudo correr bem, faremos todos um jantar dos Amigos da Coluna, algures no Bombarral. PL

sexta-feira, fevereiro 21, 2003

SÓ MAIS UMA COISA (2): Diz-me Pedro Mexia, alma, cérebro e voz ditatorial deste blog, que existe correspondência vária dirigida a João Pereira Coutinho. A única coisa que João Pereira Coutinho pode garantir é que, este fim-de-semana, quando não estiver acompanhado por duas ou três adolescentes da sua inteira escolha e preferência, o referido Pereira Coutinho vai conceder alguns minutos do seu tempo a ler - e, muito improvavelmente, a responder - às cartas dos leitores. JPC
SÓ MAIS UMA COISA: Como colunista semanal, existem poucos colegas que eu leio e sigo com devoção e interesse.Mas existem casos. António Barreto é um deles. Pacheco Pereira também. E Vasco Pulido Valente. E João Marques de Almeida. E dois ou três cujo nome me escapa. Mas existe um cavalheiro que, pela violência e pela lucidez, pela inteligência e pela erudição, pela coragem e pela deliciosa rudeza de expressão, merece um lugar destacado, acima dos outros. Chama-se Alberto Gonçalves e escreve, às sextas, no Correio da Manhã. Leiam e, por amor de Deus, cultivem-se. JPC
RIPANÇO: Este fim-de-semana não há Coluna (esse é aliás o regime normal, interrompido nos últimos tempos por causa da agitação política). Para a semana, pela minha parte: Will Oldham, Bacon, os filmes dos Óscares, namedropping, marialvismo bacoco e, claro, textos pagos pelo Pentágono. Façam do vosso fim-de-semana uma obra de arte (blarrgh). PM
LEIAM TAMBÉM ESTE: Ao ler a insuspeita Susan Sontag, dou com este excerto de um poema (na versão inglesa):

When it comes to marching many do not know
That their enemy is marching at their head.
The voice which gives them their orders
Is the enemy's voice and
The man who speaks of the enemy
Is the enemy himself.


O autor desta reaccionária diatribe contra a Rua? Bertolt Brecht. PM
«Kagan nisso»??? «Pau feito»??? «Vibradores»??? Agora tenho o meu afilhado à espera, mas logo ensino-vos um pouco de deontologia, senhores Infames. Meus Deus, tanto sexo nessa cabecinha. Cabeça. Providêncio Canhoto, Provedor dos Leitores
VAZIO: Falamos sobre Bush, a política externa americana, o Iraque... Por que será que a Pátria, afundada em escândalos escabrosos e incompetência política, deixou de ser assunto? PL

SEX WEEK: A Atlantic Monthly conta tudo, em artigo do excelente e hilariante Ron Rosenbaum. 4 associações pós-modernas decidiram organizar na Universidade de Yale a Semana do Sexo. A semana teve debates e conferências à volta dos transgender studies, uma especialidade universitária fraudulenta e inútil. Um olhar para os temas da semana diz tudo: onde começa e acaba cada género sexual, a história do namoro, a história do vibrador, a materialização antropológica do sexo. Especialistas em sexo tântrico, estudantes usados na abstinência e terapeutas hermafroditas: a participação era vasta e a semana prometia ser avassaladora. Rosenbaum assistiu a tudo mas poupou-se ao terceiro dia, dedicado à história do vibrador, por manifesta falta de coragem (e quem não o compreende?). Ao quarto dia, começou a perceber a lógica da semana. Dia um: a medicalização do sexo. Dia dois: a materialização do sexo. Dia três: a mecanização do sexo. Dia quatro: a espiritualização do sexo. E por aí fora. No debate de encerramento, uma terapeuta afirmou que ter sexo com os professores (ela provou da coisa) era uma boa maneira de aprender (ideia inatacável). Como vêem, não há nada como juntar académicos do sexo a reflectir em público sobre a nossa condição. O sexo está na cabeça. Mesmo que esteja na cabeça. Mesmo que na cabeça não haja mais nada. PL
OS INFAMES: Informam-se os visitantes que a Coluna Infame é um blog assumidamente conservador, actualizado de segunda a sexta por Pedro Mexia (PM), Pedro Lomba (PL), João Pereira Coutinho (JPC) - e, ocasionalmente, pelo Provedor dos Leitores, Prof. Doutor Providêncio Canhoto. Correspondência e lixeira diversa para colunainfame@hotmail.com. Cuidado com a gramática e, já agora, don't be stupid (tradução: não sejam franceses). As meninas devem enviar retrato. De corpo inteiro. Em caso de dúvida, uma foto da prima ajuda.
NÃO ME TOQUES: Um artigo na Atlantic Monthly afirma publicamente aquilo que algumas almas apenas pensam em privado: as teorias da «libertação feminina» não arruinaram apenas a velha família tradicional. Elas ameaçam arruinar os mais prosaicos prazeres sexuais, convertendo o sexo em obrigação e tédio. Quando dois adultos trabalham como cães, eles não fornicam como cães. Pelo contrário. De acordo com Caitlin Flanagan, há um fenómeno recorrente nos modernos casais americanos: eles vão prescindindo naturalmente do truca-truca como se o truca-truca fosse um elemento dispensável na relação. O sexo cansa e entedia esta gente porque, na verdade, esta gente mergulhou numa vida cansativa e entediante, sem tempo para o calor dos corpos. E Flanagan é clara: querem salvar a família, as criancinhas e a harmonia conjugal? Simples: é necessário que as mulheres regressem para o lar e que satisfaçam sexualmente os respectivos homens. Para a sra. Flanagan, macho satisfeito é macho de pau fei... As minhas desculpas, sr. Provedor. JPC
KAGAN NISSO: Robert Kagan incendiou a Europa com o seu afamado ensaio da Policy Review. Que nos disse Kagan? Disse-nos, em tese convertida em livro («Paradise and Power»), que um gigantesco abismo prometia separar, ainda mais, os Estados Unidos e a Europa. Enquanto a Europa vivia o sonho kantiano de um mundo unido na paz perpétua, onde a força militar é secundária, para não dizer dispensável, os Estados Unidos, herdeiros de Hobbes, entendiam a evidente malignidade do mundo e procuravam lidar com o problema através da força militar. Entendo a tese de Kagan e, à primeira vista, existe no cavalheiro uma evidente clareza teórica. Mas discordo ligeiramente dela, sobretudo quando lemos Kagan com os olhos postos no mundo de hoje. Na verdade, o abismo instalado não promete separar os EUA de uma Europa que, para o autor, começa e acaba em Bruxelas. Na verdade, a recente crise iraquina mostrou amplamente que não existe "uma" Europa. Existem "europas", distintas nos valores e nos interesses. E essas "europas", confrontadas com o velho problema do Mal, não reagem de igual forma: a intrínseca estupidez de Chirac não é comparável à coragem política de Blair. Ou do nosso Durão. Ou do primo Aznar. JPC
DINHEIRO VITAL: Vital Moreira, na Associação Académica de Coimbra, teve a coragem e a lucidez que usualmente lhe faltam. É possível salvar o ensino universitário português? É: com mais dinheiro, ou seja, com propinas justas. De acordo com o prof. Vital, que levou ao rubro a assistência, um curso universitário permite melhor emprego e uma qualidade de vida superior. Logo, é preciso que os estudantes paguem os estudos, ou que peçam emprestado para pagar - como acontece quando desejam casa, carro ou férias nas Bermudas. Só com mais dinheiro é possível melhorar a educação, garantir a autonomia e estimular a competição entre as instituições. Para ex-marxista, não está mal. JPC

quinta-feira, fevereiro 20, 2003

VENCIDO DO CATOLICISMO (NOS DEZ ANOS DA TVI): Se eu deixar cair um copo de cristal no chão da cozinha, é bem provável que o copo se parta. Por razões bastante prosaicas: a queda e a maior dureza do chão. Se o copo se partir é porque o mais natural era mesmo que se partisse. Assim com o projecto de uma tv católica: falhou porque uma televisão católica - por razões prosaicas e inelutáveis - não podia senão falhar. Também fui vencido do catolicismo nessa matéria: já há dez anos achava uma tontice estar a canalizar dinheiro e energias para uma televisão, um meio que põe imensos problemas (editoriais, de independência, de programação), e que nada fazia supôr que a Igreja portuguesa conseguisse dominar. Meu Deus, a Igreja não tem um jornal decente (e há centenas de jornaizecos católicos), não tem um editora dinâmica (a comparação com a Espanha é uma vergonha para nós), quase não há livrarias católicas de jeito, a presença da Igreja nas artes é invisível. Etc.,etc., etc. Não é com meia-dúzia de profissionais, uns tantos carolas, dinheiro de freirinhas e Misericórdias que se faz uma tv aceitável. A Rádio Renascença - da qual a Igreja se ufana - é, com excepção da vertente informativa, parte integrante da cultura pimba em Portugal. Os padres mediáticos - com raras excepções - dão vontade a uma pesssoa de se desbaptizar. Os senhores bispos fazem declarações espantosas, sobre assuntos prementes para a vida de cristãos como O Império dos Sentidos, um cartoon, um sketch televisivo. Um dos nossos prelados - nem vale a pena dizer qual - é o mais útil dos idiotas, ou o mais idiota dos úteis. Querem mais exemplos? É por isso que o falhanço da TVI foi um falhanço anunciado, previsível, inelutável. Que a Igreja se tenha deixado arrastar nesta aventura insensata é lamentável. Como escreveu Miguel Sousa Tavares, já que a Igreja entrou numa de pedir desculpas a torto e a direito porque é que os bispos portugueses não pedem desculpa pela TVI? Há países com uma cultura católica viva e exigente, como a Itália ou a Espanha, e mais recentemente a França, e essa dinâmica pode passar pontualmente pela televisão (caso da RAI). Mas um canal católico era, é e será, uma aventura sem sentido. Vejam a Canção Nova cinco minutos e percebam porquê. PM
NELSON: Neste momento de esquerdismo desenfreado, é preciso ler Nelson Rodrigues, um homem de coragem exemplar e um dos grandes prosadores da língua portuguesa. Uma das suas frases vem a propósito: A unanimidade é burra. PM
NOT PLEASED: Houve um evento pelo qual esperei anos e anos e que acabou por ser uma total decepção. O concerto dos REM, claro. (O que é que pensaram?). PM
VENCIDO DO CATOLICISMO: A Igreja Anglicana e a Igreja Católica do Reino Unido tomaram posição oficial conjunta contra o ataque ao Iraque. Da actual Igreja de Inglaterra, já nada nos surpreende: o novo Arcebispo de Cantuária é um daqueles homens que é teólogo, e só depois cristão, e já produziu uma razoável quantidade de dislates media-friendly. A Igreja Católica, bem, limita-se a continuar a sua longa história de conivência com as ditaduras. É um triste final de pontificado para João Paulo II. PM
«Ó JORGE BUXE / VAI PRÓ #$&("=*"&»: Ver o Prof. Rosas e adjacentes em exultação orgásmica com a Rua é muito divertido: eles costumam cultivar o estilo catastrófico, a lupa crítica, a desconstrução impiedosa, a distância irónica, o pessimismo estrutural, o quixotismo ideológico, etc., etc, etc. Mas quando o estádio de repente grita (nem que seja num só jogo) o mesmo que eles, fazem logo a onda, e tornam-se os mais acéfalos tiffosi. PM
GERAÇÃO: O que é uma pessoa da minha «geração»? Alguém que reconhece certas séries de palavras. Como por exemplo: zuvi zeva novi. PM
ALTHUSSER: Althusser é um caso espantoso: alguém que está fascinado pelo pensamento. Por isso abraça o marxismo, suprema construção intelectual, embora para se livrar violentamente da ganga ingénua que o marxismo contém e estabelecer um pensamento crítico que seja uma espécie de crítica da crítica. É um dos mais espantosos edifícios intelectuais do Ocidente contemporâneo. A sua relação com a realidade é pelo menos problemática, mas «realidade» é claramente aqui um conceito ingénuo. PM
POUCOS MAS BONS: Pacheco Pereira é um exemplo para a Coluna num aspecto importante: defende sempre as suas convicções, mesmo que seja minoritário ou infra-minoritário, mesmo que por isso seja detestado, mesmo que vá contra os seus correlegionários, mesmo que vá contra o seu interesse pessoal e o carreirismo próprio da política. O artigo de hoje do PÚBLICO é modelar: na sua desmontagem da grotesca legitimidade da «rua» em democracia, na lei internacional como gémea da força armada, na necessidade que a Europa tem dos EUA, no newspeak do termo «paz» (paz???). Até Hamilton o Pacheco cita. Não deixem de ler. Já sei que gostam muito das nossas expressões recorrentes, e aqui vai uma: clareza moral em estado puro. PM
ISTO ANDA TUDO ÀS AVESSAS: Os rapazes

- defendem a superioridade moral das democracias sobre as ditaduras
- pretendem a libertação dos povos oprimidos
- denunciam violentamente o anti-semitismo
- criticam as manigâncias políticas da Igreja
- lutam contra o pensamento maioritário
- repudiam o puritanismo sexual

Antigamente, a isto chamava-se esquerda. PM
BLOGGISMO: Lemos Andrew Sullivan. Lemos Mark Steyn. Lemos Jonah Glodberg. Lemos David Frum. Lemos Hitchens (o novo). Lemos esta gente toda. E, por estranhas razões, julgámos que éramos os únicos. Os mails que temos recebido provam-nos que estávamos profundamente enganados. Há aí muita gente que pensa como nós e lê o que nós lemos. Isto só nos dá vontade de continuar. PL
BE INFAMOUS: O cartaz do filme Chicago reza assim: If you can't be famous, be infamous (dica de Nuno Centeio) . Aqui na Coluna, sabemos que em Portugal ser «infame» e «famoso» é quase a mesma coisa. Se uma pessoa trabalhar anos numa profissão, numa carreira, numa obra, ninguém liga nenhuma; mas qualquer pessoa que mande umas bocas minoritárias e chocantes fica logo nas bocas do mundo. O que é um bocado triste, convenhamos. PM
UNIVERSIDADE ABERTA: As universidades portuguesas não têm alunos, têm «discentes». Os «discentes» são invariavelmente meninos infantis, obtusos e com pouca vontade de trabalhar. Estudam medicina quando podiam estudar grego, direito quando podiam estar em zoologia. E espantam qualquer criatura pacata com o horizonte das suas descobertas. Por dever de ofício, tenho que absorver diariamente dezenas de «discentes» numa universidade pública. O exame não era difícil: pedia-se uma comparação entre o Gabinete britânico e o Governo francês. Um dos discentes resolveu escrever que há muitas «semelhanças entre estes dois órgãos porque ambos vêm do Holocausto». Que dizer sobre isto? A culpa é de Israel. PL
Bom, como Provedor dos Leitores só posso congratular-me com a aparente mudança de rumo da Coluna para os cd's da tribo e as dores da alma. Mas trata-se, como é óbvio, de uma técnica antiga dos sectores reaccionários: quando a polémica aperta e estão em minoria - ou quando, digamos, invadiram Paris - tornam-se logo estetas, tipo sapo feito príncipe da fábula. Nada de referências marialvas e bacocas? Excelente. Nada de seguidismo pentaguiano? Óptimo. Mas vivemos dias graves, meus senhores: não desatem a escrever sobre catedrais e quartetos de cordas. Para isso, basta o Bénard da Costa. Providêncio Canhoto, Provedor dos Leitores
OS GRANDES: Lembram-se que quando morreu César Monteiro aqui escrevi que tínhamos muito poucos como ele? Pedimos aos nossos leitores para mandarem opiniões: quem são os grandes da cultura portuguesa que ainda nos restam? Por favor, nada de apresentadores de tv. PM
COMEDY CENTRAL: Reunião matinal num antro de comédia. E se o mundo do futuro se dividisse entre aqueles que têm sentido de humor e os outros? Já esteve mais longe esse cenário. PM
GUERRA: Não sei se tenho pena ou inveja daqueles que acham que a guerra é apenas uma coisa que acontece fora de nós, com mísseis. É ler Sá de Miranda. PM
CELOFANE: Tenho um livro na estante (não digo qual) que comprei em Itália, há vários anos (seis?). Está embrulhado em celofane e lembro-me que na altura pensei que só o abriria quando sentisse o abismo debaixo dos pés (hiper-romantismo tardio, eu sei). Para dizer a verdade, tenho outra edição, que posso consultar. Mas este livro - um dos livros da minha vida - nunca o abri. Intocado na estante, não sei se representa uma trégua ou uma catástrofe. PM
SÓSIA: A arrumar jornais, revejo as famosas fotos do «sósia» do Carlos Cruz. Sósia??? Sim, sim, e eu sou sósia do Jude Law. PM
SEEING AND BELIEVING: Não me lembro de onde vem, mas descobro, no meio de uns pápeis, um pequeno e magnífico ícone russo de madeira (foi a minha prima que o trouxe do lago Baical?). Será que se o cristianismo proibisse as imagens, seria cristão? PM
JEALOUS GUY: Conhecem decerto o fenómeno: descobrimos um disco, um autor, um filme, gostamos dele desalmadamente, às escuras, e com os amigos que mereçam partilhar, googlamos doidamente para saber tudo, vemos, ouvimos e lemos, vamos fazendo colecção. É o nosso pequeno segredo. O meu último «pequeno segredo» chamava-se (chama-se) Will Oldham). Há quatro anos, salvo erro, descobri os discos de Oldham, aliás Palace, aliás Palace Brothers, aliás Palace Music, aliás Bonnie «Prince» Billy (e há mais heterónimos...). Estava numa fase lo-fi, cheguei aos Smog e fui, por afinidades, procurando. Não sei dizer uma canção, mas provavelmente «Old Jerusalem» (inspiradora do projecto português com o mesmo nome); não sei dizer um álbum, mas talvez Arise Therefore (que li algures que fazia os Joy Division parecer música uplifting, e que fui logo procurar a correr). Oldham - que imperdoavelmente só soube que vinha a Portugal umas horas antes, e que não consegui ver, há uns meses, na ZDB - é um caso difícil de analisar. Tentemos assim: Deep South + detritos da country e da folk + Antigo Testamento + fluidos corporais + gado + impiedade + romantismo negro + impenetrabidade lírica + instabilidade + tormento + associalidade demencial + voz partindo-se + som de vão de escada + (já falei do gado?)... Ou seja, um artista fiel à confusão horripilante e deslumbrante que é a cabeça de um mortal (o texto sobre Bacon não demora, prometo). E agora, de repente, perfis nos jornais, discos nas FNACs, toda a gente a tratá-lo por tu. Não gosto. O amor é uma arte invejosa. PM

quarta-feira, fevereiro 19, 2003

ENOUGH: Os leitores queixam-se e têm toda a razão. As polémicas estão a ocupar demasiado espaço neste blog (mea culpa, em grande parte). Vamos inserir comentários a partir da próxima semana. Até lá, e a partir de agora, não haverá mais troca de galhardetes, quer com mails, quer com leitores do Blog de Esquerda (gostamos muito de bloggar, mas há trabalhos académicos e literários que nos reclamam). O assunto da guerra, em especial, está praticamente esgotado. Pedimos aos nossos leitores que mandem mails sobre outras temáticas, nomeadamente sobre cultura (de longe o assunto que mais nos interessa). Vamos baixar o lume, está prometido. PM
BLOGS EM PT: Mesmo os blogs de índole cultural estão neste momento fortemente politizados. Em Portugal, um dos melhores é este. PM
GENIAL: Um dos mais fantásticos títulos que conheço: um obituário cinéfilo escrito por Cabrera Infante: Sic transit Gloria Grahame.
SEX: Leio a correspondência Henry Miller / Anais Nin: a sexualidade levada a brincar é uma parvoíce, mas encarada assim programaticamente é uma coisa realmente cansativa. PM
AINDA O ESPIGAS: Li o comentário do Nuno, e tenho algumas coisas a acrescentar: 1) A referência à Maxim era uma piada, como é óbvio (uma auto-piada, se quiser). 2) Não disse mal do Espigas ao Vento; se fosse um blog menor (como 90% são) nem sequer polemizávamos. 3) O que eu não gosto no Columbine e acho detestável não é a questão das armas de fogo - que de resto é uma posição que nada tem a ver com a direita europeia - mas sim a ligação entre isso e a política externa americana, num exercício de non sequitur espantoso. 4) Não sabíamos que se podia apagar os comentários insultuosos - somos info-analfabetos - e o receio de insultos era o único entrave a termos essa funcionalidade; assim sendo, vamos instalar. 5) O namedropping incomoda-o, mas realmente é-me muito difícil falar seja do que for sem citar (defeito de «crítico»), e já expliquei porquê. 6) A acusação de «cegueira» significa apenas que não vemos as coisas do mesmo modo do que o Nuno. Pedimos desculpa. 7) Temos respondido a alguns mails e não a outros, um pouco como calha, não foi de propósito que não respondemos ao seu. PM
O FILIPE ESTÁ ZANGADO: Caro Filipe: sou com certeza um «cínico», sobretudo em política (muito Maquiavel, muito Maquiavel...). Quanto a «demagogo», bem, os nossos adversários são sempre demagogos; é isso que a palavra quer dizer: Demagogo: Adj. Aquele que tem opiniões diferentes de nós. Ex: é tão demagogo, este conservador . E, finalmente, o Paul Krugman. Não cites autores que não conheces bem: é que o Paul Krugman é, simplesmente, o mais esquerdista de todos os colunistas do mainstream americano, e centro de constantes polémicas por causa disso. Vai ao Google. PM
HEGEMONIA: Conversas, mails, auscultações, etc. Percebo (percebemos): por entre as críticas à linguagem, aos factos, aos raciocínios, há um cheiro a escândalo. «Como é que eles se atrevem? Letrados e conservadores? Abominação!!!». Pois é, amigos, a hegemonia não dura sempre... PM
E EU COM ISSO? Escrevi meia dúzia de coisas básicas sobre «a rua». Logo um marchante - Acácio Barradas - acusou o toque, e tenta o uso (oh tão difícil) da ironia, misturando a ideia da direita conservadora sobre a rua e os exemplos da extrema-direita ou da politiquice partidária vulgar:

Pedro Mexia dixit: «A esquerda adora a rua». Deverá ser por isso que, após o 25 de Abril, o esquerdista Manuel Múrias, anteriormente nomeado director da RTP pelo marxista-leninista Oliveira Salazar, editou e dirigiu um jornal que justamente intitulou «A Rua». E também deverá ser por isso que o ex-director do «Independente», após um longo tirocínio eleitoral por feiras e mercados como líder de um partido de esquerda, já na qualidade de ministro da Defesa convocou para o Caldas uma manifestação de desagravo contra as atoardas com que a direita vilipendiou a sua honra, acusando-o de fraude na Moderna e exigindo a sua demissão. Assim se faz a História...

Acácio Barradas está confuso ou confundido. O jornal de Manuel Múrias - figura de uma direita a que não pertenço - nasceu e morreu era eu uma criança (Salazar morreu antes de eu nascer), e o que ele defendesse tanto se me dá como me deu. As feiras, mercados e desagravos do sr. ministro da Defesa sempre me foram penosos, e tenho saudades do jornalista polémico e sem gravata. Por favor, Acácio, se me quer escrever não se engane no código postal. PM
MAIS SOBRE BERNARDO CARVALHO: Nascido em 1960 no Rio de Janeiro, é escritor e jornalista. Foi editor do suplemento de ensaios Folhetim e correspondente, em Paris e em Nova York, da Folha de S.Paulo, jornal em que escreve uma coluna semanal sobre literatura. Obras (publicadas no Brasil pela Companhia das Letras):

ABERRAÇÃO
OS BÊBADOS E OS SONÂMBULOS
AS INICIAIS (ed. port. Dom Quixote)
MEDO DE SADE
NOVE NOITES
ONZE
TEATRO (ed. port. Cotovia)

Podem (e devem) comprar livros de Bernardo Carvalho por exemplo aqui. PM
O post anterior, depois de dar uma indicação útil e necessária, faz uma alusão grosseira e gratuita. Porquê as leitoras? Serão as mulheres apenas sujeitos passivos do prazer estético masculino? Não poderão ser cidadãs de corpo inteiro, interessadas pelo mundo contemporâneo, suas complexidades e dilemas? Não havia necessidade deste comentário marialva e bacoco. Por outro lado, é evidente que se distingue inaceitavelmente em função do sexo. Porque não retratos de homens, sobretudo da martirizada comunidade gay, e um apoio aos tão injustiçados transgender? Meus senhores, cuidadinho. Chegou o provedor. Providêncio Canhoto, Provedor dos Leitores
OS INFAMES: A Coluna Infame é um blog assumidamente conservador, renovado diariamente por Pedro Mexia (PM), Pedro Lomba (PL) e João Pereira Coutinho (JPC). Leia, releia e espalhe. A caixa do correio dá pelo nome de colunainfame@hotmail.com. Prometemos confidencialidade. As leitoras são aconselhadas a enviar retrato. JPC
RELEMBRAMOS NOVAMENTE: O semanário Independente, num gesto de coragem e clareza moral, resolveu publicar um manifesto de apoio à Carta dos Oito, cujo texto passamos a citar:

Desde que a "Carta dos Oito" foi publicada, são inúmeras as vozes que têm acusado os seus autores de "seguidismo" em relação aos Estados Unidos na questão do Iraque e de "provocarem a divisão europeia". Rejeitamos estas acusações. Não foi a "Carta dos Oito" que provocou a "divisão europeia". Quem o fez foi a Alemanha e a França, com a declaração contra a guerra do Iraque, uma das manobras mais hipócritas dos últimos anos da política europeia. Desprezando os restantes "parceiros" europeus, um líder fraco e medíocre, Gerhard Schröder, fez uma oferta irrecusável a um líder ambicioso e perigoso, Jacques Chirac. O negócio era simples: Paris afastava-se dos Estados Unidos em relação ao Iraque, evitando assim o isolamento de Berlim. Em troca, a França continua a dominar a União Europeia, em parceria com a Alemanha reunificada. Bastava que os restantes "parceiros" aceitassem a partilha de poder, cozinhada entre Chirac e Schröder à margem da Convenção Europeia. Na nossa opinião, este modelo de construção europeia tem de ser abandonado. Não podemos continuar a aceitar - nem aceitamos -, em nome da "unidade europeia", consensos podres, que servem antes de mais os interesses de Berlim e de Paris. Aqueles que defendem a paz a todo o custo estão a cometer dois erros fundamentais. Por um lado, desvalorizam a dimensão da ameaça iraquiana. O Iraque já usou armas de destruição em massa e, como afirmaram várias vezes os seus responsáveis, voltará a usá-las contra alvos ocidentais. Como é absolutamente claro, o Iraque não está disposto a colaborar com as inspecções das Nações Unidas. Neste sentido, consideramos que o Iraque constitui uma clara ameaça à segurança dos países ocidentais. Como a História ensina, há momentos em que não se pode hesitar em recorrer à força para garantir a paz e a segurança. É desejável que qualquer tipo de acção tenha lugar com a autorização do Conselho de Segurança. Mas se isso não for possível, resta apenas uma intervenção militar para acabar com Saddam Hussein. Por outro lado, os defensores da paz a todo o custo colocaram-se numa posição de equidistância em relação a Saddam e a Bush. Na nossa opinião, isto é inaceitável. Entre a democracia e a tirania, não se pode hesitar. Ao contrário daqueles que hesitam, muitos deles ainda ressentidos com o resultado da Guerra Fria, nós sabemos muito bem de que lado estamos. A História do século XX, desde os "gulags" de Estaline até às longas marchas de Mao, passando pelo Holocausto e os ataques de 11 de Setembro de 2001, demonstra quem tem razão. Num momento decisivo para a segurança do mundo ocidental e para o futuro da Europa, a nossa posição é clara. No conflito com o Iraque, o nosso lugar é ao lado dos norte-americanos. Quanto à segurança da Europa, a Aliança Atlântica continua a ser indispensável. Tentar construir uma União Europeia contra os Estados Unidos da América é o caminho para o desastre. Quem não entende isto não compreendeu a História do século XX - ou lamenta o seu desfecho.

Posto isto, exortamos os leitores da Coluna Infame para que comprem o Indy e/ou enviem a sua assinatura para Av. Almirante Reis, 113 - 8º Sala 802 1150-014 Lisboa.
Para os viajantes da Net, correio@oindependente.pt ou, então, pmascarenhas@oindependente.pt JPC


KUMBA, ÚLTIMA RODADA: A liberdade de pensamento é um exercício livre fisiológico do ser humano. Mais um para acrescentar à galeria de tiranos ou imbecis africanos. PM
VENCIDO DO CATOLICISMO, MAIS UMA: A última observação ainda respeitante ao Espigas é a questão religiosa. Nuno Centeio parece indiciar uma contradição nossa entre o conservadorismo e a crítica à Igreja. Pois bem: a maioria dos conservadores defende, sem dúvida, o papel positivo das religiões e das Igrejas, independentemente da fé de cada um; mas também há, sobretudo na tradição inglesa (Oakeshott é um caso) uma desvalorização da componente religiosa, e um maior cepticismo, ficando a religião para a esfera meramente individual. Por isso é possível ser conservador e ser agnóstico (embora dificilmente ateu) e, por maioria de razão, criticar a Igreja (prerrogativa aliás de qualquer católico livre e responsável). Pergunta-nos o Nuno se esta Igreja é a nossa Igreja. É, por razões evidentes, uma pergunta de resposta pessoal e individual. Pela minha parte direi que a Igreja Católica é, evidentemente, a minha Igreja, mas que sei os termos precisos em que sou crente, e o espaço de legítima discordância em matérias que não são imperativas nem dogmáticas. A posição face à guerra é uma (como a posição oficial face ao preservativo, que suponho ambos criticamos). Por razões que deixarei explícito num artigo que escreverei sobre a Pacem in Terris, a doutrina moderna (pós-conciliar) sobre a guerra parece-me contraditória com a tradição teológico-moral da Igreja nessa matéria, a começar por S. Tomás (que, convenhamos, não era o pároco da Lixa). Por isso me penaliza a actual posição da Igreja Católica, que, incapaz de lidar com os escândalos e a sua própria insustentável posição em certas matérias sexuais, cavalga a popularidade da soi-disant paz para (re)conquistar os corações (do Prof. Rosas?). Se me choca um enviado do Papa ser recebido por Saddam e fazer profissões de fé na boa-vontade pacífica do tirano? Choca. Se me choca ver o Papa a receber o fantoche Aziz? Choca. Se me choca o mesmo Aziz a fazer uma palhaçada «orante» em Assis, um dos mais admiráveis lugares da Cristandade? Choca. Esta é a minha Igreja, Nuno, mas estas posições - inúteis, irrealistas, perigosas, estupidamente mediáticas - não são as posições que eu desejava ver na minha Igreja. Uma coisa é defender a paz. Outra é pôr a Igreja de Cristo na turbamulta dos idiotas úteis. PM
SÍNDROMA TROCADO: Mas há, evidentemente, mais. Nuno Centeio é um dos (doze) direitistas que conhecemos que está contra a guerra. Muito bem. Essa não é a questão. O problema é que Centeio tem, como ele mesmo admite, uma relação «retorcida» com as ideias que diz professar. N.C. sofre do Síndroma Trocado (assim designado em honra do seu inventor, o Prof. Diogo Trocado Freitas do Amaral). O síndroma Trocado manifesta-se de dois modos: ou a recusa absoluta em se dizer de direita, mesmo sendo realmente, ou - versão mais grave - a ideia de que se é de direita, mesmo sem se defender posições de direita (fenómeno observado duas vezes na Eritreia em Setembro de 94 pelo antropólogo Maurice Furtwangler). Nuno Centeio lembra-me uma «católica» que eu conheci (que, essa sim, merecia o epíteto de Espiga ao Vento) e que me disse a espantosa frase: «eu sou católica mas não acredito no pecado». Um génio, esta rapariga. Nuno Centeio também se diz de direita, mas até agora no seu blog não manifestou qualquer adesão a uma posição de direita, a não ser uma vaga referência ao Independente (e uma referência à Maxim, claro indício marialva e bacoco). Basta ver o paradoxo: ele, que é de direita, polemiza diariamente connosco, que somos conservadores, e não com o Blog de Esqueda, dirigido por dois marxistas. Com direitistas destes, não precisamos de trostskistas. Claro que não interessa muito «ser de direita» (mais à frente explicarei a minha insatisfação com a palavra), nem os rótulos amarram ninguém a nada. Mas não faz sentido, caro Nuno, dizer-se de direita e depois escrever que atribuiria a pasta dos assuntos sociais à esquerda (!!!). Mais a posição face aos EUA, à guerra, ao governo português, aos filmes terroristas da esquerda delirante, e outros exemplos citados. A boa notícia é que o Síndroma Trocado tem cura: basta defender, uma vez por mês, uma posição de direita (conservadora, liberal, o que quiser). Ou então admitir que é um centrista, e inscrever-se no PS. PM
GRANDE ESPIGA: Nem sei por onde começar. Quase diariamente o Espigas ao Vento, um site essencialmente sobre cinema mantido por Nuno Centeio tem polemizado connosco. Cada dia, assentamos mais uma nota para uma resposta futura. E agora, de repente, há dezassete items no bloco (!!). Não vou responder a todos, sobretudo os que dizem respeito à guerra e a assuntos que já aqui tratámos: a Coreia (protegida de ataques, porque já tem armas nucleares), o derrube imediato de todos os tiranos (utopia que não sustentámos aqui), as constantes alusões ao fascismo e nazismo (que se justificam porque achamos graça chamarem-nos de extrema-direita quando a extrema-direita é explicitamente contra a guerra e a favor e Saddam), os nossos ocasionais «valores de esquerda» (não vemos como, mas não vinha nenhum mal ao mundo) o filme About Schmidt (interessante, mas também banal), o «sensacionalismo», a «agressividade» e a «grosseria» (tomar o estilo pelo conteúdo), «o amor à Humanidade» (coisa que, em absoluto, não professamos), etc, etc. Mas vale a pena responder à crítica nova e mais substancial: a dos gostos culturais de esquerda. Não vou teorizar muito sobre o assunto, mas quero dizer se por «gostos culturais de esquerda» se quer dizer escritores, artistas ou produtos culturais de esquerda, então não temos nada contra, bem pelo contrário (dois dos meus escritores favoritos eram comunistas, Pavese e Éluard, e sou um ávido leitor de Adorno ou Benjamin). Se estamos a falar de um entendimento «de esquerda» da cultura, então realmente não o partilhamos, sobretudo a sobrevalorização da dimensão social da arte (aliás, longe de fazer o pleno na esquerda) ou a própria relevância literária dos pontos de vista extra-literários que a arte sustente. Nuno Centeio diz que tem «gostos culturais de esquerda» porque, por exemplo, gostou de Bowling for Columbine, um filme esquerdíssimo. Mas a nossa opinião sobre Bowling não se baseia nas suas «ideias» (que achamos repugnantes), mas na desonestidade factual e emocional do filme (que se desresponsabiliza da verdade para querer ser uma «comédia» mas que ao mesmo tempo pretende apregoar moralidades), bem como na manipulação grotesca dos intervenientes. Michael Moore é um homem desonesto (um artista desonesto), e isso é particularmente grave para um documentarista (comparem com Frederick Wiseman, ou Errol Morris). Bowling for Columbine é propaganda, mas é sobretudo um mau filme, porque a propaganda pode dar-nos um Eisenstein ou uma Riefensthal, o que não é manifestamente o caso. O que nos choca é que uma pessoa honesta (de esquerda ou de direita) não perceba como o filme é éticamente deplorável, para além do tema e das ideias. Gostar de filmes «de esquerda» é irrelevante, tanto como a designação «filmes de esquerda» (ou «de direita»). Mas não perceber a grosseria intelectual de um panfleto é grave. E esperávamos que uma pessoa que se diz de direita não embarcasse nisso. PM
OS FILHOS DE ROUSSEAU (2): Milhares de pessoas em Lisboa, milhares de pessoas em Madrid, milhares de pessoas pelo mundo - e os pacifistas da praxe declaram, rendidos e consolados: é a Democracia em estado puro. Não lhes interessa o governo representativo - que é, em essência, garantia de um estado de Direito. Para os pacifistas, e para a sabedoria analfabeta que os anima, a verdadeira Democracia (sempre com maiúscula) está nas ruas, na voz da plebe, nesta voz que clama paz e justiça. Tudo o resto é, notem bem, «ilegítimo» - a começar pelas decisões do executivo que a maioria aprovou democraticamente. Confesso que nada disto é novidade. E um conhecimento vago da História das Ideias Políticas leva-nos, uma vez mais, a Rousseau. Rousseau entendeu, no Contrato Social, que a Humanidade nascera livre e que, em todo o lado, ela se encontrava agrilhoada. Porquê? Porque, na fantasia criada por Jean-Jacques, o aparecimento da agricultura e da propriedade privada criou um fosso entre ricos e pobres, sendo a Lei e o Governo a expressão dos ricos para a humilhação dos pobres. Isto, para Rousseau, só podia ser ultrapassado se os cidadãos prescindissem das suas mesquinhas liberdades particulares, entregando-as e entregando-se ao colectivo, de onde acabaria por emergir uma «vontade geral» - que, por ser «geral», se opunha firmemente aos egoísmos particulares. Só assim os homens deixariam de ser escravos da Lei. Passariam a ser, eles próprios, legisladores e, ao mesmo tempo, sujeitos da legislação, vivendo numa «democracia directa», assenta na soberania popular e na consulta recorrente à vontade das maiorias. Escuso de desmontar a natureza tirânica deste pensamento. Digo apenas, sem pretender incomodar o onanismo político das patrulhas, que a «democracia popular» imaginada por Rousseau foi a alavanca teórica para as experiências totalitárias do século XX, sobretudo a Leste, em que a voz da «vontade geral» (o Partido) nunca olhou a meios para calar a dissidência. Ou seja, para calar aqueles que, ainda aprisionados aos egoísmos particulares, se mostravam incapazes de contribuir para os «verdadeiros» interesses do colectivo. A história repete-se e esta canalha não aprende nada de nada. JPC
OS FILHOS DE ROUSSEAU (1) : Discussão interessante: a Coluna Infame diverte-se com o mundo, alinhavando umas observações «marialvas» e «bacocas» - e a Esquerda, personificada no Blog respectivo, desata a rabiar pelos cantos. Isto tem explicação? Tem: Jean-Jacques Rousseau e a particular visão de natureza humana que o genebrino forjou para a eternidade. Que nos diz Rousseau do estado de natureza anterior à constituição da sociedade civil? Não, com certeza, a visão catastrófica e hobbesiana, que colocava o homem numa guerra de todos contra todos. Para Rousseau, o homem em estado puro era uma criatura intrinsecamente boa e virtuosa, avessa ao vício e aos calores pecaminosos da carne. Nenhuma inveja, nenhum ódio, nenhuma malignidade no coração - uma situação idílica e utópica que a constituição da sociedade civil, com o aparecimento das primeiras formas de propriedade, acabaria por destruir implacavelmente. Isto explica por que motivo Rousseau se esforçou tanto por devolver o homem à «liberdade» e à natureza. Como? Pela constituição de uma «vontade geral» que, eliminando facções (partidos políticos, tribunais, qualquer réstia de separação dos poderes ou de liberdade de expressão), pudesse entregar o homem à sua própria vontade. Escusado será dizer que as lições de Rousseau, a ideia de Virtude que ele cozinhou na sua imaginação demencial, levou a Robespierre, ao excesso e ao terror. E já, no século XX, a Lenine, a Estaline, a Ceausescu e a outros beneméritos que a Esquerda, coitada, recorda com saudade. Nenhum problema. Nós, na Coluna, vivemos bem com os suspiros totalitários dos outros. Mas convém esclarecer que, quando a Esquerda clama por «moralidade» e «virtude», ela está a apelar directamente para o sonho idílico de Rousseau. Ou seja, está a apelar para as «democracias populares» que, em nome do colectivo, esmagaram o individual. JPC
MINORIAS: No debate semanal na Culturgest sobre livros, o meu amigo (desculpem lá) José Eduardo Agualusa contou que Bernardo Carvalho, um dos mais notáveis ficcionistas brasileiros actuais, não vende mais que mil (1000) exemplares de cada livro. E depois perguntam-nos porque defendemos as minorias... PM
QUE FAMA: O Espigas (talvez o mais contraditório dos blogs portugueses, como explicarei num dos próximos posts) volta a meter-se connosco. Então agora até os comentários sobre cinema da Coluna são considerados «bojardas cinéfilas»? Pedimos o favor de nos mandarem um guideline a dizer de que podemos falar, e como, sem ofender ninguém. Porque pelos vistos tudo o que dizemos são «bojardas». PM

terça-feira, fevereiro 18, 2003

RALHA E TEM RAZÃO: De um lacaio do Pentágono, recebemos o seguinte:

António Barreto disse tudo na edição de domingo do PÚBLICO. Tal como fora antes referido por Helena Matos no mesmo diário, até nada suspeito de «vassalagem» e «seguidismo», ou seja, os termos que alguns usam para definir quem com eles não concorda. Em relação aos Estados Unidos, estamos a escolher entre a guerra e a chantagem. E, apesar de uma parte muito razoável dos que optam pela segunda via não deixarem de ser gente bem intencionada, até esses acabarão por descobrir as desvantagens de viver debaixo da chantagem de quem gere a nossa inacção até ao momento em que tem interesse ou condições para realmente nos fazer mal. A não ser que tenham interesse em ver multiplicado o exemplo da Coreia do Norte, onde o ensandecido líder tenta convencer um povo martirizado que o seu aniversário foi comemorado nas principais capitais de todo o mundo. Algo que até poderia inspirar uma sitcom divertida se não fosse o infeliz pormenor de o referido senhor deter armas nucleares. (Leonardo Ralha).

Obrigado, Leonardo. O Pentágono agradece. Manda o NIB, s.f.f. PM
DEUS VOS LIVRE: Já sabíamos que alguns partidos espreitavam os blogs, mas é a primeira vez que temos um mail de um deles, e nem mais nem menos do que o PNR, o ex-PRD que sofreu um take-over dos nacionalistas. Citamos:

Já por várias vezes se referiram na vossa coluna ao PNR, particularmente quando se referem aos chamados "monteiristas", às
vezes apelidados de novos renovadores. Daqui esclarecemos que no PNR, somos mais nacionais e, portanto, bem menos renovadores. Até ao momento em que vos escrevo nunca demos pela presença, nas nossas fileiras, de gente próxima da que agora referem como se tendo desfiliado de qualquer coisa que há para aí e que um dia já teve nome de partido e foi dirigido por gente com as mãos limpas, o que pelos vistos agora não é o caso. Os que agora se desfiliaram ainda não há muito tempo colaboravam com
a revista Futuro Presente - conhecem, não conhecem - e arranjavam um lugarzinho de deputada à mulher do director dessa revista, que na altura bem precisavam, ela e o marido, da ajuda desses nossos ex-políticos, porque agora, ela, já arranjou um belo tacho como provedora de uma santa instituição que distribui por aí uns belos e porventura "santos" proventos. Razão pela qual, o marido, já não precisa dos ofícios dos tais monteiristas. Os dois a falar na televisão em representação de uma direita de que não fazem parte, e o marido num vaivém até Luanda onde dá, ele e mais alguns próximos, umas lições aos "generais" do MPLA, que também já sãO apoiados pelos americanos e portanto não há como fazer as pazes. (...) Esclareço, por fim, não recebemos as tais adesões, mas prometo que a Coluna Infame será a primeira a saber, se tal vier a acontecer
. (Luis Castro, PNR).

As nossas referências ao PNR não eram, em rigor, ao PNR; «PNR» significava apenas «direita extra-parlamentar», à qual os «monteiristas» se vão, pelos vistos, juntar. De maneira nenhuma insinuámos que se tratava de reforços reais do PNR (Deus os livre de tais reforços). Também esclareço que já escrevi (sobre cinema, sobretudo) na Futuro Presente, e que sou amigo de um dos seus responsáveis, Miguel Freitas da Costa, mas que nunca foi um «monteirista» (só me faltava essa). Faço também notar a hostilidade do PNR aos americanos, que em absoluto nos separa desta direita (e se fosse só isso...). O mail ilustra bem as quezílias na(s) direita(s), mas essa parte não nos diz respeito (a Coluna não tem nada a ver com partidos). Queremos só acrescentar que, com tudo o que lhe possamos apontar, Jaime Nogueira Pinto tem produzido obra sobre a direita em Portugal. E mesmo quando discordamos, preferimos sempre quem deixa obra. PM
TACO A TACO: Já é hábito: um homem chega a casa e tem o mail cheio, para não falar de bocas vindas do Blog de Esquerda (o mesmo dirão eles, por maioria de razão). Enquanto não pomos o correio em dia, só três esclarecimentos e um agradecimento.

1) O Ministro Paulo Portas teve já pelo menos uma - bastante noticiada - intervenção pública sobre a guerra, em diálogo animado com Joscka Fisher. Mas é bom que se mantenha prudente, e deixe o assunto «guerra» ao PM e ao MNE. Portugal deve ter uma posição firme, mas é absurdo pôr-se em bicos dos pés, até porque, tirando as Lajes, não tem nada para oferecer

2) Afeganistão: é evidente que não tem havido grandes notícias sobre o Afeganistão, porque, como o Zé Mário diz, a opinião pública só se interessa por um assunto de cada vez; mas a imprensa americana tem trazido mesmo assim bastantes notícias sobre a reconstrução afegã (v. o New York Times). Para quem não podia: ouvir música, ir ao cinema, ler jornais, andar de cabeça destapada, cortar a barba, etc, etc, etc. é um bocado escandaloso dizer que o afegãos ficaram na mesma depois da intervenção americana. Coisa diferente são as questões tribais, a questão do nation-building, do regime de protectorados, etc, matérias muitíssimo mais complexas e sobre as quais temos também as nossas sérias perplexidades (até porque duvidamos da exportabilidade mundial da democracia).

3) Bem e Mal, verdade, etc: Não gostamos de pôr as coisas em termos de Bem e de Mal absolutos, porque torna a política metafísica, e isso é altamente desaconselhável. Mas não podemos cair no relativismo: o regime de Saddam, por exemplo, é objectivamente uma tirania detestável, e por isso um «mal» (como o nazismo, etc). Também não pomos a questões políticas em termos de Verdade: em política, como sabe quem leu dez páginas de um livro de História, a verdade resulta de circunstâncias, mentalidades, movimentos sociais, etc. Nunca escrevemos aqui uma linha que pretendamos seja «a verdade»: é a nossa opinião, e, como se diz das sondagens, vale o que vale.

Quero também agradecer a resposta do Possidónio no Blog de Esquerda, e explicar que provavelmente não se justifica termos comentários aqui na Coluna. Sempre que quiserem, mandem mails, que publicamos na íntegra, sempre que se justifique (como seria o caso). Mas francamente, para ter leitores a chamar-nos «fascistas» e coisas assim, não vale a pena. PM
A HISTÓRIA INTERMINÁVEL DE CAMARATE: Camarate não acaba. Sucederam-se as comissões de inquérito, as investigações privadas, livros, artigos, peças duvidosas e declarações retumbantes de gente que aproveitou o caso com pouco decoro. O problema de Camarate é ser um caso literalmente impossível. Porque nunca se descobrirá o que realmente aconteceu naquela noite. Adeptos do acidente e do atentado estão demasiado agarrados às suas pré-compreensões para discutir com seriedade e distância o problema. Esta comissão será mais uma, cheia de circo mas sem resultados. Camarate tornou-se uma questão de fé. E não há nada mais indiscutível do que a fé. PL
EXCITAÇÕES: A primeira excitação do dia pertence a Fernando Rosas. Ontem, na SIC Notícias, para justificar a razão por que condena a guerra, mesmo com aprovação da ONU, Rosas louvou-se em opiniões de venerandas figuras do episcopado português sobre o conceito de guerra justa e guerra santa. Nos dias que correm, é preciso ter cuidado com citações de bispos. Mas é sempre interessante ouvir Rosas recorrer à Igreja para amparar as suas posições. Qualquer dia, ordena-se. PL
OH: Há, ao que parece, quem se divirta a ler a Coluna. E nós que só queríamos ser apreciados pelo marialvismo bacoco... PM
ERRATA: Claro que no post sobre cinema me esqueci de um filme a estrear e no qual aposto sem qualquer dúvida: Punch Drunk Love, de Paul Thomas Anderson. Por este senhor - e não por Carlos Cruz - ponho as mãos no fogo. PM
DANOS COLATERAIS: Agradecemos as cartas que temos recebido sobre a guerra, mesmo, evidentemente, as que são contra a guerra. Mas, por favor, não se preocupem só com a «paz»; tenham também algum cuidado com as regras mais elementares da língua portuguesa. PM
AND NOW, FOR SOMETHING COMPLETELY DIFFERENT: O vazio é a substância mais consistente do nada. Pascal, arruma as botas, chegou o Doutor Kumba. PM
AIMEE MANN: Deus, às vezes, é perdulário. PM
EU É QUE SOU O PRESIDENTE DA JUNTA: Não temos culpa. Todos os dias o sub-de Gaulle, o boquinhas, o imperador de nada, diz alarvidades novas: agora repreendeu os países candidatos à UE por terem alinhado com os EU, dizendo que não podem estar assim a opinar como entenderem se querem ser membros da União, e que por isso «perderam uma boa ocasião para estar calados». Chirac, a figura para quem a frase «perder uma boa opinião para estar calado» foi notoriamente inventada, entra portanto na chantagem, como se a UE fosse o seu quintal. Chris Patten lembrou-lhe acertadamente que a União Europeia não é o Pacto de Varsóvia. A «Europa» é cada vez mais uma anedota. PM
OS MODERADOS COMPREENDEM: Leiam o editorial do Observer (que tenta lidar com os factos, e não com as predisposições) e esta reportagem do New York Times (que decidiu entrevistar iraquianos fora do Iraque). São, simplesmente, os dois principais jornais da esquerda anglo-saxónica. Os moderados estão a começar a compreender. PM
QUEIJO E HAMBURGERS: Questionado sobre o antiamericanismo pelos jornalistas da TIME, Chirac responde: I've known the U.S. for a long time. I visit often, I've studied there, worked as a forklift operator for Anheuser-Busch in St. Louis and as a soda jerk at Howard Johnson's. I've hitchhiked across the whole United States; I even worked as a journalist and wrote a story for the New Orleans Times-Picayune on the front page. I know the U.S. perhaps better than most French people, and I really like the United States. I've made many excellent friends there, I feel good there. I love junk food, and I always come home with a few extra pounds. Um homem que diz gostar da América por causa da junk food (!!) é um hipócrita, um imbecil ou um zombeteiro. Talvez as três coisas. PM
RELEMBRAMOS: O semanário Independente, num gesto de coragem e clareza moral, resolveu publicar um manifesto de apoio à Carta dos Oito, cujo texto passamos a citar:


Desde que a "Carta dos Oito" foi publicada, são inúmeras as vozes que têm acusado os seus autores de "seguidismo" em relação aos Estados Unidos na questão do Iraque e de "provocarem a divisão europeia". Rejeitamos estas acusações. Não foi a "Carta dos Oito" que provocou a "divisão europeia". Quem o fez foi a Alemanha e a França, com a declaração contra a guerra do Iraque, uma das manobras mais hipócritas dos últimos anos da política europeia. Desprezando os restantes "parceiros" europeus, um líder fraco e medíocre, Gerhard Schröder, fez uma oferta irrecusável a um líder ambicioso e perigoso, Jacques Chirac. O negócio era simples: Paris afastava-se dos Estados Unidos em relação ao Iraque, evitando assim o isolamento de Berlim. Em troca, a França continua a dominar a União Europeia, em parceria com a Alemanha reunificada. Bastava que os restantes "parceiros" aceitassem a partilha de poder, cozinhada entre Chirac e Schröder à margem da Convenção Europeia. Na nossa opinião, este modelo de construção europeia tem de ser abandonado. Não podemos continuar a aceitar - nem aceitamos -, em nome da "unidade europeia", consensos podres, que servem antes de mais os interesses de Berlim e de Paris. Aqueles que defendem a paz a todo o custo estão a cometer dois erros fundamentais. Por um lado, desvalorizam a dimensão da ameaça iraquiana. O Iraque já usou armas de destruição em massa e, como afirmaram várias vezes os seus responsáveis, voltará a usá-las contra alvos ocidentais. Como é absolutamente claro, o Iraque não está disposto a colaborar com as inspecções das Nações Unidas. Neste sentido, consideramos que o Iraque constitui uma clara ameaça à segurança dos países ocidentais. Como a História ensina, há momentos em que não se pode hesitar em recorrer à força para garantir a paz e a segurança. É desejável que qualquer tipo de acção tenha lugar com a autorização do Conselho de Segurança. Mas se isso não for possível, resta apenas uma intervenção militar para acabar com Saddam Hussein. Por outro lado, os defensores da paz a todo o custo colocaram-se numa posição de equidistância em relação a Saddam e a Bush. Na nossa opinião, isto é inaceitável. Entre a democracia e a tirania, não se pode hesitar. Ao contrário daqueles que hesitam, muitos deles ainda ressentidos com o resultado da Guerra Fria, nós sabemos muito bem de que lado estamos. A História do século XX, desde os "gulags" de Estaline até às longas marchas de Mao, passando pelo Holocausto e os ataques de 11 de Setembro de 2001, demonstra quem tem razão. Num momento decisivo para a segurança do mundo ocidental e para o futuro da Europa, a nossa posição é clara. No conflito com o Iraque, o nosso lugar é ao lado dos norte-americanos. Quanto à segurança da Europa, a Aliança Atlântica continua a ser indispensável. Tentar construir uma União Europeia contra os Estados Unidos da América é o caminho para o desastre. Quem não entende isto não compreendeu a História do século XX - ou lamenta o seu desfecho.


Posto isto, exortamos os leitores da Coluna para que comprem o Indy e/ou enviem a sua assinatura para Av. Almirante Reis, 113 - 8º Sala 802 1150-014 Lisboa.
Para os viajantes da Net, correio@oindependente.pt ou, então, pmascarenhas@oindependente.pt JPC

PRIMEIRA RESPOSTA AO INQUÉRITO SOBRE BLOGS: Num recente inquérito aos media suíços (nas três regiões linguísticas), 75% dos jornalistas identificaram-se como sendo de esquerda. Numa amostra representativa da população (e no quadro do mesmo inquérito) só 25% das pessoas se definiam do mesmo modo. É por isso que os jornalistas passam a vida a falar de objectividade. As pessoas que não são de esquerda sabem que a objectividade jornalística (ou outra qualquer) é um mito: o que pedimos a um jornal é que ele seja honesto, não que ele seja objectivo. O Economist não se pretende objectivo, ao contrário do Monde. (Luís M. Serpa)



CINEFILIA: Ainda só vi o filme de Alexander Payne, mas suspeito que a remessa de Hollywood deste ano vai ser um decepção total (sim, mesmo o Scorsese), apesar das parangonas. A minha aposta redentora? Far From Heaven, de Todd Haynes. PM
É TÃO SIMPLES: Jornal da noite da RAI: vinte minutos, sobriedade, notícias relevantes (o Iraque, a política interna, um jogo de futebol, ciência ou cultura, o tempo). Será assim tão difícil de fazer? PM
BIG BROTHER: Benemérito que sou da FNAC, preparo-me para me inscrever no cartão da dita. Formulários, tudo bem, mais fotos e inscrição. É preciso mais? Sim: fotocópia do BI e do cartão de contribuinte, o NIB, e um recibo da renda da casa ou da luz, electricidade, etc. Já agora, não querem que faça um chichizinho para um frasco, não? PM
WITH A LITTLE HELP FROM OUR FRIENDS: Continuamos a agradecer críticas, comentários, e - cada vez mais importante - chamadas de atenção para gralhas e erros de facto (de facto, não de opinião). Aqui na Coluna enganamo-nos e temos dúvidas. Bolas, será que não somos de direita? PM
IMPRENSA: Demorei horas a ler os jornais estrangeiros de Domingo. A imprensa portuguesa, mesmo ao Sábado, despacha-se em meia-hora. Porque será? PM
ESTAMOS A LEVAR UM BAILE: Fernando Venâncio, Possidónio Cachapa, o Blog de Esquerda está a arrasar. Embora não nos faça a pergunta a nós, respondo ao meu amigo Possidónio, outro dos melhores da sua geração (o que é que querem, é mesmo verdade!!). Caro Possidónio: acho que não conheço nenhum deputado de direita pessoalmente, não uso habitualmente gravata, e só minto o bastante para escrever livros. Quanto ao «ar de coninhas», recuso referir-me ao órgão reprodutor feminino nesses termos apoucantes, e muito menos a responder a um comentário que claramente sofre, ainda que em registo irónico, de sexismo e marialvismo bacoco. Por favor volta a formular a questão segundo os cânones do dr. Kinsey e da Associação Americana de Sexologia Clínica. Obrigado. PM
DISCORDÂNCIA, AMIZADE E CARÁCTER: Para quem tem estranhado, vou explicar. O principal escritor do Blog de Esquerda, como já aqui disse, é um querido amigo. Ao longo dos anos, temos discordado muito em política (e concordado em quase tudo o resto). Nunca, é verdade, discordámos tanto como agora, mas talvez nunca tenhamos vivido um momento como este de crise, de separar de águas. Alguns leitores podem estranhar, dadas as nossas pólémicas, mas mantemos (os meus comparsas e eu) uma estreita amizade com o ZM porque, como já disse de outra pessoa com quem estamos em desacordo, é uma pessoa genuína e decente, movido apenas pela sua convicção, e nós respeitamos isso, para lá de todas as discordâncias. Porque o ZM tem mantido - e cremos que manterá sempre, como nós os três tentamos sempre - uma lealdade polémica exemplar, sem referências de desprezo, de apoucamento intelectual ou de distorção grosseira. É um modelo da polémica que pretendemos manter neste blog. Porque, para nós, a distinção esquerda/direita não é mais importante do mundo. O que há, à esquerda e à direita, é pessoas com carácter e sem carácter, e no meio literário tenho conhecido a minha dose das segundas. O ZM pertence, sólida e inabalavelmente, às primeiras. E cada vez há menos gente assim. PM
UM MAIL EM ITALIANO: Um de nós (pista: não é o PL nem sou eu) tem uma namorada de esquerda (the horror, the horror). Vamos chamar-lhe Maria (nome fictício). A «Maria» escreveu-me:

Acabo de ler a «Coluna Infame», e tenho uma dúvida toda italiana (a «Maria» é italiana) que me passou pela cabeca ontem: será que não tiveste a tentação de estar no meio daquelas pessoas mesmo que fosse por um minuto somente, para respirar o odor do desejo da paz - que não é um perfume politico, mas humano? O resto da carta é em italiano: Io non ho partecipato alla manifestazione, in quanto nel paese dove mi trovo (a Federação Helvética) la libertá di esprimere il dissenzo silenzioso, ma dignitoso attraverso bandiere della pace appese in ogni angolo della cittá, cosa non possibilie in Italia - é vergognoso per una democrazia - e la posizione del governo mi fa credere ancora che esiste una democrazia e un senso civico in Occidente anche se al di fuori dalla Comunitá Europea. Non sono per la guerra e nemmeno per chi la strumentalizza politicamente per accrescere i propri «consensi politici» - la pace é una questione di diritto alla vita, di dignitá umana. (Que língua maravilhosa, céus, o que fizeram os italianos para merecer uma civilização assim?).

Cara «Maria»: Não tive o menor desejo de estar entre a multidão. Não gosto de multidões. As multidões são imbecis. Nem sequer gosto das multidões com as mesmas ideias do que eu, porque as multidões não têm ideias, só instintos primários. Há anos que evito estar entre multidões de católicos ou de direitistas (multidões de monárquicos não há). Não sou, de todo, um racionalista, mas creio que em política as emoções são perigosas, excepto quando são vividas a nível pessoal, e que por isso não fazem mal a ninguém. Sou defensor do mais aborrecido dos regimes: a democracia parlamentar, com rotinas chatíssimas como comissões, relatórios, escrutínios. Uma coisa do pior. Mas o entusiasmo é prejudicial para a política. Não digo que a política seja uma ciência exacta, uma ponderação olímpica de verdades comprovadas, mas prefiro, pessoalmente, ler e escrever, e não agitar bandeiras ou slogans (sem prejuízo das provocações aqui do blog, que servem para não fazer disto uma coisa enfadonha). De resto, não acredito na bondade desta manifestação em concreto; acho que não se pode ser pela «paz» quando não existe paz nenhuma, a começar pelo povo iraquiano. Sabes bem que não sou um belicista nem um facínora, apenas entendo que a guerra pode ser neste caso um mal menor. Sei que não concordas comigo. Mas eu reconheço que as tuas razões são genuínas e decentes. Espero que reconheças o mesmo das minhas. E que nos continues a ler e a mandar mails. Até breve. Com amizade. Pedro (PS - Não te esqueças da livralhada que te pedi). PM

segunda-feira, fevereiro 17, 2003

PERGUNTA AOS LEITORES: Numa visita pela net ontem foi claro, como já aqui escrevi, que há muito mais blogs a apoiar o ataque ao Iraque do que jornais e revistas tradicionais. Dêem-nos a vossa opinião sobre o fenómeno. Não serão aceites comentários que enfermem de marialvismo bacoco. PM
CASANOVA DIXIT: Dominique de Villepin, ao chegar a Bruxelas, mostrou-se feliz por estar na Bélgica, «um país corajoso». Bem, quando pensamos na Bélgica não é essa a associação mais imediata... PM
AINDA AS MANIFS: As manifs, sobretudo em Londres, Madrid, Roma e na Austrália, foram um sucesso. Mas um sucesso para quem? PM
E POR FALAR EM ANA GOMES:

Aviso: segue-se um comentário sexista, obsceno, falocêntrico, de um marialvismo bacoco, revelador de traumas de infância, problemas de performance, homossexualidade reprimida, crise edipiana, esquizofrenia. É favor não mostrar a menores de idade, académicos circunspectos e esquerdistas puritanos.

Numa entrevista a M.J. Avillez, Ana Gomes encerrou com uma referência à sua filha. Sob pena de ser de novo acusado de estar a organizar um dating service tosco, tenho que citar essa passagem. Disse a diplomata, para exemplificar o seu instinto, que na maternidade lhe trouxeram o bébé errrado, mas que ela deu logo pela troca. Verificado o erro, trouxeram-lhe aos braços a sua verdadeira sucessora, a Joaninha. Ana Gomes, babada, disse que a reconheceria sempre: não garanto que era assim, mas qualquer coisa como «os olhos do pai, as mães da mãe, as pernas da avó», etc. O instinto de Ana Gomes ajudou à resolução da questão timorense. O instinto de Ana Gomes vai dar alegrias ao PS (Ministra dos Negócios Estrangeiros?). Mas, sobretudo, o instinto de Ana Gomes deu-nos - ao público televisivo - a deslumbrante Joana Gomes Cardoso, que se tivesse sido entregue à D. Idalina porteira de Alfama talvez não tivesse ido para a faculdade, etc, e não teríamos (o plural é completamente majestático) gloriosas insónias a ver os jornais da SIC Notícias. Sempre as mesmas notícias: à 1 da manhã, às 2 da manhã , às 3 da manhã...

Termina aqui o comentário sexista e falocêntrico. Uma abjecta objectificação da mulher, prolongamento de uma sociedade patriarcal e clerical-fascista. A referência às pernas revela uma parafilia evidente. Este blog é uma abjecção. Queremos é textos do Prof. Boaventura.
PM
UM NOVO PS? O PS está a mudar para melhor? Tememos francamente que sim. Depois da posição sensata sobre a guerra, e das melhorias de Ferro noutros domínios, há sinais de outras mudanças. O responsável pela pasta política, Pedro Adão e Silva, é um rapaz da nossa idade, de quem me dizem o melhor, e que, ao que parece, é leitor do nosso blog (thanks). Na pasta das relações internacionais, os socialistas tiveram um reforço de peso, Ana Gomes: voluntariosa, enérgica, inteligente, e com trabalho feito. António Vitorino pode ser, neste momento, presidente de tudo o que é organização europeia, e virá a ser primeiro-ministro, mais cedo ou mais tarde. E há mais. Uma renovação, finalmente. Claro que o PS é ainda o partidos dos Narcisos, dos Candais, e de outros que tais. Mas pode ser que finalmente tenhamos à frente do maior partido da esquerda gente que se recomenda. Mesmo quando estamos, e estamos muitas vezes, em desacordo com eles. PM
SADDAMIZADOS: Não fomos nós que inventámos: o sr. de Bagdad (podemos chamá-lho «ditador», ou ofendemos alguém?) agradeceu aos marchantes de sábado nas cidades do Ocidente. Não fomos nós que inventámos. PM
MAIS IALÁ: Oportunismo é a esperteza de um esperto sem esperteza nenhuma. (O Manuel Poças, do Bisturi, lembra, acertada e bondosamente, que estas frases foram escritas em crioulo, e podem ser bizarras apenas na tradução portuguesa. Mas nós já ouvimos, todos nós já ouvimos, o Doutor Kumba a falar em português. E por isso achamos os aforismos fidedignos). PM
MINORIAS: Percebo que várias vozes dizem coisas diferentes. Mas decidam-se, leitores do Blog de Esquerda: imaginamos estar em minoria para nos agigantarmos, ou estamos em minoria e usamos isso para provar como somos contra os «unanimismos», etc? As duas coisas não pode ser. PM
UM GRANDE ESCRITOR É APENAS UM GRANDE ESCRITOR: A boa notícia (para os leitores) é que o JPC começou a escrever a sério no blog. A boa notícia (para mim) é que folgam um pouco as costas, porque enquanto houver Coutinho no pedaço não sobram esquerdistas indignados a implicar comigo: ao pé do João sou um menino de coro. Por isso, chuto para Leça da Palmeira a resposta ao texto muito divertido do Ricardo e ao texto completamente confundido do Terráqueo (que nos assaca coisas com as quais não temos nada a ver, não achamos bem, não aprovámos, etc), ambos no Blog de Esquerda. Coisa diferente é o mail do Alexandre Andrade. Conheço o Alexandre há dez anos, e fomos amigos de convivência frequente. Do ponto de vista literário, o Zé Mário já escreveu no seu blog o que eu tinha para dizer: o Alexandre é o melhor ficcionista da nossa geração; aliás, tive oportunidade de o escrever, exuberantemente, no DNa (o único texto que sobre o Alexandre se escreveu) e não me vou repetir. O livro (único até agora publicado, infelizmente) chama-se Benoni, e foi publicado (e maltratado) pela Editorial Notícias. O Alexandre, como quase todas as pessoas de bom-gosto, emigrou. Não o vejo há muitos anos, com algumas brevíssimas intermitências, e não tenho acompanhado o seu percurso humano. Mas vejo que há coisas que se mantêm na mesma e outras que mudaram radicalmente. O Alexandre continua um racionalista. O Alexandre continua um puritano. O Alexandre continua um escritor. Mas o Alexandre, que eu conheci completamente apolítico, abraçou a bandeira vermelha, ou rosa, ou o que for: é hoje um homem de esquerda. Devo dizer que acho uma indubitável melhoria: os apolíticos são a pior raça que para aí anda, sobretudo num momento como este. Mas há também uma mudança lamentável: o Alexandre que eu conhecia - mesmo de uma frieza em todos os domínios que sempre me incomodou - era um homem com imenso sentido de humor. Em todas as variantes: ironia, alusão, pastiche, nonsense, calembour, paráfrase. Humor intelectual? Certamente, mas humor ainda assim. O Alexandre era (penso que ainda seja) um adepto do Oulipo (Pérec, Calvino, Queneau e companhia), gente que não se fazia notar por ser sisuda. Tenho até uma dedicatória do Alexandre a censurar-me por eu não gostar tanto como ele dos Monty Python. Pois bem: doutor em áreas sofisticadas - leituras do cérebro e outras coisas que não sei explicar - o Alexandre perdeu o sentido de humor num laboratório, numa experiência científica, num seminário de doutoramento, ou não sei onde. O seu texto para o Blog de Esquerda é de uma falta de humor absoluta (para além de uma flagrante deselegância pessoal para com amigos, mas isso não me espanta). Não vou continuar com a discussão sobre o «marialvismo», a «ordinarice» e outras conversas cansativas (meu Deus, Ivan, não vês como a esquerda se tornou puritana?). Um blog é um blog, não é um jornal, muito menos um texto académico. Temos tido análises e opiniões, mas também comentários mais ligeiros ou brejeiros, e continuaremos a ter. E continuarei (sei que o Pedro Lomba partilha a minha opinião) a considerar o Alexandre o melhor escritor da minha geração. Tenho a certeza que como escritor ainda está melhor do que o conhecíamos. Só tenho pena que tenha regredido como pessoa. PM
FRASE DO DIA: Houve quem se comovesse muito com a grande reunião de sábado. Houve quem nos censurasse a nossa aristocrática repugnância pela rua. Não, o nosso problema não está na rua. O nosso problema está neste aforismo de Baltazar Gracian (que apreciamos especialmente): «Uma enorme multidão, poucos homens». PL
REVISTA DE IMPRENSA: Magnífico artigo de Helena Matos no Público de Sábado. Quem não leu, deve ler. Quem leu, deve ler outra vez. PL
RAZÃO E ESTÔMAGO: Nós insistimos com a guerra porque, manifestamente, não se fala noutra coisa. E o momento, cheio de pecadilhos morais e de opiniões inenarráveis, é propício às descobertas. Hoje, nos restaurantes de Lisboa (eu estive, por estranhas razões, em dois), o tema de discussão era, fatalmente, a guerra e a manifestação do último sábado. Os restaurantes são óptimos locais de voyeurismo e intromissão pessoal. É sempre comovente saber de que fala o mundo, de que falam as pessoas enquanto experimentam uma orelha de porco. Nisto confesso-me um obsessivo e um doentio: não rejeito assistir a uma discussão audível e sumarenta (e se for entre casais, tanto melhor). A nota comum é a de que os americanos tiveram o que mereceram com o 11 de Setembro, de que são eles os responsáveis pela pobreza e por quase todos conflitos mundiais, de que não escondem o seu apetite arbitrário por países mais fracos, de que não há diferença nenhuma entre Bush e Saddam e de que, nesta contenda, só se pode estar com Saddam. Assim se pensa nesta admirável cidade e neste admirável país. PL
DOS OITO AOS OITENTA: O semanário Independente, num gesto de coragem e clareza moral, resolveu publicar um manifesto de apoio à Carta dos Oito, cujo texto passamos a citar:

Desde que a "Carta dos Oito" foi publicada, são inúmeras as vozes que têm acusado os seus autores de "seguidismo" em relação aos Estados Unidos na questão do Iraque e de "provocarem a divisão europeia". Rejeitamos estas acusações. Não foi a "Carta dos Oito" que provocou a "divisão europeia". Quem o fez foi a Alemanha e a França, com a declaração contra a guerra do Iraque, uma das manobras mais hipócritas dos últimos anos da política europeia. Desprezando os restantes "parceiros" europeus, um líder fraco e medíocre, Gerhard Schröder, fez uma oferta irrecusável a um líder ambicioso e perigoso, Jacques Chirac. O negócio era simples: Paris afastava-se dos Estados Unidos em relação ao Iraque, evitando assim o isolamento de Berlim. Em troca, a França continua a dominar a União Europeia, em parceria com a Alemanha reunificada. Bastava que os restantes "parceiros" aceitassem a partilha de poder, cozinhada entre Chirac e Schröder à margem da Convenção Europeia. Na nossa opinião, este modelo de construção europeia tem de ser abandonado. Não podemos continuar a aceitar - nem aceitamos -, em nome da "unidade europeia", consensos podres, que servem antes de mais os interesses de Berlim e de Paris. Aqueles que defendem a paz a todo o custo estão a cometer dois erros fundamentais. Por um lado, desvalorizam a dimensão da ameaça iraquiana. O Iraque já usou armas de destruição em massa e, como afirmaram várias vezes os seus responsáveis, voltará a usá-las contra alvos ocidentais. Como é absolutamente claro, o Iraque não está disposto a colaborar com as inspecções das Nações Unidas. Neste sentido, consideramos que o Iraque constitui uma clara ameaça à segurança dos países ocidentais. Como a História ensina, há momentos em que não se pode hesitar em recorrer à força para garantir a paz e a segurança. É desejável que qualquer tipo de acção tenha lugar com a autorização do Conselho de Segurança. Mas se isso não for possível, resta apenas uma intervenção militar para acabar com Saddam Hussein. Por outro lado, os defensores da paz a todo o custo colocaram-se numa posição de equidistância em relação a Saddam e a Bush. Na nossa opinião, isto é inaceitável. Entre a democracia e a tirania, não se pode hesitar. Ao contrário daqueles que hesitam, muitos deles ainda ressentidos com o resultado da Guerra Fria, nós sabemos muito bem de que lado estamos. A História do século XX, desde os "gulags" de Estaline até às longas marchas de Mao, passando pelo Holocausto e os ataques de 11 de Setembro de 2001, demonstra quem tem razão. Num momento decisivo para a segurança do mundo ocidental e para o futuro da Europa, a nossa posição é clara. No conflito com o Iraque, o nosso lugar é ao lado dos norte-americanos. Quanto à segurança da Europa, a Aliança Atlântica continua a ser indispensável. Tentar construir uma União Europeia contra os Estados Unidos da América é o caminho para o desastre. Quem não entende isto não compreendeu a História do século XX - ou lamenta o seu desfecho.

Posto isto, exortamos os leitores da Coluna para que comprem o Indy e/ou enviem a sua assinatura para Av. Almirante Reis, 113 - 8º Sala 802 1150-014 Lisboa.
Para os viajantes da Net, correio@oindependente.pt ou, então, pmascarenhas@oindependente.pt JPC
NON SADDAMIZATO: O sindaco de Roma, Walter Veltroni, recusou-se a receber o palhaço Tareq Aziz depois de este ter recusado responder a um jornalista israelita - por ser israelita - numa conferência de imprensa. Esquerda com Vergonha na Cara 1 - Vaticano 0. PM
NATO DESBLOQUEADA: Como se desbloqueia uma decisão na NATO? É simples, basta a França não estar na sala. Vendo Vichy fora da mesa, até a Alemanha votou com a maioria. A pergunta é evidente: o que faz na NATO um país que não participa na componente militar (!!) da aliança? O que faz na NATO um país divisionista, cobarde e neo-colonialista? FRANCE OUT OF NATO NOW. PM
NÃO SADDAMIZADOS: Dou uma voltinha matinal pela net. Os sites menos saddamizados? Os blogs. Pensem nisso. PM
KUMBA IALÁ, MY LORD, KUMBA IALÁ: E que mais? Mais pérolas do aforista guineense, claro: Dormir é o pensamento em repouso absoluto. Bem, no caso do «Doutor Ialá» estar acordado também é. PM
A RUA (II): Passando agora a assuntos sérios. Aqui há uns anos - no tempo do DNJ, através do qual se conheceram os futuros Infames e Bloggistas - o Pedro Lomba e eu escrevemos um texto para provocar a malta, e na resposta um esquerdista falou na «direita que não aprendeu». Como tivemos oportunidade de dizer na altura, a nossa direita aprendeu - e aprendeu muito - com o século passado. Refiro-me essencialmente à experiência dos fascismos, que tanto entusiasmo causaram entre as elites intelectuais e estudantis da direita. O fascismo mostrou à direita os riscos de trocar uma posição conservadora - isto é, prudente, céptica, reformista - por uma posião populista - messiânica, demagógica, violenta. Há cem anos, a direita ainda acreditava na rua. Hoje a direita - a direita conservadora - sabe que a rua está na origem directa de catástrofes políticas. À esquerda e à direita. Por isso a rua não nos provoca a exaltação lírica que causa a esquerdistas e skinheads. Caros amigos: a rua é toda vossa. PM
PASSA POR MIM NO ROSSIO: Pode ter ficado a dúvida nos nossos leitores quando afirmei que «passei pela manif»; o que se passa é que por vezes, ao sábado à tarde, vou à FNAC do Chiado, e neste sábado não vi razão para mudar de hábitos só por haver esquerdistas na rua. Não tive «curiosidade» nenhuma em «espreitar». Vi tudo o que me interessava pela tv. Com evidentes vantagens, que me dispenso de nomear. PM
NA NOSSA ALDEIA, QUE DEUS A PROTEJA, JÁ PASSOU A PROCISSÃO: Como seria de esperar, tivemos resposta do Blog de Esquerda. Já aqui escrevi o essencial sobre a procissão de sábado, mas vale a pena acrescentar isto: não pretendo de modo algum minimizar a manif; limitei-me a dizer que a multidão na Baixa de Lisboa correspondia, grosso modo, ao eleitorado dos partidos que manifestamente organizaram o evento, com destaque para o PC. Não quer dizer que não exista outra gente, de centro ou de direita, que está contra a guerra; mas eram muito poucos os que associaram a um desfile com aquela fauna que há décadas atrás (os que eram nascidos) os (nos) queriam no Campo Pequeno. A manif foi um manif de esquerda, e de esquerda marxista, ao contrário do que se passou noutros países (ainda estou atolado nos tais jornais estrangeiros). Ter aquela gente na rua é normal. Os outros eram apenas idiotas úteis. Estavam, admitamos, 100 000 pessoas. É evidentemente muita gente, mas corresponde à mobilização de um eleitorado que não precisa que lhe peçam duas vezes para sair à rua. E a liderança que a esquerda - e a extrema-esquerda - tem tido em muitos sectores adversos à guerra só mostra que nós, os conservadores, não podemos estar do mesmo lado. Não temos uma única ideia importante em comum: nem na economia, nem nas liberdades, nem na organização social, nem no poder externo, nem na visão filosófica do mundo, nem no guarda-roupa. Percebo que haja direitistas e moderados contra a guerra. Mas foram poucos, pouquíssimos, os que alinharam numa manif partidária (já aqui citamos testemunhos, e os diários de hoje também não deixam dúvidas). A manif de 15 de Fevereiro foi, repito, uma manif da esquerda e extrema-esquerda portuguesa contra uma decisão de política externa americana (e a posição oficial portuguesa de apoio a essa decisão). Expliquem por favor onde está o feito e a novidade.

PS: O Zé Mário compara a rua esquerdista com a invisível rua monárquica (!!), perguntando se só existem em Portugal os 50 monárquicos que há semanas vieram para a rua assinalar a efeméride do regicídio. A comparação não faz sentido. Os organizadores da manif esquerdista - PC, BE e CGTP - são movimentos que têm o seu forte em encher as ruas de protestantes, e que no seu todo representam uma boa porção do espectro político português. A causa monárquica, pelo contrário, não tem expressão política, como se vê pelos resultados residuais do PPM, porque vive essencialmente de simpatizantes (como eu), que no fundo não acham a questão muito importante e não mexem uma palha em defesa da monarquia. Os monárquicos simpatizantes serão, digo sem qualquer base científica, cerca de 10% da população; os monárquicos activos são umas dezenas. 50 pessoas em Lisboa é a sua expressão normal. Mais uma vez, onde está a surpresa? PM